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Contos e Cronicas

JUVÊNCIO E SEU PARQUE DE DIVERSÕES  (Contos e Cronicas) escrito em terça 10 junho 2008 15:24

BALLERINA II

Juan Miró

JUVÊNCIO E SEU PARQUE DE DIVERSÕES

Juvêncio era trabalhador de parque de diversões. Pobre e imundo, ele armava as rodas-gigantes para a alegria das crianças do bairro. Proletários divertiam-se.
     Juvêncio sempre sonhara com uma namorada, com uma roupa nova, sapatos limpos... Apenas sonhava. Na realidade, ele nada possuía. Nascera na rua, sem pai e sem mãe; não se tornando marginal simplesmente pelo fato de trabalhar neste pequeno parque de diversões. Juvêncio recebia, dos donos do parque, sopapos, xingamentos e os mais variados tipos de agressões.
     Geralmente, as moças do lugar riam de Juvêncio, riam de sua boca desdentada, de sua vida inferior e humilhante. As moças caçoavam dele, mas o pobre rapaz as amava. Sonhava em namorá-las um dia e abraçá-las lá nas alturas das rodas-gigantes.
     Sozinho vivia Juvêncio, sozinho com o seu cão já velho, e com o seu violão. Às vezes chovia, e ele, retraindo-se na tristeza, chorava por não ter casa, não ter moça para beijar, por se encontrar abandonado no mundo dos seres humanos.
     Certa vez, Juvêncio ficou admirado com uma moça que fôra ao parque para se divertir. Era realmente bela, e Juvêncio sentiu a grande atração de todo homem por uma mulher. Ela fingiu que correspondia e olhava-o, sorrindo maliciosamente. Juvêncio iludiu-se. Todas as noites, Juvêncio pensava e passava  a conversar com Estela: “_ Estela, minha estrela...”, versava Juvêncio na ingênua paixão ardente do seu peito.
     Passara a conversar, então, com a moça, todos os dias em que ela se dirigia ao parque – aliás, essa era a hora que Juvêncio mais gostava em sua vida miserável, a hora de ver Estela. Quando a via... sentia-se outro. Toda a humilhação de sua miserável vida, todas as agressões recebidas pelos donos do parque desapareciam. Estela era seu encantamento, sua esperança de vida. Ele, às vezes, sentia vergonha de conversar com a moça, porque todo sujo, imprestável, a boca sem qualquer dente... mas ele não se aborrecia, pensava que a moça o achava belo, pensava que existia amor, pensava que este amor não via roupas sujas, dentes podres, boca banguela, vida inferior. Estela era, assim, tudo para ele. Juvêncio passava horas com o seu velho cão sardento, quando se encerrava o funcionamento do parque.
     Ficava horas dizendo, para si próprio, coisas sobre a bela moça que enfeitara com a cor da ilusão o seu desacreditado coração.



Em um sábado, quando os trabalhadores do parque armavam toda a diversão do pequeno bairro suburbano, alguém chamou Juvêncio:
     _ Juvêncio! Você está sempre conversando com aquela “cabritinha” da Estela... Até parece um inocente príncipe encantado! Fique sabendo, pequeno príncipe, que ela está gozando de sua cara, dizendo que você é banguela, mendigo, idiota. Disseram que a viram a chacotear o seu nome para todas as meninas do bairro.
     Juvêncio avançou sobre o homem que disse tais palavras. Não poderia acreditar em tal fato. Aquela doçura de pessoa, que chegara até a beijá-lo, iria lhe cometer semelhante humilhação?! O homem aplicou-lhe uma rasteira, lançando Juvêncio ao chão. Juvêncio sentiu-se horrivelmente arrasado. Logo, todos os trabalhadores do parque ririam dele sarcasticamente, ferindo, cada vez mais, com crueldade, a sua vida.
_ Ah, Juvêncio, o namoradinho, está apanhando! Bate neste retardado.
     Os homens juntaram-se sobre o pobre moço, enchendo-lhe o corpo de coques, pontapés, safanões, cuspidas. Juvêncio chorava e, desgraçadamente, mais aumentava os risos dos homens.
     _ A moça está tirando sarro da cara deste trouxa, e ainda ele se volta contra os amiguinhos?! O bairro inteiro já conhece todas as chacotas que a Estelinha inventa pro Juvêncio! Ha, ha, ha, ha ...
     Juvêncio não conseguia acreditar na história daqueles homens.
Continuava a amar ainda mais a moça. Talvez ela fosse, para ele, uma espécie de carinho que jamais experimentara em sua pobreza solitária. Não se parece engraçado ou romântico, mas Estela representava uma esperança de vida para o passado de Juvêncio, presente e futuro. Ela existia como a única estrela que acalmava e alegrava a sua vida esquecida de quase-mendigo.



