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A VERDADE DO PAN  (ReLer (artigos)) escrito em quinta 19 julho 2007 16:16

 

 

 

A VERDADE DO PAN  

Trechos de uma reportagem publicada na Revista “Caros Amigos” de junho de 2007:  

 

Você sabia que...A figurinista da equipe olímpica brasileira, Mônica Conceição, é cunhada de Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro...Muita coincidência, não ? 

 

Você sabia que...Marcos Vinícius Freire, representante do Brasil na AON Seguros (empresa que faz o seguro das delegações do próprio COB), é sócio de Alexandre Accioly ( aquele que é dono de tudo ). E que a empresa que organiza a festa de abertura e de encerramento (contratada sem licitação) é ligada a Accioly... 

 

Você sabia que...Não houve licitação para contratar a empresa responsável pela segurança do Pan. Para isso foi usado o seguinte argumento : “É assunto sigiloso, não podemos expor”. Foi contratada uma empresa que agora anuncia que não terá tempo para fazer tudo o que deveria ser feito... 

 

Você sabia que...A agência de turismo contratada para prestar serviços ao COB é de Cristina Lowndes, grande amiga de Nuzman, em uma licitação até hoje contestada... 

 

Você sabia que...A empresa contratada para idealizar (apenas idealizar, mais nada) as medalhas do Pan ganhou o direito de fazer isso numa mera carta-convite, auferindo 720 mil reais em um contrato de três anos... 

 

Você sabia que...O Pan não é do COB, e sim da CO-Rio, uma empresa PARTICULAR criada para organizar o evento. Ela paga a prefeitura, o Min. do Esporte, o governo do Estado e simplesmente organiza o evento. Sabe quem abriu essa empresa ? Carlos Arthur Nuzman. Abriu só para isso. Ele é o presidente do COB e da CO-Rio... 

 

Você sabia que...O projeto inicial para o PAN estava orçado em 720 milhões de reais e hoje chega a quase 3 bilhões. Ganharam a candidatura com um plano mentiroso, subdimensionado em termos de custo dizendo que a iniciativa privada iria bancar. O governo (com o nosso dinheiro) disse : “Tudo bem, quer fazer o Pan, nós apoiamos, mas só vamos colocar um certo x de dinheiro”. Feito foi... ...dois anos depois bateram à porta do governo e falaram : “Ó, a iniciativa privada não veio, não estamos conseguindo captar e se vocês não ajudarem vai ser uma vergonha, vai pegar mal para a imagem do Brasil. O que o governo fez ? Injetou nosso dinheiro para obras superfaturadas do PAN. Aonde está indo neste exato momento parar grande parte do nosso dinheiro público ? Nas mãos desse pequeno grupo “gerenciador” do evento... 

 

Você sabia que...Uma das construtoras que participaram das obras da vila pan-americana não tinha capital suficiente para participar da licitação. O que fez Nuzman ? Convenceu o ministro Agnelo Queiroz a convencer Lula a criar uma medida provisória antecipando o aluguel da vila. Exatamente no valor do capital necessário para registrar uma empresa na licitação. Essa empresa recebeu esse dinheiro, registrou o capital e ganhou a licitação. É mole ou quer mais ?  

 

Você sabia que...Após o Pan não se sabe o que será feito com cada instalação, porém muitas servirão para atender a velhas e ilegais reivindicações da iniciativa privada para mexer em regiões do Rio que são tombadas ou são áreas de proteção ambiental. Um exemplo : “queremos fazer um shopping na Marina da Glória, então faremos lá umas obras para as provas de iatismo e já deixamos tudo pronto para depois a iniciativa privada tomar conta e construir o seu shopping”. É tudo jogada. 

 

Você sabia que...O Pan vai bancar passagens para cerca de mil cartolas, tudo custeado pelo governo federal (nosso dinheiro) num total de 22 milhões de reais...e que este custeamento foi fundamental para que o Rio de Janeiro vencesse a disputa com San Antonio (EUA) para sediar estes jogos...imagina se os americanos iriam pagar passagem para cartolas...Eu, você, o Seu Manoel da esquina é quem iremos pagar... 

