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Projetos

ODE À TARSILA DO AMARAL E CIDADE NATAL: CAPIVARI/SP  (Projetos) escrito em domingo 01 abril 2007 20:17

Abaporu
de Tarsila do Amaral 
FACULDADE CENECISTA DE CAPIVARI
CAMPANHA NACIONAL DE ESCOLAS DA COMUNIDADE
CNEC – CAPIVARI
VERÃO/2002

PROJETO*


I ENCONTRO DE EDUCAÇÃO CENECISTA DE CAPIVARI


TEMA- ORALIDADE, ESCRITA, LEITURA E VIRTUALIDADE: HISTÓRIAS DA ALFABETIZAÇÃO


Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Presidente Científico do Evento



1 – PRÓLOGO: "PAPIRO CROMÁTICO HERMENÊUTICO"



                                                                                                  À menina Laura,
                                               princesinha Paulista das Campinas de Bragança.




Existe
um poema de Rimbaud intitulado 'Vogais'. Nele, A é negro, E é branco, I é rubro, U é verde, O é azul...

Existe
uma cidade de horizonte sempre-azul-puríssimo intitulada Capivari. Nela, flores policrômicas adornam a paisagem urbana. Detenho-me diante d’uma, d’outra e mais outra. Todas célebres. ABA-PORU: papirómequicóme. Velha negra a narrar assombrações na fazenda São Bernardo; a mãe preta de Tarsila branca. 'Estudo para a Negra': vida-verde-cantante na fazenda. Fotógrafa ambulante: álbum rubro-negro-africano. Existe 'A Negra' no belo grafismo de Tarsila: imagem- escrita desfeita em traços lineares, em clima desejada-mente onírico; movimento em "continuum" movimento inventivo a pressupor a vertigem na lucidez.

Existe
um movimento na pintura intitulado Cubismo. Nele se rompe com os cânones sagrados da representação: arte anárquica, pintura caótica... No quadro somente sementes do real, estilhaços da realidade. Explosiva criação: a mobilização de todos os níveis da inteligência.

Existe
uma fórmula mágica de Horácio intitulada 'Ut Pictura Poesis' (assim como a pintura a poesia).

Existe
uma tela de Tarsila intitulada 'Antropofagia'. Nela, a paradoxal exaltação-destruição do tópos 'Ut Pictura Poesis'; nela, o fazer pictórico no uso da expressão "Tupi or not tupi".

Existe
uma semana de fevereiro de 1922 intitulada Movimento Modernista. Nela, assim como o cultivo do prazer, dentre os salões aristocráticos, o da menina de Capivari é o mais “gostoso” deles. Existe, pereniza Mário de Andrade, o salão da Alameda Barão de Piracicaba congregado em torno de Tarsila.

Existe
um enredo poético de Drummond intitulado 'Brasil/Tarsila'. Nele, o poeta assim enaltece a Musa radiante:

“Tarsila ...
medularmente paulistinha de Capivari reaprendendo
o amarelo vivo
o rosa violáceo
o azul pureza
o verde cantante...

Tarsila
amora amorável d’amaral
prazer dos olhos meus onde te encontres
azul e rosa e verde para sempre.”

Existe
uma composição hermética de Rimbaud intitulada 'Voyelles'. Nela, A existe qual negro e veludoso enxame de esplendentes moscas a varejar em torno aos chavascais... E existe qual alvor de tendas tumescentes, lanças de gelo altivo... I existe quais púrpuras, cuspir de sangue, arcos labiais... U existe quais ciclos, vibrações dos mares verdes, montes semeados de animais pastando, paz das frontes... O existe qual supremo Clarim de estridores profundos, silêncios a esperar pelos Anjos e os Mundos: _ O, o Ômega, clarão violáceo de Seus Olhos!

Existe
uma foto de Tarsila intitulada a “caipirinha vestida por Poiret” à frente de seu 'Morro de Favela', na galeria Percier, rue de la Boëtie [junho de 1926]. “A preguiça paulista reside nos teus olhos” (Oswald de Andrade).

Existe
uma tela de Da Vinci intitulada 'Paragone'. Nela, o renascentista contesta a supremacia que a tradição assegurava à poesia em redução à pintura.

Existe
um slogan debaixo do intitulado Arlequim-smoking de Oswald de Andrade. Nele se lê: “o mundo marcha para a esquerda”.

Existe
um desenho-escrito de Tarsila intitulado 'Estudo para a Negra'. Nele, a imagem-escrita desfeita em traços, qual lembrança de gestos da escrita, desabrocha furiosamente as potências do sonho.

Existe
um princípio amoroso de Roger de Piles intitulado “movimento de paixões, revolver do coração”. Nele, o destaque do visível e o papel da expressão emotiva; a ênfase no visível, na pintura. Em subtração: a poesia.

Existe
uma prosa alumbrada de Murilo Mendes intitulada 'Tarsila'. Nela, o poeta de mítica infância mineira indaga: “Quem é aquela princesa?” Resposta: “É a princesa Tarsila de São Paulo Oropa França e Antropofagia”.

Existe
um estudo estético de Lessing intitulado 'Laocoonte ou sobre as fronteiras da Pintura e da Poesia'. Nele, a primazia retorna à poesia porque as palavras excedem na ilusão da evidentia. “O poeta pode elevar esse grau de ilusão também a representação de outros objetos que não os visíveis”. Com efeitos, a pintura é arte do espaço; a poesia é arte do tempo.

Existe
um ensaio esclarecedor do pintor Paul Klee intitulado 'Sobre a arte moderna'. Nele, o artista-árbitro enfatiza: “O movimento é a base de todo devir. No 'Laocoonte' de Lessing, no qual em algum momento desperdiçamos nossos esforços de pensamento juvenil, uma grande importância é atribuída à diferença entre a arte temporal e a arte espacial. Mas, examinando o assunto com mais cuidado, isso não passa de uma divagação erudita. Pois o espaço também é um conceito temporal”.

Existe
um lugar escarpado, um lugar perfurado, ocultado e permeado de brancos intitulado Ursa Maior. Nele nos recolocamos, nos relacionamos, nos correspondemos sobre a superfície das palavras mergulhadas em temporalidade. Entre o passado e o futuro: o reencontro com a princesa caipira. Ramerrão... verde cantante, amarelo vivo, azul puríssimo, rosa violáceo. Ler é arte do reencontro:
“Sou profundamente brasileira, e vou estudar o gosto e a arte de nossos caipiras”. Lugar escarpado, labirintoso...Tarsila nome brasil. 'Estrada de Ferro Central do Brasil'. O silêncio do desvio ferroviário do trem de Tróia:
“Encontrei em Minas as cores que adorava em criança. Ensinaram-me depois, que eram feias e caipiras (...) Mas depois, vinguei-me da opressão, passando-as para minhas telas”.
Tarsila relâmpago. Tarsila polifônica. Passagens textuais, caminhos transversais, ramais, correspondências. Tarsila parabólica. Tarsila radar:
“Por que ignorar o que se passa no terreno artístico quando os telegramas diários nos põem em contato com as nações distantes (...). Estamos numa grande época...”
Tarsila mulher-terra, Rosa-violáceo, Flor absurda plantada na terra
A B A P O R U
Roma Negra

Existe
uma invocação pagã na nova linguagem da fazenda verde-amarelo-pau-brasil, da Latinomérica, d’ AfricAmérica, d’ América-Brasil: 'A Cuca'; 'Cena na Fazenda'; 'Bandeira do Divino'; 'Sagrado Coração de Jesus'; 'O Mamoeiro'; 'Urutu' ... no oco da maloca: "Tupi or not tupi"...

Existe
uma canção miscigenada...
tum
tum-tum
tum
tum-tum
tum
tum-tum...

Marcus nor-destinados pedem passagem
O moço de Recife
[Tece, tece, tece, tece,
Bem tecida essa canção
Um a um, fio por fio,
Como faz o tecelão (...)
Urde as formas das estampas
Firma as cores do padrão (...)
No tear do coração...]

Ramerrão...

