Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/11/19 16:40 / 329 Artigos publicados
 

Resenhas (Cinema)

FANNY E ALEXANDER  (Resenhas (Cinema)) escrito em sábado 24 março 2007 20:10

Cena do filme FANNY E ALEXANDER

                  de Ingmar Bergman         

                                          

                                                                          

                                                                          Para o Dr. Renato Ienny e Kátia.



“Ela sorriu e, após breve hesitação, respondeu: _ Agradecer ao destino, penso eu, por termos escapado incólumes de todas as aventuras - as reais e as sonhadas.
_ Você tem certeza de que é o que você quer também?
_ Estou tão certa quanto suspeito que a realidade de uma noite ou mesmo de toda uma vida não significa sua verdade mais íntima.
_ Nem sonho algum - suspirou Fridolin baixinho - é totalmente sonho...”
(Arthur SCHNITZLER. Breve Romance de Sonho. RJ;SP: Biblioteca Folha,2003)

   O filme “Fanny e Alexander”, do genial cineasta sueco Ingmar Bergman, é considerado uma obra-prima e uma de suas mais brilhantes produções cinematográficas, pois, num profundo mergulho sobre a alma humana, refletiu, com delicadeza e com perfeccionismo, sobre os enigmas, os prazeres e os terrores do universo infantil. Com 3 horas e 8 minutos de duração, a linha fundamental de “Fanny e Alexander” é auto-biográfica (e isto é flagrante no filme!). As crianças do filme são encantadoras e inseparáveis: Fanny (Pernilla Allwin) e Alexander (Bertil Guve); a casa abastada onde ambas vivem é extraordinariamente burguesa. A avó, uma atriz riquíssima, é uma personagem quase mítica, que habita o apartamento de baixo. Em toda a casa há um mundo feminino que tudo domina. O teatro é um lugar onde as crianças brincam e procuram refúgio. O menino Alexander é, sem dúvida, um alter-ego de Bergman, experienciando o puritanismo hipócrita do pastor Vergerus (Jan Malmsipe), que vem a se tornar padrasto de Alexander, em contraponto aos prazeres mundanos que Alexander encontra nas saborosas refeições, no bom humor, na liberação, enfim, no bem viver da casa da avó. Vale ressaltar que o pai de Ingmar Bergman era pastor luterano, tendo castigado severamente o cineasta na infância. 
   Vários temas estão presentes no filme: amor, ódio, paixão, ressentimento, religião, angústia, neurose familiar, inveja, morte etc. entrecruzados de forma fulgurante com magia, humor e sensibilidade, celebrando, desse modo, o amor de Bergman pela arte cinematográfica. Para quem a arte, a obra e a vida são uma mesma e única coisa, Bergman resume “Fanny e Alexander” com essas belas palavras: “Penso nos meus tempos de menino com prazer e curiosidade (...) Minhas horas e meus dias viviam repletos de coisas interessantes, cenários inesperados, instantes mágicos. Ainda hoje posso percorrer a paisagem da minha infância e sentir de novo todo aquele passado de luzes, aromas, pessoas, aposentos, instantes, gestos, inflexões, vozes, objetos (...) O privilégio da infância é podermos transitar livremente entre a magia da vida e os mingaus de aveia, entre um medo desmesurado e uma alegria sem limites (...) Eu sentia dificuldade para distinguir entre o que era imaginado e o que era real...” 

“Alexander: Quem é está atrás da porta?
Voz: É Deus que está aqui, atrás da porta.
Alexander: E não pode avançar um pouco mais?
Voz: Nenhum ser vivo deve ver o rosto de Deus.
Alexander: E o que é que você quer de mim?
Voz: Quero apenas comprovar que eu existo.
Alexander: Fico-lhe muito agradecido. Obrigadinho.
Voz: Pra mim, você não passa de um grão de poeira sem importância nenhuma. Sabia disso?
Alexander: Não.
Voz: Aliás, você é muito mau para sua irmã e seus pais, descarado diante dos professores e está sempre com pensamento ruins. Na realidade, não entendo por que é que eu deixo que você continue a viver, Alexander!
Alexander: Não?
Voz: O Sagrado! Alexander! (...) Deus é o mundo e o mundo é Deus. É muito simples.
Alexander: Eu peço muitas desculpas, mas se de fato é como você diz, então, eu também sou Deus!
Voz: Você não é Deus, de jeito nenhum. Você é apenas um pedacinho de merda, cheio de impertinência.
Alexander: Posso afirmar que sou menos impertinente que Deus...”
(Ingmar BERGMAN. Fanny e Alexander. RJ: Editorial Nórdica, 1985)
  

  Ingmar Bergman dirigiu, também, “O Sétimo Selo” (1956), “Morangos Silvestres” (1957), “Gritos e Sussurros” (1973), “Cenas de um Casamento” (1974), “Face a Face” (1976) dentre outras obras-primas.  

                              

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2005








SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 01/12/2005
Código do texto: T79309

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A LIBERDADE É AZUL  (Resenhas (Cinema)) escrito em sábado 24 março 2007 01:33

                                                            

  

  Este slogan: “Solidão que não é doença que a medicina trata; solidão que é coisa humana e tem serventia...”. Ou ainda, um dos slogans do diretor do filme "A Liberdade é Azul" (1984): “O homem sempre viveu o mito do amor. Para muitos, amar significa viver sem liberdade, e a coisa mais importante do mundo é a liberdade, sem ela ninguém consegue viver...”; talvez ambos os slogans (ou ambos incompletos: ausência de outros face à completitude do filme?!) traduzam o enredo dessa bela história de amor narrada com sensibilidade pelo cineasta polonês Krzysztof Kieslowski.

