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HEGEL
ReLer: G.W.Friedrich Hegel
A
Revolução Francesa (1789) foi, para o filósofo
alemão G.W.Friedrich Hegel [1770-1831], um momento decisivo
da história universal, por assegurar a
realização da liberdade humana. A história, do
ponto de vista de Hegel, havia atingindo sua meta, isto é, a
história chegara ao fim. Na verdade, o que Hegel anunciava
era a morte de uma classe social (a aristocracia européia),
e não a morte da história.
Na concepção filosófica
hegeliana, a liberdade implica a realização da
razão, isto é, o homem, no sistema de pensamento
hegeliano, só pode desenvolver suas potencialidades caso o
mundo esteja dominado por uma vontade racional totalizadora. Nesse
caso, o verdadeiro sujeito da história, para Hegel, é
o espírito universal, jamais o indivíduo. Em
páginas da obra “A razão na história:
introdução à filosofia da história
universal”, as palavras do filósofo alemão
assim se expressam:
“O espírito, na história, é um
indivíduo de natureza universal, mas também algo de
determinado, isto é, um povo em geral; e o espírito
com que lidamos, é o espírito do povo [Volkgeist]
(...) o espírito do povo é essencialmente um
espírito particular, mas ao mesmo tempo nada mais é
que o espírito universal absoluto (...) O espírito
universal é o espírito do mundo, tal como se desdobra
na consciência humana. A história universal é o
progresso na consciência da liberdade.”
Noutros termos, a idéia, consoante um
dos principais filósofos do raiar da nossa Modernidade,
sempre triunfa, porque é eterna: ela é o sujeito da
história, chamado por Hegel de “espírito do
mundo”, que se condensa nas ações humanas, nas
tendências, nos esforços ou nas
instituições sociais em geral que encarnam os
interesses da liberdade, isto é, da Razão. Com
efeito, desse prisma, a idéia universal jamais se
expõe ao perigo. Daí a exaltação
hegeliana do sacrifício da felicidade individual ou coletiva
nomeado “astúcia da razão”. Conforme
argumentos de Hegel:
“Pode chamar-se ‘astúcia da razão’
ao seguinte: a razão faz que as paixões atuem por ela
e que aquilo graças ao qual ela chega à
existência se perca e sofra dano. Tal é, com efeito, a
manifestação de que uma parte é nula, e
a outra afirmativa. O particular é quase sempre demasiado
trivial face ao universal; os indivíduos são
sacrificados e abandonados. A Idéia não paga por si o
tributo de ser determinado e da caducidade, mas mediante as
paixões dos indivíduos.”
Por conseguinte, para o racionalismo hegeliano,
o progresso e a liberdade do espírito humano correspondem ao
triunfo da razão encarnada no Estado Moderno, enquanto
organização que se sobrepõe a todas culturas,
sobretudo às passadas, pois, consoante Hegel, onde
não há progresso (o que não exclui lutas,
conflitos ou, até mesmo, a desumanidade das guerras!!), a
decadência e a estagnação se instalam.
Tratando-se de Hegel um dos expoentes da
Filosofia Moderna ou um dos fundadores das concepções
que alicerçam o Estado Moderno, não nos parece
excessivamente estranha e paradoxal tal maneira de pensar?!
Certamente, visto que, até o ponto que alcançamos
nesta nossa breve reflexão, pudemos constatar que a
filosofia hegeliana permite justificar ou abolir todas as
injustiças praticadas no passado em prol da
“idéia de progresso”! que, aliás,
perpassa todo o espólio hegeliano.
Diante do exposto acima, perguntamos: quais
são, afinal, os desdobramentos da concepção de
Estado hegeliana? Como a referida filosofia se explicita no
processo pedagógico, já que a reflexão
filosófica tem por tarefa pensar o universal? Qual é,
afinal, a configuração do Estado hegeliano?
Na verdade, é a síntese do Estado
antigo (a conhecida e idealizada “bela totalidade” da
cidade grega) — destituída de parâmetros
críticos — e do Estado burguês moderno (regido
pela economia liberal que, deixando os indivíduos livres,
consegue realizar-se no jogo de suas liberdades). Nesse sentido, o
Estado concebido como livre jogo das vontades individuais
tornou-se, com Hegel [1770-1831], a grande descoberta do pensamento
filosófico-político moderno. Atendendo à
mentalidade do ideal moderno, o Estado coroa a universalidade da
perfeita liberdade e da independência entre os
indivíduos por meio dos grandes homens que encarnam a
vontade geral, impondo-a ao povo. Levando em
consideração os antagonismos procedentes da esfera
econômica, Hegel insistirá que o Estado Moderno
é suficientemente forte para enfrentar qualquer tipo de
divisão.