 

Para encerrar... Você sabia que uma multinacional francesa especializada em catering (alimentação para eventos) recebeu uma proposta indecorosa de um membro do COB : “Olha, escolhemos a sua empresa para fornecer a alimentação, 20% por fora, topas ?” Eis a resposta do presidente da empresa francesa : “Recebi essa proposta. É um bom negócio, mas acho que nós não devemos fazer pois não quero ter cumplicidade”. Precisamos divulgar estas informações ao máximo. Envie para todos da sua lista. Multiplique esta mensagem pela grande rede, visto que o Jornal Nacional, o Globo Esporte, a Band e a Record (emissoras) que tem os direitos de transmissão dos jogos, claro, não irão divulgar estas informações para não espantar seus telespectadores.    

 

(CAROS LEITORES, são por tais razões que insisto:

 

É PRECISO PENSAR ESTE PAÍS A MARTELADAS! 

 

Prof. Dr. Sílvio Medeiros

Campinas, é inverno de 2007.)

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ReLer ITALO CALVINO  (ReLer (artigos)) escrito em terça 01 maio 2007 14:45

      

                      Foto de Italo Calvino                      

                    

                            ReLer ITALO CALVINO

               


     A Modernidade revela um mundo sempre sujeito ao fluxo, em que nada é durável. Um mundo em que “tudo que é sólido desmancha no ar” — frase tomada de empréstimo do vocabulário marxista —, para ficarmos com o título de um dos estudos de Marshall Berman (Companhia das Letras, 1986). Nesse sentido, é próprio da Modernidade, regida pelo signo da novidade, expulsar o antigo continuamente.
     Nesse caso, a Modernidade define-se, então, pelo distanciamento que toma em relação ao passado. Noutras palavras, pela vontade obsessiva em aprofundar a dicotomia entre o velho e o novo ou entre o antigo e o moderno.
     Como tal fato repercute na esfera da literatura?
     “O que parece estar em questão é a existência da poesia, esta arte integral da palavra, enquanto força semântica capaz de detonar significados novos, formas novas do ‘dizer’ que interfiram no mundo real procurando despertá-lo de seu automatismo, cada vez mais celerado via tecnologia...” enfatiza Carlos Ávila (1993) ao resenhar a série das Conferências Americanas proferidas pelo escritor cubano-italiano Italo Calvino. E é precisamente, neste ponto, que a nossa questão, no presente ensaio, se instala, ou seja: é possível entender o nosso tempo, lendo os clássicos? Ou indo a níveis que procuram atingir a própria linguagem e parafraseando Calvino: “Por que ler os clássicos em vez de concentrar-se em leituras que nos façam entender mais a fundo o nosso tempo?”
     Em livro composto de 35 ensaios —o título é “Por que ler os clássicos” (Companhia das Letras, 1993) e, paradoxalmente, veio a tornar-se um clássico sobre a crise da literatura neste final de século XX e início do XXI —, cuja finalidade é reforçar os eixos de referência literários, antigos e modernos, uma, dentro de um elenco de brilhantes respostas aventado pelo escritor e crítico literário Italo Calvino, destaca-se a de que cada sociedade está edificada sobre um poema. Tomemos, como exemplo, a apresentação que Calvino faz da “Odisséia”, de Homero, no ensaio “As Odisséias na Odisséia”. Por conseguinte, pensamos tratar-se, também, de uma pergunta típica do historiador que se permite ir além das limitações impostas pelos cânones da historiografia, na medida em que não exclui a visão literária do seu horizonte histórico. Como bem observa o historiador Paul Veyne (1985): “... em nossos dias, os raros estudiosos que, como Pound, se interessam por um Propércio, fazem-no por razões que são as do nosso século e não pelas da poética antiga...”, com a finalidade de ir mais longe na beleza e na realidade. Neste ponto, conferimos legitimidade ao olhar interdisciplinar do historiador Walter Benjamin que, em suas consagradas teses “Sobre o conceito da história” (1940), concebe a história literária como um momento da história geral ou como uma disciplina histórica. Portanto, é do interior da configuração de uma historiografia, que permite o auxílio da imaginação literária para ampliar a busca da realidade histórica, que devemos lançar as perguntas do nosso tempo para os textos clássicos. Outras finalidades? Não só para anuirmos com Calvino em algumas de suas propostas para a definição da problemática, como, por exemplo, quando o referido escritor afirma, em