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Crônicas

RESSURREIÇÃO  (Crônicas) escrito em quarta 24 setembro 2008 05:17

Albinoni - Adágio in G Minor

 

RESSURREIÇÃO




     PrimaVera de 1962. De tardinha, após os deveres da escola, ele sobe-e-desce a Frei Manuel da Ressurreição. Desce-e-sobe de patinete. Descida: Caminho Suave. Subida: o impulso lançado no patinete e o caminho árduo, ele aspira aromas contrastantes dos pisos das casas recentemente enceradas e dos temperos dos jantares, o rosto banhado de suor. Foi, então, que ele avistou no jardim da vizinha uma única e exuberante rosa amarela. Mãe, mãe, pede para a Mercedes e para o seu Amantino a rosa amarela, pede mãe, eu quero presentear a dona Dirce com aquela bonita rosa! Está bem, criança, vamos até lá. Seu Amantino está debruçado sobre o portão de entrada da casa - contabilista da Estrada de Ferro da Sorocabana. Lazer: jardinagem. Ah, o pomar, lá no quintal do seu Amantino, um tapete de morangos... e o aroma dos tomates, madurinhos!
     O pedido da mãe foi prontamente atendido. Na manhã seguinte, bem cedinho, a rosa seria colhida e entregue ao menino, antes que partisse para a escola.
     Seu Amantino colhe a rosa, retira os espinhos do galho, envolvendo-o, cuidadosamente, num macio papel-manteiga. Hora da partida: o menino uniformizado - camisa branquinha e calça azul-marinho até o joelho - desce a Frei Manuel, segurando com as duas mãos a rosa, o perfume da rosa amarela. Da merendeira, dependurada nos ombros, exalava o cheiro do lanche que a mãe preparara há pouco: pão, bife, queijo e suco de laranja. O menino esticou os braços ligeiramente, e a rosa posicionou-se mais à frente como uma coroa a ser entregue à professora das primeiras letras.
     Final da descida. Agora o menino dobra à direita e prossegue o trajeto rumo ao Estádio e à Estação da Mogiana: salas de aula improvisadas debaixo da parte interna das arquibancadas, talvez antigos vestiários de jogadores?! Lá fora, o campo, o gramado, um tapete todo verdinho! Descer só mais um pouquinho, a rosa amarela como um troféu o menino carrega, a escola está próxima...
     Caminho Suave...
     De súbito, surpreso! E o susto do goleiro na hora do gol, gol, gol! O menino se esqueceu do caderno de caligrafia, da cartilha também! Ressurreição, Ressurreição! O menino põe-se a chorar, ele está aflito, e assim tem início a corrida a galope... de volta ao lar. A visão embaçada pelas lágrimas, as mãos trêmulas, e ele corre, o caminho é árduo. Dona Dirce e a repreensão: você chegou atrasado, menino! fica de castigo! Ele corre e corre, o uniforme desengonçado, e a cada impulso do corpo ele já não percebe a rosa que traz nas mãos, as pétalas amarelas, uma a uma, desabando do ramo e deitando, uma a uma, ao longo das calçadas.
     Ressurreição, Ressurreição, mãe, mãe, mãe, eu me esqueci do material, da minha cartilha! E a mãe ampara o menino em prantos, cheio de raiva da rosa amarela...

     PrimaVera, 12 de outubro de 2003. Livros, cadernos de anotações, textos esparramados sobre a mesa, O Livro de Horas... Ele havia terminado de preparar uma aula. O telefone toca, ele atende e recebe a notícia: a mãe-vovó sofreu um infarto. Desorientado, ele caminha pelo apartamento. Céus! ele precisa de dinheiro para viajar até Campinas, até o hospital... Horário de visitas?! Ora, ora, dane-se o horário de visitas! Na sala do apartamento ele avista a TV: rapidamente consegue um comprador. São 7h da noite... Ele continua apreensivo. Ele não encontra resposta para a agonia que experiencia. Amanhã ele parte para Campinas, no primeiro ônibus. Tenha calma, vovó-mamãe! vai ficar tudo bem, já passou, está passando... Ele está exausto, deita na cama e adormece. 4h do dia 13: o ruído do celular o desperta: quem?!... alô?! É a cunhada: a mãe... ela está morta. Morreu às 2h ...
     O celular é lançado ao longe. Ele perambula pelo apartamento. Em súbita fúria ele corre até a sala. As fotos dependuradas na parede são lançadas ao chão: molduras, fotos, cacos de vidro, rostos, fotos, o tempo, o chão forrado de estilhaços do passado...
     São 7h da manhã. Durante a viagem ele contempla a desolada paisagem, os horizontes são tapetes verde-melancólicos desenhados pelos canaviais - eles tremulam ao vento como a dizer adeuses... Outra vez, só mais uma vez! A avó solicita à neta, quero ouvir mais uma vez o Adágio de Albinoni, é a música mais bela que já ouvi em toda a minha vida. A neta atende prontamente o pedido da vovó. Dia frio, vento gelado, tempo nublado. Finalmente ele chega em Campinas. Segue até o necrotério do Cemitério da Saudade. Entra no recinto: ele se encontra em profundo silêncio, em doloroso silêncio. Sobe as escadarias e, com vagar, ele se aproxima do caixão. Vê o corpo da mãe todo coberto de rosas amarelas, era assim... como uma túnica amarela, amarelas velas e chamas e ele sente o perfume da rosa amarela e ele carrega um doloroso silêncio dentro de si.

