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Aulas de História

AULA DE HISTÓRIA: O Edito de Milão e a consolidação histórica do Catolicismo  (Aulas de História) escrito em quinta 19 julho 2007 21:27

IMPERADOR CONSTANTINO

Mosaico bizantino 

AULA DE HISTÓRIA III: O Edito de Milão e a consolidação histórica do Cristianismo


     Nos dias pré-cristãos, o governo romano passa a tolerar os cultos rivais do chamado paganismo ortodoxo. As únicas exigências, por parte governo imperial, aos adeptos das novas religiões, resumiam-se em alguns gestos obrigatórios quanto à adoração dos deuses de Roma, bem como ao Imperador. Porém, os cristãos e os judeus recusavam-se à prática de tais atos, pois não aceitavam a idéia romana de uma igreja atrelada ao aparelho de Estado, além da adoração em torno da figura do Imperador, que sugeria tanto aos cristãos quanto aos judeus um ato de idolatria ou de politeísmo contra os desígnios do cristianismo e do semitismo; desse modo, o Estado romano conclui tratar-se - sobretudo no caso do cristianismo - de um movimento radical destinado a derrubar a ordem estabelecida.
     Por conseguinte, o conflito exacerba-se, visto que a civilização romana fundava-se no Estado e, em contrapartida, a nascente civilização cristã fundava-se na fé – acima de qualquer ordem política.
    O imperador Tertuliano, por meio do princípio “Nenhum homem é obrigado a obedecer uma lei que considere injusta”, torna ainda mais agudo o processo de oposição entre paganismo e cristianismo, pois ao credo cristão passam a obedecer cegamente bispos e padres, em detrimento a qualquer lei promanada do Estado romano. Os cristãos passam, então, a atender um novo código moral formulado pela Igreja, proporcionando aos crentes um ar de superioridade e promovendo, com isso, um distanciamento da massa pagã, provocando, assim, nos romanos, um ódio profundo em relação ao cristianismo – donde se pode concluir que a oposição ao novo credo religioso procedia antes da massa pagã do que propriamente do governo romano. Assim , por extensão, as perseguições aos cristãos renovavam-se a cada reinado. No reinado do imperador Marco Aurélio, quando a fome, as pestes, as inundações e a guerra desabam sobre um reinado considerado pacífico, pois até então livre de guerras, espalhou-se que tais males deviam-se à ausência de veneração aos deuses romanos. Assim, o imperador Marco Aurélio ordena a punição dos indivíduos pertencentes às seitas religiosas contrárias ao paganismo, atingindo, com esta medida, diretamente, a maior oposição religiosa ao Império, isto é, o cristianismo.
     Durante o reinado do imperador Cômodo, as perseguições religiosas cessam. Todavia, o sucessor, isto é, o imperador Séptimo Severo, revoga as perseguições, a ponto de tornar o rito do batismo cristão, um crime. Contudo, uma imperatriz síria, que veio a suceder Séptimo Severo, pouco se importando com os deuses romanos, concedeu uma trégua aos cristãos, assegurando, desse modo, no reinado seguinte, isto é, do imperador Alexandre Severo, uma relativa paz entre as duas religiões rivais, isto é, a pagã e o cristianismo. Porém, uma vez renovados, os ataques dos povos bárbaros interrompem a referida paz. Para compreendermos tal situação de intensa perseguição, em 249, durante o reinado do imperador Décio, o Império Romano, fragilizado com as guerras, encontrava-se amedrontado com graves derrotas e sofrendo sucessivas invasões bárbaras. Uma onda de sentimento religioso varreu o Império Romano. As multidões apinhavam-se nos templos, assediando os deuses com preces. Os cristãos interpretavam os desastres do governo imperial como o prelúdio da “Babilônia” e o retorno de Cristo. Diante disso, Décio promulga, então, um edito de caráter religioso, cuja finalidade residia no fortalecimento da unidade nacional, além de fortalecer o entusiasmo dos romanos no que se referia a adorações e a preces aos deuses romanos, no intuito de salvar Roma do iminente perigo. A recusa da maioria dos cristãos em cumprir os mandamentos inscritos no edito imperial promove um elevado número de mortes, com cristãos lançados à fogueira, outros às feras do circo romano, outros decapitados ou encerrados em masmorras. Mais tarde, no reinado de Valeriano, as invasões bárbaras e as perseguições aos cristãos prosseguem. Contudo, em 261, o imperador Galieno, suportando os ataques sucessivos dos persas, lança o primeiro edito de tolerância, reconhecendo, desse modo, o cristianismo como religião e ordenando a restituição das propriedades confiscadas dos cristãos. A partir daí, a expansão do cristianismo avança por todo Império, auxiliada pela pouca intensidade das perseguições. Isto também se explica na medida em que o caos e o terror que se constata no século III dissipam a incredulidade da população. Desse modo, os romanos buscam refúgio nas consolações religiosas, identificando-se, dessa maneira, com as práticas procedentes do credo cristão. Nesse sentido, a comunidade cristã absorve muitos ricos, ou melhor, muitas fortunas, dos recentes fiéis. Assim, tem início a construção das catedrais, além do casamento entre cristãos e romanos.