   Uma vida comum é alterada pela tragédia: Julie (Juliette Binoche), famosa modelo, após um trágico acidente de automóvel, perde a família: o esposo — um maestro de fama internacional — e a filha pequena. A partir daí, após uma tentativa de suicídio frustrado, Julie, experimentando a dor da perda — entre outras dores: a mãe, insana, está internada num asilo —, descobre que o ex-marido a traíra, que a amante do marido está grávida...

   Em meio a tudo isso, tendo por base a dura realidade, Julie volta a se interessar pela vida ao se envolver com uma obra musical inacabada do marido. Com isso, Julie sublima o sofrimento, desvia a atenção para novas coisas, aprende a contemplar o mundo por outras perspectivas. 

   A comovente trilha sonora “Song for Unification of Europe” (“Concerto ou Canção para a Unificação da Europa”), com inúmeras variações, percorre toda a projeção do filme. O modo como o filme se desenrola, as partes dramáticas acompanhadas ao som do coral da Orquestra Sinfônica e Coral da Thecoslováquia, cujas letras da melodia são extraídas — e reelaboradas — das Epístolas Paulinas (I Coríntios 13), do Hino à Caridade... “Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, seu eu não tivesse a caridade, seria como um bronze que soa”: tudo é de uma beleza incomum. É preciso ressaltar que nas variações do “Concerto para a Unificação da Europa”, as letras bíblicas adquirem outros sentidos, como por exemplo nestas passagens: “Ainda que eu falasse a língua dos anjos, seu eu não tivesse o amor, eu seria como um bronze que soa... seu eu não tivesse o amor, eu não seria nada. O amor é paciente, é pleno de bondade. O amor tolera todas as coisas, ele aspira todas as coisas. O amor não morre, jamais. A fé, a esperança e o amor... o maior dos três é o amor.” Enfim, trata-se de uma das mais belas trilhas sonoras que o cinema já rendeu.

   O filme é confeccionado por meio de cacos de existências, de pedaços de vidas que vão se juntando e formando uma junção perfeita. Durante os trabalhos de conclusão da obra inacabada do ex-marido, Julie redescobre, dolorosa e paradoxalmente, o mundo: família, amizade, amor, religião, crenças... são armadilhas. Descobre que sem a liberdade ninguém consegue viver.

   Há muito tempo um filme não me tocava tão profundamente... talvez pelo fato de Kieslowski traduzir, num quadro luminoso, o aprendizado do grande amor que todos nós, os mortais, desejamos e do qual Herbert Viana fala em sua música; todos nós esperamos e temos uma incrível pressa de encontrá-lo, e como Viana acentua na canção: “Eu tô esperando, vê se não vai demorar...”

   "A Liberdade é Azul" recebeu 3 indicações ao Globo de Ouro. Ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza (1993). Ganhou o Cézar de Melhor Atriz (Juliette Binoche). O filme, do consagrado diretor polonês, é maravilhoso, é uma exaltação ao amor, à liberdade. É o primeiro filme da trilogia das cores ("A Igualdade é Branca"; "A Fraternidade é Vermelha") de Kieslowski, dedicada às cores e aos ideais da Revolução Francesa (1789). O filme deve ser conferido, pois, com ele, aprendemos, belamente, que a liberdade é lindamente azul.

 
PROF.DR.SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, primavera de 2005
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 16/11/2005
Código do texto: T72441

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ERA UMA VEZ NA AMÉRICA  (Resenhas (Cinema)) escrito em terça 20 março 2007 04:09

    

 

 

     A história "Era uma vez na América" - filme produzido em 1984 pelo cineasta romano Sergio Leone - é indispensável para se conferir.  
     Com o ator Roberto De Niro à frente de um elenco primoroso, Leone lança um olhar sobre o universo urbano nova-iorquino dos gângsters, numa odisséia infernal de paixão, falsidade, amizade, vingança, ódio, traição, violência... cujo pano de fundo apresenta o suceder cego das histórias frustradas, em errares sem fim, de personagens pertencentes à comunidade judaica local.

     O núcleo da trama gira em torno das memórias do protagonista do filme David Noodles (Roberto De Niro) - memórias inscritas numa saga que alcança três excitantes períodos da América. 
     O filme tem como cenário a cidade de New York, do início do século XX até, aproximadamente, a década de 60. Com efeito, o que se constata é que, na corrente das ambições que forjam a modernização brutal no centro do capitalismo mundial, as vidas potencializadas pela acumulação do capital financeiro já não se medem pela fidelidade ou pelos excelsos princípios de humanidade, mas pelo egoísmo de uma era burguesa que encontra em si a própria chave do mundo.
     De outra parte, no micro-universo do enredo do filme, povoado por frases cotidianas, afirmações e valores religiosos ou laicos; enfim, naquilo que confusamente chamamos vida, uma polaridade irreconciliável de amor e ódio nutre o romance do casal protagonista: Débora (Elizabeth McGovern) e David (Roberto De Niro). Dois conhecidos apaixonados, desde a infância, que, na vida adulta, seguem à deriva de ambições, mas que conservam, cada qual em seus gestos e suas lembranças, os silêncios do amor antigo.
     A fascinante trilha sonora, belamente conduzida por Enio Morricone (inclui variações sobre a canção Amapola), coroa a genialidade do cineasta italiano Sergio Leone. 


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2005








SÍLVIO MEDEIROS Publicado no Recanto das Letras em 23/12/2005
Código do texto: T89663

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