Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/09/29 18:55 / 317 Artigos publicados
 

Grandes Pinturas

OLHANDO POUSSIN  (Grandes Pinturas) escrito em quarta 11 abril 2007 21:43

                               

                          Vênus mostrando suas armas a Enéias

                                          de Nicolas Poussin

 

 

 

 

     Olhando Poussin, tem-se constantemente a impressão de que ele reinventa a pintura ou, pelo menos, que, para aquém do século XVI que o viu nascer, ele estende a mão para os mestres do Quattrocento, em primeiro lugar Mantegna (quando no liceu, na sixième - época em que meu pai me levava freqüentemente ao Louvre -, tive como tema de redação a descrição de meu quadro preferido, escolhi o Parnasse).
     E ainda mais longe, pois a imaginação de Poussin apresenta, às vezes, essa ingenuidade, sem dúvida sublimada por seu gênio, cujo sabor abastardado Rimbaud buscava  no final do século passado na pintura primitiva. Assim, em Vênus montrant ses armes à Enée [Vênus mostrando suas armas a Enéias], do museu de Rouen, essa deusa, que flutua ao alcance da mão nos ares, parece ter sido concebida e executada à parte e, em seguida, transposta para a tela tal e qual em toda simplicidade. Ou ainda Apollon amoureux de Daphné [Apolo enamorado de Dafne], que está no Louvre, a dríade confortavelmente instalada (causa espanto) nos galhos de um carvalho minúsculo como se fosse um canapé. E também  Orion aveugle [Orion cego], a postura burguesa de Diana recostada em sua nuvem, como se estivesse numa sala, apoiada num mantel de chaminé. (...)
     (Nas afirmações atribuídas a Poussin, percebe-se um paralelo entre a linguagem articulada e a pintura, esboço da teoria lingüística da dupla articulação: “Falando da pintura, diz [...] que as 24 letras do alfabeto servem para formar nossas palavras e exprimir nossos pensamentos, assim como os lineamentos do corpo humano para exprimir as diversas paixões da alma, para fazer aparecer no exterior o que se tem no espírito”.)
(
Claude LÉVI-STRAUSS. Olhar, Escutar, Ver. Tradução Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cia. das Letras, 1997)

 

Leitura recomendada
Pelo
Prof. Dr. Sílvio Medeiros

Campinas, é outono de 2007.

 

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MELANCOLIA I, de DÜRER  (Grandes Pinturas) escrito em sábado 07 abril 2007 22:09

                                             

                                            MELANCOLIA I, de Dürer

MELANCOLIA*

“Eu, mãe de sangue denso, fardo putrefato pesando sobre a terra, quero dizer quem sou, e o que por meu intermédio pode vir a ser. Sou a bílis negra, primeiro encontrada no latim, e agora no alemão, sem ter aprendido nenhum dos dois idiomas. Posso, pela loucura, escrever versos tão bons como os inspirados pelo sábio Febo, pai de todas as artes. Receio apenas que o mundo possa suspeitar de mim, como se eu pretendesse explorar o espírito do inferno. De outra forma, eu poderia anunciar, antes da hora, o que ainda não aconteceu. Enquanto isso, permaneço uma poetisa, e canto minha própria história, e o que sou. Devo essa glória a um nobre sangue, e quando o espírito celeste em mim se move, inflamo rapidamente os corações, como uma deusa. Eles ficam então fora de si, e procuram um caminho mais que terrestre. Se alguém viu alguma coisa através das sibilas, isso aconteceu graças a mim.”
(Poema de TSCHERNING. Melancholey Redet Selber. In: Apud BENJAMIN, Walter. Origem do Drama Barroco Alemão. São Paulo: Brasiliense, 1984, p.170.)