Diziam, por todo o bairro, que Juvêncio era louco, pois conversava o dia todo com o seu magricela cachorro. E as pessoas caçoavam dele, seja no parque, quando trabalhava na armação, seja quando ia ao bar próximo comprar um doce. Diziam: _ Lá vai o louco! Lá vai o Juvêncio, nome de burro. A Estela piranha está dele caçoando. Ha, ha, ha, ha....
     Isso ardia no peito de Juvêncio, mas ele suportava. Para um coração que não tenha sensibilidade, todas essas chacotas não importariam. Porém, Juvêncio, apesar de ter sofrido muito, possuía um forte sentimento sensível; qualquer ofensa ou até mesmo uma brincadeira o feria amargamente. Não posso explicar por qual razão Juvêncio era assim, ou melhor, o que originara esta grande carga de sensibilidade. Só posso dizer que uma existência solitária guarda todo um acervo de sentimentos que não pode se exteriorizar. E quando encontra um simples fato, faz dele todo o escoadouro de seu sentimento reprimido. Tudo isto devido à agressividade de uma sociedade dividida, de homens partidos, na qual cada pessoa reprime o seu coração, tornando-se, assim, violenta ou excessivamente apaixonada. A existência transforma-se na face da desconfiança e do medo.
     Juvêncio andava, agora, mais triste. Tinha uma leve esperança de que tudo o que falavam era mentira. Quem sabe Estela desmentiria tudo isto e acalentar-lhe-ia contra todas aquelas ofensas – isso era o que pensava sua ingenuidade apaixonada.



Mas em uma noite, num domingo, tudo ia se revelar na mente de Juvêncio. Foi namorar Estela, quando a encontrou com outro rapaz, dentro de um automóvel, em frente ao parque de diversões. Juvêncio gritou: _ Saía daí, Estela!!
     Estela se assustou, depois ao constatar quem era o rapaz, ofereceu-lhe um riso sarcástico: _ Ah! o bobinho veio me “namorar”...
     O rapaz que acompanhava a moça, disse: _ Quem é esse monstro? Mande-o embora. Deixa nós “meter” sossegados, seu panaca ...
     Juvêncio, chorando, viu todo o seu mundo ruir. Sentiu uma raiva incontrolável de tudo e de todos. Sentiu a revolta dos homens, das agressões, das bofetadas que recebia no corpo e na alma. Então se armou de uma ferramenta e foi de encontro à Estela. Ela disse:  _Juvêncio, nome de burro... Mocorongo... Bicha! Ha, ha, ha, ha... como me diverti com você! Você só serviu para ser o meu parque de diversão, para caçoar de algum retardado nas horas vagas! Você não é homem, não usa essa ferramenta nem pra matar uma mosca. Disse isso, olhando para o rapaz que se encontrava dentro do automóvel: _ Meu amor, dá uma sova neste louco do parque?!
     O rapazinho saiu do carro e chutou Juvêncio, dizendo: _ Não tenho medo de ferramenta não, panaca... Ainda mais na mão de um viado...
     Juvêncio pegou a ferramenta e lançou-a com força no rosto do rapaz, que acabara de sair do carro. O sangue esguichou. Um pedaço de rosto do rapazinho foi partido. Estela soltou um grito lancinante. Todo o pessoal do parque ouviu, dirigindo-se, todos, para o local de onde se ouviu o grito. Havia muita gente no parque naquele dia. Juvêncio correu para os alojamentos, temendo que algo lhe acontecesse, agora que tinha ferido gravemente (ou matado?!) o rapazinho.
     Estela, aos gritos, foi ver o estado do rapaz, que se encontrava todo ensangüentado, constatando que ele estava morto. Quando isto percebeu, Estela gritou para o povo: _ Foi o Juvêncio que fez isso. Matou José Roberto com esta ferramenta! Meu Deus! Está louco aquele miserável. É um louco, vocês precisam matá-lo, agora!
     “_É um louco, vocês precisam matá-lo, agora!” Esta frase como que despertou um ódio incontrolável na multidão que se formara no local. Toda a revolta que Estela possuía soltou-se naquele momento. Revolta de sua vida de prostituta, revolta contra a malicia dos humanos, que estragara toda a sua vida. Era preciso vingar-se de alguém, e esse alguém era um fraco: Juvêncio.
     Todos os que se divertiam no parque reuniram-se para linchar Juvêncio (agora, esta era a diversão), e correram em direção dos acampamentos do parque, a fim de caçá-lo e arrebentar seu magro corpo. O moço se encolheu num canto e pensou em todo desprezo que recebera do mundo. A desconfiança, a humilhação, a agressividade: tudo rebaixando os seus ossos perante todos os seres. Chorava abraçado a seu velho cão que também gemia, acompanhando o dono como se fosse um homem e sentisse a dor de todo o desprezo e violência humanos. O cão sentia a própria miséria humana em seus pêlos.



