PAOLO E FRANCESCA
de Anselm Feuerbach
E comecei: “Poeta (1), de falar
àqueles dois (2) eu gostaria, certo,
que juntos vão, alígeros, no ar.”
“Espera”, respondeu-me, “que mais perto
cheguem de nós, e indagarás então
do grande amor que neles foi desperto.”
Logo que o vento em nossa direção
os impeliu, gritei: “Seres feridos,
falai conosco de vossa paixão!”
E como pombos que, de amor movidos,
asas tensas, se abatem sobre o ninho,
no ar dos desejos como conduzidos
- assim, deixando os mais pelo caminho,
foram ambos chegando, ao sopro arfante,
sensíveis ao meu grito de carinho:
“Ó ser afetuoso e insinuante,
que nos visita, a nós que derramamos
na terra o nosso sangue degradante;
Se amigo fosse o rei a que faltamos,
rogaríamos dele a tua paz,
pois te condóis do mal que suportamos. (...)
Estávamos um dia por lazer
de Lancelote a bela história lendo,
sós e tranqüilos, nada por temer.
Às vezes um para o outro o olhar erguendo,
nossa vista tremia, perturbada;
e a um ponto fomos, que nos foi vencendo.
Ao ler que, perto, a boca desejada
sorria,e foi beijada pelo amante,
este, de quem não fui mais apartada,
Os lábios me beijou, trêmulo, arfante.
Galeoto (3) achamos nós no livro e autor:
e nunca mais foi a leitura adiante.”
Enquanto aquela sombra o triste amor
lembrava, a outra gemia em desconforto;
e quase à morte eu fui, de tanta dor.
E caí, como cai um corpo morto.
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1. O Poeta é Virgílio, a quem Dante dá este
tratamento. O local é o Inferno, mais especificamente, o
círculo no qual se encontram os luxuriosos, os
pecadores.
2 . “àqueles dois” : trata-se de Francisca de
Rímini e de Paulo Malatesta; o irmão de Paulo,
Gianciotto Malatesta, marido de Francisca, ao descobri-los cunhados
e amantes, mata-os.
. INTERTEXTUALIDADE: o ato de Paulo, matando o irmão, remete
a Caim e Abel. Ou (3): Galeoto = era o autor do livro que Francisca
e Paulo liam; trata-se do amigo que ensejou Lancelote a beijar
Ginevra, a bela esposa do rei Arthur. De acordo com as
lições do estudioso francês Gérard
Genette, a INTERTEXTUALIDADE supõe a presença de um
texto no outro por citação ou alusão.
. O ato da leitura como um ato amoroso: “àqueles
dois” = “e indagarás então do grande amor
que neles foi desperto.”
. Leitura e corpos = o ato da leitura a dois por vias da
erotização crescente: “Ao ler que, perto, a
boca desejada...”
. A erotização do texto: Os lábios me beijou,
trêmulo, arfante...”
. A leitura como ato de traição,
traição incestuosa: o incesto
entre cunhados. Daí conclui-se que a leitura
é um ato perigoso. Pode levar à deriva, à uma
diabólica paixão.
. Por fim, no conjunto, os versos de Dante Alighieri nos apresenta
um CENÁRIO DA LEITURA.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Tradução
Cristiano Martins. 2 v. 5 ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia,
1989.
GENETTE, Gérard. Introdução ao Arquitexto.
Tradução Fernando C. Martins. 3 ed. Lisboa: Vega,
1995.
PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2007.
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
13/04/2007
Código do texto: T448089
Código do texto: T448089
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