     Contudo, o imperador Galério, prevendo o cristianismo como o último obstáculo à consolidação de um governo absolutista, aconselha Diocleciano, adepto da monarquia oriental, a completar a restauração romana concomitante à revalorização e à retomada dos cultos aos velhos deuses romanos. Desse modo, uma nova onda de perseguições propaga-se pelo Império Romano, atingindo inteiramente os cristãos, sobretudo por meio de um decreto acordado pelos quatro imperadores, o qual culminava com a destruição de todas as igrejas cristãs. Porém, por essa ocasião, os cristãos já eram bastante numerosos, fato que dá origem à formação de movimentos cristãos de reação. O exército romano investe com violência contra os referidos movimentos. Contudo, diante das brutalidades procedentes do poder imperial infligidas à massa cristã, tal fato provoca a simpatia da população pagã pelos cristãos. Assim, os pagãos começam a arriscar a própria vida para esconder e proteger os perseguidos. Em 311, o imperador Galério, em seu leito de morte, promulga um edito de tolerância, legalizando o cristianismo e rogando a prece dos cristãos em paga de “Nossa Altíssima Clemência”. Com efeito, enquanto Roma gerava o caos, o cristianismo multiplicava-se calmamente, construindo, dessa forma, uma ordem que sobreviveu após a derrota do Estado imperial romano.
     É neste contexto que se dá a elevação de Constantino a Imperador, o qual, em termos, determinará os novos rumos da nascente Igreja Católica, sobretudo no que se refere à institucionalização oficial da doutrina cristã.
     Com o fracasso das perseguições, da tetrarquia no reinado de Diocleciano e a confusão que se estabelece no Império após sua retirada do trono imperial, em função do princípio de hereditariedade, surge, então, a figura do Imperador Constantino. Advindo das fileiras do exército romano, Constantino ganha popularidade mediante vitórias conquistadas nas guerras contra o Egito e a Pérsia. Também obteve êxito junto aos romanos, numa campanha na Inglaterra, local em que as tropas gaulesas o proclamam, definitivamente, imperador. No mesmo período, a Guarda Pretoriana, preocupada com a restauração de Roma como capital do Império, proclama Maxêncio, imperador. Ao mesmo tempo, Galério nomeia Flávio Lícínio como imperador, reagindo e, conseqüentemente, opondo-se à arbitrariedade da Guarda Petrotiana, contudo, recebendo inteiro apoio de Constantino. Devido a tais fatos, ocorre, então, a crise geral da imperial tetrarquia romana, pois semeada de conspirações entre dois grupos, isto é, de um lado Maximino/Maxêncio; d’outro lado Licínio/Contantino. Eclode, assim, a guerra aberta, na qual as tropas vitoriosas de Constantino portavam símbolos cristãos, fato que se explica por meio de vários registros históricos, os quais afirmam ter Constantino recebido, em sonhos, orientações divino-cristãs. Após a vitória, Constantino e suas tropas entram em Roma, tornando-se, desse modo, o primeiro senhor do Ocidente. Tal fato marca a derrota do paganismo, sobretudo pela promulgação do Edito de Milão – documento que confirma a tolerância religiosa concedida por Galério, estendendo-se, igualmente, a todos os outros credos, além de ordenar a restituição dos bens confiscados dos cristãos por ocasião das últimas perseguições.
     Com efeito, o Edito de Milão é produto de uma multiplicidade de conflitos internos e externos, os quais emergem, com intensidade, do interior do Império Romano. Na verdade, a atitude de Constantino não se justifica por um ato de fé religiosa, mas se revela como um golpe de habilidade política, pois, fazendo uso da fraqueza do povo romano – exausto de lutas e desejoso de perspectivas de paz -, para se efetivar como senhor absoluto, bastou a Constantino a vitória contra as tropas pagãs orientais de Licínio.
     Assim, na qualidade de “defensor” do cristianismo, Constantino declara-se cristão, proclamando plena liberdade religiosa por todo o Império Romano.
     Após a conversão ao novo credo, a Constantino desagradava as práticas cristãs, evidenciando, por meio dessa atitude pessoal, que o cristianismo servira ao referido imperador somente de instrumento político para suprimir as possíveis divergências dentro da unidade do governo imperial que se estabelecera; todavia, o imperador luta com todo o vigor para a perpetuação do credo cristão. Nesse caso, repetimos, o cristianismo apenas servira a Constantino como um meio, e não como um fim. Afirmativa que, por extensão, justifica a atitude do imperador em fazer uso da moral cristã no intuito de regenerar a moral romana, fortalecendo, desse modo, as normas que regem o casamento e a família romanos, além de controlar os possíveis conflitos sociais existentes no Império, visto que os cristãos pouco se revoltaram contra o Império Romano, apesar de todas as perseguições sofridas no decorrer do passado recente. Desse modo, o cristianismo foi utilizado como instrumento de pacificação e unificação do Estado romano. De outra parte, a justificativa cristã de que o poder dos imperadores é determinado pelo direito divino concedeu a Constantino o privilégio de exercer com facilidade a Monarquia Absoluta Romana. A Igreja, por esta ocasião, exulta-se, pois nunca imaginara semelhante vitória. Mais tarde, uma vez preteridos os princípios que regiam o Edito de Milão, foram proibidas todas as seitas heréticas. Concomitante a tal fato, o processo de decadência do Império Romano – que teve início no século III – acelera-se progressivamente no século IV. Na tentativa de manter a unidade do Império, que já começava a se fragmentar devido à péssima atuação político-administrativa e a se defender das freqüentes invasões bárbaras, Teodósio, o último imperador, promulga o Edito de Tessalônica (380), elevando, desse modo, o cristianismo à religião de Estado, tornando cristão o Império Romano.

