Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/09/29 18:55 / 317 Artigos publicados
 

Resenhas (Cinema)

SONHO TESTAMENTO  (Resenhas (Cinema)) escrito em sexta 11 janeiro 2008 13:45

Cena do filme "Sonhos",

de Akira Kurosawa 

SONHO TESTAMENTO

      “_Todos teriam que respeitar a natureza.
     As pessoas, hoje, esqueceram que são apenas parte da natureza. Mas destroem a natureza da qual dependem nossas vidas. Elas sempre acham que podem fazer melhor. Especialmente os cientistas. Podem ser inteligentes, mas não compreendem o verdadeiro significado da natureza. Só inventam coisas que tornam as pessoas infelizes, mas com tanto orgulho das suas invenções! Pior é que muita gente também se orgulha. Encaram-nas como milagres. Idolatram-nas. Não percebem, mas estão perdendo a natureza. E, como conseqüência, vão morrer.
     As coisas mais importantes para o ser humano são ar puro e água limpa, as árvores e gramas, que os produzem.
      Tudo está sendo poluído, e perdido para sempre.
    AR SUJO, ÁGUA SUJA, SUJANDO OS CORAÇÕES DOS HOMENS.
     ONDE IREMOS PARAR?”


 
NOTA
Transcrição de um trecho do belo filme “SONHOS”, do cineasta japonês AKIRA KUROSAWA [1910-1998].


Transcrito por ELAINE BORGHI.
Campinas, é verão de 2006
 
ELAINE BORGHI
Publicado no Recanto das Letras em 13/01/2006
Código do texto: T98145

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ASAS DO DESEJO  (Resenhas (Cinema)) escrito em sábado 31 março 2007 18:18

Cena do flime ASAS DO DESEJO
  
    O filme “Asas do Desejo” — rodado em 1987 —, do cineasta alemão Wim Wenders, conta uma história de anjos, de Anjos da Guarda. Com roteiro de Wim Wenders e Peter Handke (poeta alemão contemporâneo), a trama do filme foi inspirada nos poemas de Rainer Marie Rilke (“Elegias a Duíno”).
   O enredo do filme apresenta uma dupla de anjos — anjo Damiel (Bruno Ganz) e anjo Cassiel (Otto Sander) — sobrevoando o céu da cidade de Berlim; observando o dia-a-dia dos seres humanos e “ouvindo”, com curiosidade e admiração, os pensamentos e as angústias de berlinenses mergulhados na cotidianidade. Vistos somente por crianças e ex-anjos, com efeito, Damiel e Cassiel, ambos melancólicos, contemplam uma Berlim — metrópole européia que insiste em experimentar o impossível vôo da modernidade — mergulhada num campo de ruínas: ora uma Berlim nazista, ora pós-guerra, ora pós-muro. São anjos que se entristecem com a desordem afetiva e material dos habitantes que ocupam o centro das catástrofes do século XX. Todavia, apesar de tudo, os anjos desejam viver as experiências dos humanos. A escolha de Berlim como cenário de “Asas do Desejo” deve-se ao fato de que, consoante Wenders: “... nenhuma outra cidade é tão forte como símbolo, quanto lugar de sobrevivência. Berlim é tão dividida como nossa época, como são homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres”.
   Parte do filme é rodado em preto-e-branco (o que vêem os anjos); ele só ganha cor quando o amor entra em cena, isto é, quando o anjo Damiel torna-se humano por amor a uma mulher, isto é, por uma trapezista de circo, de beleza angelical, chamada Marion (Solveig Dommartin). É deste modo que o anjo apaixonado decide tomar parte da vida humana. No final do filme, Damiel, na condição de humano, murmura as seguintes palavras: “ _ Eu sei, agora, o que nenhum anjo sabe”. Bela metáfora, aliás, para expressar a busca da imortalidade no desejo. Por outro lado, a trapezista Marion conquista a condição angelical ao perceber a efemeridade das coisas mundanas.
   A enigmática, perturbadora e poética trilha sonora do filme conta com a participação do roqueiro Nick Cave!!
   Em 1987, “Asas do Desejo” foi premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes. Recentemente, o cenário de Berlim deslocou-se para Los Angeles. Refiro-me ao filme “Cidade dos Anjos” (City of Angels), versão comercial americana de “Asas do Desejo”. No Brasil, “Asas do Desejo” jamais foi exibido no circuito comercial de cinemas.