bom tom, que “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo...’ e nunca ‘Estou lendo’...”; mas também na tentativa, que isso implica, de recuperar os elementos perdidos ou reprimidos da cultura ocidental; perdas estas, aliás, provocadas pela recusa do passado no contemporâneo. E mais: para entender o nosso tempo, e também para desafiar os discursos predominantes construídos mediante o culto ritualístico do futuro, característica fundamental da nossa mais presente Modernidade. Nesse caso, entendemos, junto a Calvino, que somente a forma poética possui a propriedade de liberar a linguagem, redescobrindo, desse modo, a figura do mundo na dispersão dos fragmentos do passado.
     Tomando os antigos gregos como modelo, Cornélio Castoriadis, pensador contemporâneo, no primeiro volume de “As Encruzilhadas do Labirinto” (Paz e Terra, 1987), sublinha: “A Grécia é o ‘locus’ social-histórico onde foram criadas a democracia e a filosofia e onde se encontram, por conseguinte, nossas próprias origens”. No entanto, não seria exato afirmar que os antigos só se preocuparam com a liberdade política, na medida em que eles conheceram, também, a liberdade de ser na política pelo viés da literatura. Com efeito, o mundo grego reconhecia na narrativa mitológica uma força de sabedoria que curava e restaurava os feridos. Os deuses gregos participavam dos destinos da pólis em comunhão com os mortais. Nesse sentido, a razão não eliminava a religião na antiga Grécia. A Antigüidade conheceu tentativas desse tipo. E nós, modernos? Becos sem saída? Ouçamos o que tem a dizer o antigo filósofo grego nas páginas da “Poética”: “Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois bem poderiam ser postos em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) — diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular.” (Aristóteles).
     Do fundo dos tempos até a Modernidade, propõe o escritor Italo Calvino — que manteve a fé na palavra escrita — na introdução das suas fundamentais propostas para os próximos mil anos: “O sinal talvez de que o milênio esteja para findar-se é a freqüência com que nos interrogamos sobre o destino da literatura e do livro na era tecnológica dita pós-industrial (...) Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar...”. Com essa declaração de confiança na poética, e com certa dose de ironia, inicia-se o derradeiro livro de Italo Calvino: “Seis propostas para o próximo milênio” (Companhia das Letras, 1990).
     Na primeira conferência, sobre a ‘Leveza’, Calvino argumenta que a leveza é uma conquista. Se tudo no mundo nos leva para baixo, então a leveza é o ato de dizer não ao peso. Noutras palavras, devemos enfrentar o peso com dureza, além de combatê-lo. Na verdade, Calvino, nas páginas deste belo ensaio, procura “aliviar” o verbo, eliminando os acidentes que o obscurecem. Nesta exemplar conferência, Calvino contrapõe a leveza ao peso, ou seja, devemos considerar o mundo sob uma outra ótica, que busque a redescoberta do “dizer”, em oposição ao excesso sígnico da linguagem banalizada do dias atuais, a qual silencia, emudece o poeta. Calvino repõe, belamente, Paul Valéry, nos seguintes termos: “É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma”. Falando ao homem que virá e também ao homem que é, após preludiar sobre obras de ficção — além da literatura universal, interessa, também, a Calvino: a filosofia, a ciência e a religião — e sobre as qualidades da escritura literária alcançáveis por meio da ‘Rapidez’, da ‘Exatidão’ e da ‘Visibilidade’, prossegue Calvino em sua derradeira conferência, isto é, ‘Multiplicidade’: “No momento em que a ciência desconfia das explicações gerais e das soluções que não sejam setoriais e especialísticas, o grande desafio para a literatura é o saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos numa visão pluralística e multifacetada do mundo.”
     Ao finalizar a série desse autêntico Testamento Literário, ainda na derradeira conferência, ‘Multiplicidade’, Calvino enfatiza que “Entre os valores que gostaria fossem transferidos para o próximo milênio está principalmente este: o de uma literatura que tome para si o gosto da ordem intelectual e da exatidão, a inteligência da poesia juntamente com a da ciência e da filosofia.”
     A sexta conferência que Italo Calvino havia preparado, isto é,  ‘Consistência’, não foi completada, pois o escritor foi surpreendido pela morte.


