Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/09/29 18:55 / 317 Artigos publicados
 

Crítica Literária

CENÁRIO DA LEITURA em A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri  (Crítica Literária) escrito em sexta 13 abril 2007 18:21

PAOLO E FRANCESCA

 de Anselm Feuerbach  

  



E comecei: “Poeta (1), de falar
àqueles dois (2) eu gostaria, certo,
que juntos vão, alígeros, no ar.”

“Espera”, respondeu-me, “que mais perto
cheguem de nós, e indagarás então
do grande amor que neles foi desperto.”

Logo que o vento em nossa direção
os impeliu, gritei: “Seres feridos,
falai conosco de vossa paixão!”

E como pombos que, de amor movidos,
asas tensas, se abatem sobre o ninho,
no ar dos desejos como conduzidos

- assim, deixando os mais pelo caminho,
foram ambos chegando, ao sopro arfante,
sensíveis ao meu grito de carinho:

“Ó ser afetuoso e insinuante,
que nos visita, a nós que derramamos
na terra o nosso sangue degradante;

Se amigo fosse o rei a que faltamos,
rogaríamos dele a tua paz,
pois te condóis do mal que suportamos. (...)

Estávamos um dia por lazer
de Lancelote a bela história lendo,
sós e tranqüilos, nada por temer.

Às vezes um para o outro o olhar erguendo,
nossa vista tremia, perturbada;
e a um ponto fomos, que nos foi vencendo.

Ao ler que, perto, a boca desejada
sorria,e foi beijada pelo amante,
este, de quem não fui mais apartada,

Os lábios me beijou, trêmulo, arfante.
Galeoto (3) achamos nós no livro e autor:
e nunca mais foi a leitura adiante.”

Enquanto aquela sombra o triste amor
lembrava, a outra gemia em desconforto;
e quase à morte eu fui, de tanta dor.

E caí, como cai um corpo morto.
...........................................................................................
1. O Poeta é Virgílio, a quem Dante dá este tratamento. O local é o Inferno, mais especificamente, o círculo no qual se encontram os luxuriosos, os pecadores.

2 . “àqueles dois” : trata-se de Francisca de Rímini e de Paulo Malatesta; o irmão de Paulo, Gianciotto Malatesta, marido de Francisca, ao descobri-los cunhados e amantes, mata-os.

. INTERTEXTUALIDADE: o ato de Paulo, matando o irmão, remete a Caim e Abel. Ou (3): Galeoto = era o autor do livro que Francisca e Paulo liam; trata-se do amigo que ensejou Lancelote a beijar Ginevra, a bela esposa do rei Arthur. De acordo com as lições do estudioso francês Gérard Genette, a INTERTEXTUALIDADE supõe a presença de um texto no outro por citação ou alusão.

. O ato da leitura como um ato amoroso: “àqueles dois” = “e indagarás então do grande amor que neles foi desperto.”

. Leitura e corpos = o ato da leitura a dois por vias da erotização crescente: “Ao ler que, perto, a boca desejada...”  

. A erotização do texto: Os lábios me beijou, trêmulo, arfante...”

. A leitura como ato de traição, traição incestuosa: o incesto entre  cunhados. Daí conclui-se que a leitura é um ato perigoso. Pode levar à deriva, à uma diabólica paixão.

. Por fim, no conjunto, os versos de Dante Alighieri nos apresenta um CENÁRIO DA LEITURA.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Tradução Cristiano Martins. 2 v. 5 ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1989.

GENETTE, Gérard. Introdução ao Arquitexto. Tradução Fernando C. Martins. 3 ed. Lisboa: Vega, 1995.


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2007.

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 13/04/2007
Código do texto: T448089

Creative Commons License-->
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
/Creative Commons License--> CENÁRIO DA LEITURA em A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri2007Recanto das LetrasSÍLVIO MEDEIROSSÍLVIO MEDEIROStext/plain -->
permalink

O prazer de ler DOM CASMURRO de Machado de Assis: segunda lição  (Crítica Literária) escrito em sexta 13 abril 2007 13:51







                                             

                                    Ao inesquecível  professor 
                                                  JOAQUIM BRASIL FONTES, 
                                                        com um abraço do seu  
                               ex-orientando e professor-assistente
                                                                    Sílvio Medeiros.






“... Creio, de fato, que para haver uma relação de ensino que funciona, é preciso que aquele que fala saiba só um pouco mais do que aquele que escuta (às vezes, mesmo, sobre certos pontos, menos: são vai-e-vens). Pesquisa, e não Aula.”        (Roland Barthes)

“...saber e sabor têm, em latim, a mesma etimologia.”
                                            (Roland Barthes)

“Atos = corrente mística (‘hesykázein’; os silenciosos; oração ritmada pela respiração e pelo coração; pneumatologia bizantina).”
Do grego ‘hesykházein’, ficar tranqüilo, ficar silencioso.”
                                                        (Roland Barthes)(1)




UNICAMP, 19 de Agosto de 1995.