O moço desprotegido ouviu o povo gritando o seu nome e dizendo que iria matá-lo. A multidão enfurecida tinha, agora, em quem descontar todos os seus preconceitos, os seus ferimentos na consciência, a sua neurose colecionada graças à ganância dos seres. Essas pessoas tinham Juvêncio para saldar o que fôra perdido de humano nas suas mágoas, seus rebaixamentos nos mundos do trabalho, nas suas fomes e apreensões.
     Teriam que espancá-lo para aliviar o fardo de violência contra todo um modo de vida viciado; teriam que espancá-lo... agora, que um grito acordou a chama da crueldade passada de filho para filho, o corpo da vingança contra as suas próprias vidas.
     Juvêncio, quando viu as pessoas se aproximarem, correu desesperadamente pelo parque de diversões. Não pensava em nada, somente em preservar a vida. Via luzes por todos os lados, luzes de sua infância maldita, de sua dor num mundo injusto.
     Acionou a roda gigante, abraçou o seu cachorro e pulou num banquinho. O grande e iluminado brinquedo começou a girar, e Juvêncio, alucinado, começou loucamente a gargalhar do povo que se reunia para linchá-lo, povo armado de paus e de porretes. Mas, ninguém esperava que Juvêncio, no momento que atingiu o topo da roda gigante, atirar-se-ia, abraçado ao cachorro, de lá de cima. Caiu em meio às ferragens, morrendo, assim, despedaçado. O cachorro - ainda vivo, mas muito ferido - gemia seus últimos momentos de vida entre as ferragens abraçado fortemente pelo corpo despedaçado de Juvêncio.
     De repente, diante daquela triste cena, o povo que desejava linchá-lo começou, aborrecido, a abandonar o lugar. Algumas pessoas choravam...
     Um grande peso de consciência desceu sobre os olhos de Estela, das pessoas do bairro, dos empregados do parque. Desceu sobre todas aquelas pessoas que lhe maltrataram, lhe desprezaram, lhe caluniaram, como se Juvêncio fosse um réptil; desceu, enfim, um grande e doloroso remorso. E agora todos estavam extremamente entristecidos pela morte tão trágica deste pobre moço trabalhador das ruas, dos parques de diversões. Todos choravam, agora, em nome de Juvêncio.
     Uma imensa e espessa lágrima desceu sobre aquelas pessoas que não souberam oferecer a Juvêncio o carinho e a humanidade que um pequeno cão vira-lata soube lhe dar...


                         FIM



FERNANDO MEDEIROS
primavera de 2005
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 20/12/2005
Código do texto: T88537

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DIA DE CÃO  (Contos e Cronicas) escrito em segunda 24 setembro 2007 15:12

 

Estação Ferroviária de São Francisco, 1906 - Alagoinhas/BA 

Foto de Carlos Cornejo e João E. Geradetti 

 

 

Dia de Cão
(20.09.2007)
 
    

 

     Como não tinha aula na faculdade no dia 20 de setembro, aproveitei para sair um pouco da rotina de trabalho-casa-faculdade. Combinei uma viagem a Alagoinhas, distante somente 107 km de Salvador a fim de conhecer a terra de Jean Wyllys. Convidei o amigo Vagner Paz para me acompanhar.

     Acordei às 7 horas com o celular me despertando. A música programada: "Ela é problemática". Levantei de um pulo, corri ao chuveiro de água quase gelada, depois esquentei o peito com um cafezinho e um pão com margarina. Meia hora depois já estava num posto de gasolina, onde também faria um saque de dinheiro para os gastos na viagem.