BIBLIOGRAFIA

DURANT, Will. A História da Civilização. In v. IV: A Idade da Fé. Tradução Mamede de S. Freitas. Rio de Janeiro: Editora Record, [s.d.].

AYMARD, André, AYBOYER, Jeannine. História Geral da Civilização. 4 ed. In vs. I, II e II: Roma e seu Império. Tradução Pedro Moacyr Campos. Rio de Janeiro: Difel, 1977.

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é inverno de 2007.
         
 
     
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 19/07/2007
Código do texto: T571238

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AULA DE HISTÓRIA: Caráter Inicial e Geral da Formação Econômica Brasileira  (Aulas de História) escrito em sábado 21 abril 2007 17:43

Moinho de Cana de Açúcar 

AULA DE HISTÓRIA II: Caráter Inicial e Geral da Formação Econômica Brasileira (resumo do capítulo 2*)


     
     

     O assunto tratado neste capítulo (vide bibliografia abaixo) busca apresentar os primórdios e o conseqüente desenvolvimento da formação econômica brasileira. Para tanto, Caio Prado Júnior, mediante uma retomada do processo histórico, encontra subsídios nos fatos históricos registrados na Europa entre os séculos XIV e XV. Por esta ocasião, o comércio no continente europeu encontrava-se restrito às rotas terrestres. Devido à ascensão que o referido comércio alcança, tão-somente a circulação de mercadorias pelo interior do continente já não bastava. Assim, as rotas terrestres pelas quais escoavam as mercadorias começam a perder a hegemonia frente às rotas marítimas, visto que os empreendimentos marítimos, neste período, começam a ganhar significativo impulso. Em se tratando de domínios territoriais dos mares, aos países geograficamente bem localizados foi concedida a primazia de se lançarem pioneiramente ao empreendimento marítimo.
     Desse modo, as novas rotas estabelecidas para o comércio por meio dos mares envolvem os países pertencentes à Europa Ocidental, do litoral que se estende da Holanda até a Península Ibérica. Tal fato modifica todo o quadro comercial interno da Europa.
     Vários povos passam a se dedicar a esta nova atividade, como por exemplo, Inglaterra, Itália, Holanda, França etc. Contudo, coube aos portugueses a iniciativa de ampliar ainda mais o domínio sobre a navegação comercial. Privilegiados pela posição geográfico-litorânea, os portugueses buscam a expansão ultramar com vistas a estabelecer novas empresas comerciais na África; além disso, procuram contornar o continente africano chegando, dessa forma, às Índias Orientais - mercado ambicionado naquela ocasião -, tendo em vista a retomada do comércio das especiarias, o qual fôra interrompido mediante bloqueio do Mar Mediterrâneo pelos muçulmanos.
     Neste mesmo período, os espanhóis optam por um novo caminho rumo às Índias Orientais. Navegam pelo Oceano Atlântico, encontrando, desse modo, o continente americano. Os portugueses têm participação simultânea neste empreendimento, além d’outros povos europeus – porém, a princípio, com menor intensidade, caso comparados com portugueses e espanhóis.
     Com efeito, tem início, então, a grande exploração marítima – um reflexo da expansão comercial que se verifica na Europa do século XV - crepúsculo da Idade Média ocidental.
     Num primeiro momento, aos navegadores, o continente americano constitui-se um obstáculo, no que se refere a encontrar a tão ambicionada passagem para o Oceano Pacífico em busca das Índias Orientais. Dessa forma, os povos envolvidos no referido empreendimento, isto é, portugueses, espanhóis, ingleses etc., começam a tomar conhecimento do Novo Mundo e a firmar suas novas posses por meio da construção de feitorias.
     A idéia de iniciar o povoamento do novo continente surgiu tão-somente quando da necessidade de conservação das feitorias, pois elas ficavam relegadas ao abandono, sem gerar lucro algum, algo que vinha de encontro às reais funções a elas delegadas. O pioneiro na referida iniciativa foi, mais uma vez, o reino de Portugal. Assim, os portugueses, a princípio, povoam e organizam as Ilhas do Atlântico, rumando, em seguida, com o mesmo intuito, para as Américas. Seguem os portugueses, nesta iniciativa, outros povos europeus.
     Desse modo, o extremo-norte da América fica em poder dos ingleses, que exploram as peles de animais e a pesca. A América Latina é dividida entre portugueses e espanhóis. A porção do território oriental da América do Sul fica sob o poder dos portugueses, na qual exploram, a princípio, a extração do pau-brasil. A América Central e o ocidente da América do Sul ficam submetidos ao poder da Coroa Espanhola; num quadro comparativo com outros povos, os espanhóis tiveram maior sorte no empreendimento, pois logo encontraram metais preciosos junto à população autóctone, isto é, os Incas, os Maias e os Astecas. Todavia, a euforia dos espanhóis foi passageira devido à pouca abundância da mencionada riqueza.
