PROJETO DO CURSO DE
ESPECIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO LATO
SENSU 2002
TEMA- CIVILIZAÇÃO E
FORMAÇÃO: A EXPERIÊNCIA DA PALAVRA E AS
FRONTEIRAS DA ALFABETIZAÇÃO
APRESENTAÇÃO
O curso intentará
promover uma reflexão sobre a carreira aventurosa da palavra
— instauradora da linguagem — organizada a partir da
inventividade humana, que responde, dependendo do registro
histórico, pelo alcance das condições
materiais de existência das civilizações
mediante as quais os indivíduos formados culturalmente
recepcionam a educação pela palavra oral, manuscrita,
impressa ou digital.
Procurando capitalizar os inventos que
reconfiguram e enriquecem a elaboração da palavra
escrita através dos tempos, o curso buscará uma
compreensão mais precisa das mudanças provocadas
pelos inventos produtores e impulsionadores de desdobramentos
sucessivos na recriação da escrita como tecnologia da
informação e da comunicação.
Os processos de fixação da
escrita se transformam no tempo. Segundo a premissa de Eric
Havelock em “A Revolução da Escrita na
Grécia e suas Conseqüências Culturais”, a
invenção do alfabeto, comparada com todos os tentames
anteriores à escrita, é caracterizada como uma
ruptura, como uma mudança qualitativa na
direção da facilitação e da
socialização na cultura letrada. A questão,
para Havelock, é que todo avanço tecnológico
determina uma mudança no campo das mentalidades. Nesse
sentido, com o advento da escrita alfabética, a forma passa
a influenciar o conteúdo; tema atualíssimo quando se
discute, por exemplo, as conseqüências da Internet ou da
profusão de imagens e de palavras digitalizadas.
Com a invenção da escrita, logo
se descobriu que ela permitiria ampliar as possibilidades de
registro, a estocagem de informações e a
transmissão da cultura. Como Walter Ong observou tão
bem em “Oralidade e Cultura Escrita”, a cultura escrita
é imprescindível ao desenvolvimento não apenas
da ciência, mas também da história, da
filosofia, ao entendimento analítico da literatura e de
qualquer arte e, na verdade, à explicação da
própria linguagem (incluindo a fala). O movimento cultural
renascentista europeu, por exemplo, baseado numa ampla
difusão do conhecimento humanista, captura, na
essência, as palavras de Ong. Não tardou, entretanto,
a tomada de consciência do valor da escrita, conjugando saber
e poder. Desde a invenção da escrita pelos
egípcios, era possível produzir material de leitura,
porém, quando Gutemberg inventou a imprensa, embora
já existisse uma “indústria de
informação” na Europa, a nova tecnologia de
ponta tornou o século XVI não apenas a era da palavra
escrita, como também o século dos livros, que
passaram a ser produzidos a um baixo preço. Nesse caso, mais
pessoas se alfabetizavam, aprendiam a ler. Por outro lado, a
população européia apoderou-se da
invenção para divulgar em panfletos ironias aos
poderosos. Assim, a censura veio precocemente, coibindo a
manifestação impressa dos interesses populares. Mas
nem só de elogios vive a imprensa, pois, contrapondo os
fatos no tempo histórico, o fenômeno da
evolução da imprensa rumo à
comunicação de massa, que já se observa em
finais do século XIX, recebeu críticas veementes dos
pensadores agrupados em torno da Escola de Frankfurt, os quais
constataram na formação cultural do século XX
— secundada pela dominação técnica
progressiva — o colapso da perda da tradição
efetivado pela pauperização dos bens culturais
propagada pela cultura da semiformação socializada
(“Teoria da Semicultura”, Theodor Adorno).
Falar do desenvolvimento da cultura letrada
é quase o equivalente a falar do papel da cultura na
existência humana. O tratamento desse tema aproxima-se das
fronteiras existentes entre as sociedades sustentadas pelo discurso
oral – sociedade cuja herança cultural é
resgatada pelos usos da memória - e pelo discurso escrito;
ou ainda: aponta para os contrastes e relações entre
oralidade e cultura escrita. Nesse sentido, o presente curso,
enfocando a invenção da escrita como um dos elementos
caracterizadores da emergência de uma
civilização, recolocará em discussão o
contexto em que se situa a cultura (ou: a “grande
biblioteca” que nos precede), procurando privilegiar o
espaço do leitor ao longo da história cultural, tendo
por horizonte a sua emancipação por meio da
vocação alfabetizadora da palavra escrita depositada
nos livros. Desde uma cultura desprovida de conhecimentos da
escrita ou impressão até o difícil processo de
ler a palavra manuscrita mediante o desenrolar de rolos de papiro
ou pergaminho, passando pelo fácil manuseio de um texto
manuscrito graças ao sistema códex inventado pelos
cristãos no século IV, coube à
combinação papel-imprensa, promotora da cultura
livresca, revolucionar a geração e a difusão
da cultura e, por extensão, marcar, com progressivos
aprimoramentos técnicos nos atos de leitura, a aventura de
ser leitor na história da leitura do mundo ocidental (Roger
Chartier), conferindo, desse modo, novas possibilidades de
representação, interação e
ação com base na palavra escrita livresca. Afinal, em
que condições poderiam ter acontecido o movimento de
idéias, conhecido como Enciclopedismo, ou a
Revolução Francesa no século XVIII,
senão num sistema livresco de referência nos quais
autores, editores e tipógrafos balizaram, redefinindo, dessa
maneira, a fronteira entre a invenção e a escrita e,
por conseqüência, os novos modos de trabalhar.