     Ainda meio sonolento, fui forçado a acelerar o carro para acompanhar o ritmo da cidade que já estava desperta há muito e para não me sentir um estranho no ninho. Resultado: ao chegar esbaforido ao posto de gasolina, após parar o carro ao lado da bomba, deixei o motor parar bruscamente. Lamentei em voz baixa comigo mesmo e pedi ao frentista que completasse o tanque do veículo com álcool.

     Paguei o combustível e fui fazer o saque em um caixa eletrônico no interior da loja de conveniência do posto. Na minha frente, caminhava rápido um senhor alto e gordo. Ele foi direto ao caixa e realizou um saque. Enquanto esperava minha vez, eu me preparava mentalmente para uma possível agressão. Minha resposta seria: "Eu não estou querendo ver sua senha. Além de não ser um bandido, não teria como ver você digitando, por causa do seu tamanho e largura". Senti que seria uma ofensa muito forte e tentei encontrar uma outra forma de reagir... Felizmente o homem não me disse nada e seguiu seu dia ignorando a minha presença.

     Após fazer a retirada de dinheiro, corri o olho aos arredores em busca de pilha para minha máquina fotográfica. Depois fui ao caixa e perguntei sobre pilhas à moça que ali atendia. Ela respondeu que aguardasse um momento, que me atenderia, afirmando que tinha pilha à venda. Fiquei observando o trabalho dela, a forma como sorria para os fregueses e como desempenhava sua função com alegria e disposição. Achei interessante o traquejo, a educação, a gentileza e delicadeza que dispensava a cada freguês. Pensei: esta é uma forma positiva de viver. Hoje iniciarei uma nova etapa em minha vida, que será baseada no bom humor. Tentarei não me estressar nem me irritar facilmente com as contingências da vida.

     Após ser atendido, dirigi-me calmamente ao carro e segui pelas avenidas Bonocô, Antônio Carlos Magalhães, Tancredo Neves e Paralela, em direção à casa de meu amigo. Próximo à faculdade Jorge Amado tive que retornar, atravessando a pista no sentido Centro. Enfrentei uma guerra feroz na travessia da avenida Paralela, pois os veículos passavam a 80km por hora ou mais, enquanto eu furava o fluxo de carros a uma velocidade média de 60km/h.

     Os motoristas buzinavam nervosos, apressados, alertando-me para um possível acidente ou querendo que eu desaparecesse da frente deles. Dois carros quase trombam com o meu, pois os condutores não diminuíram a velocidade para a minha passagem. O susto me fez ficar ainda mais nervoso e estressado.

     Cheguei à casa de meu amigo, num condomínio cercado de natureza por todos os lados. Uma sensação de paz e de liberdade invadiu meu ser, me senti longe da guerra urbana do trânsito metropolitano. Senti-me seguro e confortável. Subi dois lances de escadas, entrei no apartamento dele, nos cumprimentamos, falamos um pouco sobre o estresse da cidade e resolvemos mudar de assunto, para pensar na paz e prazer que seria a viagem.

     Saímos após saborear uma xícara de café com leite. Dirigi-me à avenida Paralela, dessa vez mais tranqüilo. Enfrentei o burburinho sem reclamar e sem me deixar contaminar. Rumei em direção a Mussurunga, peguei a estrada CIA-Aeroporto (sentido CEASA) e a Via Parafuso. Atravessei o Pólo Petroquímico de Camaçari, passei por Dias D'Ávila e depois peguei a BA-099 e em seguida a BR-110. Tranqüilidade. Pista boa, natureza ladeando a rodovia, ar puro, o papo rolou solto sobre temas como paz, vida longa, respeito e solidariedade.

     Chegamos a Alagoinhas após passarmos por Catu e Pojuca sem parar nas duas cidades. Em Alagoinhas, estacionamos no centro e ficamos percorrendo os arredores. Liguei para Jorge Fernandes, um dos fãs de Jean Wyllys que conheci via internet. Por sorte ele estava justamente numa casa lotérica bem próxima a nós, apesar de eu não tê-lo prevenido da visita. Eu e Vagner caminhamos umas duas quadras e nos encontramos com Jorge que, muito gentilmente nos levou à residência de uma prima de Jean, Nayara. Depois nos conduziu até a casa da família de Jean Wyllys, no bairro Inocoop I, onde fomos recebidos por Rômulo, irmão do nosso ídolo Jean. Ali fomos muito bem recepcionados, entramos, tiramos fotos, conversamos sobre vários assuntos e depois nos despedimos.