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006


SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 27/01/2006
Código do texto: T104517

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
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ReLer HEGEL  (ReLer (artigos)) escrito em sexta 27 abril 2007 17:48

Foto de HEGEL 

ReLer: G.W.Friedrich Hegel

    A Revolução Francesa (1789) foi, para o filósofo alemão G.W.Friedrich Hegel [1770-1831], um momento decisivo da história universal, por assegurar a realização da liberdade humana. A história, do ponto de vista de Hegel, havia atingindo sua meta, isto é, a história chegara ao fim. Na verdade, o que Hegel anunciava era a morte de uma classe social (a aristocracia européia), e não a morte da história.
     Na concepção filosófica hegeliana, a liberdade implica a realização da razão, isto é, o homem, no sistema de pensamento hegeliano, só pode desenvolver suas potencialidades caso o mundo esteja dominado por uma vontade racional totalizadora. Nesse caso, o verdadeiro sujeito da história, para Hegel, é o espírito universal, jamais o indivíduo. Em páginas da obra “A razão na história: introdução à filosofia da história universal”, as palavras do filósofo alemão assim se expressam:
     
“O espírito, na história, é um indivíduo de natureza universal, mas também algo de determinado, isto é, um povo em geral; e o espírito com que lidamos, é o espírito do povo [Volkgeist] (...) o espírito do povo é essencialmente um espírito particular, mas ao mesmo tempo nada mais é que o espírito universal absoluto (...) O espírito universal é o espírito do mundo, tal como se desdobra na consciência humana. A história universal é o progresso na consciência da liberdade.”
     
     Noutros termos, a idéia, consoante um dos principais filósofos do raiar da nossa Modernidade, sempre triunfa, porque é eterna: ela é o sujeito da história, chamado por Hegel de “espírito do mundo”, que se condensa nas ações humanas, nas tendências, nos esforços ou nas instituições sociais em geral que encarnam os interesses da liberdade, isto é, da Razão. Com efeito, desse prisma, a idéia universal jamais se expõe ao perigo. Daí a exaltação hegeliana do sacrifício da felicidade individual ou coletiva nomeado “astúcia da razão”. Conforme argumentos de Hegel:
     
“Pode chamar-se ‘astúcia da razão’ ao seguinte: a razão faz que as paixões atuem por ela e que aquilo graças ao qual ela chega à existência se perca e sofra dano. Tal é, com efeito, a manifestação  de que uma parte é nula, e a outra afirmativa. O particular é quase sempre demasiado trivial face ao universal; os indivíduos são sacrificados e abandonados. A Idéia não paga por si o tributo de ser determinado e da caducidade, mas mediante as paixões dos indivíduos.”
     