     PrimaVera de 2008, um dia após as chuvas, ele visita o jardim da casa da vovó. Ele carrega um doloroso silêncio dentro de si. Repentinamente, ele avista a roseira em botões... Os botões prometem um ramalhete de rosas amarelas!



Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Campinas, é primavera de 2008.
 
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 24/09/2008
Código do texto: T1193760

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
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NÃO ME ARREPENDO DE NADA  (Crônicas) escrito em quarta 13 agosto 2008 05:14

Marion Cotillard interpreta Edith Piaf no filme

"LA MÔME"

NÃO ME ARREPENDO DE NADA


Atravesso o silêncio da biblioteca.
O matutino nas mãos e as notícias do dia:
“Domingo, 10 de Agosto de 2008 ...
Europa: Presidente declara estado de guerra na Geórgia”.
Da poltrona, avisto a estante
e busco os olhos amorosos de Tbilisi,
meu si, meus sis.
Nas fotos os personagens mortos enigmaticamente
parecem me interrogar.
Fecho os olhos e vozes voltam a habitar o presente dos vivos:
_ Mamãe, quem é este moço, aqui? Ele veste um uniforme militar...
_ Ah, este é o primo que a vovó Aksênia deixou na Rússia. Ela o adorava.
As fotos são antigas, em sépia.
_ E esta senhora aqui, junto a este outro moço?
_ Estes certamente eram amigos da vovó.
As breves ressurreições da memória e a presença dos meus mortos nas fotos, dos meus antepassados...
Nos porta-retratos, os rastros, os vestígios, os templos da Geórgia,
a distância no tempo,
a proximidade no presente,
o meu doar presença aos mortos,
aos que lá permaneceram,
e a trágica história do século XX:
a Revolução Bolchevique,
a I Guerra,
a II Guerra...
teriam eles sobrevivido?!
E os amigos, as famílias, os filhos, os netos?!
A imigração, a minha história,
os imigrantes já não são os mesmos quando partiram,
pois as histórias deles se entrelaçam à minha,
e, no entanto, ainda são os mesmos nos gestos, nos ritos, no idioma, enfim, estão enredados em suas próprias histórias, e na minha!
Retomo a leitura do jornal, e me acerco de um pungente depoimento:
“ _ Por que há guerra? Por que as pessoas lutam e morrem por um pedaço de terra?” – lamenta Valentina Beskayava, na fronteira da Ossétia do Sul com a Geórgia.
Repentinamente a melodia invade a biblioteca.
No quarto ao lado, o pequeno pássaro, Edith Piaf, canta:

“Non! Rien de rien.
Non! Je ne regrette rien.
Ni le bien,
Qu’on m’a fait,
Ni le mal,
Tout ça m’est bien égal!...”

Meu olhar imediatamente pousa no mapa do conflito e proclamo:
_ Abhházia, Poti, Senaki, Kareli, Gori, Vaziani, Tsinvali, Tbilisi
cantem com La Môme Piaf, o doce passarinho da França que foi só, tão-somente amor!
Compreendendo a vida por meio das tragédias pessoais, Piaf compartilhou a sua visão de mundo, repartindo suas alegrias e tristezas e cantando pelas ruas de Paris, pelas ruas da Europa destruída pela Guerra, pelos palcos do mundo.
Sim, georgianos, busquem a mútua compreensão em suas próprias diferenças, associada à prática da dádiva, do perdão e do respeito*, para que no final da minha-nossas existências possamos afirmar com Piaf:
“ _ Não me arrependo de nada.”