     Durante esta ocasião, verificam-se, apenas, os efeitos de um empreendimento voltado exclusivamente às feitorias, de caráter puramente comercial, em virtude da referida exploração  centralizar-se em produtos espontâneos e extrativos conforme a particularidade de cada região.
     Com efeito, até meados do século XVIII, a ocupação do continente americano dependeu do avanço e do recuo das atividades acima mencionadas.
     Este quadro veio a se modificar somente por intermédio de uma base econômica mais estável, isto é, com a introdução da agricultura.
     Em se tratando de colonização ou de povoamento propriamente ditos, tais fatos vieram a ocorrer somente a partir do século XVIII, período no qual, por divergências político-religiosas, grande massa de imigrantes europeus chega ao continente americano com a finalidade de estabelecer moradia definitiva.
     É por esta ocasião que a população européia, no continente americano, se divide conforme as condições climáticas. Assim, as zonas temperadas do continente são as mais procuradas pelos imigrantes europeus por se assemelharem tanto ao clima quanto ao solo aos da Europa, em detrimento das zonas tropicais e das sub-tropicais, em virtude da difícil adaptação dos colonos às condições naturais do novo meio-ambiente.
     Devemos ter em mente que tal comportamento por parte dos colonos deu-se apenas no princípio do processo de colonização, evitando, com isso, desabarmos em perspectivas históricas orientadas por determinismos geográficos. Nesse caso, o importante é salientar que mesmo nas zonas temperadas os colonos também passaram por um processo seletivo, dando origem a um tipo social específico, isto é, o ianque. Além disso, o estímulo aos colonos nas zonas tropicais e sub-tropicais foi maior que o experimentado pelos colonos estabelecidos nas zonas temperadas, pelo fato dos primeiros encontrarem inumeráveis riquezas de recursos naturais. Tal fato despertou a cobiça dos europeus pelas zonas tropicais e sub-tropicais, além dos interesses que possuíam nos gêneros de grande valor comercial na época e que se encontravam em grande abundância, sobretudo na América Latina, como por exemplo, o açúcar, o tabaco, a pimenta, o anil, o algodão etc. Tendo como princípio o interesse dos europeus na produção e no consumo destes gêneros - naquela ocasião, repetimos, de grande valor comercial –, surge, então, a figura do empresário. Ele se estabelece nestas zonas sem querer dispor-se fisicamente ao trabalho manual. Para tanto, a mão de obra recrutada foi a dos povos europeus. Cria-se uma certa instabilidade nos trabalhos de plantação do sul do território norte-americano, solucionada mediante a adoção da mão de obra do escravo negro.
     Até aqui enfatizamos mais os estudos atinentes aos fatos do processo do desenvolvimento econômico que se desenrolou nas zonas tropicais e sub-tropicais situadas na América do Norte. Em se tratando das outras colônias tropicais, sob o jugo dos reinos de Portugal e da Espanha, tais fatos não chegaram a se operar.
     Tanto no reino espanhol quanto no reino lusitano não se encontrava grande número de indivíduos dispostos a emigrar, nem tão-pouco braços disponíveis para o trabalho na lavoura – diferente dos ingleses que, desde o século XVI, sofreram um processo de êxodo rural devido aos primórdios do processo da industrialização. Portugal encontrava-se com uma população pouco numerosa; além disso, o reino português já dependia da mão de obra escrava em território africano. Ademais, neste momento, tem início o declínio do Império Lusitano, sobretudo em função das constantes despesas que os portugueses acumularam com as sucessivas expedições rumo ao Oriente.
     Desse modo, a princípio, os reinos de Portugal e da Espanha empenham-se em explorar a mão de obra indígena e, em seguida, da exploração da mão de obra de escravos africanos.
     Concluindo, Caio Prado Jr., no presente estudo, constata que nas zonas temperadas teve origem as colônias de povoamento, enquanto que nas zonas sub-tropicais e tropicais, sobretudo no continente latino americano, verifica-se a criação de colônias de exploração tanto em recursos naturais quanto em mão de obra de raças consideradas inferiores, isto é, os índios e os negros; tornando, com o passar do tempo, tais regiões uma empresa comercial em proveito do comércio europeu. É dentro desse processo político-econômico que se dá a formação econômica do Brasil.



BIBLIOGRAFIA

PRADO JÚNIOR, Caio. História econômica do Brasil. 30 ed. São Paulo: Brasiliense, 1984 (Cf. capítulo 2*).




PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2006.
           