     Jorge teve de nos deixar, pois tinha marcado uma pescaria com amigos na cidade do Conde, na Linha Verde. Eu e Vagner percorremos a cidade, almoçamos e descansamos antes de partir de volta a Salvador. No restaurante onde almoçamos, encontramos com um ex-colega de escola de Vagner. Eles bateram papo sobre o passado e depois combinaram de se ver em breve.

     Na passagem por Catu, Vagner se encontrou com dona Mariana e sua filha Vânia de Jesus. Velhos amigos do tempo de escola agrícola, fizeram uma sessão nostalgia. Ali tomamos suco de graviola e conversamos animadamente sobre várias assuntos antes de seguir viagem.

     De volta a Salvador no finalzinho da tarde, o dia voltou a ser de cão novamente, com estresse, trânsito violento, pressa... Passei na casa de Vagner para descarregar as fotos da máquina e transferi-las para meu pen drive.

     Eu já tinha um recital de poesias do qual não poderia escapar, onde seria homenageado pela amiga Vanise Vergasta... Liguei pra minha casa e pedi que alguém me esperasse no playground com uma camisa, pois eu não teria tempo de subir os três andares para me arrumar.

     O dia de cão terminou no SESC da rua Chile, no centro da cidade de Salvador. A poesia me fez esquecer todo o cansaço, sono e estresse...Veja as fotos da viagem:
http://www.galinhapulando.com/album.php?ida=2455     

 

Valdeck Almeida de Jesus

Salvador, 20 de setembro de 2007.

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AS FACAS E OS DIAMANTES  (Contos e Cronicas) escrito em segunda 02 abril 2007 22:12

      



   O show da moça e do rapaz. O tablado era bastante amplo. O circo servia a ambos de sobrevivência, e o casal nele se apresentava.
   A moça no tablado e o rapaz com as facas. A multidão parecia silenciosa. O rapaz não vacilava: atirava as facas. Os belos olhos verdes da moça se fechavam. “Era o seu amor, o amor do rapaz?” – perguntava a multidão. As facas grunhiam impassíveis. Estalavam na madeira. Nenhuma tocava no corpo amado da moça. Passavam rentes.
   O brilho das facas era imenso. O olho do rapaz petrificava-se. O seu amor girava no tablado. A platéia do circo levantava-se inteira. Os espetáculos davam o sustento àquele casal. Os malabaristas cortantes, a moça esperando os golpes que não lhe atingiam, pois saíam das mãos seguras do seu amado. Os aplausos eram intensos.
   Os muitos circos convidavam, sempre, o unido casal. As mãos do rapaz eram firmes. Concentrava a vista. A moça respondia sensivelmente. O brilho das facas parecia exercer o poder do sexo. O tablado enchia-se de facas. O seu corpo amado e belo estava no centro. O seu amor estava em meio àqueles brilhos mortíferos. Era a sua mulher, o seu sustento, o dinheiro ao findar o show. O salário por aquele espetáculo. Sua mão não vacilava. Tinha de ser firme. Qualquer erro, era a sua mulher que ele colocava em perigo. O rapaz sentia a angústia daquele jogo. A vida parecia se embaraçar naqueles momentos bem definidos. Então ele atirava as armas, e a massa vibrava. A arma era extremamente real. Parecia, sempre, que uma das facas teria o destino fatal. Mas não... a faca passava rente. Os olhos verdes de sua linda mulher brilhavam. Brilhavam eroticamente... Havia um erotismo que o prendia ao tablado. Seria o erotismo daqueles olhos que fazia com que as facas não alcançassem o corpo? Ou seria, apenas, uma habilidade ou responsabilidade do rapaz que realmente fazia com que as facas se desviassem?
   O jogo prosseguia a cada espetáculo, a cada caminho de cada circo. O casal perambulava por todos os cantos. Os aplausos pareciam, sempre, parciais. Quem se importaria com eles? Esta angústia é que acompanhava o rapaz e sua bela moça. Tanto tempo naqueles espetáculos, naquelas navegações impassíveis que entristeciam a outra face dos espetáculos.

.............................
  
