Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/09/29 18:55 / 317 Artigos publicados
 

Re-Citações

FLORES DO MAL  (Re-Citações) escrito em segunda 29 setembro 2008 06:54

HINO À BELEZA

 

Vens do fundo do céu ou do abismo, ó sublime

Beleza? Teu olhar, que é divino e infernal,

Verte confusamente o benefício e o crime,

E por isso se diz que do vinho és rival.

Em teus olhos reténs uma aurora e um ocaso;

Tens mais perfumes que uma noite tempestuosa;

Teus beijos são um filtro e tua boca um vaso

Que tornam fraco o herói e a criança corajosa.

Sobes do abismo negro ou despencas de um astro?

O Destino servil te segue como um cão;

Semeias a desgraça e o prazer no teu rastro;

Governas tudo e vais sem dar satisfação.

Calcando mortos vais, Beleza, entre remoques;

No teu tesoiro o Horror é uma jóia atraente,

E o Assassínio, entre os teus mais preciosos berloques,

Sobre o teu ventre real dança amorosamente.

(BAUDELAIRE, Charles. "Flores do Mal". Tradução Guilherme de Almeida. Editora Ediouro [s.d.])

 

 

Vídeo e texto

recomendados pelo

Prof. Dr. Sílvio Medeiros.

Campinas, é primavera de 2008. 

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PÉROLAS  (Re-Citações) escrito em sábado 27 setembro 2008 12:01

Um punhado de pérolas para

Andréa Trompczynski

                                                                    http://andreatrom.blogspot.com

"Jack London            Vachel Lindsay          Hart Crane

 René Crevel             Walter Benjamin        Cesare Pavese

 Stefan Zweig             Virgínia Wolf             Raul Pompéia 

                                     Sá-Carneiro

 

e disse apenas alguns

de tantos que escolheram

o dia   a hora   o gesto

           o meio

            a dis-

            solução."

(Carlos Drummond de Andrade. A Homenagem)

...

 

"Em nenhum lugar encontro paz

Estou sempre em conflito comigo

Sento-me

Deito-me

Tudo está em meus pensamentos."

(Andreas Tscherning. A melancolia fala em pessoa)

...

 

"Um vento só seca suas lágrimas frias

nas janelas. Chove.

Tristezas vagas me assolam, porém toda

a dor

que sinto, não sinto, em mim,

no coração,

no peito,

mas sim nas gotas de chuva que escorrem.

E enxertado com minha vida o mundo imenso

com seu outono e sua noite

dói em mim como uma chaga.

Para os montes passam nuvens com úberes cheios.

E chove."

 

 (Lucian Blaga. Melancolia)

 

...

Leituras

recomendadas pelo

Prof. Dr. Sílvio Medeiros

Campinas, é primavera de 2008.

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AMÓS OZ  (Re-Citações) escrito em quinta 18 setembro 2008 15:01

Amós Oz presenta "Non dire notte"

    

 “Levanto. Dou uma voltinha pelo escritório. Retorno à mesa de trabalho. Examino por alguns minutos, ou mais, o que já foi feito, apago toda a sentença, ou arranco de uma vez a folha do caderno, amasso e rasgo em pedacinhos. Desespero-me. Amaldiçôo a mim mesmo em voz alta, e aproveito para amaldiçoar também o ofício de escritor e a língua inteira, qualquer que seja ela, mas não obstante recomeço, e me ponho a combinar tudo de novo.

     Escrever um romance, eu disse uma vez, é mais ou menos como montar toda a cordilheira dos montes Edom com pecinhas de Lego. Ou como construir uma Paris inteira, edifícios, praças, avenidas, torres, subúrbios, até o último banco de jardim, usando apenas palitos e meios palitos de fósforos colados.

     Para escrever um romance de oitenta mil palavras é preciso tomar no decurso do processo algo como um quarto de milhão de decisões. Não só decisões sobre o enredo, quem vai viver ou morrer, quem vai amar o trair, quem vai ficar rico ou sobrar por aí, quais vão ser os nomes e as caras dos personagens, seus hábitos e ocupações, qual vai ser a divisão em capítulos e o título do livro (essas são as decisões mais simples); não apenas o que narrar e o que ocultar, o que vem antes e o que vem depois, o que revelar em detalhes e o que apenas insinuar (essas também são decisões bem simples); mas é preciso ainda tomar milhares de minúsculas decisões, como por exemplo, na terceira sentença do começo do parágrafo deve escrever ‘azul’ ou ‘azulado’? Ou seria melhor ‘azul-celeste’? Ou ‘azulão’? Ou ‘azul-marinho’? Ou poderia ser ‘azul-cinzento’? Bem, que seja, ‘azul-cinzento’, mas onde colocá-lo? No começo da frase? Ou seria melhor aparecer só no final? Ou no meio? Ou deixá-lo como uma frase bem curta, com um ponto antes e ponto e parágrafo depois? Ou não, quem sabe seria melhor fazer esse ‘azul-cinzento’ aparecer no fluxo de uma frase longa, cheia de subordinações? Ou que sabe melhor seria simplesmente escrever as quatro palavrinhas ‘a luz da tarde’, sem tentar pintá-las seja de ‘azul-cinzento’, seja de ‘azul-celeste’ ou de qualquer outra cor?”

 

OZ, Amós. DE AMOR E TREVAS. Tradução Milton Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

 

 

 

Inesquecível e belíssima leitura

recomendada pelo

Prof. Dr. Sílvio Medeiros.

 

 

Campinas, é inverno de 2008.