Drummond, poeta irmão,
A moça de Capivari
Traça, traça, traça, traça,
Bem traçada a arte essa deformação
Talisca, taliscando,
Um a um, traço por traço,
Como faz o artesão.
Tarsila-talismã
[Acordando para o pesadelo
Das assombrações pré-colombianas]

Ramerrão...
Verde cantante
Amarelo vivo
Azul puríssimo
Rosa violáceo
Exuberância das cores,
Vagando e drummondiando entre
[as grutas, os alçapões, as perambeiras
da consciência rural,
expondo ao sol
a alegria colorida da libertação]

Tarsila
Toda pulsação do traço
No cruzamento de um mesmo tecido rosa violáceo
Justapondo
Desenho pintura escrita
Tecendo
De modo unificado e simultâneo
O traço
Trançando
O signo verbal e a representação visual
Por laços
Por des-semelhanças
Por correspondências
Abolindo hierarquias

Ramerrão...
Verde cantante
Amarelo vivo
Azul puríssimo
Rosa violáceo...

Tupi-Guarani
Caipirinha Vestida de Capivari
[A mais elegante das caipirinhas
a mais sensível das parisienses]
'Santa Irapitinga do Segredo',
De Hermes, mensageiro dos deuses, angelos.
A E I U O
Signos cromáticos
Mediação digital
Escrever, ver, criar imagens
Flor policromática
Novas linguagens
Horizontes semânticos
Cibernética
'Manacá'
Virtual
Inquietações
Devir universal
Desorientações
Iluminações
[Tarsila
princesa do café na alta de ilusões]
Constelações
De cores
De-corações
Floração
De cor
De-coração
Ramerrão...

“Existe
um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Nele está representado um anjo, que parece estar na iminência de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão estendidas. O anjo da história deve parecer assim. Ele tem o seu rosto voltado para o passado. Onde diante de nós aparece uma cadeia de acontecimentos, ele enxerga uma única catástrofe, que sem cessar amontoa escombros e os arremessa a seus pés. Ele bem gostaria de demorar-se, acordar os mortos e juntar os destroços. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se emaranha em suas asas e é tão forte que o anjo não mais pode fechá-las. Esta tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual volta as costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce até o céu. O que chamamos de progresso é essa tempestade.”
(In Walter Benjamin. Teses sobre o conceito de história. Tradução Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller).


           .............



2 - APRESENTAÇÃO


“Uma nova tecnologia, no caso a escrita, abriu novas perspectivas para a educação, tornando viáveis novos modelos de ensino e aprendizagem e, conseqüentemente, novas filosofias da educação. Algumas das perspectivas abertas vão ser acentuadas na fase seguinte, em que dominou a palavra impressa. Outras vão ser abandonadas, para serem retomadas apenas na quarta fase, a da palavra digital.”   
(Eduardo CHAVES, professor de tecnologia na educação da Unicamp e membro da Associação Brasileira de Educação à Distância. Acompanha a Filosofia da Educação a Evolução da Tecnologia? In: www.http://chaves.com.br)



   O “I ENCONTRO DE EDUCAÇÃO CENECISTA DE CAPIVARI” intentará promover uma reflexão sobre a carreira aventurosa da palavra — instauradora da linguagem — organizada a partir da inventividade humana, que responde, dependendo do registro histórico, pelo alcance das condições materiais de existência das civilizações mediante as quais os indivíduos formados culturalmente recepcionam a educação pela palavra oral, manuscrita, impressa ou digital.
   Procurando capitalizar os inventos que reconfiguram e enriquecem a elaboração da palavra escrita através dos tempos, o “I ENCONTRO DE EDUCAÇÃO CENECISTA DE CAPIVARI” procurará buscar uma compreensão mais precisa das mudanças provocadas pelos inventos produtores e impulsionadores de desdobramentos sucessivos na recriação da escrita como tecnologia da informação e da comunicação.
   Os processos de fixação da escrita se transformam no tempo. Segundo a premissa de Eric Havelock em "A Revolução da Escrita na Grécia e suas Conseqüências Culturais", a invenção do alfabeto, comparada com todos os tentames anteriores à escrita, é caracterizada como uma ruptura, como uma mudança qualitativa na direção da facilitação e da socialização na cultura letrada. A questão, para Havelock, é que todo avanço tecnológico determina uma mudança no campo das mentalidades. Nesse sentido, com o advento da escrita alfabética, a forma passa a influenciar o conteúdo; tema atualíssimo quando se discute, por exemplo, as conseqüências da Internet ou da profusão de imagens e de palavras digitalizadas nas telas dos computadores.
   Com a invenção da escrita, logo se descobriu que ela permitiria ampliar as possibilidades de registro, a estocagem de informações e a transmissão da cultura. Como Walter Ong observou tão bem em "Oralidade e Cultura Escrita", a cultura escrita é imprescindível ao desenvolvimento não apenas da ciência, mas também da história, da filosofia; ao entendimento analítico da literatura e de qualquer arte e, sobretudo, à explicação da própria linguagem (incluindo a fala). O movimento cultural renascentista europeu, por exemplo, baseado numa ampla difusão do conhecimento humanista, captura, na essência, as palavras de Ong. Não tardou, entretanto, a tomada de consciência do valor da escrita, conjugando saber e poder. Desde a invenção da escrita pelos egípcios, era possível produzir material de leitura, porém, quando Gutemberg inventou a imprensa, embora já existisse uma “indústria de informação” na Europa, a nova tecnologia de ponta tornou o século XVI não apenas a Era da palavra escrita, como também o século dos livros, que passaram a ser produzidos a um baixo preço. Nesse caso, mais pessoas se alfabetizavam, aprendiam a ler. Por outro lado, a população européia apoderou-se da invenção para divulgar, por meio de panfletos, ironias aos poderosos. Assim, a censura veio precocemente, coibindo a manifestação impressa dos interesses populares. Mas nem só de elogios vive a imprensa, pois, contrapondo os fatos no tempo histórico, o fenômeno da evolução da imprensa rumo à comunicação de massa, que já se observa em finais do século XIX, recebeu críticas veementes dos pensadores agrupados em torno da Escola de Frankfurt, os quais constataram na formação cultural do século XX — secundada pela dominação técnica progressiva — o distanciamento progressivo da tradição ocidental efetivado pela pauperização dos bens culturais propagada pela cultura da semiformação socializada ("Teoria da Semicultura", Theodor Adorno).
   Falar do desenvolvimento da cultura letrada é quase o equivalente a falar do papel da cultura na existência humana. O tratamento desse tema aproxima-se das fronteiras existentes entre as sociedades sustentadas pelo discurso oral – sociedade cuja herança cultural é resgatada mediante os usos da memória - e pelo discurso escrito; ou ainda: aponta para os contrastes e relações entre oralidade e cultura escrita. Nesse sentido, o presente evento, enfocando a invenção da escrita como um dos elementos caracterizadores da emergência de uma civilização, recolocará em discussão o contexto em que se situa a cultura (ou a “grande biblioteca” que nos precede), procurando privilegiar o espaço do leitor ao longo da história cultural, tendo por horizonte a sua emancipação por meio da vocação alfabetizadora da palavra escrita depositada nos livros. Desde uma cultura desprovida de conhecimentos da escrita ou impressão até o difícil processo de ler a palavra manuscrita mediante o desenrolar de rolos de papiro ou pergaminho, passando pelo fácil manuseio de um texto manuscrito graças ao sistema códex inventado pelos cristãos no século IV, coube à combinação papel-imprensa, promotora da cultura livresca, revolucionar a geração e a difusão da cultura e, por extensão, marcar, com progressivos aprimoramentos técnicos nos atos de leitura, a aventura de ser leitor na história da leitura do mundo ocidental (Roger Chartier), conferindo, desse modo, novas possibilidades de representação, interação e ação com base na palavra escrita livresca. Afinal, em que condições poderiam ter acontecido o movimento de idéias, conhecido como Enciclopedismo, ou a Revolução Francesa no século XVIII, senão num sistema livresco de referência nos quais autores, editores e tipógrafos balizaram, redefinindo, dessa maneira, a fronteira entre a invenção e a escrita e, por conseqüência, os novos modos de trabalhar.
   Nesse sentido, a história da humanidade e suas máquinas têm sido construídas juntas. Com efeito, parafraseando o papa da aldeia global Marsahll McLuhan, quando a tecnologia estende ou prolonga um de nossos sentidos, a cultura sofre uma transposição tão rápida quanto a rapidez for o processo de interiorização da nova tecnologia, o que resulta na ampliação da percepção humana. Assim, com tais avanços tecnológicos, pode-se plasmar o conhecimento humano sobre inovadores suportes técnicos e, a partir daí, liberá-lo para a sua reprodução indefinida em prol do processo civilizatório. De outra parte, a palavra impressa transformou profundamente o modo de transmissão dos textos, contribuindo para garantir a fidelidade e a qualidade na reprodução dos mesmos; contribuiu, também, para o desenvolvimento da lógica, da interpretação de texto e da racionalidade, visto que um certo tipo de pensamento racional ou crítico só pode se desenvolver ao se relacionar com uma ampla difusão da escrita. 
   Hoje, o desenvolvimento da Internet e a digitalização da informação promovem uma revolução em matéria de comunicação. O quadro cultural contemporâneo, dentro da equação de representações transmitidas ora pelo papel ora pelo conjunto das palavras e imagens digitalizadas (imagens de síntese) que gravita nas telas dos computadores, fazendo emergir inéditas geografias semânticas — como exemplo: o hipertexto —, se defronta com problemas de toda ordem no que se refere às mutações de identidades promovidas pela passagem do atual ao virtual ou aos processos de digitalização (Pierre Lévy). Contudo, os problemas com que se defronta a nova cartografia da cultura contemporânea não implicam na eliminação da cultura afetada pela oralidade, pelo uso da escrita, do papel ou da avalanche de informações virtualizadas procedente da cultura do ciberespaço, eliminação que, ademais, seria completamente inviável em ambos os casos; aliás, há estudiosos, na linha do pensamento de Roger Chartier, que apontam para a convivência pacífica entre o manuscrito, o impresso e o eletrônico na aurora do século XXI. Finalmente, se a invenção de novas velocidades é o primeiro grau de virtualização, ou melhor, um dos principais vetores da criação da realidade contemporânea, consoante Pierre Lévy, então os problemas da cultura contemporânea certamente têm de ser enfrentados por intermédio desses mesmos meios de comunicação.