 

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 13/11/2006
Código do texto: T289963

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AULA DE HISTÓRIA: Aspectos Gerais da Mineração no Brasil Colônia  (Aulas de História) escrito em sexta 23 março 2007 03:58



 

A atividade de aprisionamento e de venda de escravos indígenas no Brasil Colônia não se constituiu em fator decisivo para aplacar o panorama da miséria generalizada que caracterizava a região vicentina. Contudo, uma vez extinto o mercado consumidor de indígenas escravizados, a atividade bandeirante revestiu-se de renovados objetivos, dentre eles, o de promover, sobretudo, expedições sertanistas em busca de ouro e de pedras preciosas. Desse modo, a partir de 1650, os bandeirantes passam a explorar sistematicamente o território de Minas Gerais. A escolha da região não fôra arbitrária. Para um bom entendimento desta afirmativa, devemos nos ater a certos antecedentes históricos.
   Por esta ocasião, o bandeirantismo paulista passou a receber incentivos da Coroa portuguesa, visto que, com o declínio da produção açucareira e com a expulsão dos holandeses, Portugal procurava desenvolver novas atividades econômico-produtivas na Colônia. Nesse sentido, as escassas minas de ouro, encontradas no sul do país, acabam por se constituir na fase preparatória da verdadeira “Idade do Ouro” do Brasil Colônia no século XVII, na medida em que fornecera homens adestros quanto ao reconhecimento de territórios auríferos, além das técnicas de tratamento do ouro – riqueza futuramente localizada em territórios de Minas Gerais.
   Datam de 1693 as primeiras descobertas de ouro nas Gerais, mais precisamente em Caeté, por intermédio do bandeirante Antônio Rodrigues Arzão. A partir daí, o povoamento da região – e de todo Centro-Oeste – processa-se de forma bastante veloz, intensa, toante as descobertas de novos e imensos depósitos do metal precioso. Quanto a este aspecto, um fator interessante é apontado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda: as autoridades das províncias de São Paulo e de São Vicente haviam tecido péssimas considerações ao Rei de Portugal no que se referia à conduta moral dos paulistas, chegando a classificá-los de “ladrões destes sertões”. Contudo, dado o caráter economicamente benéfico que o ouro representava aos cofres da Real Fazenda Portuguesa, a última tratou de conquistar a confiança dos paulistas, nomeando-os de pioneiros em tais descobertas e oferecendo à referida população mudanças quanto ao âmbito do discurso político procedente da Coroa:

“Já não são os paulistas rebeldes ou insolentes, senão briosos, valentes, impacientes da menor injúria, ambiciosos de honra, amantíssimos de sua pátria e adversíssimos a todo ato servil.”
[HOLANDA, S.B. História Geral da Civilização Brasileira, p.262]