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2005
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 09/12/2005
Código do texto: T82793

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A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO  (Resenhas (Cinema)) escrito em sábado 31 março 2007 15:04


   
  
     O renomado diretor americano Martin Scorsese deu um mergulho filosófico-religioso neste filme. Para tanto, encontrou no denso romance de Nikos Kazantzakis uma leitura heterodoxa da vida de Jesus (talvez, o melhor acesso para Scorsese acertar contas com a sua própria formação católica, além de problematizar o confronto da fé religiosa com um mundo cada vez mais marcado pelo ceticismo, pelo hedonismo, pelo consumismo e pela total ausência de paixão). Menos que exaltar a personagem histórica de Jesus Cristo, interessou a Scorsese defender a sobrevivência da paixão e do sagrado coração do homem. Por isso, o Jesus do cineasta Scorsese e do escritor Nikos Kazantzakis é contraditório, frágil e perturbado, pois, a fé de Cristo não é algo que alivia, mas algo que dói. Assim, de um prisma indócil:
  
   “O homem tem pressa, Deus não. Eis por que os trabalhos do homem são incertos e disformes, enquanto que os de Deus perfeitos e seguros (...)
   O ser humano não pode suportar a liberdade absoluta; tal liberdade o leva ao caos...” [Nikos Kazantzakis].
   Ou, de um prisma dócil:
   “Quando o coração ama e acredita, nada é quimera. Nada existe a não ser coragem, confiança e atos fecundos (...)
   A água simples do cotidiano é transubstanciada; torna-se a água da vida eterna e renova o homem. Quando convertido emerge da água, o mundo lhe parece mudado. O mundo não mudou, continua sempre maravilhoso e horrível, injusto e carregado de beleza. Mas agora, depois do batismo, mudaram os olhos que vêem o mundo...” [N. Kazantzakis].

   “Nikos Kazantzakis pediu a Deus dez anos adicionais de vida, dez anos a mais para completar sua obra – para dizer o que tinha de dizer e ‘esvaziar-se’. Queria que quando a morte viesse, encontrasse somente um monte de ossos. Dez anos seriam suficientes, ou assim ele imaginava” [Helen Kazantzakis].
  