     Por conseguinte, para o racionalismo hegeliano, o progresso e a liberdade do espírito humano correspondem ao triunfo da razão encarnada no Estado Moderno, enquanto organização que se sobrepõe a todas culturas, sobretudo às passadas, pois, consoante Hegel, onde não há progresso (o que não exclui lutas, conflitos ou, até mesmo, a desumanidade das guerras!!), a decadência e a estagnação se instalam.
     Tratando-se de Hegel um dos expoentes da Filosofia Moderna ou um dos fundadores das concepções que alicerçam o Estado Moderno, não nos parece excessivamente estranha e paradoxal tal maneira de pensar?! Certamente, visto que, até o ponto que alcançamos nesta nossa breve reflexão, pudemos constatar que a filosofia hegeliana permite justificar ou abolir todas as injustiças praticadas no passado em prol da “idéia de progresso”! que, aliás, perpassa todo o espólio hegeliano.
     Diante do exposto acima, perguntamos: quais são, afinal, os desdobramentos da concepção de Estado hegeliana? Como a referida filosofia se explicita no processo pedagógico, já que a reflexão filosófica tem por tarefa pensar o universal? Qual é, afinal, a configuração do Estado hegeliano?
     Na verdade, é a síntese do Estado antigo (a conhecida e idealizada “bela totalidade” da cidade grega) — destituída de parâmetros críticos — e do Estado burguês moderno (regido pela economia liberal que, deixando os indivíduos livres, consegue realizar-se no jogo de suas liberdades). Nesse sentido, o Estado concebido como livre jogo das vontades individuais tornou-se, com Hegel [1770-1831], a grande descoberta do pensamento filosófico-político moderno. Atendendo à mentalidade do ideal moderno, o Estado coroa a universalidade da perfeita liberdade e da independência entre os indivíduos por meio dos grandes homens que encarnam a vontade geral, impondo-a ao povo. Levando em consideração os antagonismos procedentes da esfera econômica, Hegel insistirá que o Estado Moderno é suficientemente forte para enfrentar qualquer tipo de divisão.
     Por outro lado, ainda no interior do idealismo clássico alemão, e anteriormente a Hegel, Emannuel Kant [1724-1804] indagara sobre as possibilidades do conhecimento, inaugurando, com isso, uma teoria da percepção; noutras palavras: se um objeto se dá, ele tem de ser percebido antes de ser conceito. Hegel, por sua vez, perguntando como toda a experiência humana é possível, responde que a “Fenomenologia do Espírito” (1807) é a própria evolução da consciência no interior do processo histórico. Assim, a realidade efetiva do sujeito vai ficar dependendo da consciência de si; o sujeito que se apreende a si mesmo, se apreende como conceito:  A PESSOA TEM QUE SER UM CONCEITO EXISTENTE, enfatiza Hegel, desde que o sujeito seja pensado como “Geist” (Espírito), que seja visto pelo que ele sabe dele mesmo. Essa “consciência de si” vai definir o hegelianismo. No entanto, Hegel age em dois planos: o da consciência individual (plano pedagógico) e o do progresso da consciência interior do pensamento (plano histórico). Desse modo, o homem deve se fazer na razão (“Vernunft”); o “Eu” deve ser “em si” toda a realidade, e só se pode auto-afirmar no fim do processo dialético e histórico. Assim, o que interessa a Hegel é a historicidade da vida do Espírito. Ao longo de toda essa conquista de si, a qual implica o desenvolvimento da religião, do trabalho, da arte, da cultura, da política etc.; para que haja história, cujo desenrolar contínuo alcança o Saber Absoluto, é preciso que o Espírito se eduque a partir do seu próprio conceito.
     Tendo em conta esse vasto e complexo campo argumentativo, a Pedagogia adquire um lugar muito limitado no interior do sistema filosófico hegeliano. Por meio de algumas palavras, assim ela se resume: o Espírito só se torna livre, quando se torna mundo da liberdade, isto é, História. Nesse caso, a verdadeira vida da individualidade é morrer para a Natureza; é negar-se, a fim de ser vida universal: “La mort de l’individu est causée par son être même” (a morte do indivíduo é causada pelo seu próprio ser), assim determina o parágrafo 375 da “Encyclopédie des Science Philosophiques” de Hegel. No entanto, entre as diversas possibilidades de se perceber com maior alcance o conteúdo pedagógico latente na filosofia de Hegel, algumas encontram-se — apesar do caráter fragmentado — nos escritos que reúnem os discursos que o filósofo alemão pronunciou na qualidade de reitor do “Ginásio de Nuremberga". O “Discurso sobre Educação” reúne aquilo que há de mais expressivo em suas reflexões pedagógicas. Ademais, o conjunto desses escritos nos mostram a unidade existente entre o discurso filosófico hegeliano e a prática pedagógica. Da variedade dos referidos discursos, colhemos uma das passagens, visando a sustentação dos nossos argumentos. As palavras de Hegel são as seguintes:

“Porque o tempo da juventude é sobretudo o tempo de caminhar em frente, assim, para ela, um ano de estudo que fica para trás é uma importante nova etapa. Aqueles que para isso se tornaram aptos, passam para uma nova classe, uma ocupação mais elevada e novos professores. Esta é uma recompensa geral, que eles tiveram de ‘merecer’ pela sua atenção e aplicação e eu vou-me alongar alguns minutos neste ponto. Não se dá, efetivamente, o caso, de, na passagem para outra classe, os alunos avançarem, inevitavelmente, depois de decorrido um certo período de tempo, para um nível superior, tenham-se comportado seja como for, à sua vontade, tenham ou não feito progressos. Os professores, se pensassem apenas em ‘si’, ver-se-iam de boa vontade libertos daqueles cuja falta de atenção e aplicação, assim com outros comportamentos impróprios, tiveram de combater ao longo de um ano. Mas considerações mais elevadas impõe-lhes o dever de, contra o que lhes seria mais agradável, contra as expectativas dos alunos e em certa medida dos pais, só dar a passagem em conseqüência do mérito. ‘Aqueles que querem estudar, dedicam-se, de preferência, ao serviço do Estado. Os estabelecimentos de ensino públicos são sobretudo viveiros de servidores do Estado; têm, perante o governo de não lhe fornecerem elementos inaptos...’ ” . (sic!)