   A ocupação do território mineiro veio a processar-se, então, em três etapas sucessivas.
   A primeira etapa foi responsável pelo surgimento, entre 1700 e 1725, dos recentes núcleos populacionais de São João Del Rei, Vila Rica, Sabará, Vila do Príncipe, Arraial do Tejuco dentre outros núcleos menores. O conjunto de tais núcleos constituiria as Minas Gerais.
   A segunda etapa ocupou parte do território do que seria, mais tarde, a capitania de Mato Grosso, na qual se descobriu jazidas de ouro, em 1718, em Caxipó-Mirim, contudo, em quantidade menor que nas Gerais. No entanto, em Mato Grosso, surgiram Cuiabá e Vila Bela, bem como, os fortes de Coimbra, de Príncipe da Beira, de Miranda e de Albuquerque.
   A terceira e derradeira etapa deu origem à mineração do ouro em territórios de Goiás, com a fundação de Vila Boa, em 1725.
   Por outro lado, no intuito de examinar o surgimento da mineração no Brasil (século XVIII) num quadro histórico mais amplo, analisemos, inicialmente, os fatos sob uma perspectiva externa. Em primeiro lugar, certo é que a mineração brasileira veio a constituir-se num dos principais fatos econômicos na economia ocidental do século XVIII. Durante o referido período, a economia européia passava por intensas transformações, na medida em que se operava a transição da fechada economia feudal para a produção econômico-capitalista.
   No Brasil, uma vez encerrada a articulação político-econômica holandesa, no interior da estrutura de produção açucareira – comumente classificada de fase mercantil ou de capitalismo comercial, e face ao domínio técnico holandês no cultivo da cana de açúcar em outras regiões do mundo, a concorrência, em se tratando do referido ciclo econômico, tornou-se para a economia portuguesa algo financeiramente desfavorável. Assim, com a estagnação do mercado açucareiro no Brasil, a partir do século XVII, Portugal passa a exercer um papel de total subordinação à economia inglesa, de caráter efetivamente capitalista devido à gradual ascensão inglesa à hegemonia do capitalismo industrial. Nesse sentido, emerge a Inglaterra no cenário do mundo ocidental na qualidade de potência econômica. O capitalismo comercial, sobretudo o holandês, subordina-se, então, ao capitalismo industrial inglês. Tais fatos causam profundas transformações nas áreas coloniais daquela ocasião, haja vista o Tratado de Methuen – datado de 1703 -, firmado entre Portugal e Inglaterra, o qual drena, quase que totalmente para o território inglês, todo o ouro encontrado no Brasil. Neste momento, é bastante expressiva a configuração do quadro histórico do mundo ocidental, na medida em que nos apresenta um dos principais fatores que contribuiu, sobremaneira, para a definitiva passagem do feudalismo para o capitalismo. Neste ponto, importante é, também, frisar, as diferenças existentes entre o afluxo do ouro das colônias espanholas e das colônias portuguesas no mercado mundial da ocasião. Se por um lado, as intensas explorações auríferas espanholas, em suas respectivas colônias, compreendem os séculos XVI e XVII – período que marca as preliminares da passagem do mercantilismo para o capitalismo industrial -, nas quais o ouro encontrado era distribuído e aplicado às várias zonas produtoras integradas ao sistema mercantilista; em território brasileiro, no caso das descobertas das fontes auríferas, conseqüentemente, seguidas da extração do ouro explorada pelos portugueses, a atividade daí advinda, em síntese, a extração do ouro, tem início em princípios do século XVIII, ou seja, na etapa final da passagem do mercantilismo para o capitalismo industrial. Tal fato implica que a maior parte do ouro explorada no Brasil Colônia rumava diretamente para os “cofres” da Inglaterra. Desse modo, um dos efeitos mais importantes deste empreendimento está no impulso que o “ouro português” ofereceu às transformações que ocorreram no mundo do trabalho daquela ocasião, tornando-o, sobretudo, trabalho assalariado. Nesse sentido, o ouro extraído do Brasil Colônia, implementa a mão de obra assalariada em território europeu, gerando, com isso, grandes somas de dinheiro, devido ao afluxo do ouro que “inunda” toda Europa. Todavia, tal fato provoca a sua própria depreciação, pois, uma vez desvalorizada a moeda, elevam-se os preços das mercadorias. Por outro lado, os salários estão longe de acompanhar a escalada inflacionária que assola o território europeu, sobretudo por se concentrar nas mãos dos capitalistas toda a riqueza em detrimento da massa trabalhadora. Posto isto, podemos afirmar que o ouro muda, convulsiona o mundo da época – dentre tantas outras transformações, é a Inglaterra que surge como vanguardeira quanto à instituição de uma nova ordem econômica para o mundo ocidental, ou seja, a instituição do modo de produção capitalista ou do sistema econômico capitalista.