   Nikos Kazantzakis - nasceu na ilha grega de Creta em 1885 e faleceu em 1957, em Freiburg, na Alemanha - pode ser considerado o maior romancista grego do século XX. Por meio de seus famosos romances-poemas, como por exemplo: “Zorba, o Grego”; “Uma Odisséia Moderna”; “No Palácio do Rei Minos” e outros, o escritor grego empreendeu por toda sua vida a busca por uma resposta para o eterno enigma do silêncio de Deus.
   Como bem procurou ressaltar José Paulo Paes (tradutor e crítico literário brasileiro), “Kazantzakis... é certamente um asceta moderno, porém num sentido especial, que evoca suas origens gregas. Os versículos que compõe sua ‘Ascese’ [outra notável obra de Kazantzakis] têm muitas fontes religiosas, entre as quais o budismo e o cristianismo, mas eles se recusam a propor uma doutrina, a apresentar ao leitor um deus redentor, a acenar com um além que desmereça, ainda que minimamente, o mundo em que vivemos.”
   Com efeito, Kazantzakis percorreu continentes, freqüentou mosteiros e universidades, estudou com monges budistas, leu as obras do filósofo Nietzsche e do pai da psicanálise, Freud. Leu Marx... e produziu um elenco de livros apaixonados e cruéis sobre a grandeza e a vileza ou sobre o lado sombrio da alma humana; “Zorba, o Grego” é uma de suas obras literárias mais fiéis a tais princípios.
   Devido ao teor sacro-profano de suas obras, Kazantzakis, quando morreu, foi excomungado da Igreja Ortodoxa Grega, e seu corpo não pôde ser sepultado no solo onde nasceu, isto é, na Grécia.
   Depois de enfocarmos os tormentos de uma alma grega, passemos ao amargurado espírito imigrante do diretor Martin Scorsese (nasceu em New York, em 1942). Em seus filmes Scorsese exorciza nas telas os conflitos de classe, as rebarbas do sonho americano, a neurose metropolitana (desamparo perpétuo do homem só, diante dos demônios e também diante do silêncio de Deus). Daí a postura adotada, um tanto marginal, de Scorsese, em seus filmes, comumente considerados blasfemos por setores conservadores de todo mundo. A filmografia de Scorsese inclui filmes famosos, tais como: “Taxi Driver” (1976); “Touro Indomável” (1980); “O Rei da Comédia” (1983); “Depois de Horas” (1985); “A Cor do Dinheiro” (1986) e, dentre outros marcantes sucessos, o nostálgico e belíssimo “A Época da Inocência” (1983) – uma celebração do poder do amor em unir almas, mas também de destruí-las. Há que se ressaltar que o filme “A Última Tentação de Cristo” (1988) foi acolhido de forma violenta em vários países, sendo, desse modo, banido de cinemas e de cidades.
  O roteiro d’ “A Última Tentação de Cristo” parafraseia, em linguagem abrasiva e colorida, os Quatro Evangelhos. A escritura de Kazantzakis reconstrói a vida de Jesus Cristo, apresentando-o como um homem comum, um carpinteiro que, aos poucos, vai desenvolvendo uma natureza transcendente, divina. É exemplar como qualquer um que, a exemplo de Scorsese, tenha em si a inquietação da existência e a paixão pela narrativa, se apaixona pelo romance e pelo admirável filme, pois, imaginar os personagens bíblicos como Kazantzakis os imagina e Scorsese os transpõe em imagens é, ao mesmo tempo, um desafio, um prazer, enfim, um autêntico exercício de ascese... Jesus aos 20 anos, repleto de desejos, não é capaz de consumá-los, porque bloqueado por forças que desconhece. Maria Madalena é a sua imensa paixão não resolvida. Maria não compreende as aflições do filho de Deus e as razões dele não poder ser um rapaz normal a exemplo de tantos outros.
   E Pedro, será que era mesmo um político? Por que Matheus se refugiou em escrever compulsivamente? E quem realmente era Judas? Genialmente, Kazantzakis, na “Última Tentação de Cristo”, na confluência de várias tradições de pensamento e de religião, além de criar um expressivo jogo de descobrir a história de cada um pela incessante análise de uma outra história, expõe, com efeito, um doloroso exercício estético-filosófico como um jogo socrático (relembremos, aqui, da “maiêutica” - parto doloroso das idéias ou o método filosófico socrático de se atingir a verdade por meio do diálogo).
   O elenco protagonista do filme conta com a participação de William Dafoe (Jesus), Bárbara Hershey (Maria Madalena), Harvey Keitel (Judas), David Bowie (Poncio Pilatos) dentre outros atores e atrizes famosos. As cenas do filme foram trabalhadas junto a arqueólogos e estudiosos da Bíblia, além de receberem um tratamento realista inspirado nas pinturas de Bosh e Rembrandt.
   Em 1989, “A Última Tentação de Cristo” recebeu (injustamente!) somente a indicação para o Oscar de direção.   
           

Notas do autor:
1. As citações tanto de Nikos quanto de Helen Kazantzakis foram, ambas, extraídas do livro “Testamento para el greco”. Tradução de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora ArteNova S.A., 1975.
2. Em 21 de janeiro de 2003, a mídia mundial destaca a premiação de Martin Scorsese, com um Globo de Ouro, pela direção do filme “As Gangues de Nova York”. Ao referido filme também foi concedido o Globo de Ouro na categoria Música Original pela trilha sonora “The Hands That Built América”, por U2. 



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Doutor em História e Filosofia da Educação pela UNICAMP.