Momento de reflexão -
Prezado leitor: poucas coisas desempenharam um papel tão fatal, tanto na história do pensamento como no campo dos estudos político-econômicos, quanto à auto-afirmação do progresso humano na história, elaborada por Hegel, pois, o caminho que deve levar ao “paraíso terrestre” (a realização da história que promete o fim da história) lança na “lata de lixo da história” todas as coisas consideradas obsoletas, visto que, consoante os princípios filosóficos hegelianos, somente com o surgimento do Estado Moderno tem início a verdadeira história. Portanto, tudo aquilo que precede a constituição deste Estado, não é história!!
     Finalmente, caro leitor, creio que não exista obra mais anti-poética e composta por um vigoroso (e perigoso!) componente totalitário que a de Hegel, com sua apologia da morte como condição geral da realização da Razão na História.


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Doutor em Filosofia e História da Educação pela UNICAMP.
Campinas, é primavera de 2005.























SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 23/11/2005
Código do texto: T75226

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ReLer MARCEL PROUST  (ReLer (artigos)) escrito em sexta 20 abril 2007 23:11

MARCEL PROUST  

  

  

  

  

               
     Na antiga Grécia letrada, depois do aedo (poeta-cantor) Homero (“Odisséia” e “Ilíada”) ou da Grécia arcaica – mergulhada na cultura oral -, o grego Heródoto [484-425 a.C.], considerado o primeiro “historiador” do mundo ocidental, nas linhas inaugurais de sua “História” define sua tarefa como uma prática narrativa para salvar a memória. Ou ainda, nas palavras da filósofa Jeanne Marie Gagnebin: como uma luta contra o esquecimento “para que a memória dos acontecimentos não se apague entre os homens com o passar do tempo, e para que feitos maravilhosos e admiráveis dos helenos e dos bárbaros não deixem de ser lembrados” (História, Livro I).
     Um dos temas mais recorrentes na obra do filósofo alemão Walter Benjamin [1892-1940], intelectual da modernidade, é o declínio da arte narrativa. Em seu ensaio “O Narrador”, Benjamin explica que, uma vez substituída por novas formas de expressão — o romance e a informação jornalística moderna —, a arte de contar histórias declinou, chegando quase às vias de extinção. Com o conjunto de transformações promovido pelo sistema capitalista, a arte de contar a mesma história de geração em geração cedeu lugar às novidades, pois, no mundo moderno, o declínio da experiência (relacionada com a memória, com a tradição cultural) corresponde a uma intensificação da vivência (relacionada apenas com a mera vivência individual). Para Benjamin “ o narrador é um homem que sabe dar conselhos. Mas, se ‘dar conselhos’ parece hoje algo antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis (...) o conselho tecido na substância viva da existência tem um nome: sabedoria. A arte de narrar está definhando porque a sabedoria — o lado épico da verdade — está em extinção.”  O fio entretecido na matéria da vida se rompeu: conselho e sabedoria fazem falta. Conseqüentemente, com o gradativo empobrecimento da memória, o homem moderno perde o contato com a tradição cultural.
     No dizer de Benjamin — tradutor do romancista francês Marcel Proust para o alemão —, o romance proustiano “Em busca do tempo perdido” é paradigmático para a questão do resgate da memória pela literatura na modernidade. A referida obra, em sete volumes (na tradução brasileira), que dá a importância literária a Proust, distancia-se da concepção consagrada do romance como forma literária acabada, cuja história se dissolve num fim determinado ansiosamente aguardado pelo leitor, para que, a partir daí, ele (o leitor) possa conferir um sentido à história narrada. Indo ao contrário dos romances tradicionais, na obra de Marcel Proust não se encontra uma ação comum que sirva de fio condutor do primeiro ao último volume de “Em busca do tempo perdido”, nem mesmo um desfecho, coroando as soluções dos fatos encontradas no percurso da narrativa. Navegando nesse “Nilo da linguagem”, consoante Benjamin, o narrador proustiano, movido pela memória involuntária (memória afetiva ou depósito vivo de emoções) - acionada pelo acaso -, é capaz de resgatar memórias significantes, compostas de elementos inacabados, atualizando-as. Nessas “ressurreições da memória”, Proust procura ressaltar a importância da interferência do acaso no momento em que a memória involuntária se manifesta: “É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto (...) só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.”
     Ao contrário da memória voluntária, que está sob o comando da inteligência, a memória involuntária depende de um acaso providencial, como a visão proustiana de um bolinho ensopado em chá. A irrupção de toda uma série de lembranças acionada por um “toque de sirenes” — como o perigoso canto das Sereias que tentou induzir o herói homérico Odisseu ao esquecimento (Odisséia, de Homero - Canto XII) — traz, impetuosamente, para o presente, todo um passado que jazia no esquecimento e já não tinha significado algum. A quem se dispuser a ler Marcel Proust, no primeiro volume intitulado “No caminho de Swann” o narrador proustiano “escuta” o sinete do tempo. Nesse encontro com o paraíso perdido, passo a palavra para o narrador de “Em Busca do tempo perdido”:
     
“Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas de bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento o que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de causa. (...) Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? (...) E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o pedaço de ‘madeleine’ que nos domingos de manhã em Combray (...) minha tia Léonie me oferecia...”
     
     Depois de longa enfermidade, e uma vez reconhecida a incapacidade de escrever, o narrador proustiano, no aroma do chá e no barulho da colherinha, descobre os poderes da memória involuntária e da escritura; toque mágico de um sortilégio que confere a Marcel Proust o poder de escrever “Em busca do tempo perdido” a partir da primavera de 1909, e que preencherá todo o resto de sua vida.
     Por fim, com sua obra filosófica de caráter fragmentado e interdisciplinar, Walter Benjamin transita com ardor crítico e sem constrangimento pelo interior da crise da cultura moderna. No ensaio benjaminiano “A imagem de Proust” palpitam questões a respeito da memória, da história, da literatura, da filosofia que se dirigem para uma tensão-conceito de modernidade. Longe de acentuar tons melancólicos e nostálgicos, Benjamin insiste em apontar de forma otimista, mesmo em tempos de definhamento da arte de narrar, que a ocorrência das reminiscências existe — pelo menos potencialmente — em cada homem instalado na oposição central entre o presente vazio e desprovido de memória da modernidade hodierna e o tempo pleno e resplandecente de um lembrar prodigioso.




PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Doutor em Filosofia e História da Educação pela UNICAMP.
Campinas, é primavera de 2005








SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 01/12/2005
Código do texto: T79748

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ReLer VIRGÍLIO  (ReLer (artigos)) escrito em sábado 31 março 2007 16:59

  

 

 

 

 