   O público passava os olhos pelos espetáculos. A singularidade daquelas vidas buscava o quê? Era continuar sempre navegante.
   Sempre entre estranhos que não falavam. O rapaz e a moça do tablado. Mais uma cena. O rapaz manteria tanto controle sobre si mesmo a ponto de desferir as facas?
   Era um trabalho de artista ou simplesmente de sorte? Em cada olho passava-se aquela visão. A arquibancada infestava-se de respingos luzentes. Os trapézios dançavam no ar. Era tão velho tudo aquilo...
   E novamente, no tempo arenoso, erguia-se o tablado, e a moça de olhos verdes no centro. No centro de todo o recinto. E o rapaz erguia os braços e executava o seu jogo cotidiano.
   Não passava o tempo... e o rapaz sentia uma grande inquietação. Noites e noites a pervagar. Não queria emprego. Não tinha mais coragem nem tão poucas ilusões institucionais. A vida, para ele, parecia sem formas. A sua companheira, moça de olhos verdes, já não atraía tanto. Estava enjoado. E só a inquietação, só a inquietação e os espetáculos e as facas e o tablado e a sua mulher...
   As noites interioranas não tinham cor, só silêncio. Os caminhões giravam, trafegando, à longa distância. O rapaz só ouvia esta ânsia de estrada, só esta ânsia; olhava a noite como o antro de tudo. E só a inquietação... Umas “mexidas” sob o corpo de sua mulher, sua companheira de trabalho no circo mambembe. A história parecia congelada, desde os tempos de menino. Eram as facas que brilhavam à noite. As facas do jogo que proporcionavam ao casal o pouco sustento. E quanto todos aqueles brilhos passaram a fascinar o rapaz!
   O rapaz passava noites olhando os punhais como se fossem diamantes. Verdes eram os diamantes e os olhos da sua mulher. As facas não eram diamantes, e o rapaz chorava escondido. A mulher passava por ele, em silêncio. O fascínio pelas facas era tão mórbido assim?! O rapaz sonhava sob a luz do lampião. E começava a temer os olhos verdes da mulher. Temia-os porque não ofereciam segurança a si mesmo. As suas armas estavam seguras, somente as suas armas. Ninguém mais podia tocar nas facas. Um ciúme louco se apoderou do rapaz. E a inquietação aumentando. Chegava-se a momentos de êxtase o seu coração, quando podia se apoderar das facas e lançá-las sobre o tablado no qual sua mulher se posicionava.
Aquele instante era firme, era conhecido. As horas pareciam reunir-se todas naquele momento. Seria sua vida tão sem importância? As facas podiam quebrar os diamantes. Podiam parti-los. Então ele reencontrava o brilho. O brilho dos diamantes se transferiria para as facas. E ele seria o dono das maiores armas de todo o mundo. E os olhos de sua esposa eram diamantes.

......................