* Conceitos extraídos da obra filosófica do brilhante pensador francês Paul Ricoeur.

 


Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Campinas, é inverno de 2008.
 

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 13/08/2008
Código do texto: T1125549

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IVAN EMILIANOVITCH: uma denúncia  (Crônicas) escrito em terça 29 abril 2008 00:37

Cidade de Tbilisi, na Georgia - Rússia

 

ÁLBUM DE FAMÍLIA: IVAN III



À memória do
meu titio
João de Almeida Marques [1936-1996].



     “São Paulo, 26 de junho de 1982.

     Estimado sobrinho e amigo João, acuso o recebimento de sua carta de 6 do corrente mês e fiquei muito contente em saber que vocês estão fortes. Acuso também o recebimento do convite para assistir o casamento do grande Ivan. Isto é, do Ivan II, porque agora apareceu o Ivan III, com quem já conversei com ele pelo telefone em Goiânia, e tive uma surpresa. Descobri, por intermédio dele, que tenho mais uma sobrinha legítima, filha do Anatole, que se chama Edilma. Quanto à nossa presença no casamento do grande Ivan, ou somente a minha, se o Emiliano não puder ir, será infalível. Com respeito a não havença de festividade, não importa, nô-la faremos à nossa expensa. Para isso há o Lagoa lá pertinho. Eu quero lhe comunicar que após receber sua carta eu já estive duas vezes em Campinas. Não pude chegar até aí porque tenho de voltar cedo para São Paulo, e, creio mesmo, que irei ainda mais uma vez, mas, se for, eu chegarei até lá. Sem mais, desejo muita saúde a vocês e termino esta com abraços a todos.


ADOLPHO SCHAWIRIN
[endereço]
SÃO PAULO – CAPITAL – SP
CEP [...].”
...........................................................
NOTINHAS

1) IVAN I:

trata-se de Ivan Emilianovitch, ou melhor, IVAN EMILIANOVITCH SCHAWIRIN, estudante (do tradicional “Colégio Estadual Culto à Ciência”, em Campinas, entre 1917 e 1920) e professor (do “Colégio Orozimbo Maia”, em Campinas, na década de 40); poeta e tradutor (cf. tradução direta do russo do romance “Pais e Filhos”, de Ivan Turgueniev -  pela Editora Ediouro (1988) ou “Clube do Livro”; além d’outros romances) e partícipe da “Semana da Arte Moderna”, de 1922, em São Paulo. Devido à precária situação financeira em que se encontrava no referido período, Ivan foi forçado a “negociar” - junto a um (até hoje) famoso intelectual daquela época - um poema de sua própria autoria, cujo reconhecimento, atualmente, atravessa as fronteiras nacionais.
     A quem interessar possa, em se tratando de desenvolvimento de pesquisas na área da literatura, deixo aqui registrada uma dica no que se refere a redimir um homem esquecido pelos estudos literários brasileiros.

2) Minha família, do lado materno, constitui-se de imigrantes provindos da cidade de Tbilisi, na Geórgia – Rússia, em 1914.

3) Pai, mãe, irmãos e irmãs de ADHOLFO SCHAWIRIN*, respectivamente (todos mortos):

MEUS BISAVÓS (de Sílvio Medeiros)
a) Emiliano Schawirin;
b) Marina Schawirin.

MINHA VOVÓ E TIOS-AVÓS (de Sílvio Medeiros)
[c) Adolpho Schawirin (falecido em 1984)]*
d) Aksênia Schawirin (minha vovó maternal/ 1909-1941);
e) Scholastica Schawirin;
f) Olympyada Schawirin;
g) Ivan (Emilianovitch) Schawirin*;
h) Anatole Schawirin;
i) Maria Schawirin (caçula e única filha nascida no Brasil, na data de 09/10/1917 – falecimento:1978).

4)João = do russo, Iwan - (Pronúncia russa: Ivân)
*CONFIRA FRAUDES COMETIDAS EM TRADUÇÕES DE LIVROS EDITADOS NO BRASIL EM:
DENÚNCIA
A família de IVAN EMILIANOVITCH SCHAWIRIN jamais foi consultada sobre as sucessivas edições da tradução do livro "PAIS E FILHOS" de Ivan Turgueniev.