   No ensaio “O que é um clássico?” [1944], T.S.Eliot — poeta e ensaísta norte-americano — descreve Virgílio [71 a 19 a.C.] como o clássico de toda a Europa. Isto não quer dizer que Eliot o considere o maior poeta europeu, mas que Virgílio — autor da “Eneida”, das “Geórgicas” e das “Bucólicas” — ocupa o papel central dentro do cânone da literatura européia por mais tempo que qualquer outro escritor. A significação de Virgílio estende-se para além de sua influência sobre os outros escritores. Com efeito, seu épico, a “Eneida”, produz significações que vão além da literatura, pois sua influência não se restringiu somente ao universo pré-cristão; ela se estendeu soberanamente, produzindo, certamente, o melhor fruto da Idade Média: Dante Alighieri [1265-1321] — poeta do cristianismo e tido, também, como o pai da poesia italiana —, que lê e venera Virgílio nas páginas da sua “A Divina Comédia”, comparando-o a um profeta e chamando-o de “duca, signore, maestro”, isto é, guia, dono, mestre. Seguem outras palavras de Dante atribuídas a Virgílio: “Na verdade, és meu mestre e meu autor, ao teu exemplo devo, deslumbrado, o belo estilo que é meu só valor.”
   A singularidade da poética virgiliana nasceu da leitura que poeta latino fizera dos antigos poetas gregos. A “Eneida” surge cerca de mil anos depois da “Ilíada” e da “Odisséia”, ambos épicos do aedo (poeta-cantor) grego Homero. Na qualidade de leitor e de continuísta de uma tradição, Virgílio - o novo Homero latino - é considerado como o vates (profeta-poeta) por excelência da Latinidade.
   A trama inicial da épica virgiliana começa no ponto em que se encerra o poema homérico “Ilíada”. O herói central virgiliano é o troiano Enéias: herói piedoso, filho de Anquises e da deusa Vênus — a representante da beleza e do amor na mitologia romana. O poema de Virgílio começa com os últimos acontecimentos da queda de Tróia. Nesse sentido, podemos dizer que a “Eneida” é o poema que canta a épica fundação de Roma — consolidada mediante a união de Enéias com Lavínia, filha do rei Latino. A genialidade de Virgílio está no vínculo que ele criou entre a descendência do herói troiano Enéias e a linhagem dos Césares, uma dinastia muito antiga oriunda da distante Alba Longa — cidade mais antiga que Roma — fundada por Iulo, filho do herói Enéias.
   A “Eneida” foi primeiro composta em prosa. Lentamente Virgílio a converteu em poemas. Os seis primeiros cantos do poema recordam o enredo da “Odisséia” homérica, e os seis últimos cantos recordam o enredo da “Ilíada”. Virgílio concluiu a obra no ano 19 a.C. — último ano de vida do poeta. Quis, então, o poeta, levar a termo uma rigorosa revisão do texto, pois o considerava inacabado. Assim, resolveu visitar algumas regiões da Grécia e do Oriente, pelas quais, segundo lendas mitológicas, teria transitado o herói troiano Enéias a caminho do novo lar — a Itália —, após a fuga de sua Tróia destruída e incendiada pelos gregos. Virgílio visava, com a viagem, recolher dados para finalizar a “Eneida”. Entretanto, o poeta latino, durante a sua odisséia particular, teve a saúde afetada ao contrair uma grave moléstia; moribundo, chegou a Brindisi, na Itália meridional. Sentindo que a morte se aproximava, Virgílio pediu aos amigos Vário e Tuca que queimassem os originais da “Eneida”. Neste ponto, aproveitamos para fazer uma menção ao extraordinário romance-poema “A morte de Virgílio” [1958] do austríaco Hermann Broch. Neste trabalho poético-criativo, Broch evoca e descreve os últimos momentos de Virgílio mediante uma encantadora lírica vazada por uma melancólica prosa narrativa, construída a partir do pungente conflito interior do poeta latino consigo mesmo em seu leito de morte. Colhamos um significativo trecho desse romance-sinfonia (é preciso acentuar que nas páginas de “A morte de Virgílio” palpita de forma intensa, bela e dolorosamente, a inquietação filosófica acerca do sentido da morte):

“... [Virgílio] queria sair em seguida ao ar livre, a qualquer lugar onde ardesse uma fogueira, queria transportar ali a carga dos rolos do manuscrito; (...) em algum lugar, na noite estrelada, as palavras do poema teriam de converter-se em cinzas; o sol não deveria ver a “Eneida”. Esta era sua missão (...) Queimar a ‘Eneida’! ...”

   Além dos cuidados dos amigos do poeta latino, que se opunham à destruição do poema, o imperador romano Augusto proibiu a consumação de tal ato. Virgílio deixou de existir no dia 20 de setembro do ano 19 a.C; morreu antes de ter concluído a “Eneida”, que ele tentou destruir.
   A “Eneida” é um poema de paz e de conciliação. Narra a nobre missão do herói Enéias, cuja finalidade era fundar Roma. A “Eneida” é uma visão poética da história romana, além de uma visão acurada da era augustiana do Império Romano. Como acentua o historiador Pierre Grimal [1972], com os cantos virgilianos, a epopéia sai das brumas da lenda para penetrar na realidade política. Até então, sonhava-se com Roma. A partir de Virgílio é preciso construí-la. Com a “Eneida”, o destino de Roma está justificado. Ademais, como recorda a filósofa alemã Hannah Arendt [Entre o Passado e o Futuro, 1979]:

“A fundação de Roma — ‘tanta molis erat Romanam condere gentem’ (‘tão grande foi o esforço e a labuta para fundar o povo romano’), como Virgílio resume o tema constante da ‘Eneida’, que todo o sofrimento e vaguear atinge o seu final e objetivo ‘dum conderet urbem’ (‘que ele pode fundar a cidade’) — ...”

   ... em contraste acentuado com a concepção de “polis” dos gregos (“onde quer que estejais sereis sempre uma ‘polis’”) . Isto nos mostra como os romanos estavam enraizados ao solo do Lácio, ou melhor, à localidade específica dessa única cidade: Roma. Nesse caso, ler a “Eneida” é constatar que é do solo italiano que a palavra Pátria deriva seu pleno significado.



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS 
Campinas, é primavera de 2005
















SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 04/12/2005
Código do texto: T80669

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