   Mais um espetáculo. A casa cheia. O rapaz iria se apresentar com a sua moça. A presente inquietação era inédita, mas intensa. Ele nunca a sentira, desse modo, antes dos espetáculos. Suas mãos tremiam de ânsia. A inquietação parecia incontrolável. O tablado se ergueu! A sua mulher ao centro. O rapaz apanhou as facas. A platéia assistia atônita como se algo de novo fosse acontecer. Aquele dia parecia que o rapaz faria aparecer a história de um jeito ou de outro. Começou, então, a atirar as facas. Os olhos verdes da sua esposa arregalaram-se. As facas pareciam tomar um sentido certeiro. Raspavam nos braços da moça, nas pernas. Nunca antes fôra assim. As facas nunca se aproximaram tanto. E o rapaz começou a rir, rir baixinho, um riso cínico que ninguém percebia na multidão ou nos lugares especiais do circo.
   Um riso assassino. A sua esposa apavorava-se tanto que nem ao menos conseguia gritar por socorro. Estava sufocada de pavor. E as facas eram lançadas, próximas... Ela ainda acreditava no marido; ela esperava que ele estivesse, apenas, exagerando. Mas aquele riso parecia mostrar que tudo era diferente. Agora ela parecia estar nas mãos de um deus, nas mãos de um homem que não sabia como iria agir. A multidão nada sabia ou percebia, mas a moça sabia que aquilo já não era um espetáculo. E o rapaz apanhava as facas, sôfrego... Transpirava... os diamantes, os diamantes! Os olhos verdes da sua mulher arregalavam-se de horror. E ele se embalava com este pavor. Agora era o momento. A última faca estava em suas mãos. Os olhos de sua mulher cresceram de pavor, porque ela pôde pressentir. O rapaz sorria... Sorria um sorriso estranho. Ela tentou gritar, mas estava apavorada, não conseguia... A platéia vivia a ilusão de um espetáculo inofensivo. Quem iria domar o último golpe daquele rapaz? Então, forte e rijo, ele moveu o punho. Os diamantes pareciam chover sobre os seus punhais por meio dos olhos verdes de sua mulher: olhos arregalados, de terror. Então a última faca partiu, cantando ao vento. Explodiu no coração de sua esposa qual uma bomba. A faca penetrou tão fundo no coração da moça que o sangue esguichou logo cedo na superfície. Os seus olhos verdes continuavam arregalados. A multidão fez um só gemido. O sangue vivo da moça parecia ferir os olhos da multidão. Um pânico mudo se estabeleceu em todo circo. Nenhum gemido da moça. O lance foi fulminante. Atônito, o rapaz não se conformou. Puxou do revólver e atirou sobre os olhos arregalados da mulher já morta. Os diamantes... ainda pensava, mas o temor era imenso. Queria apagar a lembrança daqueles olhos. O crime parecia tão bárbaro que a multidão ficou estupefata. Todos ficaram olhando, atônitos! E a inquietação no rapaz era ainda mais intensa. Era, ainda, maior do que antes. Quis correr, mas tudo girava ao seu redor. Centenas de rostos. Milhares de faces. E olhos arregalados olhavam para ele.
   Alguém gritou na multidão:
   _ Assassino, assassino!
   A multidão acordou, então, do espanto paralisante.
   _ Peguem o assassino, linchem o assassino!
   O rapaz passou a atirar no público.
   Ele tentou, ainda, correr pelos fundos, mas já era tarde: os guardas do circo o cercaram. Correu, então, para o tablado, e lá encontrou a sua mulher totalmente destroçada. Soltou um grito desesperante. Foi a última inquietação que lhe restou. Um guarda atirou alguns punhais sobre suas costas. A boca e os dentes rangeram, e ele ainda mordeu horrivelmente os lábios de sua mulher. Os dentes fincaram como pregos. Caiu do tablado qual uma tocha. A última inquietação que lhe restou. As suas facas continuavam brilhando no tablado quais diamantes contemplando a morte dos humanos...

FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006
     

  
 


FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 06/01/2006
Código do texto: T95094

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"_ NITSCHEWO"  (Contos e Cronicas) escrito em sexta 23 março 2007 05:20

  

  