Nesse sentido, a história da humanidade
e suas máquinas têm sido construídas juntas.
Com efeito, parafraseando o papa da aldeia global Marsahll McLuhan,
quando a tecnologia estende ou prolonga um de nossos sentidos, a
cultura sofre uma transposição tão
rápida quanto a rapidez for o processo de
interiorização da nova tecnologia, o que resulta na
ampliação da percepção humana. Assim,
com tais avanços tecnológicos, pode-se plasmar o
conhecimento humano sobre inovadores suportes técnicos e, a
partir daí, liberá-lo para a sua
reprodução indefinida em prol do processo
civilizatório. De outra parte, a palavra impressa
transformou profundamente o modo de transmissão dos textos,
contribuindo para garantir a fidelidade e a qualidade na
reprodução dos mesmos; contribuiu, também,
para o desenvolvimento da lógica, da
interpretação de texto e da racionalidade, visto que
um certo tipo de pensamento racional ou crítico só
pode se desenvolver ao se relacionar com uma ampla difusão
da escrita.
Hoje, o desenvolvimento da Internet e a
digitalização da informação promovem
uma revolução em matéria de
comunicação. O quadro cultural contemporâneo,
dentro da equação de representações
transmitidas ora pelo papel ora pelo conjunto das palavras e pelas
imagens digitalizadas (imagens de síntese), que gravita nas
telas dos computadores, fazendo emergir inéditas geografias
semânticas — como exemplo: o hipertexto —, se
defronta com problemas de toda ordem no que se refere às
mutações de identidades promovidas pela passagem do
atual ao virtual ou aos processos de digitalização
(Pierre Lévy). Contudo, os problemas com que se defronta a
nova cartografia da cultura contemporânea não implicam
na eliminação da cultura afetada pela oralidade, pelo
uso da escrita, do papel ou da avalanche de
informações virtualizadas procedente da cultura do
ciberespaço, eliminação que, ademais, seria
completamente inviável em ambos os casos; aliás,
há estudiosos, na linha do pensamento de Roger Chartier, que
apontam para a convivência pacífica entre o
manuscrito, o impresso e o eletrônico na aurora do
século XXI. Finalmente, se a invenção de novas
velocidades é o primeiro grau de
virtualização, ou melhor, um dos principais vetores
da criação da realidade contemporânea,
consoante Pierre Lévy, então os problemas da cultura
contemporânea certamente têm de ser enfrentados
através desses mesmos meios de
comunicação.
OBJETIVO GERAL
Fornecer subsídios
teóricos a professores do ensino fundamental, médio e
superior, além de profissionais da educação em
geral, para uma abordagem da relação entre linguagem
e educação. Formar pesquisadores.
OBJETIVOS
ESPECÍFICOS
O curso visa:
. Refletir sobre o processo de alfabetização no
Brasil — país que apresenta um dos maiores
índices de analfabetismo no mundo atual —, procurando
entender as razões da ausência de políticas
governamentais que assegurem a emancipação cultural
do cidadão por meio da alfabetização, da
leitura e da escrita.
. Promover a interdisciplinaridade, procurando quebrar as
fronteiras entre as disciplinas, tendo em vista a dificuldade de
leitura da complexidade do mundo atual numa única forma de
linguagem.
. Pensar o contemporâneo
mediante estudos e reflexões sobre a linguagem, tanto da
oralidade quanto dos paradigmas de formação oral ao
letrado, acentuando as reflexões em torno da escrita como
meio de transmissão cultural.
. Problematizar o fenômeno educacional pautado na
revolução da palavra digitalizada, procurando
estabelecer pontos por meio dos quais devemos organizar a
formulação de políticas educacionais contra o
analfabetismo digital.
. Ilustrar, de acordo com o tempo histórico a ser analisado
e estudado, as relevantes invenções
tecnológicas ligadas à questão da
experiência humana com a palavra.
. Enfatizar que a invenção da escrita pode ser a
culminância de inumeráveis atos de leitura e, a partir
daí, inferir novas possibilidades de
rememoração e representação do
passado.
. Colocar em discussão o espaço do leitor na
história cultural do ocidente, tomando-o como ponto de
partida para se resgatar elementos marcantes da história da
leitura.
. Explicitar a dependência entre a qualidade de ensino, que
requer a formação de uma base sólida, e a
pesquisa.