3 - OBJETIVO GERAL

   Fornecer subsídios teóricos a professores dos ensinos fundamental e médio; a docentes e discentes do ensino superior e a profissionais ligados à área da educação, procurando estimular rigorosas reflexões, secundadas por debates, sobre a relação que se estabelece entre linguagem e educação.


4 - OBJETIVOS ESPECÍFICOS

O “I ENCONTRO DE EDUCAÇÃO CENECISTA DE CAPIVARI” visa:

. Refletir sobre o processo de alfabetização no Brasil — país que apresenta um dos maiores índices de analfabetismo no mundo atual —, procurando entender as razões da ausência de políticas governamentais que assegurem a emancipação cultural do cidadão por meio da alfabetização, isto é, da leitura e da escrita.

. Promover a interdisciplinaridade, procurando abalar as fronteiras entre as disciplinas de ensino, tendo em vista a dificuldade de leitura da complexidade do mundo atual numa única forma de linguagem.

. Pensar o contemporâneo mediante estudos e reflexões sobre a linguagem, tanto do universo da oralidade quanto dos paradigmas de formação letrada, procurando acentuar as reflexões em torno do oral e da escrita como meios de transmissão cultural.

. Problematizar o fenômeno educacional pautado na revolução da palavra digitalizada, procurando estabelecer pontos mediante os quais devemos organizar a formulação de políticas educacionais contra o analfabetismo digital.

. Ilustrar, de acordo com o tempo histórico a ser analisado, estudado, as relevantes invenções tecnológicas ligadas à questão da experiência humana com a palavra.

. Enfatizar que a invenção da escrita pode ser a culminância de inumeráveis atos de leitura e, a partir daí, inferir novas possibilidades de rememoração ou representação do passado.

. Colocar em discussão o espaço do leitor na história cultural do mundo ocidental, tomando-o como ponto de partida para se resgatar elementos marcantes da história da leitura.

. Explicitar a dependência entre a qualidade de ensino, que requer a formação de uma base sólida, e a pesquisa, no universo escolar. Destacar que o capital relevante nos dias de hoje é o conhecimento e que, com base nisso, as produções do conhecimento e da pesquisa são peças indispensáveis em qualquer agenda ou plano de ação favorável à área da educação.

. Apresentar a escrita como possibilidade de rememorar aquilo que se disse, procurando, a partir daí, estimular a formação de bibliotecas convencionais ou virtuais voltadas a todos os níveis de ensino.

. Discutir o grau de velocidade da informatização da sociedade contemporânea e a alfabetização pela informática, bem como estimular o uso do computador como ferramenta enriquecedora do ato da leitura e da produção de textos.

. Compreender melhor as mudanças experimentadas pela educação em todos os níveis da contemporaneidade. Por conseguinte, rediscutir o papel do professor na qualidade de mediador quanto à construção do conhecimento efetuada pelo aluno, e de colaborador quanto ao encaminhamento das discussões críticas oriundas da rede de informações disponibilizadas pela revolução fundada na tecnologia digital (multimídia).

. Transpor os limites do mito do progresso em nossa civilização tecnológica. As novas tecnologias compõem as cenas cotidianas da vida contemporânea, chegando a ocupar todas as esferas das nossas existências. A tradição filosófica tem questionado a inevitabilidade da transformação da ciência em técnica e, nesse caso, a questão central é o componente irracional do poder tecno-científico quando dirigido por uma economia mundial entregue à própria sorte.

   Isso significa que a abordagem de experiências formativas, interrelacionada com questões da ordem da oralidade, da cultura escrita e das novas tecnologias, alcançará no I ENCONTRO DE EDUCAÇÃO CENECISTA DE CAPIVARI diversas áreas do conhecimento, perspectivando-se a priori, por exemplo, os seguintes campos temáticos:

. Educação, Civilização e Diversidade Cultural
. Educação e Oralidade
. Educação e Memória
. Educação e Escrita
. Educação, Cultura Letrada e Leitura
. Educação, Empreendimentos Intelectuais e Registros Enciclopédicos
. Educação e Linguagem
. Educação e Filosofia da Educação
. Educação e Processo de Alfabetização
. Educação, Instrução e Ensino
. Educação e Invenção da Imprensa
. Educação e Políticas Educacionais
. Educação, Ideologias e Meios de Comunicação de Massa
. Educação na Sociedade da Informação 
. Educação, Linguística e Filosofia da Linguagem.