... atravesso um modesto cemitério;
do alto, ao longe, avisto um pequeno vilarejo: uma capela, um casarão e uma carreira de casinhas, todas iguais!
   Consulto minhas anotações.
   Endereço confirmado!
   Lentamente caminho e me aproximo do lugar, da casinha, no papel, indicada, em rabiscos.
   À frente um jardinzinho, um primor, plantado na pequena morada, jardim ornado com mimosas flores silvestres...
   Bato palmas! 
   _ Ó de casa! - anuncio, feito um arauto.
   Um vulto surge à porta. Ele se aproxima, e os traços, a cada passo, vão configurando o rosto da vovó Aksênia. A felicidade ancora em meu coração, quanta emoção! Finalmente eu a encontrei!
   Logo me reconhecendo, vovó Aksênia, com certa dificuldade, acelera a leveza dos passos; ela vem ao meu encontro, com olhos suplicantes de saudade.
   Atiro-me em seus braços, beijo-a, ambos choramos de alegria, por tanto tempo, tão longe, tão distantes...
   Vovó Aksênia, um tanto assustada, pergunta-me:
   _ Criança, como você aqui chegou, quem afinal lhe acompanha?
   _ Ah, vovó! Uma moça, uma dama, de longos cabelos ruivos e olhos violeta. No momento, ela passeia entre as árvores e os arbustos daquele bosquinho, ali, logo acima... Veja, verde, verdinho, próximo ao cemitério.
   Vovó Aksênia, aos prantos, me abraça. Então, a ela pergunto:
   _ Vovozinha, vamos voltar para casa! A mamãe e meus titios precisam tanto de você! Quem a trouxe até este lugar?!
   _ Ah, meu netinho, agora não posso, não teria tempo de lhe falar, a vovó precisa permanecer por mais algum tempo por aqui. Veja ali, o jardim que semeei! Enquanto recobro a saúde...
   Contemplo o mimoso jardim da vovó Aksênia: gerânios em flor, rosas multicores; num cantinho: violetas, de múltiplas cores, tudo a formar um mosaico amoroso.
   _ Vovó, eu quero uma mudinha desta rosinha, da vermelhinha...
   Com frágil agilidade, vovó Aksênia corta um ramo da roseira e o deposita em minhas mãos. Então me solicita:
   _ Plante este raminho em seu jardim, e toda vez que contemplar a mudinha em flor, promete que reza por mim?! – solicitou-me carinhosamente a vovó, com um soluço, como alguém que se diz tão-além.
   Carinhosamente, vovó Aksênia retira os espinhos do raminho, enrolando a mudinha num lindo papel lilás, clarinho e, com um sorriso tristonho, apontou-me, lá para o alto da pequena montanhazinha...
   _ Veja meu netinho, aquela bela moça lhe acena, é hora da partida...
   Vovó Aksênia sussurra, com a voz embargada, e uma furtiva lágrima rola em sua face. Com meus dedos, eu a toco, e a enxugo, quando alcança seus lábios.
   _ Não, vovó, me deixa ficar aqui, quero conhecer a sua casinha!
   _ Não, meu netinho, é hora de partir. Você mostrou-se valente vindo até aqui, me visitar. Agora vá, veja! A bela moça começa a ficar um tanto impaciente...
   _ Quero um abraço e um beijo, vovozinha querida!
   Então, num reticente impulso, vovó Aksênia me guarda com carinho em seus braços. E ela se põe a me contemplar. Talvez procurando identificar traços d’algum filho, do amado vovô?! Os carinhosos olhos de vovó recomendam, então, que eu envie, feito arauto, abraços, carinhos e beijos à minha mamãe e a meus titiozinhos.
   _ Vovó, assim de perto, a senhora é tão bonita! Mais bela ainda do que as fotos apresentam. Prometo montanhas, maior do que aquela, de abraços e beijos para a mamãe, para meus titios e para meu querido vovô Manoel.
   E insisto:
    _ Vovó, me deixa ficar, eu poderia partir amanhã, junto à aurora.
   _ Não, meu netinho, acompanhe a bela moça, ela é filha do crepúsculo. Veja que belo poente! Agora retorno a tecer algumas roupinhas para as criancinhas deste lugar. À sua mamãe ensinei todas as lições da boa e da bela costura. Num futuro, vejo algo melhor para todos nós, em algum tempo, num belo lugar. Vai, então, meu netinho, já é hora, “nitschewo”...
   _ Adeus, vovó Aksênia!
   _ Adeus, meu netinho!
   Sigo montanhazinha acima... “Nitschewo”; palavra e som riscam minha memória. 
   Ao poente, como a vovó indicara, me aproximo da bela moça; dos seus dedos escapam os últimos raios de luzes. Ornada de purpúreo véu, uma brilhante tiara de ouro lhe ampara os longos cabelos... levemente alaranjados. Radiante cabeleira ruiva ao vento; olhos azuis violeta. Uma deusa?! A mão é macia, delicada feito veludo...
   Então, em suave tom, me solicita a fechar os olhos. Eu os fecho... Tenho a sensação de uma viagem, no tempo.
   Ó tempo, tempo, tempo!
   Rumo a jornadas, em algum lugar, em algum tempo futuro...

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Notas do autor:
1) Vovó Aksênia Schawirin nasceu em 1909, em Moscou, Rússia. Devido às convulsões sociais da ocasião, a família Schawirin migra rumo à cidade de Tblissi, na Geórgia, sul da Rússia, ao norte do Irã. Vovó Aksênia, aos 6 anos, dialogou com o líder revolucionário Lênin, amigo da família Schawirin. Uma mensagem percorre toda a Geórgia: “Há um país distante, chamado Brasil, um autêntico paraíso”!Junto à família, vovó emigrou rumo ao Brasil, em 1916, devido às devastações promovidas pelas guerras em território russo. Vovó Aksênia amou e foi bem-amada. Morreu aos 32 anos, nos braços de uma amiga negra chamada D. Conceição, numa colônia de leprosos, em Pirapitingüi/SP, no ano de 1940. Deixou cinco filhinhos e o amado vovô Manoel de Almeida Marques [1906-1968].

2) Na madrugada de hoje, sonhei com a minha mamãe Vera de Almeida Medeiros [1929-2003] junto à minha mamãe-vovó Aksênia Schawirin. Quantas saudades!



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas... janeiro agoniza neste 2007.

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 19/02/2007
Código do texto: T386889

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