     Albrecht Dürer (1471-1528) pode ser considerado como o primeiro pintor obcecado pela própria auto-imagem. Além dos famosos auto-retratos e cenas religiosas inscritos em suas gravuras, Dürer também introduziu o nu na arte do norte europeu. Sempre movido pela “tentação de Narciso”, Dürer acreditava que todo artista - feito um demiurgo - devia descobrir os segredos do universo para atingir a beleza. Mas, que padrão de beleza Dürer intencionava atingir mediante a arte? De acordo com os estudos de Erwin Panofsky, o estilo das obras de Dürer marca a preocupação do pintor em redescobrir e reconquistar os padrões clássicos da arte da Antigüidade. Por outro lado, devemos lembrar que, historicamente, Dürer viveu no momento de transição da Idade Média para o Renascimento. Esta época foi marcada por uma longa crise advinda de recentes acontecimentos que haviam assolado o território europeu: a Peste Negra, a Guerra dos Cem Anos, as Revoltas Populares, além de outras tragédias. A impressão que se tinha era a da aproximação do final dos tempos.
Nesse sentido, a obra de Dürer consistiu num trabalho de síntese; ela representa a fusão que a criatividade artística do artista operou entre a sua inspiração nos clássicos da Antigüidade e a sua sensibilidade religiosa - a devoção religiosa de Dürer aparece com intensidade, sobretudo em sua série de xilogravuras que representam cenas do Apocalipse. Além disso, nota Panofsky, o projeto de reconquista da Antigüidade Clássica por Dürer é movido por uma inspiração atravessada por elementos artísticos procedentes do “Quatrocento” italiano:
“até a iconografia das primeiras figuras ‘ideais’de Dürer parece depor a favor, e não contra, sua derivação do ‘Apolo de Belvedere’. Dürer não foi ao encontro do ‘antique’, mas o ‘antique’é que foi ao encontro de Dürer- através de um intermediário italiano.” (Panofsky, 1979, p.333)
Entretanto, a independência reivindicada pelo artista Dürer era, freqüentemente, incompatível com a sua fé religiosa. Nesse sentido, a obra de arte movida pelas concepções do próprio artista é que oferecerão a autonomia ao objeto estético de Dürer. A geometria era a ciência por excelência tanto para Dürer como para o seu tempo. Assim, a elaboração da coleção de xilogravuras do artista foi inovadora, na medida em que deu destaque às imagens procedentes do universo religioso movidas por leis naturais. Dessa forma, Dürer promoveu a união perfeita do real com o imaginário, circunscrevendo o delírio do imaginário em regras geométricas. Foi esse trabalho de criação e inovação artística que conferiu a Dürer a condição de primeiro pintor a elevar a descrição da Melancolia à dignidade de um símbolo.
O que vemos, afinal, no quadro Melancolia I ?
A imagem, em geral, reproduz um campo de ruínas. A personagem central é um anjo ou um gênio alado de semblante irado e com os cabelos e as vestes, ambos em desalinho. Numa das mãos apóia o rosto furioso, e na outra carrega um compasso com o qual procura registrar alguma coisa; o braço encontra-se apoiado num livro fechado. De acordo com estudos de Klibansky, Panofsky e Saxl, “la gravure de Dürer se compose, en ses détails, de certains motifs mélancoliques ou saturniens traditionnels (clés et bourse, tête dans la main, visage sombre, poing serré)... ”. Ao redor da figura alada encontram-se, em desordem e espalhados pelo chão, os mais variados utensílios da vida ativa, além de outros detalhes procedentes da tradição cultural (pedras transformadas em figuras geométricas, a figura de Eros, um calendário...); todos eles sem qualquer serventia e tornados objetos de uma meditação irada, insistente e infindável sob o furioso olhar dessa espécie de anjo. Ao fundo, os anéis de Saturno suspensos no céu reúnem o sol (ou a lua?), irradiando intensos feixes de luz; vê-se, também, um sereno oceano. A geometria penetra em todos os detalhes do quadro, adquirindo status de poder artístico organizador na Melancolia I de Dürer. Como observa Olgária Matos, a:
“(...) aliança entre geometria e melancolia tem uma longa tradição: aqueles dotados para a geometria são predispostos à melancolia, porque a consciência de uma esfera situada fora de seu alcance faz sofrer àqueles que têm o sentimento da limitação e insuficiência no plano do espírito.” (Matos, 1989, p. 152)
Assim, para os filhos de Saturno o saber é sempre obtido pela eterna ruminação dos pensamentos, marcada pela certeza de que a conquista da objetividade do objeto é sempre insatisfeita.
A teoria da melancolia está estreitamente associada às influências astrais. A mais fatídica dentre elas é a exercida pelas influências astrais de Saturno, o planeta portador da melancolia. Segundo as análises de Klibansky, Panofsky e Saxl, “la fusion opérée par Dürer de la triade Saturne, Mélancolie et Géométrie son unification en une figure symbolique”.
Contudo, em se tratando de seus antecedentes culturais, a concepção de Melancolia, para os antigos gregos, mostrava-se por uma significação diferente, a qual avança sobre a Idade Média mediante a filosofia naturalista dos Quatro Humores.