5 - JUSTIFICATIVA

   A modernidade, tal como se apresenta, tem sido marcada por uma imensa e variada mutação de formas de comunicação. É neste abrangente espaço que se fundem todas as instâncias do mundo social e também desponta a multiplicidade de experiências e perspectivas do real a que os indivíduos acedem.
   De outra parte, se é impossível reconstruir toda uma odisséia humana a partir da invenção da escrita, na atual relação de condicionamentos circulares entre a palavra oral, a palavra impressa, a palavra digitalizada e a conduta humana, há crescentes motivos para se presumir que as exigências individuais e coletivas de vida forçarão mudanças de comportamento que, por sua vez, reorientará o mundo contemporâneo fundado tanto na tradição da escrita impressa no papel quanto na recente inovação da escrita digitalizada projetada nas telas dos computadores. Levando em conta o conjunto de experiências e transformações culturais que se assiste, e procurando tensionar um debate vivo de discussões intensas em torno de uma economia global cada vez mais tecnológica, na qual a Internet e outras tecnologias de comunicação disseminam avalanches de informações a todo planeta, é que se retoma, num espaço transdisciplinar de estudos e reflexões, a questão da formação educacional em tempos de comunicação midiática e da realidade fundada nos avanços da tecnologia. Nesse sentido, a análise reflexiva do “I ENCONTRO DE EDUCAÇÃO CENECISTA DE CAPIVARI” procurará enfatizar a própria realidade da nossa experiência cultural, dirigindo interrogações precisas ao mundo contemporâneo, como por exemplo: qual o intervalo de tempo que pode ser estabelecido como definidor do contemporâneo? Que novas formas de construção de saberes se anunciam com base na cibercultura? O que é ser leitor e escritor em tempos de novas tecnologias? A sociedade brasileira está preparada para receber e participar das novas tecnologias? A escola como grande mediadora dos conhecimentos poderá contribuir de que forma no desenvolvimento das tecnologias intelectuais? Qual a conveniência da escrita em tempos de novas tecnologias? Se o grande problema econômico do nosso tempo reside em transformar o conhecimento em conhecimento codificado, convertendo-o em mensagem que possa ser manipulada qual informação, como redefinir, então, a operação que consiste em plasmar o conhecimento sobre um suporte técnico digital? Considerando que leitura e escrita são processos complementares, e que a leitura não é uma atitude passiva, pois não se reduz a uma simples decodificação de sinais gráficos, como então estimular uma atividade de reconstrução de sentidos por meio da leitura? Se escrever é um ato de partilha da palavra, afinal, para quem e para quê escrevemos na escola? Como promover a inclusão digital e equiparação de oportunidades para a população brasileira? Como discutir e negociar o grau de velocidade da informatização da sociedade, a reciclagem do trabalhador profissional da educação e a alfabetização em informática, tarefas chaves que se desenham no futuro do nosso país? Com base em tais perguntas, o “I ENCONTRO DE EDUCAÇÃO CENECISTA DE CAPIVARI” pretende fornecer — como já mencionado em “objetivos específicos” — subsídios teóricos para o tratamento de tais questões.  
 
   
*Projeto elaborado pelo PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Docente da Faculdade Cenecista de Capivari — FACECAP
CAPIVARI
Verão de 2002



6 – METAS

   a) Divulgação do evento “I Encontro de Educação Cenecista de Capivari”. Período: 18 de março (segunda-feira) a 05 de abril (sexta-feira) de 2002;
   b) Atingir um total de 260 inscrições até 05 de abril de 2002.


7 – BENEFICIÁRIOS

a) Docentes e Discentes da FACECAP/CNEC-Capivari;
b) Docentes da CNEC de Capivari;
c) Profissionais da área da Educação (diretores, coordenadores, professores e demais interessados);
d) Representantes dos meios de comunicação locais e regionais;
e) Empresários da área de Educação e Cultura, locais e regionais, e demais interessados.


8- LOCALIZAÇÃO E ABRANGÊNCIA

   a) Cidade de Capivari/SP e região.


9 – ATIVIDADES / CRONOGRAMA

Data: 10/04/2002 (QUARTA-FEIRA)

18h30min
a) Recepção do público, com distribuição do material do evento (pastas, folders, canetas e blocos de anotações).

19h00 – Abertura
b) Composição da mesa seguida de apresentação dos integrantes da comissão organizadora do evento e de autoridades locais.
                     
19h15min
c) Leitura do Prólogo Papiro Cromático Hermenêutico pela Profa. Me. Adriana Emília Heitmann G. T. Fontes.

19h30min
d) Apresentação de um número musical – Profa. Me. Adriana Emília Heitmann. G. T. Fontes.

19h40min
e) Apresentação do palestrante Prof. Dr. Regis de Morais (FE- UNICAMP) pelo Mestre do Cerimonial, Prof. Me. Rodrigo Ortiz Salema - docente da FACECAP/CNEC-Capivari.

20h00
f) Palestra: O Discurso Humano como Totalidade Expressiva da Existência e a Educação.
g) Sessão de debates.
   

Data: 11/04/2002 (QUINTA-FEIRA)

19h30min
a) Apresentação da palestrante Profa. Dra. Ângela Kleiman (IEL-UNICAMP).
b) Palestra: Letramento e a formação do leitor.
c) Sessão de debates.


Data: 12/04/2002 (SEXTA-FEIRA)

19h30min às 20h00
a) Lançamento do livro (roteiro de pesquisa) DOSSIÊ: ORFEU DESPEDAÇADO, de autoria do Prof. Dr. Sílvio Medeiros - docente da FACECAP/CNEC Capivari.

20h00
b) Apresentação da palestrante Profa. Me. Sheila Elias Oliveira (titulada pelo IEL-UNICAMP).
c) Palestra: História do Dicionário: o contato do homem com a palavra.
d) Sessão de debates.


Data: 13/04/2002 (SÁBADO)

9h00
a) Apresentação do palestrante Prof. Dr. Eduardo O.C. Chaves (FE-UNICAMP).
b) Palestra de encerramento do evento: A Fala, a Escrita e A Imagem: O Desafio da Comunicação na Era do Digital.
c) Sessão de debates.

11h00
d) Horário previsto para a realização do cerimonial de encerramento do evento dirigido pelo Prof. Luís Donisete Campaci - Diretor da FACECAP/CNEC-Capivari.


10 – ADMINISTRAÇÃO DO EVENTO

Comissão Geral (docentes e discente da FACECAP/CNEC-Capivari): Profa. Me. Ana Maria Reginato (Coordenadora Geral); Prof. Dr. Sílvio Medeiros (Presidente Científico); Prof. Me.Rodrigo Ortiz Salema (Mestre do Cerimonial).


11 – FEIRA DO LIVRO

Data: 10 a 13 de Abril/2002.
Projeto-parceria envolvendo a FACECAP/CNEC-Capivari e Escola Premium Cenecista de Educação Básica/CNEC-Capivari.

Promoção da “Feira do Livro”: EDITORA E LIVRARIA PONTES/CAMPINAS.
Local: dependências da CNEC-Capivari (pátio).



CAMPANHA NACIONAL DE ESCOLAS DA COMUNIDADE (CNEC)
Faculdade Cenecista de Capivari
Escola Cenecista Profissionalizante
Escola Premium Cenecista de Educação Básica

Rua Barão do Rio Branco, 374 – Telefone: (19) 3491-1087 – Cep: 13360-000
E-mail: cnec@cneccapivari.br     Home Page: www.cneccapivari.br
Capivari – SP

           ............

NOTA DO AUTOR DO PRESENTE TEXTO:

_ Em Julho de 2003, deixei, devido a outros compromissos, de exercer minhas atividades profissionais na CNEC-Capivari. Restam-me lembranças, lembranças, lembranças... e muitas saudades!
PROF.DR.SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, primavera de 2005




SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 19/11/2005
Código do texto: T73571

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2001, UMA ODISSÉIA DO OLHAR  (Projetos) escrito em sábado 31 março 2007 22:25

 

Na década de 50, Lauro D'Angelo, fazendo uso da câmera fotográfica, busca captar

"o aqui e agora" da cesta do time de basquete da cidade de Mococa/SP.

 

 

 

 

EVENTO: II EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIAS LAURO D’ANGELO  

 

2001 UMA ODISSÉIA DO OLHAR O JOGO DE LUZES E SOMBRAS NA TRAMA DAS ESTAÇÕES  

 

Projeto elaborado pelo Prof. Dr. Sílvio Medeiros

Coordenador do CePAC do IESMoc  

 

