SHAKESPEARE AND COMPANY -
Paris/France
OS OLHOS DE JAMES
JOYCE
Eu tinha esperança, agora que
nossos problemas com a Circe [capítulo do romance Ulisses] haviam terminado, de
que as coisas ficassem fáceis – ou pelo menos mais
fáceis. No entanto, pelo contrário, deparamo-nos com
um desastre muito maior do que qualquer outro que nos atingira
até então. Joyce forçara demais a vista, e
agora sofria com um ataque agudo de iridite.
Seus filhos
vieram buscar-me correndo um dia: babbo, como chamavam o pai,
queria ver-me sem demora. Acorri ao hotelzinho na rue d
l’Université onde a família estava morando na
época e encontrei Joyce deitado, passando muito mal. Estava
num sofrimento horrível. A sra. Joyce fazia a
vigília; com um balde de água gelada ao lado, trocava
constantemente as compressas que cobriam os olhos do marido. Fazia
aquilo há horas, e parecia exausta. “Quando a dor fica
insuportável, ele levanta e fica andando de um lado para o
outro”, contou.
Logo percebi
que, por pior que fosse a dor nos olhos, Joyce estava preocupado
com alguma outra coisa, e extremamente agitado. Ele me contou o que
o incomodava: um renomado especialista que um amigo trouxera para
vê-lo acabara de sair, avisando que ele teria de ser operado
de imediato (...).
Quando Joyce
veio me ver após a cirurgia em Zurique, percebi que ele
conseguia distinguir as silhuetas dos objetos, caminhava sem
esbarrar nas coisas e, com óculos e a ajuda de um par de
lentes de aumento, conseguia ler letras bem grandes
(...).
Operar os
olhos deve ser uma provação terrível,
principalmente para alguém sensível como Joyce.
Consciente, ele assistiu ao procedimento todo; conforme me contou,
o instrumento aproximando-se de seu olho parecia um grande
machado.
Durante a
recuperação ele ficou de olhos vendados, hora
após hora, sem manifestar a menor impaciência.
Não tinha tempo para entediar-se, tantas eram as
idéias que lhe vinham à cabeça
(...).
“Será que você poderia trazer A dama do lago?”, indagou
um dia. (...) Ele pediu que eu abrisse e lesse uma linha qualquer.
Escolhi uma página ao acaso. Depois da primeira linha,
parei, e ele recitou aquela página e a seguinte inteiras, se
um único erro. Estou convencida de que ele sabia de cor
não só A
dama do lago, mas toda uma biblioteca de poesia e prosa.
Provavelmente havia lido tudo antes dos vinte anos, e desde
então podia encontrar tudo de que precisasse sem se dar ao
trabalho de abrir um livro. (...)
Corria um
boato de que Ulisses
seria lançado muito em breve. (...)
O dia era 2 de
fevereiro de 1922. (...) O segundo exemplar era da Shakespeare and
Company (...).
Joyce
manifestou sua gratidão pelo presente de aniversário
com um bilhete. “Não posso deixar o dia de hoje
passar”, escreveu, “sem lhe agradecer por todo o
esforço e preocupação que você dedicou
ao meu livro ao longo do ano passado.” E celebrou o
surgimento de Ulisses
com uns versinhos jocosos para sua editora [Sylvia Beach], conforme
se lê a seguir:
Quem é Sylvia, o que é
ela
Que todos os nossos escribas a
louvam?
Ianque, jovem e brava é ela
O Ocidente lhe emprestou tal
compasso
Para que todos os livros publique
Será rica como é
brava,
Pois costuma faltar arrojo à
opulência?
Turbas à sua volta arengam e
vociferam
Para reservar seu
Ulisses
Mas, feita a reserva, refletem
ponderosos.
Então à Sylvia
cantemos
Seu arrojo está nas vendas.
Se é capaz de vender tudo que é
perecível
Por mais maçantes que seja
Levemo-lhe compradores.
J.J. após W.S.
Ali,
finalmente, estava Ulisses, em sua capa
azul-grego, com o título e o nome do autor em letras
brancas. Ali estavam as 732 páginas
(...).
BEACH, Sylvia.
Shakespeare & Company: uma livraria na Paris do
entre-guerras. Sylvia Beach. Tradução Cristina
Serra. Rio de Janeiro : Casa da Palavra, 2004.
Leitura (BELÍSSIMA!)
recomendada
pelo
Prof. Dr. Sílvio
Medeiros.
Campinas, é inverno de
2008.