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2008.
(Com alguns acréscimos, o presente texto data de 2006)
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 28/11/2006
Código do texto: T304164

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JOSÉ  (Crônicas) escrito em terça 25 dezembro 2007 22:10

JOSÉ




                           Às gentilezas dos
                           funcionários e funcionárias,
                           enfermeiras e enfermeiros
                           do Hospital Beneficência Portuguesa de Campinas,
                           os meus agradecimentos.



Local... Hospital. Rua 11 de Agosto...
Praça Luíz Vaz de Camões...
Lugares da minha infância.
Dois pontos eqüidistantes:
“Oficina Elétrica 11 de Agosto”, do papai: os odores da graxa, da gasolina...
Meu antigo lar: a mamãe e meus irmãos; o aroma da casa toda encerada, o perfume das madressilvas, o vasto gramado no quintal; mangas Ada e Bourbon...

À minha frente leio:
“Real Sociedade Portugueza de Benificência – 1873”.
Século XIX: a febre amarela, a população dizimada...
Atravesso a alameda central,
amparo meus passos
sobre o piso branco, de mármore... a escadaria.
Eu o reconheço!
é o mesmo material dos suntuosos
túmulos do “Cemitério da Saudade”... alvos mármores!
O hall de entrada, claridade...
As altas colunas, lá, bem lá em cima, o teto...
Numa parede, a escritura cravada na enegrecida placa de bronze;
os nomes e sobrenomes dos pais-fundadores:
doutores portugueses,
a epopéia da operosa colônia lusa...
Ó dor, ó dores,
o tempo e seus clamores!
Onde estão os nomes dos heróis construtores deste Templo? Os nomes, onde...?! Quantas verdades contidas na poética de Brecht! Brasil-Império... em quais livros? Proscritos... os operários, os pedreiros? escravos, “homens livres”?! a história e seus atores, os livros que não foram escritos. A história na noite dentro da noite...
O trabalho e o açoite, o tempo e o triunfo sobre a vida e sobre a morte.
... e os longos corredores, os tetos altíssimos em curvaturas, desafiadores, luzes artificiais: um labirinto; próximos ou distantes os ruídos da noite dentro da noite gritam aqui dentro de mim.

Chegada ao quarto.
Na cama repousa o corpo frouxo, desfalecido, esquecido...
Abro as imensas janelas.
Lá fora é dia, a Avenida Andrade Neves...
Avisto o prédio da antiga “Prisão”, onde, em tempos idos, os dementes da região eram trancafiados em seus porões...
Ó noite dentro da noite,
ó dor, ó dores,
o tempo e seus clamores!
Logo ali, o teto da Capela, do Hospital! de tão azul parece tocar o céu; o antigo necrotério. Em Finados de 1968, eu me recordo, o velório do vovô Manuel.
Hoje, apenas Capela e orações.
Minhas lições de filosofia... Walter Benjamin já previra com acerto!
O projeto da modernidade cria um abismo
entre os vivos e os mortos:
é preciso higienizar as paredes da eternidade...

A luz do sol queima as minhas visões do passado.
Me atiro na cama,
um paciente impaciente...
Ouço vozes, elas se misturam. Chegada e partida de
ambulâncias: ruídos, enfermeiros, gemidos, médicos, os aflitos, enfermeiras... a assustadora linguagem desarticulada da noite dentro da noite.

camacamaca... rumo incerto corredores labirintos luzes artificiais sala medo anestesia urgia!
Proteção doutor auxiliares é o Teatro-Cirurgia...
tudo por um triz!
Fecho os olhos,
respiração artificial...
dor, tremor, terror...
Duas claridades, explodem duas “claritas”...
_ Minha Ana!
_ Madalena me acena!
Convulso, clamo pela respiração natural...
Duas luminosidades!
Alúvio, desabo em aluviões, o real é um inteiramente Outro; duas visões, dois clarões, nascimento e morte, a noite dentro da noite e o triunfo do tempo...