1. Introdução          

     Já foi dito que todo jornalista é um dramaturgo. Pois bem, o fotógrafo e jornalista Lauro D’Angelo pega a vida e faz dela uma peça de teatro. Amigos (as), namorados (as), pais, mães, tios (as) ... fisionomias de pessoas figuram numa cidade em movimento, em álbuns de retratos. Mediante o ato fotográfico de Lauro D’Angelo, que vai além de um registro histórico do momento, o teatro entra na vida das pessoas, dos cidadãos, como alusão à seguinte afirmação de um herói shakespeariano: “O mundo é um teatro e todos os homens e mulheres não passam de atores”.  Ao referir-me ao artista da fotografia Lauro D’Angelo, pergunto: como pode a conduta de uma vida inteira ser regulada pela estética? Então, sigo o fascinante percurso da criação artística do fotógrafo, do recôndito e privado até o tumulto de uma foto com dezenas de pessoas. Sob o click e o flash deste escultor de luzes e sombras, com a câmera em ação, as fantasias começam a obedecer a ordem do visível e a tecer uma trama de encantamentos, de sentimentos e a encarnarem-se, por meio da magia da fotografia, em uma história que passa, tanto em âmbito particular como coletivo, a ser nossa.      Com efeito, é surpreendente as imagens que se contempla nas fotos e na totalidade da bela produção iconográfica de Lauro D´Angelo. Na qualidade de historiador, posso afirmar, seguramente, que o patrimônio deixado por Lauro D´Angelo, registrando milhares de imagens da cidade de Mococa, em cena aberta, é tão admirável que não se encontraria grandes dificuldades caso se queira inscrever a cidade no mapa do roteiro de pesquisas desenvolvidas em qualquer centro universitário de reconhecida reputação em produção científica.     Espalhando a febre da fotografia pela Mococa das décadas de 50 e 60, é surpreendente a capacidade do fotógrafo Lauro D´Angelo em extrair da realidade e transportar  para as imagens das fotos, os instantâneos da história local, cuja magia reside em fazer com que cada fragmento se destaque de um conjunto contínuo, ou melhor, do excesso de história, da “maré da história”. É que, na verdade, Lauro D´Angelo não pega toda vida; o que ele retém dela, nas fotos, a exemplo de renomados diretores teatrais, se encontra liberto de encadeamentos históricos pragmáticos e enganadores, que nos fazem crer na idéia de progresso da história. Como observara o olhar do filósofo Walter Benjamin, numa de suas famosas teses Sobre o Conceito de História: “articular historicamente o passado não significa conhecê-lo tal como ele propriamente o foi. Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela cintila num instante de perigo”, isto é, de esquecimento. Para os olhares de ambos, do filósofo e do fotógrafo, a história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo linear, homogêneo e vazio, mas aquele preenchido pelo tempo-agora: presença do ausente e ausência da presença, a fotografia e a lembrança de uma presença que não existe mais e que sempre corre o risco de se apagar definitivamente. Lutar contra o esquecimento, trazendo a lembrança cintilante do passado por meio do jogo de luzes e sombras da obra de Lauro D’Angelo.      É desse modo que todo o conjunto do acervo fotográfico de Lauro D’Angelo torna-se disponível para os jogos da memória e do imaginário. Penso que é, sobretudo nesse sentido, que o legado de Lauro D´Angelo ganha ou adquire um alcance mítico-poético, pois ele implica num fracionamento da temporalidade, visto que a descontinuidade temporal do trabalho de Lauro D´Angelo é a sua condição, a sua vocação, convertendo-se numa autêntica odisséia do olhar.   

2. Justificativa do projeto

          Este projeto está vinculado ao Centro de Pesquisa e Ação Comunitária (CePAC), que faz parte do IESMoc, a cujo programa pertenço na qualidade de coordenador e docente do curso de pós-graduação Lato Sensu em Educação, assim como à Linha de Pesquisa “Fotografia e História”. Está vinculado, igualmente, à Linha de Pesquisa “Modernidade, História e Cotidiano”, bem como ao recente projeto de pesquisa denominado “Portal Foto Radium”. A importância da “II Exposição de Fotografias Lauro D’Angelo” reside, sobretudo, nos seguintes aspectos:     a. no resgate de duas décadas da história da cidade de Mococa, que certamente projetará o nome da cidade e elevará as particularidades da cultura do lugar por meio da mídia local, regional ou até mesmo nacional;      b. na possibilidade do IESMoc resgatar e possuir um patrimônio cultural de inestimável e incalculável valor e, por consegüinte, na importância do espaço que se abre na referida instituição quanto à futura produção de tarefas científicas com base no referido patrimônio iconográfico.      A data de inauguração do evento está prevista para 15.10.2001, nas dependências do IESMoc, pretendendo ser um acontecimento ainda mais visível e notável que a exposição anterior. A mostra pretende permanecer aberta à visitação pública até o início de novembro do corrente ano. O público encontrará uma grande exposição — com aproximadamente 300 imagens fotográficas — distribuída em quatro eixos temáticos.    

3. Objetivos gerais

          O objetivo deste projeto é tentar repor um vasto quadro de manifestações culturais que emoldurou a cidade de Mococa, durante as décadas de 50 e 60 do finado século XX. 

4. Objetivos específicos

          Mediante a apresentação de um amplo conjunto de imagens das décadas de 50 e 60, destacar modos de vida centrados em múltiplas manifestações culturais — sobretudo aquelas regidas por fortes conotações populares — segundo um roteiro temático que empreste à mostra uma espécie de encenação teatral entre os cidadãos mocoquenses. No período retratado, as festas populares, com seus múltiplos ritos, em diferentes pontos da cidade de Mococa, preenchiam todo o calendário. Eram, ou ainda são: o Carnaval, a Folia de Reis, as tradicionais festas juninas, as natalinas; as procissões; os reveillons; o Dia do Trabalho etc. Certamente, algumas dessas celebrações foram subvertidas ou substituídas por outras formas de reunião. No entanto, com o passar dos tempos, as tradicionais celebrações não conseguiram (quando conseguem, é de maneira muito tímida) reverter o processo de avanço de novas culturas sobre a cidade e, desafortunadamente, muitas delas sucumbiram, decretando, com isso, o fim de um diversificado quadro de tradições locais.      Nesse sentido, a perspectiva histórico-imagética da cidade Mococa capturada através das lentes do fotógrafo Lauro D´Angelo constituirá a base fundamental para o estabelecimento das diferenças entre as celebrações das datas festivas do calendário de um tempo pretérito em contraponto ao calendário de 2001, além de apontar para uma questão crucial em certos casos, que consiste no decreto do fim certas tradições do lugar. 

5. Cronograma 

Execução das atividades:

2001

Atividades/ Meses:

1.      Levantamento das linhas teóricas e seleção de negativos em consonância com o roteiro temático da exposição: maio.2.      Trabalho de revelação dos negativos e catalogação de fotos: junho, julho e agosto.3.      Exame da composição final da exposição: setembro4.      Redação do relatório final, montagem da exposição e inauguração do evento: outubro. 

6. Orçamento

 Origem dos recursos:. Patrocínios:___________________________________________________  Aquisição: . Aquisição de novos lotes de negativos, atendendo ao apelo temático da exposição, junto ao proprietário da totalidade do acervo fotográfico Lauro D’Angelo. Equipes de trabalho:. Equipe de trabalho — constituída por docentes e discentes do IESMoc — que auxiliará na catalogação e distribuição das fotos entre os painéis da exposição. . Equipe de trabalho que recolherá dados para a confecção da 2ª versão ou atualização do CD-ROM “Portal Foto Radium”. Criação de ambientes especiais:. Contratação de videomaker para os registros de som e imagem e trabalhos de sonoplastia, por ocasião da inauguração do evento.. Decoração do espaço da exposição com motivos florais. Estrutura física:. Utilização de data-show para exibição, na data da inauguração do evento, as imagens da primeira mostra de fotografias, além de filmes clássicos ligados à temática. Material de consumo:. Revelação de aproximadamente 300 negativos.. Aquisição de etiquetas-molduras para fixação das fotos nos painéis.. Aquisição de etiquetas para inscrever a catalogação das fotos.. Confecção de textos temáticos a serem fixados nos painéis-roteiros da exposição. Material gráfico:. Despesas com a confecção de prospectos e/ou libretos.. Despesas com a confecção de convites e envio pelo correio. Material de divulgação:

. Despesas com propagandas nos veículos de propagandas locais (impressa escrita e falada)

     

NOTAS DO AUTOR NA DATA DE 20 DE DEZEMBRO DE 2005:

1. Quanto à primeira “Exposição de Fotografias ‘Lauro D’Angelo’”, entre os meses de outubro e dezembro de 2000, obtive um grande sucesso!     Contudo, em virtude de certos ranços de autoritarismos, da politicagem medíocre (por parte de alguns “figurões”) procedente de algumas instituições públicas e privadas do lugar (lugar comum em nosso país!), dentre outros oportunismos, fui impedido de dar continuidade a este trabalho. Nesse caso, quanto à presente segunda Exposição, desafortunadamente, mantenho o roteiro apenas no papel e, a partir do momento em que redijo esta nota, disponibilizo-o a todos os internautas.     Por fim, para que possamos juntos refletir, abandono aqui algumas questões a quem interessar possa:      AFINAL, QUE PAÍS É ESTE? QUE LUTA PARA APAGAR A PRÓPRIA MEMÓRIA HISTÓRICA? TRATA-SE DE UM PAÍS QUE VAI A CONTRAPELO DO RESTANTE DO MUNDO CIVILIZADO?!      É PROIBIDO PROIBIR A PESQUISA OU PRODUÇÃO CIENTÍFICO-CULTURAL DE UMA NAÇÃO !!!! POIS, DO CONTRÁRIO, CAMINHAMOS, INEXORAVELMENTE, RUMO À BARBÁRIE!!         FAÇAMOS (ou já fizemos?!), ENTÃO, A ESCOLHA: CIVILIZAÇÃO OU BARBÁRIE?     UMA DAS MINHAS INUMERÁVEIS CONCLUSÕES PRELIMINARES, COM RESPEITO A ISSO TUDO, E POR TANTOS OUTROS AMARGOS QUE JÁ EXPERIENCIEI, APÓIA-SE NUM ENSINAMENTO POÉTICO (e os autênticos poetas prevêem o futuro!) QUE SEGUE ABAIXO: “O QUE SERÁ, QUE SERÁO QUE NÃO TEM GOVERNONEM NUNCA TERÁ (...)O QUE NÃO TEM CONSERTONEM NUNCA TERÁ...”  2. Uma sugestão de leitura: recorram, caros leitores, ao belo-trágico livro do mitólogo francês - especialista em estudos de sociedades antigas - Pierre VIDAL-NAQUET intitulado OS ASSASSINOS DA MEMÓRIA. Tradução Marina Appenzeller. Campinas/SP: Editora Papirus, 1988. Em especial, procurem desenvolver a leitura do capítulo: “Auschwitz e o terceiro mundo”. 3. Em ocasião oportuna, apresentarei aos leitores deste “Recanto...” e d’outros cantos uma biografia do notável foto-jornalista Lauro d’Angelo.    

 

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS

Campinas, é outono de 2007.
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NOSSOS ROMANOS - Parte II  (Projetos) escrito em sábado 31 março 2007 21:38

 

Luís Camões   

A ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO (3)
  

“A lei de emancipação de 28 de setembro de 1871 determina entre outras coisas aos senhores de escravos que mandem ensinar a ler e a escrever a todas essas crianças. Em todo o Império, porém, não existem talvez nem dez casas onde essa imposição seja atendida. Nas fazendas sua execução é quase impossível. No interior, não há os mestres-escolas rurais como na nossa terra, e assim o fazendeiro ver-se-ia obrigado a selar vinte a cinqüenta animais para levar os pretinhos à vila mais próxima, geralmente muito distante; ou então teriam de manter um professor especial para essa meninada?... Essas questões apresentam diversas soluções, mas o fato é que ninguém aqui faz coisa alguma, de maneira que as crianças nascem livres, mas crescem sem instrução e no futuro estarão no mesmo nível dos selvagens sem gozar nem mesmo das vantagens dos escravos, que aprendem este ou aquele trabalho material. Se já são livres, por que fazer despesas com eles, desperdiçar dinheiro com quem não dará lucro? (...) Não estarão percebendo que, agindo assim, estão preparando a pior geração que se possa imaginar para conviver mais tarde com seus próprios filhos? (Ina von Binzer. Os Meus Romanos... (4))

        Certamente, em toda a nossa história, nunca houve período mais rico de participação da cidadania em relação aos debates sobre os problemas nacionais quanto ao pré-1964. Em época alguma a emergência popular foi mais abrangente quanto ao referido período. Naquela ocasião, em consonância com Roberto Schwarz, “o país estava irreconhecivelmente inteligente”. Na educação, ampliava-se a campanha contra o analfabetismo, que atingia 50% da população brasileira. Convocado pelo governo da ocasião, o professor Paulo Freire assumiu a tarefa histórica voltada para a alfabetização de milhares de cidadãos em menos de dois anos. Mediante um revolucionário método pedagógico, o projeto freiriano pretendia, além de alfabetizar, também levar a população brasileira a uma tomada de consciência social sem precedentes na história do país. Tal projeto alarmou ponderáveis grupos no poder.

     Em contrapartida, o período desenvolvimentista, durante a década de 50, abriu espaço para uma atitude crítica face ao capital estrangeiro. O nacionalismo se impôs como um divisor de águas na história nacional. Às vésperas de 1964, as medidas econômicas preparavam terreno para um desenvolvimento econômico e social de caráter autônomo frente à invasão do capital e do empresariado estrangeiros.

     No ensaio Reiventando as humanidades, Sérgio Paulo Rouanet salienta que, em pleno período desenvolvimentista, a oposição ao ensino das Humanidades estava associada ao surgimento de uma geração extremamente sensibilizada com as questões do desenvolvimento e da emancipação nacional. Diante desse quadro, personalidades do meio cultural passaram a atacar a cultura tradicional brasileira, classificando-a de cultura livresca, pois, em seu conjunto, apresentava-se voltada ao ensino frívolo e ornamental do latim, da filosofia ou da história; a qual, todavia, como pondera Rouanet, apesar de todo conservadorismo como era transmitida, atendia, em certa medida, ao conceito de Humanidades, pois, apesar de “acadêmica e elitista, eurocêntrica e alienada (...), nela pulsava memórias e esperanças, que se extinguiram para sempre quando foi arrasada pela tecnocracia triunfante”, sublinha Rouanet. Pois bem, por aquela ocasião, passou-se a reivindicar um novo vocabulário, uma nova linguagem cultural voltada para o preparo dos recursos humanos necessários ao projeto desenvolvimentista do país. Além disso, mais tarde, o golpe militar de 1964 trouxe consigo a reordenação e o estruturamento dos laços de dependência econômica nacional, encaminhando o país nos trilhos da industrialização dependente, além da racionalização institucional e da regulação autoritária entre os grupos sociais, procurando colocar em vantagem os setores associados ao capital monopolista ou a eles vinculados. Com efeito, é a partir desse momento que Rouanet constata que o Brasil dos bacharéis foi transformado no Brasil dos tecnocratas; que a supressão do ensino das Humanidades dos currículos escolares coincidiu com o fortalecimento do autoritarismo e com o surgimento dos “conformistas esquizóides”, porquanto portadores de uma razão tecnicista, bem como desprovidos de um pensamento crítico. Nesse sentido, o fim das Humanidades representou o fim de toda uma notável prática reflexiva.

     Mais tarde, o regime político do Estado autoritário cedera lugar às instituições democráticas, e a nação passa a experimentar o clima das campanhas em prol de uma abertura democrática, permitindo que representantes das esferas políticas, sindicais e intelectuais manifestassem seus pontos de vista sobre avaliação daquele período de nossa história. O resultado das inúmeras avaliações que surgiu no horizonte nacional apontava que o Brasil se modernizara sob vários aspectos, mas o custo social dessa mudança fora extremamente alto.

     Este, em síntese, foi o contexto da primeira publicação, em 1984, na revista Humanidades — periódico da Universidade de Brasília —, do ensaio Reiventando as humanidades. Foi, portanto, no bojo desse processo renovador da conjectura nacional, no qual não estiveram ausentes inúmeros pronunciamentos sobre uma nova política educacional e cultural, que surgiu o referido ensaio. De uma maneira geral, o texto de Rouanet procura, sobretudo, revalorizar determinadas disciplinas suprimidas por uma circunstância histórica anterior, que, para Rouanet, são de caráter estratégico para um país que está reaprendendo a pensar. Por fim, o debate proposto por Rouanet passa por uma importante reflexão sobre aspectos conflitantes de uma realidade social que, devido às pressões corporativas, confundem vida escolar, acadêmica com vida de funcionário público. 
Documento de cultura, Documento de barbárie
 

“O homem, na medida em que se serve de seus plenos sentidos, é o aparelho físico maior e mais exato que possa existir, e a maior desgraça da Física Moderna é que as experiências foram por assim dizer separadas do homem e que se pretende conhecer a natureza só pelo que mostram os instrumentos artificiais.”