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2007.

* Direitos autorais reservados à Biblioteca Central da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, 1999.

NOTA DO AUTOR
O leitor interessado em contemplar a gravura “Melancolia I” de Dürer, por gentileza consultar: www.vil.net/nkdee/tegendraads.jsp


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KLIBANSKI, Raymond, PANOFSKY, Erwin, SAXL, Frittz. Traduit de L’a anglais et d’autres langues por Fabienne Durand-Bogaert, Louis Évrard. Saturne et la Mélancolie. Paris: Gallimard, 1989.

MATOS, Olgária. Os Arcanos do Inteiramente Outro a Escola de Frankfurt, a melancolia e a revolução. São Paulo: Brasiliense, 1989.

PANOFSKY, Erwin. Significado nas Artes Visuais. Tradução Maria C. F. Kneese. São Paulo: Perspectiva, 1979.

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 07/04/2007
Código do texto: T441119

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A JANGADA DO MEDUSA: epopéias, viajantes e o confronto dos tempos  (Grandes Pinturas) escrito em sexta 23 março 2007 03:38

A JAGANDA DO MEDUSA

de Theodorè Géricault 

“Escuto um exército em carga pela terra,
E estrondo de cavalos se arrojando, a espuma nos joelhos:
Arrogantes, com armadura negra, atrás deles se erguem,
Desdenhando as rédeas, com chicotes flutuantes, os cocheiros.

Eles bradam para a noite os seus nomes de guerra:
Choro dormindo ouvindo ao longe o vórtice da gargalhada.
Eles cindem o escuro onírico, fulgor que cega,
E martelam, martelam meu peito como a uma bigorna.

Eles vêm sacudindo em triunfo a verde e longa cabeleira:
Eles surgem do mar e aos berros correm pela praia.
Coração, não tens prudência nenhuma, com tal desespero?
Amor, amor, amor, por que me deixaste só ?”

(James Joyce. Música de Câmara, XXXVI)



(“ I hear an army charging upon the land
And the thunder of horses plunging, foam about thei knees.
Arrogant, in black armour, behind them stand,
Disdaining the reins, with fluttering whips, the charioteers.

They cry unto the night their battle-name:
I moan in sleep when I hear afar their whirling laughter.
They cleave the gloom of dreams, a blinding flame,
Clanging, clanging upon the heart as upon an anvil.

They come shaking in triumph their long green hair:
They come out of the sea and run shouting by shore.
My heart, have you no wisdom thus to despair?
My love, my love, my love, why have you left me alone?”)



VIAGENS EM TEMPOS PASSADOS E NA MODERNIDADE

    
   O canto épico narra a precária relação entre os homens e a natureza confundida com os próprios deuses. Surpreendido com a estranheza do mundo que se abre em abismos, o herói aproxima-se dele, narrando-o. Em águas desconhecidas navega a jangada de Odisseu:

“ _ Ai de mim, desventurado! Que me acontece agora por último? A deusa, receio, em tudo me disse a verdade , quando me declarou que teria no mar a conta inteira de sofrimentos, antes de chegar à terra pátria. Eis que a predição se cumpre inteira, de tais nuvens cobre Zeus a imensidão do céu e conturba o mar, enquanto me assaltam os ímpetos dos ventos de todos os rumos. Agora é certo o meu fim abismal. Três, quatro vezes ditosos os dânaos que sucumbiram lá na Tróade vasta, pra bem merecerem os filhos de Atreu! Morresse eu também assim, deparando a minha sina, no dia em que hordas de troianos dispararam sobre mim seus dardos, disputando o corpo do filho de Peleu! Eu teria então exéquias e os aqueus espalhariam a minha fama; o destino decretou, ao invés, que eu pereça de morte mesquinha.
Enquanto assim falava , um grande vagalhão desabou do alto sobre ele, com tremenda violência, fazendo girar a jangada ...”  (Od. , pp.66-67)