   De outra parte, de uma perspectiva interna, as diferenças entre as épocas da mineração colonial espanhola e da portuguesa também são de caráter bastante significativos. Se a primeira surge no início do processo de colonização, pois se tratava de uma atividade já praticada pela população autóctone (cuja origem é do próprio lugar), a exploração do ouro pelos portugueses tem início somente dois séculos após o início do processo de colonização do Brasil. Tal exploração veio a requerer, portanto, uma série de adaptações consoante o modo de produção capitalista, na ocasião em franco processo de desenvolvimento. Nesse sentido, a Colônia se reconfigura, atraindo para a zona mineradora populações de diversos pontos da Colônia (migração), bem como do exterior (imigração); populações fascinadas pela possibilidade de enriquecimento rápido e estimuladas, inclusive, pelas facilidades oferecidas quanto à extração do ouro, dado às condições geológicas do território – em grande parte, ouro de aluvião -, empreendimento no qual todos os partícipes, de uma maneira geral, independente da situação financeira em que se encontravam, poderiam se transformar em ricos mineradores. Nesse ritmo, a atividade mineradora contribui para o crescimento da população colonial. Por outro lado, a mineração provoca a desvalorização da terra. Todavia, o espírito empreendedor do minerador está ligado apenas à exploração do ouro; ele se torna um nômade, pois, uma vez esgotado o veio, parte o minerador em busca de novas áreas de explorações auríferas. Nesse caso, o minerador caracteriza-se pouco preocupado com a obtenção de título de propriedade de terra, mas ansioso para logo obter o título de concessão para a prática da mineração. Isto nos auxilia a compreender, com maior clareza, a questão atinente à “qualidade” do ouro encontrado em território brasileiro. Trata-se do ouro de aluvião que decisivamente influenciará até mesmo na formação de uma nova estrutura social no interior da Colônia.
   A técnica, para obtenção do referido ouro, era das mais rudimentares, e o equipamento exigido para tal atividade também era mínimo, resultando daí o fraco investimento financeiro por parte do minerador, portanto, tratava-se de um empreendimento movido por meio de escassos capitais tanto financeiro quanto humano – porque requeria tão-somente a mão de obra escrava. Nesse caso, qualquer indivíduo não-escravizado, procedente da Colônia ou de Portugal, poderia se dedicar à extração do ouro. Assim, a extração aurífera toma algumas características de atividade democrática: a princípio sem discriminações, pois qualquer um, rico ou pobre, branco ou até mesmo mestiço poderia se transformar num minerador. Nesse momento, é importante traçarmos um quadro comparativo entre o ciclo do ouro e o ciclo do açúcar. Se, por um lado, o último requerera a aplicação de grandes investimentos financeiros, favorecendo a concentração de propriedades e de rendas, donde resultou a formação de uma sociedade aristocratizada, porque rigidamente dividida entre senhores e escravos (estes excluídos do mercado consumidor); ao contrário, a mineração favoreceu a uma melhor distribuição de rendas no interior da Colônia, dado à prevalência da iniciativa particular do minerador concomitante ao aparecimento do trabalho assalariado. Assim, diferentemente dos engenhos de açúcar, eram quase inexistentes extensas propriedades em Minas Gerais, impossibilitando, dessa forma, o surgimento de riqueza ou de pobreza extremadas e possibilitando a constituição de uma população em situação economicamente intermediária. Disto resulta a expansão do mercado consumidor nas Minas Gerais, favorecendo, obviamente, um significativo desenvolvimento econômico nesta região da Colônia. De outra parte, a mineração cria novas condições para o trabalho escravo, pois o regime escravocrata, neste período, sofre alterações, visto que a atividade mineradora difere da atividade agrícola: a primeira favorece, muitas vezes, a realização do trabalho distante do proprietário do território explorado. Disto resulta o trabalho por tarefa ou até mesmo o trabalho por conta própria, ambos vinculados ao pagamento de uma contribuição aos senhores da terra. Essas novas relações entre senhores e escravos criam, na população escravizada, perspectivas atinentes à alforria conjuntamente a uma sensível ascensão espiritual do escravo, donde origina-se, em algumas regiões, o deflagrar da rebeldia. Nesse sentido, a mineração virá representar um profundo abalo no regime do trabalho escravo vigente no Brasil Colônia. Nesse caso, o momento propiciador do trabalho livre é acompanhado pelo aparecimento da pequena empresa, a qual irá predominar durante o ciclo do ouro. Por outro lado, com a mineração, torna-se possível imigrar rumo ao Brasil com a certeza de alcançar nível econômico relativamente alto. Em virtude do número de escravos ser sempre inferior aos de pessoas livres, surge, no interior da área mineradora, uma nova estrutural social voltada apenas para os interesses relativos ao empreendimento da extração do ouro, cuja mentalidade concebia que o solo é apenas para o ouro, em detrimento a qualquer outra atividade econômica, ou seja, ao desenvolvimento, por exemplo, da agricultura, da pecuária etc. A extração do ouro era, sobremaneira, incentivada pela Coroa Portuguesa, haja vista os interesses que a política imperial portuguesa depositava na extração aurífera. Deste contexto, originam-se graves crises de fome, pois a área de extração aurífera, além de produtora, transforma-se, velozmente, em área consumidora. De outra parte, a atividade econômica centrada tão-somente na “corrida do ouro” vem a afetar as economias das demais capitanias da Colônia. Ocorre, então, o enfraquecimento da economia paulista - secundada pela lavoura - em função do êxodo populacional rumo às minas de ouro. O desequilíbrio econômico também atinge a capital da Colônia, o Rio de Janeiro, que, apesar do comércio ali então existente, sofre as conseqüências devido à debandada populacional, naquela época significativa, de cerca de 10.000 homens rumo às áreas de mineração. A nova situação econômica na área da mineração, como já afirmamos anteriormente, concorre para a formação de uma nova estrutura de classes sociais, dando origem à formação de uma camada média que, somada à ampliação do trabalho livre, favorece ao implemento de uma intensa opressão fiscal-financeira por parte da Coroa Portuguesa, fato que, mais tarde, resultará numa das causas do projeto da Inconfidência Mineira.