(Goethe)

    

     Talvez, a epígrafe acima, citada por Benjamin num de seus escritos, seja bastante ilustrativa para situar um dos pontos fundamentais no qual o ensaio de Rouanet Reinventando as humanidades se constroe. Quando o mesmo se propõe a revalorizar o ensino das Humanidades em nossos currículos escolares, o que parece absurdo em tempos de novas tecnologias, sua preocupação maior parece residir num retorno às formas de conhecimento da natureza com base num velho derrotado, isto é, o corpo humano, que, em nossos tempos, encontra-se vulnerável a um processo violento de bombardeio tecnológico, pois mergulhado numa realidade contemporânea marcada pela velocidade crescente de inovação tecnológica e pela ampliação do conhecimento científico. Como um amoroso do pensamento do filósofo alemão Benjamin, Rouanet enfatiza a importância do homem fazer uso do que aqui poderíamos denominar de “razão retorno”, um tipo de razão ligada ao nosso patrimônio cultural, legado de toda humanidade, possibilitando, desse modo, uma busca de identidade num mundo abalado pela fé depositada na ascensão de um desmesurado saber racional ou de uma cultura regida exclusivamente pelos tentáculos da tecnologia.

     O sentido que Rouanet empresta às Humanidades corresponde a oferecer uma formação (Bildung) destituída de qualquer tipo de finalidade utilitária. Menos que uma Summa enciclopédica do conhecimento humano — como no Renascimento — ou uma Summa ilustrada — como no Iluminismo —, as Humanidades, nas condições atuais, do ponto de vista de Roaunet, em paralelo ao pensamento benjaminiano, estariam comprometidas com a conservação da tradição, com a transmissão dos bens culturais de geração em geração, além da estruturação de personalidades segundo uma certa paideia, isto é, um ideal civilizatório, uma normatividade inscrita na tradição ocidental, cujos propósitos residiriam na luta pela não dissolução da cultura ocidental, objetivando a preservação da memória histórica da humanidade e contrariando um sistema que procura atrofiá-la nos horizontes de um eterno presente.     As disciplinas que Roaunet sugere como representantes das Humanidades, para os nossos tempos, são: as Letras Clássicas, o Português e a Cultura Luso-Brasileira, o Francês e o Inglês, a História, a Filosofia e a Arte. Isto porque, trata-se de um quadro de disciplinas que, de acordo com os seus conteúdos, se constitui num contrapeso à difusão da cultura tecnocrática, tornando, dessa forma, o espírito mais versátil e, conseqüentemente, contribuindo para o hábito e exercício do pensamento crítico. Somado a estes pontos, existe, também, o prazer lúdico proporcionado pelas Humanidades, já que as mesmas se apresentam descompromissadas com certas pedagogias de caráter utilitarista, mas voltadas a uma práxis cultural mais generalizante por meio da qual possamos “frear a tendência a pensar tecnicamente problemas que não são técnicos”, como bem enfatiza Rouanet. Nessa medida, Rouanet acentua a importância do ensino das Letras Clássicas, do ensino do Latim, do Grego, dos latins modernos, que são o Português e o Francês (língua que se concentrou nosso processo de assimilação da Filosofia e das Ciências Humanas), ou, até mesmo, do Inglês (não apenas entendida como uma língua que atravessa o nosso cotidiano, mas como a língua em que Milton escreveu os versos do Paradise Lost). Consoante Rouanet, tratam-se de línguas que possuem o conteúdo básico para a compreensão de nossas origens, visto que alinhadas à cultura da vertente greco-romana; além de contribuírem, sobretudo, para o conhecimento de si mesmo de forma consciente. Assim, do ponto de vista de Rouanet, “para o bem ou para o mal, pertencemos à cultura Ocidental, que foi moldada pelo mundo greco-latino. Lendo sobre Ulisses, estamos lendo sobre nós mesmos. A queda de Tróia é também a nossa queda, e aprendemos com o piedoso Enéias a transformar o incêndio de Ílion na fundação de Roma, vencendo todas as adversidades: ‘tantae molis era Romanam condere gentem’” (“Tanto era pesada a tarefa de fundar a nação romana!”).      No que se refere aos estudos históricos, sobre a beleza da História contemplada pelas Humanidades, a qual trazia o humano como herói, retratando as grandes gestas, “era uma história épica. Reencontrei depois a mesma larga inspiração homérica em vários livros de história ‘adulta’: a história da cultura grega em Burckhardt, a história romana de Gibbon e Mommsen, e a história sangrenta da grande injustiça contra o proletariado, no primeiro volume do Capital”, enfatiza Rouanet.     O estudo da Filosofia como atividade do pensamento, desvinculado de qualquer tipo de dirigismo, é como “refazer o longo itinerário ao longo do qual os pré-socráticos especularam sobre a substância do universo e Platão e Aristóteles sobre a natureza do homem e suas instituições; os pensadores medievais tentaram conciliar a verdade humana e a verdade revelada. Bacon e Descartes lançaram as bases do pensamento moderno; Spinoza e Leibniz criaram os primeiros grandes sistemas idealistas; Kant tirou a filosofia do seu ‘sono dogmático’ (...) Hegel tentou restaurar a unidade dessa razão desmembrada (...) Marx, invertendo Hegel, anunciou a decomposição do Espírito Absoluto (...) Nietzsche anuncia a morte de Deus (...) Heidegger tenta destruir a metafísica ocidental (...) Derrida tenta desconstruir o logocentrismo, em busca da escrita primordial”, ressalta Rouanet.      A Arte, a Educação Artística (a pintura, a escultura, a arquitetura, a música), como força pedagógica, permite a mediação entre sensibilidade e razão. Nesse sentido, inclui Rouanet: “sem voltarmos à filosofia educacional de Platão, que considerava a música fundamental na formação da classe dos guerreiros, nem sequer a práticas pedagógicas mais recentes, que incluíam o ensino obrigatório do canto e do piano, é incontestável que noções de música e de desenho seriam valiosas.” Ademais, este elenco de disciplinas nutre-se de todo acervo de conhecimentos acumulados pela humanidade ao longo dos séculos. Neste ponto, apropriando-se de aspectos importantes da reflexão benjaminiana, Rouanet procura motivar o leitor de seu belo ensaio a romper com os esquemas convencionais de assimilação da concepção de cultura, inclusive com os filtros da tradicional dicotomia entre cultura dominante e cultura popular, propondo repensar tal dicotomia (que só nos leva à confusão) mediante a ordem de uma luta e não da ordem de uma coleção: o conhecimento do passado merece ser constantemente reexaminado para que possa iluminar a cultura contemporânea, propiciando, desse modo, a redenção do passado. Redenção do passado uma vez que os “bens culturais” devem sua existência cultural não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como a corvéia anônima de seus contemporâneos, tal como expressa a famosa frase de Benjamin: “Nunca há um documento da cultura que não seja ao mesmo tempo um documento da barbárie.” É do interior desse horizonte benjaminiano que Rouanet endereça uma crítica ao “marxismo vulgar” (leitura reducionista do espólio marxiano), que costuma classificar a prática do reexame do acervo cultural da humanidade como uma prática ideológica voltada à manutenção e à preservação do que se convencionou denominar de cultura dominante. Desse modo, ao evidenciar o tratamento que o “marxismo vulgar” dispensou à História, Rouanet defende a tese de que a historiografia marxista, nos trilhos de um empobrecedor historicismo, fez desaparecer os personagens dos estudos históricos, restando somente as estruturas, isto é: modos de produção, classes sociais etc. Na verdade, tal tese está ancorada num paralelismo que se vale dos pensamentos de Gramsci e de Benjamin, porquanto ambos pensadores observaram os efeitos perversos do determinismo que engendra um certo conformismo pelo fato de que deposita nas leis inexoráveis da história a esperança de que tudo se resolverá a favor das classes dominadas.     Por conseguinte, Rouanet reconhece os méritos e a superioridade da história científica em seus vários aspectos, mas o que procura enfatizar está concentrado na importância do resgate, para o conteúdo da história, do lugar da cultura ritualizada, isto é, da alta cultura ou da cultura autônoma (que se eleva acima do dado positivo), pois esta é a autêntica portadora dos elementos subversivos da tradição.     