     Tranqüilidade e silêncio num recanto da Unicamp. Alunos: além de 30! O professor Joaquim inicia a aula/pesquisa ou “como viver junto”:

Prof. Joaquim:
“_  Do Título: um livro é algo mutilado sem um Título. O Título pode ser uma armadilha que despista. Em resumo, o Título gera o texto metáfora/ironia do conteúdo do livro...
Com respeito ao Título “DOM CASMURRO” - DOM = do latim, ablativo; forma abreviada de ‘Dominus’ (teimoso; aquele que julga sem piedade).”

     O professor Joaquim solicita, então, a leitura do trecho inaugural de “Dom Casmurro”. Uma aluna se prontifica:

“Capítulo I - DO TÍTULO:

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.  Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
_ Continue, disse eu acordando.
_ Já acabei, murmurou ele.
_ São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios e acabou alcunhando-me ‘Dom Casmurro’”.

Prof. Joaquim:
“_ A primeira frase contém um mundo de informações, um mundo de significações, de conotações. Desse modo, o Capítulo I já desenhou a figura do narrador..."

[S: “_ Reflito... Do Título; Capitu...Capítu(lo)... alto lá, imprudente, silêncio!”]

Prof. Joaquim:
“_ O narrador é diferente do autor. A figura textual é diferente da figura empírica.
Sobre a ironia: é relação, é movimento de discursos – a palavra provocando uma fratura de dúvida na realidade. A ironia lança dúvida, suspeita; é um movimento de suspeita.
Lembremos Sócrates: ‘Maiêutica’ = é fazer nascer a verdade. Ironia = é o método.
O que é um Título? Ele implica em metáfora = figura de estilo + metonímia = vejo uma vela... não um barco.
Exemplifiquemos: ‘A Sagrada Família’, de Karl Marx; ‘As Encruzilhadas do Labirinto’, de Cornelius Castoriadis... o Título pode ser um despiste, uma ironia...
Assim, o Título é o primeiro movimento de comunicação entre o autor e o leitor; é o primeiro indicador/orientador de leitura: Título.

Outro indicador de leitura:
O autor (o nome do autor também funda o sentido de um texto, pois mostra o gênero em que o poema se inscreve, isto é, teatro, romance, poesia...).

Outros indicadores de leitura:
Em Machado de Assis, sobre o Capítulo I = já existe uma pré-leitura.
Capítulo II: ‘Pois, senhor...’ (o leitor)
- a casa do Engenho Novo é simulacro! (mentira), haja vista que:
‘não refiz o meu passado com matéria [casa do Engenho Novo]; vou, então, narrar’... Eis o passado tornado palavra (Nesse caso, o narrador não é confiável !).
Capítulo III: trata-se de um ‘entrar na memória’: o narrador começa a tecer a memória... começa a contar a história; narrador em primeira pessoa. Eu tenho que descobrir elementos no texto para saber se o narrador merece a minha confiança.

Por gentileza, parar aqui!
Próxima aula: refletir sobre as lições da presente aula, reler os três primeiros capítulos de ‘Dom Casmurro’ e desenvolver leitura do Capítulo IX: ‘A Ópera’”.  


NOTA
1. Lições de Roland Barthes registradas por Claude Coste in “Cursos e seminários no Collège de France, 1976-1977”. Tradução Leyla Perrone-Moisés.



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, quase-verão de 2006.

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 13/12/2006
Código do texto: T317299

Creative Commons License-->
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
/Creative Commons License--> O Prazer de Ler DOM CASMURRO de Machado de Assis (segunda lição)2006Recanto das LetrasSÍLVIO MEDEIROSSÍLVIO MEDEIROStext/plain -->
permalink

O prazer de ler DOM CASMURRO de Machado de Assis: primeira lição  (Crítica Literária) escrito em terça 27 março 2007 00:24

  

  




Capítulo XVII – “Os vermes” (transcrição segue abaixo):

“ ‘Ele fere e cura!’ Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles (1) também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo(2) pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
_ Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos: nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado a palavra, repetiam a mesma cantinela. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos, fosse ainda um modo de roer o roído.”

..................................................................
Reflexões em torno do capítulo e/ou trechos acima:

1. Do Título: “Os vermes”

. O narrador estabelece uma conexão com a conhecida dedicatória pertencente ao romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”:

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas.”