Desperto!
Um encontro. Companheiro de quarto.
Um sussurro... diálogo árduo entre dois corpos expostos, feridos, puros-impuros a reivindicar a vida... odores, bexiga, sangue, urina, ossos, rins, orações e dores... matéria e espírito, tudo é Um.
_ Meu nome é José Francisco M.
Francisco... era o nome do meu pai.
As águas solenes do velho Chico, a vertigem, o encontro das águas do rio com as do mar. UTI do “Hospital Memorial de Petrolina”; o velho Chico e o bispo de Barra. D. Luiz Cappio em protesto, em jejum religioso... a noite dentro da noite.
_ Eu nasci em Maracaí, lá no “fundão” do Estado de São Paulo. Ah, que saudade da minha infância... peladas, jogos infantis, bolas de gude. Depois, mais jovem, fui para Presidente Prudente.
O encontro do ator com a própria história!
Superando a dor:
_ Eu vim para Campinas, em 1972! Morei no Jardim Santana, depois construí minha casa no Parque São Quirino. Construí minha família... Eu sou pedreiro! Construtor. Aposentado. Eu adoro Campinas, não saio daqui, não! Em 1994, eu retornei a Maracaí; hoje a cidade é toda ‘asfaltadinha’, antigamente, não! Era tudo terra...
Relembro as lições de Benjamin:
“Hoje, os burgueses vivem em espaços depurados de qualquer morte e, quando chegar a sua hora, serão depositados por seus herdeiros em sanatórios e hospitais. Ora, é no momento da morte que o saber e a sabedoria do homem e sobretudo sua existência vivida – e é dessa substância que são feitas as histórias – assumem pela primeira vez uma forma transmissível. Assim, no interior do agonizante desfilam inúmeras imagens – visões de si mesmo, nas quais ele se havia encontrado sem se dar conta disso -, assim o inesquecível aflora de repente em seus gestos e olhares, conferindo a tudo o que lhe diz respeito aquela autoridade que mesmo um pobre-diabo possui ao morrer, para os vivos em seu redor. Na origem da narrativa está essa autoridade.”*
O encontro do pedreiro com o professor...

_ Construí a Unicamp, a Puccamp... Também construí na cidade de Capivari. Construí e reformei escolas!
Ali lecionei!
O encontro do construtor dos Templos com o construtor dos Saberes.
_ Também construí na cidade de Artur Nogueira...
Ali também lecionei!
_ A Lagoa do Taquaral, a estrada para Mogi-Mirim era estreita...
Ó tempo, tempo, na transversal dos tempos, vidas paralelas alinhavadas pela narrativa do pobre moribundo.
_ Sinto dores!
Pelos deuses, Átropos, deusa implacável! Não corte o fio da vida do velho narrador. Ele narra a dor... do nascer, do viver, do morrer. Permita que eu o ouça!
_ Eu sou pedreiro!
“ E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?”  **
No combate entre a vida e a morte... o triunfo do tempo!

... e na noite dentro da noite ouço histórias bem tecidas, tramadas, costuradas, arrematadas, uma espécie de canto, o relato de uma vida inteira... tão límpido como uma bela e triste ária; ela não se cala... é Callas:

“ Ave Maria, piena di grazia, eletta,
fra le spose e le vergini sei tu;
sia benedetto il frutto, o benedetta,
di tue materne viscere, Gesú.
prega per chi adorando a te si prosta,
prega pel peccator e pel possente...
Prega per noi, per noi tu prega
sempre e nell’ora della morte nostra...
Nell’ora della morte, ave!” ***

Olho pela vidraça... amanhece. Conheço outras histórias que jamais se esquece.
_ Você recebeu alta?!
“ E agora, José?
Sua doce palavra...
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?”
Entre adeuses, aos deuses, adeus, a Deus!

Deixo o quarto, os corredores, as luzes artificiais...
Repentinamente, eclode a luminosidade da manhã primaveril, quase-verão!
O saguão do Hospital...
Em seguida, atravesso, vagarosamente, os jardins... Ali, a praça iluminada!
Luz! Luíz Vaz de Camões...
É dia, euforia... ria para o dia! sim, mais um passo, outro passo e pronto!
Alcanço os lugares da minha infância!
Acho graça e me recordo... da Escola, do Ginásio, do Colégio. Currículos. Sermões professorais. Corais. Lições de Poesia. Camões:

“ As armas e os barões assinalados,
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana...
Cessem do sábio Grego e do Troiano...
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta...” ****

_ Táxi!
_ Para onde?
_ Para o meu lar, para Ítaca!


...........................................................................
NOTAS

* BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas. v.I. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. Prefácio Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1985.

** ANDRADE, Carlos Drummond. Nova Reunião: 19 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.

*** CALLAS, Maria. Verdi, Arias. Orchestre de la Société dês Concerts du Conservatoire. Dirigent Nicola Rescigno. EMI Records Ltd., 1997.

**** CAMÕES, Luís de. Os lusíadas. Introdução e notas Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.



Prof. Dr. Sílvio Medeiros.
Campinas, é NATAL de 2007.
 
 
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 25/12/2007
Código do texto: T791660

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