   Entretanto, a deusa marinha Leucotéia (guia dos marinheiros nas tempestades) tomou conhecimento da viagem mal sucedida do herói grego Odisseu, vindo rápido em seu auxílio. Ofereceu-lhe, então, um véu, pedindo que o estendesse sobre o peito. Dessa forma, o herói estaria a salvo da morte iminente. Odisseu, em meio ao tormento dos mares, a princípio duvidou das palavras da deusa. Por fim, atendeu-a quanto ao pedido. Abandonou a jangada, despiu-se e colocou o véu contra o peito. Durante dias o herói permaneceu subjugado aos desejos perversos dos deuses marítimos, que tentavam retirar-lhe a vida. Após muitos sofrimentos, e acreditando que a morte estivesse próxima, Odisseu avistou terras ao longe. Era a paradisíaca ilha dos feácios.
   Do seio da epopéia homérica o jogo intertextual aponta para o insondável desconhecido, encontrando acolhimento renovado na epopéia virgiliana. O poeta latino narra as desventuras da viagem do herói Enéias, de Tróia ao Lácio; elas consistem em provas iniciáticas para a ascensão dos homens mortais à condição de heróis.

“Negra a noite o mar todo recobre. Troam os pólos; aos raios freqüentes o mar se ilumina. Tudo à visão dos troianos são formas variadas da Morte. Súbito, o frio percorre de Enéias os membros, deixando-os paralisados; aos astros as mãos elevando, por entre fundos suspiros, bradou: ‘_ Oh, três vezes e quatro felizes os que morreram à vista dos pais, sob o muros de Tróia! Ó tu, valente Tidida, o mais forte dos filhos de Dânao! Não ter eu tido a ventura, ao lutar nas campinas de Tróia de perecer sob os golpes dos teus fulminantes ataques, no mesmo ponto em que Heitor sucumbiu sob a lança de Aquiles, onde Sarpédone ingente, onde tantos escudos lascados e capacetes e corpos de heróis o Simoente carrega!’
Não acabara, e o violento Aquilão em reforço à tormenta bate de frente na vela maior e até aos astros a atira; quebram-se os remos; a proa se volta , deixando os costados à mercê d’ água.” (En. , p.11-12 )

   Contudo, Netuno (deus do mar), não apreciando espetáculo tão triste, invoca os ventos propícios, tornando o mar manso. Assim, Enéias e seus sócios conseguem desembarcar nas costas da Líbia. Aproximam-se da morada das ninfas e ali descansam. Em seguida, partem em longa jornada rumo à fundação de Roma.