Em Crítica Literária nomeamos tal procedimento de “Intertextualidade” (definição, grosso modo: texto sobre texto); ou, mais precisamente: intratextual ou entretextos ou intertexto, haja vista a conexão estabelecida entre dois romances distintos, isto é, “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas...”.

2. “Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles...”:

. Quem ou o que morre? Os livros ou os homens?
Neste trecho, o narrador enfatiza a figura da morte a atravessar a sobrevivência dos livros.


3. “ (...)um longo verme gordo...”:

. O narrador se refere à displicência dos leitores no ato da leitura, isto é, às vezes somos “vermes gordos” em relação aos livros que lemos, ou seja, “roemos” por “roer”; ou ainda, o narrador provoca o leitor no sentido de tecer uma crítica quanto ao costumeiro ato da leitura pela leitura e/ou à leitura por obrigação. Por exemplo: elenco anual de textos literários que os vestibulandos são obrigados a ler.


4. “Ele fere e cura!”

. Consoante anotações das aulas ministradas pelo Prof. Dr. Joaquim Brasil Fontes – UNICAMP/FE -, entre 1997 e 1998, por ocasião da minha participação, em torno de tais ensinamentos, na qualidade de Professor Assistente (4 turmas de graduação/ Disciplina: “Leitura e Produção de Texto”):

a. “Os vermes” é um capítulo tumular. O narrador coloca a si mesmo entre parênteses, tal qual a Fenomenologia, ou seja, ele procura reencontrar a verdade nos dados da experiência; trata-se do retorno “às coisas mesmas”.
De outra parte, a narrativa é delirante, visto que viola o sagrado, remexe em tumbas, enfatiza o trabalho dos vermes. Na verdade, trata-se de formas dirigidas e construídas por um discurso delirante.

b. O narrador “quebra” com a concepção marxista de interpretação textual, ou seja, “Leia o texto e entenda o contexto.” – fórmula consagrada em estudos literários marxistas. Tal concepção acredita que o texto tem uma verdade pronta! Na verdade, consoante FONTES, nenhum texto tem um núcleo de verdade pronto, pois o texto é um conjunto que se move no tempo com o autor e com o leitor. Nesse caso, o sentido do texto é uma permanente rede que se faz e se desfaz.

c. O grande traído é o leitor que confia no narrador:

. Dialogar com o mundo subterrâneo, violar o sagrado, remexer tumbas e deixar à mostra o sórdido trabalho dos vermes são formas dirigidas a impregnar a visão do leitor; colocá-lo às caras com o mundo submerso no qual apenas o discurso delirante pode esboçar tal imagem. Machado de Assis criou um narrador que dirige um discurso delirante, portanto, indigno de confiança; diferente do narrador clássico, para quem o Bem é Bem e o Mal é Mal – visto que o último tem confiança nos valores tradicionais!
Sobre os valores modernos: causam estremecimentos... posso, então, neles confiar?

. Em “Os vermes”: o silêncio tumular. No nível da enunciação, trata-se de um índice da putrefação do “corpo textual”, da própria escritura que se fere a ponto de silenciar o sentido (Cf. Roland Barthes: trata-se do texto do gozo, isto é, texto que põe o leitor em estado de perda; é o rodopio, a vertigem); trata-se, enfim, do texto que causa desconforto, pois faz vacilar os alicerces históricos, culturais e psicológicos do leitor. A coexistência dos gestos, dos valores e das lembranças põe em crise uma relação com a linguagem:

“AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COM SAUDOSA LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS.”

Desse modo, consoante JOAQUIM BRASIL FONTES, em ambas as obras, isto é, “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, reside um exasperado ceticismo agônico.
Assim, a presença dos vermes nas obras de Machado de Assis, que recobram forças no ato de destruir, denuncia uma estrutura análoga à autofagia, à auto-consumação; enfim, a uma intersemiotização entre duas pulsões: pulsão de vida e pulsão de morte.


NOTAS

1. Aquiles: Personagem heróica d’ Ilíada de Homero – poema épico da Antiga Grécia onde se narra a Guerra de Tróia. (N.E.) in ASSIS, Machado. Dom Casmurro. Editora Ática: São Paulo, 1995. Editor: Fernando Paixão.
2. Oráculo: Respostas que, segundo as crenças dos pagãos, os deuses davam àqueles que os interrogavam. No templo de Apolo, em Delfos, o oráculo falava pela boca de uma sacerdotisa chamada Pítia, Pitonisa ou Sibila (...). in idem acima.




PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, primavera de 2006.

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 01/11/2006
Código do texto: T279080

Creative Commons License-->
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
/Creative Commons License--> O prazer de ler DOM CASMURRO de Machado de Assis: primeira lição2006Recanto das LetrasSÍLVIO MEDEIROSSÍLVIO MEDEIROStext/plain -->
permalink