Por outro lado, ainda no interior do idealismo
clássico alemão, e anteriormente a Hegel, Emannuel
Kant [1724-1804] indagara sobre as possibilidades do conhecimento,
inaugurando, com isso, uma teoria da percepção;
noutras palavras: se um objeto se dá, ele tem de ser
percebido antes de ser conceito. Hegel, por sua vez, perguntando
como toda a experiência humana é possível,
responde que a “Fenomenologia do Espírito”
(1807) é a própria evolução da
consciência no interior do processo histórico. Assim,
a realidade efetiva do sujeito vai ficar dependendo da
consciência de si; o sujeito que se apreende a si mesmo, se
apreende como conceito: A PESSOA TEM QUE SER UM CONCEITO
EXISTENTE, enfatiza Hegel, desde que o sujeito seja pensado como
“Geist” (Espírito), que seja visto pelo que ele
sabe dele mesmo. Essa “consciência de si” vai
definir o hegelianismo. No entanto, Hegel age em dois planos: o da
consciência individual (plano pedagógico) e o do
progresso da consciência interior do pensamento (plano
histórico). Desse modo, o homem deve se fazer na
razão (“Vernunft”); o “Eu” deve ser
“em si” toda a realidade, e só se pode
auto-afirmar no fim do processo dialético e
histórico. Assim, o que interessa a Hegel é a
historicidade da vida do Espírito. Ao longo de toda essa
conquista de si, a qual implica o desenvolvimento da
religião, do trabalho, da arte, da cultura, da
política etc.; para que haja história, cujo
desenrolar contínuo alcança o Saber Absoluto,
é preciso que o Espírito se eduque a partir do seu
próprio conceito.
Tendo em conta esse vasto e complexo campo
argumentativo, a Pedagogia adquire um lugar muito limitado no
interior do sistema filosófico hegeliano. Por meio de
algumas palavras, assim ela se resume: o Espírito só
se torna livre, quando se torna mundo da liberdade, isto é,
História. Nesse caso, a verdadeira vida da individualidade
é morrer para a Natureza; é negar-se, a fim de ser
vida universal: “La mort de l’individu est
causée par son être même” (a morte do
indivíduo é causada pelo seu próprio ser),
assim determina o parágrafo 375 da
“Encyclopédie des Science Philosophiques” de
Hegel. No entanto, entre as diversas possibilidades de se perceber
com maior alcance o conteúdo pedagógico latente na
filosofia de Hegel, algumas encontram-se — apesar do
caráter fragmentado — nos escritos que reúnem
os discursos que o filósofo alemão pronunciou na
qualidade de reitor do “Ginásio de Nuremberga". O
“Discurso sobre Educação” reúne
aquilo que há de mais expressivo em suas reflexões
pedagógicas. Ademais, o conjunto desses escritos nos mostram
a unidade existente entre o discurso filosófico hegeliano e
a prática pedagógica. Da variedade dos referidos
discursos, colhemos uma das passagens, visando a
sustentação dos nossos argumentos. As palavras de
Hegel são as seguintes:
“Porque o tempo da juventude é sobretudo o tempo de
caminhar em frente, assim, para ela, um ano de estudo que fica para
trás é uma importante nova etapa. Aqueles que para
isso se tornaram aptos, passam para uma nova classe, uma
ocupação mais elevada e novos professores. Esta
é uma recompensa geral, que eles tiveram de
‘merecer’ pela sua atenção e
aplicação e eu vou-me alongar alguns minutos neste
ponto. Não se dá, efetivamente, o caso, de, na
passagem para outra classe, os alunos avançarem,
inevitavelmente, depois de decorrido um certo período de
tempo, para um nível superior, tenham-se comportado seja
como for, à sua vontade, tenham ou não feito
progressos. Os professores, se pensassem apenas em
‘si’, ver-se-iam de boa vontade libertos daqueles cuja
falta de atenção e aplicação, assim com
outros comportamentos impróprios, tiveram de combater ao
longo de um ano. Mas considerações mais elevadas
impõe-lhes o dever de, contra o que lhes seria mais
agradável, contra as expectativas dos alunos e em certa
medida dos pais, só dar a passagem em
conseqüência do mérito. ‘Aqueles que querem
estudar, dedicam-se, de preferência, ao serviço do
Estado. Os estabelecimentos de ensino públicos são
sobretudo viveiros de servidores do Estado; têm, perante o
governo de não lhe fornecerem elementos inaptos...’
” . (sic!)
Momento de reflexão -
Prezado leitor: poucas coisas desempenharam um papel tão
fatal, tanto na história do pensamento como no campo dos
estudos político-econômicos, quanto à
auto-afirmação do progresso humano na
história, elaborada por Hegel, pois, o caminho que deve
levar ao “paraíso terrestre” (a
realização da história que promete o fim da
história) lança na “lata de lixo da
história” todas as coisas consideradas obsoletas,
visto que, consoante os princípios filosóficos
hegelianos, somente com o surgimento do Estado Moderno tem
início a verdadeira história. Portanto, tudo aquilo
que precede a constituição deste Estado, não
é história!!
Finalmente, caro leitor, creio que não
exista obra mais anti-poética e composta por um vigoroso (e
perigoso!) componente totalitário que a de Hegel, com sua
apologia da morte como condição geral da
realização da Razão na História.
PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Doutor em Filosofia e História da Educação
pela UNICAMP.
Campinas, é primavera de 2005.
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
23/11/2005
Código do texto: T75226
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