A proposta duma reflexão sobre o acervo de conhecimentos acumulados pela humanidade, com o fito de buscar os componentes de eficácia subversiva que neles residem, para impedir que este acervo seja remanejado pelos poderosos, condenando o homem à perda de sua memória histórica e impossibilitando, desse modo, a “redenção do passado”, vem ao encontro de uma célebre frase de Benjamin que afirma: “Quem não pode lembrar do passado não pode sonhar com o futuro e, portanto, não pode criticar o presente.”   [  — Escuta-me, Virgílio, escuta a mim, que sou teu amigo e ao mesmo tempo conhecedor de sua obra: teu poema contém em abundância os mais sublimes acontecimentos; Roma está desdobrada nele, e tu a abranges nos seus deuses tanto como nos guerreiros e nos seus camponeses; abranges sua glória e piedade; abrangeste o espaço romano na sua totalidade e abrangeste a era romana, que recua até ao poderoso ancestre troiano... tudo isso foi retido por ti. Não te basta esse conhecimento?   Retido? Reter... oh! reter! Sim, eu quis reter tudo, tudo o que aconteceu, tudo o que está acontecendo... e por isso não pude consegui-lo.   Conseguiste, meu Virgílio.   Eu estava ávido de conhecimento... e por isso queria anotar tudo... pois nisso consiste a poesia; ai dela, é ânsia de conhecimento; eis o que almeja, e mais além não pode avançar... ]         Pensar o novo curso do “Instituto de Ensino Superior de Mococa”      Hoje, há um sentimento compartilhado por todos, isto é, o da crise do nosso tempo. O sentimento atual de que há uma crise generalizada reside na dúvida sobre o futuro, um futuro em que tudo parece possível e, às vezes, saudade das grandes crenças. Desde que os dois grandes impérios antagonistas do século XX dispuseram de armamentos nucleares, a história universal se encontra numa espécie de impasse. Por outro lado, o ineditismo da realidade contemporânea é marcado pela velocidade crescente da inovação tecnológica e da ampliação do conhecimento científico, que se projeta de forma avassaladora para o século XXI, promovendo, com isso, a descartabilidade dos seres humanos do ponto de vista da produção. Diante disso, onde ficamos? Com efeito, o que falta é o sentido, um mundo fonte de sentido. O sentido existiu no passado, e seria preciso que o passado estivesse presente, mas “queremos ser rigorosos contemporâneos de nosso mundo” (Claude Lefort). A idéia de que há uma crise geral, cuja expressão estaria na “crise do nosso tempo”, merece a nossa reflexão.     Uma vez amparados nas teses de Hannah Arendt, filósofa alemã que lidou com a condição do ser humano no século XX, extraímos de suas obras a idéia de que a crise atual constitui uma situação sem precedentes. O tempo presente se destaca do passado, impedindo, até mesmo, que recorramos ao passado para buscar orientação em tempos de crise. Na verdade, a crise comporta uma alternativa cujos termos não são mais definíveis quando se toma como base as categorias inscritas na tradição do nosso pensamento ocidental. Nesse caso, consoante Arendt, ou a crise anuncia um começo ou então a perda definitiva dos critérios de bem e de mal. Por outro lado, para a pensadora política Arendt, pensar o agir, o político, é pensar o “acontecimento”, o que permite a Arendt identificar o “acontecimento” como interrupção das leis da natureza e da necessidade, que implica na introdução do acaso, da contingência, da novidade ou do desejo de experimentar como formas de pensamento e sociabilidade. Arendt menciona esses começos ao longo de sua obra: do verão americano de 1776, na Filadélfia, do verão de 1789, em Paris ou da Resistência Européia na época do nazismo, entre outros. A revolução não era para Arendt um objeto de curiosidade; significava, para ela, o tempo do “começo” ou do “recomeço”. Com efeito, Arendt foi atraída pelos fenômenos revolucionários, haja vista o vivo interesse que depositara quanto à formação dos conselhos operários húngaros. Aos olhos da filósofa, esses acontecimentos históricos sempre demonstram a possibilidade de um começo; a Revolução Húngara de 1956, em Budapeste, como bem salientou Arendt na ocasião, foi um movimento marcado pelo inesperado, pelo gosto da liberdade e pelo desejo de despojamento da ideologia do aparelho de estado. Neste ponto, a interrogação que suscita o projeto arendtiano merece toda nossa atenção, pois, pensar para Arendt, não significa simplesmente mover-se no já pensado, mas recomeçar e, precisamente, “recomeçar mediante as provações impostas pelos acontecimentos” (Claude Lefort). Efetivamente, no interior do espólio arendtiano, há um laço entre a atividade do pensar e o acontecido. Ademais, a criatividade da ação e da esperança que provém da natalidade (a ação ancorada na natalidade), categorias centrais do pensamento arendtiano, são as esperanças positivas das experiências revolucionárias como podemos constatar nas considerações de Arendt  sobre a ação política em A Condição Humana: “É com palavras e atos que nos inserimos no mundo (...) esta inserção é como um segundo nascimento (...) não nos é imposta pela necessidade, como o labor, nem se rege pela utilidade, como o trabalho (...) seu ímpeto decorre do começo que vem ao mundo quando nascemos, e ao qual respondemos começando algo novo por nossa própria iniciativa. Agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar iniciativa, iniciar (como indica a palavra grega archein, ‘começar’, ‘ser o primeiro’ e, em alguns casos, ‘governar’), imprimir movimento a alguma coisa (que é o significado do termo latino agere). Por constituírem um initium, por serem recém-chegados e iniciadores em virtude do fato de terem nascido, os homens tomam iniciativas, são impelidos a agir (...) Trata-se de um início que difere do início do mundo; não é o início de uma coisa, mas alguém que é, ele próprio, um iniciador. (...) O novo sempre acontece à revelia da esmagadora força das leis estatísticas e de sua probabilidade que, para fins práticos e cotidianos, equivale à certeza; assim, o novo sempre surge sob o disfarce do milagre.”      Arendt utiliza-se da metáfora do milagre para caracterizar a sua noção de ação política. Desse modo, consoante Arendt, pode-se caracterizar como “milagre” toda interrupção de processos naturais, em favor da ação sobre o inesperado. Contudo, observa Arendt, a capacidade própria do agir vem sendo hostilizada desde os primórdios da tradição filosófico-política no mundo ocidental, isto é, desde que Platão abdicou do campo da política, migrando para o campo da especulação filosófica. Portanto, das tentativas de agir, de experimentar novas formas de pensar, é comum a força da tradição filosófico-política apoderar-se desses esboços políticos; nesse caso, toda irrupção do agir é limitada ao instante histórico.         É inerente ao homem que age, iniciar uma história. Nesse sentido, segundo Arendt, a natalidade é condição ontológica do agir. O passado-presente constitutivo de nosso presente, e de nós mesmos, existe. É o que chamamos de infância. Cada homem, pela infância que traz consigo, tem uma relação com o sentido, pois a infância se desenvolve num verdadeiro mundo fonte de sentido. Arendt celebrizou-se por sua análise do fenômeno totalitário — tanto o nazista quanto o stalinista — e, como já nos referimos acima, também pelos seus escritos dirigidos à questão da natalidade, da criatividade da ação e da esperança que provém da natalidade. Para Arendt, a natalidade é a essência da educação, pelo fato de que seres nascem para o mundo e, como educadores, a eles devemos nos responsabilizar, transferindo-lhes a problematização da tradição.      Uma crise sempre nos obriga a retornar às questões e exige respostas novas ou velhas. Normalmente a criança é introduzida ao mundo por meio da escola. É responsabilidade da escola procurar construir a ponte entre o lar e o mundo, objetivando, de alguma forma, operar a transição da criança do seio da família para o mundo. Nesse caso, é responsabilidade dos educadores, que recepcionam as crianças na escola, possuirem qu