   Por ocasião dos insignificantes achados de ouro na região de São Vicente, a Coroa criara um extenso regulamento, no qual, dentre os princípios fundamentais, destacava-se o estabelecimento da livre exploração, submetido exclusivamente à fiscalização do império português, reservando para si a quinta parte de todo ouro extraído da Colônia. Logo que foram descobertas as primeiras jazidas de ouro nas Minas Gerais, a Coroa publicou, em 1702, o “Regimento dos Superintendentes”, constituído por Guarda-Mores e Oficiais-Deputados, visando a administração das minas de ouro. Por conseguinte, criou-se, na verdade, uma administração especial nomeada de “Intendência de Minas”, a fim de dirigir todos os trabalhos concernentes à exploração das jazidas de ouro, fiscalizá-los, além de cobrar tributos (dentre eles, o quinto). Toda esta máquina administrativa estava estreitamente subordinada ao governo metropolitano de Lisboa, capital do império português, sem a participação de qualquer autoridade procedente da Colônia. Desse modo, a descoberta de uma jazida aurífera devia ser, obrigatoriamente, comunicada à Intendência. O guarda-mor dirigia-se, então, ao local, ordenando a demarcação do terreno a ser explorado. Este era distribuído por meio de sorteios, dividido em lotes (“datas”); em seguida, cada um deles era entregue a um minerador. No dia da distribuição das “datas”, os contemplados deviam comparecer no local, não se admitindo a interferência, nas negociações, de qualquer procurador ou representante do minerador. O descobridor da jazida não só tinha o direito de escolher uma “data”, bem como o de receber um prêmio em dinheiro. Em seguida, a Intendência separava uma “data” para si, vendendo-a, posteriormente, em leilão público. As “datas” restantes eram sorteadas entre os presentes interessados no empreendimento. Uma vez encerrado o sorteio, caso restassem terras auríferas, era realizada uma distribuição suplementar. Caso contrário, em se tratando do excessivo número de interessados, reduziam-se as áreas das “datas” consoante a proporção de interessados. De qualquer modo, as “datas” compunham-se de pequenos lotes de terra, com no máximo 50 metros de largura e algumas variáveis em comprimento.
   Quanto à cobrança de impostos instituída pela Fazenda Real, estes são dirigidos àqueles que se dedicavam à extração aurífera com o recolhimento do “quinto”, ou seja, o pagamento à Coroa de 20% do ouro encontrado em cada “data”. Cada minerador, procurando escapar de tal tributo - ou desfalque, pois os impostos recaíam de forma severa na produção do minerador -, buscava dissimular o montante relativo daquilo que era produzido, Contudo, a Coroa, prevenindo-se de tais sonegações, impõe um imposto adicional: a “finta”. Porém, em virtude do aumento da prática do contrabando do ouro, o governo metropolitano extinguiu a “finta” e estabeleceu, em 1725, as “Casas de Fundição”. Nestes locais, o minerador entregava o ouro em pó, o qual era, ali, fundido e transformado em barras. Destas barras descontava-se o “quinto”; quanto ao restante, este era devolvido ao minerador.
   Simultaneamente ao descrito acima, proibiu-se a exportação e a comercialização do ouro em pó. Em 1735, a Coroa passou a cobrar dos mineradores, além do “quinto”, um novo imposto: “a capacitação”. Tal imposto estabelecia que cada minerador deveria pagar, anualmente, 17 gramas de ouro por cada escravo atuando na mineração. Contudo, a “capitação” foi abandonada em 1750, permanecendo apenas a cobrança do “quinto”. Porém, exigia-se uma arrecadação mínima de 100 arrobas de ouro por ano. Caso o minerador não atingisse tal quantidade, decretava-se a “derrama”, ou seja, a cobrança do quanto restava para completar as 100 arrobas. Entretanto, à medida que as jazidas foram se esgotando, obviamente a produção de ouro despencou e, conseqüentemente, atingiu a arrecadação de impostos. Aumentaram, assim, as suspeitas de sonegação e da prática da violência por parte da Intendência, fatos que geraram crescentes atritos entre as autoridades metropolitanas e a população mineradora. Tais antecedentes foram, aliás, algumas, dentre outras causas, que contribuíram para o advento, em 1789, da Inconfidência Mineira.
   Além do ouro, exploraram-se, também, as minas de diamantes. Tal atividade teve menor importância uma vez contrastada com a exploração aurífera. Isto se deveu, sobretudo, em relação ao tamanho e à qualidade das pedras encontradas. Adotou-se, então, um método diferente no que se referia à cobrança de impostos em territórios nos quais se encontravam os diamantes. Demarcava-se, cuidadosamente, o território a ser explorado, isolando-o de tudo aquilo que lhe fosse exterior. A princípio, os exploradores pagavam uma quantia fixa à Coroa. Contudo, em 1771, criou-se a “Junta da Administração Geral dos Diamantes”, sob a direção administrativa de um intendente que apenas “prestava contas” ao governo metropolitano. Além do Distrito Diamantino, outras regiões, nas quais posteriormente foram encontradas jazidas de diamantes, experenciaram o mesmo processo administrativo.
   A decadência atinente à mineração dos diamantes, historicamente paralela à exploração do ouro, foi agravada por um outro fato: a depreciação das pedras preciosas na Europa em decorrência do amplo afluxo no mercado europeu.
   Sob os efeitos de uma fiscalização opressora, por parte da Coroa, sobre as regiões mineradoras, o sistema geral administrativo restringe a economia mineradora apenas à arrecadação do “quinto”, sem qualquer outra inovação técnica ou administrativa. Negando o envio de “especialistas” no que se refere à exploração aurífera, a Coroa, ao contrário, aumentava, seguidamente, o envio de fiscais cobradores de impostos, esgotando, com isso, as economias dos mineradores, além de irritá-los com extorsivos e onerosos tributos. Caso fluísse qualquer crítica contra tais fatos, por parte dos mineradores, os últimos eram punidos mediante severos castigos.
   Em fins do século XVIII, com o emprego exacerbador da referida política opressora, aliada ao esgotamento das minas de ouro, a mineração sofre um colapso geral. Uma outra causa bastante relevante por tal declínio econômico refere-se à inexistência, em territórios das Gerais, de outras atividades que viessem a substituir a hegemônica prática da mineração. Desse modo, conforme o ouro se esgotava, os mineradores empobreciam, dividindo-se em dois grupos: aqueles que ainda dispunham de alguns recursos, ou seja, os proprietários de alguns escravos e de grandes fazendas, contudo, produzindo apenas para o consumo local. De outra parte, os mineradores empobrecidos, os quais estabeleceram pequenas roças de subsistência e que, com o passar do tempo, foram sendo absorvidos pelos latifundiários, tornando-se, desse modo, dependentes dos proprietários dos grandes latifúndios.
   Por fim, paralelamente à decadência da mineração, as cidades se estagnaram, decaíram, algumas delas simplesmente desapareceram. Desse modo, criaram-se grandes áreas latifundiárias compostas de população relativamente numerosa, porém afastada do mercado financeiro, dedicando-se unicamente a uma rudimentar agricultura de subsistência.   


BIBLIOGRAFIA

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PRADO JR. Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. 19 ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.

______________. História Econômica do Brasil. 30 ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.

SODRÉ, N. Werneck. As Razões da Independência. 3 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

_________________. Formação Histórica do Brasil. 11 ed. São Paulo: Difel, 1982.

 

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é setembro de 2006. 

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 28/09/2006
Código do texto: T251718

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