. Apresentar a escrita como possibilidade de rememorar aquilo que
se disse, procurando, a partir daí, estimular a
formação de bibliotecas convencionais e virtuais
voltadas todos os níveis de ensino.
. Discutir o grau de velocidade da informatização da
sociedade contemporânea e a alfabetização
informática.
. Estimular o uso do computador como ferramenta enriquecedora do
ato da leitura e da produção de textos.
Isso significa que a abordagem de
experiências formativas, interrelacionada com questões
da ordem da oralidade, da cultura escrita e das novas tecnologias,
alcançará diversas áreas do conhecimento
pautadas nos seguintes temas definidores das linhas de pesquisas a
serem propostas pelo curso:
. Formação, Civilização e Diversidade
Cultural
. Formação e Oralidade
. Formação e Memória
. Formação e Escrita
. Formação, Cultura Letrada e Leitura.
. Formação, Empreendimentos Intelectuais e Registros
Enciclopédicos.
. Formação e Linguagem
. Formação e Filosofia da
Educação
. Formação e Processo de
Alfabetização
. Formação, Instrução e Ensino.
. Formação e Invenção da Imprensa
. Formação e Políticas Educacionais
. Formação, Ideologias e Meios de
Comunicação de Massa
. Formação na Sociedade da
Informação
. Formação, Linguística e Filosofia da
Linguagem.
JUSTIFICATIVA
A modernidade tal como se
apresenta tem sido marcada por uma imensa e variada
mutação de formas de comunicação.
É neste abrangente espaço que se fundem todas as
instâncias do mundo social e também desponta a
multiplicidade de experiências e de perspectivas do real a
que os indivíduos acedem.
De outra parte, se é impossível
reconstruir toda uma odisséia humana a partir da
invenção da escrita, na atual relação
de condicionamentos circulares entre a palavra oral, a palavra
impressa, a palavra digitalizada e a conduta humana, há
crescentes motivos para se presumir que as exigências
individuais e coletivas de vida forçarão
mudanças de comportamento que, por sua vez,
reorientará o mundo contemporâneo fundado tanto na
tradição da escrita impressa no papel quanto na
recente inovação da escrita digitalizada projetada
nas telas dos computadores. Levando em conta o conjunto de
experiências e transformações culturais que se
assiste, e procurando tensionar um debate vivo de discussões
intensas em torno de uma economia global cada vez mais
tecnológica, na qual a Internet e outras tecnologias de
comunicação disseminam avalanches de
informações a todo planeta, é que se retoma,
num espaço transdisciplinar de estudos e reflexões, a
questão da formação educacional em tempos de
comunicação midiática e da realidade fundada
nos avanços da tecnologia. Nesse sentido, a análise
reflexiva do curso enfatizará a própria realidade da
nossa experiência cultural, dirigindo
interrogações precisas ao mundo contemporâneo,
como por exemplo: qual o intervalo de tempo que pode ser
estabelecido como definidor do contemporâneo? Que novas
formas de construção de saberes se anunciam com base
na cibercultura? O que é ser leitor e escritor em tempos de
novas tecnologias? A sociedade brasileira está preparada
para receber e participar das novas tecnologias? A escola como
grande mediadora dos conhecimentos poderá contribuir de que
forma no desenvolvimento das tecnologias intelectuais? Qual a
conveniência da escrita em tempos de novas tecnologias? Se o
grande problema econômico do nosso tempo reside em
transformar o conhecimento em conhecimento codificado,
convertendo-o em mensagem que possa ser manipulada como
informação, como definir, então, a
operação que consiste em plasmar o conhecimento sobre
um suporte técnico? Considerando que leitura e escrita
são processos complementares, e se a leitura não
é uma atitude passiva, pois não se reduz a uma
simples decodificação de sinais gráficos, como
então estimular uma atividade de reconstrução
de sentidos por meio da leitura? Se escrever é um ato de
partilha da palavra, afinal, para quem e para quê escrevemos
na escola? Como promover a inclusão digital e
equiparação de oportunidades para a
população brasileira? Como discutir e negociar o grau
de velocidade da informatização da sociedade, a
reciclagem do trabalhador profissional da educação e
a alfabetização em informática, tarefas chaves
que se desenham no futuro do nosso país? Com base em tais
perguntas, o presente curso pretende fornecer — como
já mencionado em “objetivos específicos”
— subsídios teóricos para o tratamento de tais
questões.
Por fim, o curso pretende auxiliar o aluno na
confecção final de um projeto de pesquisa. Para
tanto, os alunos receberão orientação, visando
a elaboração de projeto de pesquisa, durante os meses
de Julho, Outubro, Novembro e Dezembro de 2002, na disciplina
“Orientação de Projeto de Pesquisa”, que
será distribuída entre todos os docentes em
conformidade com as áreas de pesquisas eleitas previamente
pelos alunos-orientandos.
*Projeto elaborado pelo Prof. Dr.
Sílvio Medeiros -
Coordenador do Curso
Campinas, é dezembro de
2001.