   Atravessando séculos e séculos - do tempo mítico para o tempo histórico -, o percurso do herói moderno tende a constituir-se no reverso do percurso do herói épico. Se os heróis clássicos se definem como homens de descendência divina, destacando-se dos comuns dos mortais pela coragem ou pela interpelação do auxílio divino, no alvorecer da modernidade, com a potência civilizatória engendrada pelas Revoluções Francesa e Industrial, surge um novo tipo de herói, agora secundado pela expansão ilimitada do domínio racional, tornada fundamento auto-suficiente de uma política utópica dotada de um espírito tecno-científico que se pretende muito eficaz em matéria de controle da natureza - o futuro é a terra prometida! Assim, a “deusa Razão” deseja realizar-se na história humana, denunciando tiranias e superstições e proclamando o fim das fronteiras entre os povos. Nesse sentido, o heroísmo não é mais singular, mas plural: ele é polifônico, ele é coisa de todos, na medida em que o povo é “convidado” a participar do referido empreendimento utópico. Se antes os deuses salvavam os seus heróis, elevando-os à condição sobre-humana, agora, em tempos modernos, aparece um novo recurso: a Razão é convocada para salvar os homens de todos os abismos.
   Na tela “A Jangada do Medusa” (1), Théodore Géricault figura o novo tempo com seus heróis anônimos gestados por intermédio do movimento do pensamento iluminista. Os personagens da tela são inspirados em quê? Num fato histórico, isto é, o pincel do pintor age como a pena do repórter, cujo grau de realismo busca reconstituir todos os detalhes de um trágico acontecimento. Mas qual é o realismo que está por detrás dessa imagem dantesca? O realismo traduz a esperança dos sobreviventes de um naufrágio à vista do “Argus” - o “navio redentor”, irmão do “Medusa”. Homens desgraçados e em situações emocionais extremas de pânico, angústia e desespero olham e acenam, num estupor de esperança e desesperança, para o engenho humano “Argus” - a derradeira tábua de salvação dos náufragos.
   A pintura parece “narrar” uma verdade poética, na medida em que age como uma metáfora da violenta e feroz “odisséia” da modernidade, cumpridora da “epopéia” de uma nova ordem político-econômica rumo ao privilegiado futuro.
   Quem são precisamente os personagens d’ “A Jangada do Medusa”? 
   No verão de 1816, uma fragata real francesa – “Medusa” - naufraga nas costas da África, enquanto levava soldados e colonos franceses para a missão de colonizar o Senegal. O capitão do navio foge, e a jangada com os seus sobreviventes fica à deriva em alto mar à mercê de violentas tempestades, durante quinze dias. Procurando cumprir exemplarmente as ordens da burguesia e do comércio, dentro da jangada vemos homens nus e seminus nutridos por suas ânsias e esperanças vãs, verdadeiros espectros cambaleando ao ritmo da dança macabra regida pelos vagalhões do violento mar. Na jangada, no decorrer dos acontecimentos, foi instaurada a prática do canibalismo entre os infelizes partícipes da ação histórica fracassada, traduzindo-se numa metáfora da brutalidade política do Estado Moderno recém-instituído. Homens são orientados a mergulhar no futuro - sem o auxílio de deuses e sem as palavras das ninfas - somente com os olhos fixos no prodigioso e ameaçador espetáculo da natureza, e em busca do prometido admirável mundo novo, a fim de satisfazer os desejos titânicos dos novos poderes estabelecidos. Entretanto, o cenário natural desvenda os novos e mortais caminhos tão ambicionados pelos rumos da História recente que, com freqüência, trai os seus protagonistas. Nesse sentido, a fragata agitada e “engolida” pelos imensos vagalhões pode servir de metáfora para um Estado que abandona aqueles que o servem.
   Ao fitarmos o céu desta paisagem dantesca - ou para a polaridade entre a luz e a sombra, que se desdobra sobre o mar revolto - parece-nos que Géricault procurou estabelecer os limites entre a clareza e a obscuridade ou entre o racionalismo e o irracionalismo do novo empreendimento humano, no qual o sagrado perde o direito de existir à luz da razão. Com o movimento dramático das figuras no quadro, Géricault nos comove com forte dose emotiva: a exposição dos cadáveres pelos cadáveres representa um marco político. Nela o pintor procura exprimir com intensidade dramática e épica os fatos contemporâneos.
   Metáfora de uma sociedade que devora os próprios filhos, o quadro representa uma tragédia coletiva com suas esperanças e desesperanças igualmente coletivas (“Argus”, ao longe, pode, também, representar aos sobreviventes a esperança depositada nas novas formas políticas). A pintura, exercendo o papel de desvendamento da história oficial de uma época, se faz metáfora do absurdo, convertendo-se duplamente no emblema perverso do tempo burguês e numa manifestação de uma das doenças da Razão: da redenção da humanidade pelo progresso histórico. Como cenário de uma tragédia moderna, “A Jangada do Medusa” parece retratar a nossa aventura errante nos quadros de uma modernidade indiferente às multidões ou às massas anônimas lançadas ao abandono no interior das sociedades contemporâneas.



NOTAS

1. Cf. a referida tela no seguinte site: http:/www1.uol.com.br/bienal/24flash/nuh/frag_rabelais_g.htm
(outras referências: GÉRICAULT – 1791/1824 – A Jangada do Medusa, 1819. Paris, Museu do Louvre.)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOMERO. “Odisséia”. Tradução Jaime Bruna. 13 ed. São Paulo: Cultrix, 1994.

JOYCE, James. “Música de Câmara”. Tradução Alípio C. Franca Neto. São Paulo: Iluminuras, 1998.

VERGÍLIO. “Eneida”. Tradução Carlos A. Nunes. São Paulo: UnB e A Montanha, 1983.

__________________________

Coleção:

“A Grande Arte na Pintura”. Tradução Virgínia Guimarães. Barcelona: Salvat Editores S/A, 1987 (vários volumes).

 

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2006

 

OBS.

CAROS LEITORES,

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UM ABRAÇO A TODOS!

SÍLVIO MEDEIROS.


SÍLVIO MEDEIROS

Publicado no Recanto das Letras em 27/04/2006
Código do texto: T146006

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