                                                                                                            
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 17/11/2005
Código do texto: T72968

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A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER  (Resenhas (Cinema)) escrito em terça 27 março 2007 04:03


  
   De estilo decisivamente europeu, isto é, de ritmo lento e cuidadoso, os filmes do diretor Philip Kaufman alcançaram repercussão que vão além do “cult”. Refiro-me, em especial, a “Os Eleitos”; “Henry e June” e “A Insustentável Leveza do Ser” (em 1987 foi indicado para o Oscar). Kaufman, amigo pessoal do escritor theco Milan Kundera — autor do grande romance de amor e erotismo “A Insustentável Leveza do Ser”; livro homônimo no qual o filme foi baseado —, em entrevista concedida à “Revista SET” (nº 12) afirma: “ _ quase nunca vou a Los Angeles. Não é o tipo de mundo, de ambiente, que me interessa: ardiloso, nervoso. Mesmo que você esteja morando lá sem a menor intenção de se deixar engolir por aquele mundo, o mundo puxa você.” Com efeito, tal declaração nos sugere que tanto no dia-a-dia quanto na ficção, Kaufman parece experienciar, sem fugas e sem temores, as exigências daquilo que constitui, em última instância, a nossa existência, isto é, suportar até o limite ou contemplar o abismo que separa o peso e a leveza da existência humana.
   O elenco protagonista do filme forma um triângulo amoroso pouco convencional. De um lado, o amor de Tomas (Daniel Day-Lewis) — jovem e promissor médico — por Tereza (Juliete Binoche) — uma simples ex-garçonete. De outro: a libertinagem e o jogo hedonista entre as mulheres que seduzem Tomas, sobretudo Sabina (Lena Olin), uma exuberante pintora. Tomas é mulherengo, e Tereza sente ciúmes terríveis. Duas mulheres, Tereza e Sabina, que amam o mesmo homem: entendimentos, cumplicidades e distintas formas de amar. Um homem que ama duas mulheres de formas diferentes, mas com a mesma intensidade. Tereza representa a leveza, insustentável para Tomas, que dela se afasta, para, em seguida, ao se aperceber da incapacidade de fuga (do peso), dela novamente se aproxima, até o limite, na tentativa de não só compreendê-la, bem como a si próprio.
   O enquadramento do filme é político. A data é 1968: “Primavera de Praga”; quando os tanques soviéticos sitiam a capital da ex-Theco-Eslováquia. O referido acontecimento histórico transforma a vida dos moradores da capital theca. Com efeito, o que resta nos domínios das vidas particulares dos cidadãos comuns é o impulso supremo da necessidade de liberdade. 
   Com profundas reflexões de caráter existencial, tanto o texto do romancista Kundera quanto a adaptação cinematográfica de Kaufman, ambos nos encantam e nos comovem com a beleza dos argumentos que perpassam os referidos textos (o escrito e o cinematográfico). Um dos argumentos refere-se a uma imagem de realização vital: trata-se do momento em que Tomas conhece Tereza... a imagem de uma mulher abandonada, adoecida, deitada num divã, qual uma criança. Junto à acelerada respiração febril de Tereza, Tomas encosta o rosto ao encontro do dela. Tomas imagina, então, que Tereza, ali, estava há muitos anos e que, naquele momento, morria. Tomas entende que não sobreviveria à morte dela. Assim, estende-se junto a ela, para morrer com ela. O que seria tudo isso senão o amor de Tomas por Tereza que assim se revelava? Seria amor?! Apaixonamo-nos, sempre, pela imagem primeira da pessoa amada?
   Tomas é um mulherengo, sente-se inapto para o amor; nesse caso, começa, então, a representar para si próprio a comédia do amor?! Mas, o que pode valer uma vida sem amor, se o primeiro esboço da vida brota de um ato amoroso?
   Tomas apaixonara-se... Percebe em Tereza um ser frágil, qual criança indefesa (a leveza) à deriva das impetuosas águas da existência (o peso). Tomas compreende, então, que as metáforas são perigosas, que não se brinca com as metáforas. Tomas compreende que O AMOR PODE NASCER DE UMA SIMPLES METÁFORA, de uma simples imagem.
   No encerramento do filme, a dupla Kundera (romance)/Kaufman (filme) reserva-nos uma impactante surpresa; derradeira tentativa visando explicitar o binômio leveza/peso que movimenta as nossas existências?! Final surpreendente!




SÍLVIO MEDEIROS
Historiador, Mestre em Filosofia Política e Doutor em História e Filosofia da Educação pela UNICAMP.