  

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OS OLHOS DE JAMES JOYCE  (Re-Citações) escrito em domingo 24 agosto 2008 06:27

SHAKESPEARE AND COMPANY - Paris/France

 

 

 

OS OLHOS DE JAMES JOYCE

 

Eu tinha esperança, agora que nossos problemas com a Circe [capítulo do romance Ulisses] haviam terminado, de que as coisas ficassem fáceis – ou pelo menos mais fáceis. No entanto, pelo contrário, deparamo-nos com um desastre muito maior do que qualquer outro que nos atingira até então. Joyce forçara demais a vista, e agora sofria com um ataque agudo de iridite.

     Seus filhos vieram buscar-me correndo um dia: babbo, como chamavam o pai, queria ver-me sem demora. Acorri ao hotelzinho na rue d l’Université onde a família estava morando na época e encontrei Joyce deitado, passando muito mal. Estava num sofrimento horrível. A sra. Joyce fazia a vigília; com um balde de água gelada ao lado, trocava constantemente as compressas que cobriam os olhos do marido. Fazia aquilo há horas, e parecia exausta. “Quando a dor fica insuportável, ele levanta e fica andando de um lado para o outro”, contou.

     Logo percebi que, por pior que fosse a dor nos olhos, Joyce estava preocupado com alguma outra coisa, e extremamente agitado. Ele me contou o que o incomodava: um renomado especialista que um amigo trouxera para vê-lo acabara de sair, avisando que ele teria de ser operado de imediato (...).

     Quando Joyce veio me ver após a cirurgia em Zurique, percebi que ele conseguia distinguir as silhuetas dos objetos, caminhava sem esbarrar nas coisas e, com óculos e a ajuda de um par de lentes de aumento, conseguia ler letras bem grandes (...).

     Operar os olhos deve ser uma provação terrível, principalmente para alguém sensível como Joyce. Consciente, ele assistiu ao procedimento todo; conforme me contou, o instrumento aproximando-se de seu olho parecia um grande machado.

     Durante a recuperação ele ficou de olhos vendados, hora após hora, sem manifestar a menor impaciência. Não tinha tempo  para entediar-se, tantas eram as idéias que lhe vinham à cabeça (...).

     “Será que você poderia trazer A dama do lago?”, indagou um dia. (...) Ele pediu que eu abrisse e lesse uma linha qualquer. Escolhi uma página ao acaso. Depois da primeira linha, parei, e ele recitou aquela página e a seguinte inteiras, se um único erro. Estou convencida de que ele sabia de cor não só A dama do lago, mas toda uma biblioteca de poesia e prosa. Provavelmente havia lido tudo antes dos vinte anos, e desde então podia encontrar tudo de que precisasse sem se dar ao trabalho de abrir um livro. (...)

     Corria um boato de que Ulisses seria lançado muito em breve. (...)

     O dia era 2 de fevereiro de 1922. (...) O segundo exemplar era da Shakespeare and Company (...).

     Joyce manifestou sua gratidão pelo presente de aniversário com um bilhete. “Não posso deixar o dia de hoje passar”, escreveu, “sem lhe agradecer por todo o esforço e preocupação que você dedicou ao meu livro ao longo do ano passado.” E celebrou o surgimento de Ulisses com uns versinhos jocosos para sua editora [Sylvia Beach], conforme se lê a seguir:

 

Quem é Sylvia, o que é ela

Que todos os nossos escribas a louvam?

Ianque, jovem e brava é ela

O Ocidente lhe emprestou tal compasso

 

Para que todos os livros publique

Será rica como é brava,

Pois costuma faltar arrojo à opulência?

Turbas à sua volta arengam e vociferam

 

Para reservar seu Ulisses

Mas, feita a reserva, refletem ponderosos.

Então à Sylvia cantemos

Seu arrojo está nas vendas.

 

Se é capaz de vender tudo que é perecível

Por mais maçantes que seja

Levemo-lhe compradores.

 

J.J. após W.S.

 

 

     Ali, finalmente, estava Ulisses, em sua capa azul-grego, com o título e o nome do autor em letras brancas. Ali estavam as 732 páginas (...).

 

BEACH, Sylvia. Shakespeare & Company: uma livraria na Paris do entre-guerras. Sylvia Beach. Tradução Cristina Serra. Rio de Janeiro : Casa da Palavra, 2004.

 

 

 

Leitura (BELÍSSIMA!) recomendada

pelo

Prof. Dr. Sílvio Medeiros.

 

 

Campinas, é inverno de 2008.

 

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TCHORT IVO ZNAIET  (Re-Citações) escrito em sexta 15 agosto 2008 19:11

 

LARA'S THEME by Maurice Jarre

 

“Você gostaria de voltar para a Rússia, vovô? Para visitar?”

“Já não existe, propadi [desapareceu].”

“O que não existe?”

“O quê, o quê, a Rússia já não existe! A Rússia morreu! Agora existe Stalin. Dazrajinsky. Yijuv. Béria. É uma imensa prisão lá. Gulag! Yessekim! Aparatnikim! Assassinos!”

“Mas de Odessa você ainda gosta um pouco?”

“Gosta, não gosta, o que importa, agora? Tchort ivo znaiet, o diabo sabe.”

“Você não gostaria de voltar a vê-la?”

“Chega, agora, menino, chega. Tshtob ti propal. Chega.”

(OZ, Amós. De Amor e Trevas. Tradução Milton Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.)

 

 

Leitura recomendada

Pelo

Prof. Dr. Sílvio Medeiros.

 

Campinas, é inverno de 2008.

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