Campinas, é primavera de 2005


SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 24/11/2005
Código do texto: T75613

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A LIBERDADE É AZUL  (Resenhas (Cinema)) escrito em terça 27 março 2007 00:07

Juliette Binoche

em cena do filme "A Liberdade é Azul"



  

  Este slogan: “Solidão que não é doença que a medicina trata; solidão que é coisa humana e tem serventia...”. Ou ainda, um dos slogans do diretor do filme "A Liberdade é Azul" (1984): “O homem sempre viveu o mito do amor. Para muitos, amar significa viver sem liberdade, e a coisa mais importante do mundo é a liberdade, sem ela ninguém consegue viver...”; talvez ambos os slogans (ou ambos incompletos: ausência de outros face à completitude do filme?!) traduzam o enredo dessa bela história de amor narrada com sensibilidade pelo cineasta polonês Krzysztof Kieslowski.

   Uma vida comum é alterada pela tragédia: Julie (Juliette Binoche), famosa modelo, após um trágico acidente de automóvel, perde a família: o esposo — um maestro de fama internacional — e a filha pequena. A partir daí, após uma tentativa de suicídio frustrado, Julie, experimentando a dor da perda — entre outras dores: a mãe, insana, está internada num asilo —, descobre que o ex-marido a traíra, que a amante do marido está grávida...

   Em meio a tudo isso, tendo por base a dura realidade, Julie volta a se interessar pela vida ao se envolver com uma obra musical inacabada do marido. Com isso, Julie sublima o sofrimento, desvia a atenção para novas coisas, aprende a contemplar o mundo por outras perspectivas. 

   A comovente trilha sonora “Song for Unification of Europe” (“Concerto ou Canção para a Unificação da Europa”), com inúmeras variações, percorre toda a projeção do filme. O modo como o filme se desenrola, as partes dramáticas acompanhadas ao som do coral da Orquestra Sinfônica e Coral da Thecoslováquia, cujas letras da melodia são extraídas — e reelaboradas — das Epístolas Paulinas (I Coríntios 13), do Hino à Caridade... “Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, seu eu não tivesse a caridade, seria como um bronze que soa”: tudo é de uma beleza incomum. É preciso ressaltar que nas variações do “Concerto para a Unificação da Europa”, as letras bíblicas adquirem outros sentidos, como por exemplo nestas passagens: “Ainda que eu falasse a língua dos anjos, seu eu não tivesse o amor, eu seria como um bronze que soa... seu eu não tivesse o amor, eu não seria nada. O amor é paciente, é pleno de bondade. O amor tolera todas as coisas, ele aspira todas as coisas. O amor não morre, jamais. A fé, a esperança e o amor... o maior dos três é o amor.” Enfim, trata-se de uma das mais belas trilhas sonoras que o cinema já rendeu.

   O filme é confeccionado por meio de cacos de existências, de pedaços de vidas que vão se juntando e formando uma junção perfeita. Durante os trabalhos de conclusão da obra inacabada do ex-marido, Julie redescobre, dolorosa e paradoxalmente, o mundo: família, amizade, amor, religião, crenças... são armadilhas. Descobre que sem a liberdade ninguém consegue viver.

   Há muito tempo um filme não me tocava tão profundamente... talvez pelo fato de Kieslowski traduzir, num quadro luminoso, o aprendizado do grande amor que todos nós, os mortais, desejamos e do qual Herbert Viana fala em sua música; todos nós esperamos e temos uma incrível pressa de encontrá-lo, e como Viana acentua na canção: “Eu tô esperando, vê se não vai demorar...”

   "A Liberdade é Azul" recebeu 3 indicações ao Globo de Ouro. Ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza (1993). Ganhou o Cézar de Melhor Atriz (Juliette Binoche). O filme, do consagrado diretor polonês, é maravilhoso, é uma exaltação ao amor, à liberdade. É o primeiro filme da trilogia das cores ("A Igualdade é Branca"; "A Fraternidade é Vermelha") de Kieslowski, dedicada às cores e aos ideais da Revolução Francesa (1789). O filme deve ser conferido, pois, com ele, aprendemos, belamente, que a liberdade é lindamente azul.

 
PROF.DR.SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2005
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 16/11/2005
Código do texto: T72441

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