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Poesias de Ana Valeria Sessa

O MITO NO PROCESSO CRIATIVO  (Poesias de Ana Valeria Sessa) escrito em terça 10 abril 2007 18:17

                                                               

                                SEREIAS, o canto do mar 






Há muito venho pensando em escrever um artigo ligando a importância do mito ao processo criativo. O texto do professor Sílvio Medeiros " O Canto das Sereias segundo a Dialético do Esclarecimento" acabou me incentivando como uma extensão das reflexões ali propostas. O texto de Sílvio nos traz uma compreensão mais ampla do conceito de Iluminismo, ou seja sob um ponto de vista trans- epocal fundando-se na idéia de que este se deu em diferentes períodos. Analisando o Iluminismo do século XVIII que se consagrou como o período das “Luzes”, fundando as bases do racionalismo, o texto apresenta uma importante reflexão sobre a racionalidade totalizante do mundo moderno e a urgência em criar novas luzes. Como o próprio texto aponta, baseado na Crítica do iluminismo traçada por Adorno e Horkheimer “grosso modo” “a ciência e a técnica, que vieram para libertar o homem da visão mágica, do mito, criaram outro mito, mais potente e sofisticado, pois agora, o homem é vítima do próprio progresso e da racionalidade técnica, visto que a ciência, a tecnologia, enfim, o conhecimento sonhado pelos primeiros pensadores modernos, como possibilidade de minorar o sofrimento dos homens, vai perdendo cada vez mais o potencial libertário que lhe é inerente e, por extensão, tornando-se mito.” Não se trata de fazer uma apologia ao irracionalismo até porque como o próprio texto afirma: “A razão incapacitou-se para identificar a própria irracionalidade que ela produz. Dessa leitura que inspira, sobretudo o resgate do indivíduo em sua totalidade, foi que criei esse texto em que a tônica é o conceito de mito e a sua importância no imaginário. 



Na arte, isso vem se refletindo e interliga-se com a psicanálise, com a psique humana, dado que o homem parece cortar cada vez mais o diálogo com o imaginário, com o inconsciente que guarda o desconhecido; desconhecido esse que, ironicamente inspirou o racionalismo e um mundo de descobertas. O grande mitólogo Joseph Campbell, com o estudo da mitologia comparada, estabelece uma ponte maravilhosa entre a razão e o mito, entre o homem moderno e seus conflitos universais, propondo-nos uma nova forma de pensar o mito, não como antônimo da razão ou sinônimo de fantasia mas, como um manancial incrível de vida e experiências a serem interpretadas. É necessário deixar claro, nesta tentativa de conceituar o mito, que o mesmo não tem aqui a conotação usual de fábula, lenda, invenção, ficção, mas a acepção que lhe atribuíam e ainda atribuem as sociedades arcaicas, as chamadas, de forma equivocada, culturas primitivas, onde mito é o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais. De outro lado, o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é, por conseguinte, a parole, a palavra "revelada", o dito. E, desse modo, se o mito pode se exprimir como linguagem, "ele é, antes de tudo, uma palavra que circunscreve e fixa um acontecimento". "O mito é sentido e vivido antes de ser inteligido e formulado, é a palavra, a imagem, o gesto, que circunscreve o acontecimento no coração do homem, emotivo como uma criança, antes de fixar-se como narrativa. Ele expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações e, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se. É bem verdade que a sociedade industrial usa o mito como expressão de fantasia, de mentiras, daí a mitomania, mas não é este o sentido apreendido aqui. Mesmo Roland Barthes, procurou reduzir o conceito de mito apresentando-o como qualquer forma substituível de uma verdade. Uma verdade que esconde outra verdade. Mais exato seria, defini-lo como uma verdade profunda de nossa mente. Mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significação, através dos tempos. Poucos se dão ao trabalho de verificar a verdade que existe no mito, buscando apenas a ilusão que o mesmo contém. Muitos vêem no mito tão-somente os significantes, isto é, a parte concreta do signo. É mister ir além das aparências e buscar-lhe os significados, quer dizer, a parte abstrata, o sentido profundo.
Em meu conto “Ítaca”, por exemplo, esse aspecto é bastante ilustrativo  pois explorei conteúdos simbólicos presentes na mitologia. Já o título,  remete a  interpretações como: o retorno de Ulisses ao lar que é a ilha de Ítaca, depois de sua longa viagem: “A Odisséia”. O mesmo corresponde também a uma viagem interna e suas provações até voltar, por fim, ao seu ponto de partida ou seja, a metáfora de uma viagem ao encontro de nós mesmos. A narrativa centra-se nessa viagem interna percorrida pelo protagonista numa atmosfera onírica, possibilitando diferentes leituras afinal : “ O sonho é o que não se tornou fato e o passado é o fato que se tornou sonho, pois a memória tem a mesma estrutura do sonho.”
Vale também lembrar como exemplo, o filme: "Guerra nas Estrelas" de George Lucas que não errou em usar conceitos da mitologia comparada na estória. Ele foi um verdadeiro fã de Joseph Campbell e recorreu a ele, muitas vezes, enquanto construía o roteiro. Com o surgimento do cinema, os mitos novamente ganharam seu espaço, agora não boca-a-boca, como acontecia antigamente, mas mediante meios audiovisuais, e difundidos ao redor do mundo. Todas as etapas que aparecem no "Herói das Mil Faces" no livro de Campbell estão nesse filme de forma mais acessível e simplificada ao público infantil e adolescente.
Por último gostaria de colocar a definição de mito, dentro do conceito de Carl Gustav Jung como a conscientização de arquétipos do inconsciente coletivo, quer dizer, um elo entre o consciente e o inconsciente coletivo, bem como as formas através das quais o inconsciente se manifesta. Compreende-se por inconsciente coletivo a herança das vivências das gerações anteriores. Desse modo, o inconsciente coletivo expressaria a identidade de todos os homens, seja qual for a época e o lugar onde tenham vivido.
Para que o leitor possa compreender melhor a amplitude e os reflexos do mito não só dentro do processo criativo, mas na sociedade contemporânea como um todo, deixo um texto sobre o mito das sereias, analisado sob uma perspectiva psicológica. Escolhi as sereias, em particular, visto que elas são uma metáfora do nosso diálogo com o imaginário.


"O canto é um dos elementos simbólicos mais expressivos associados às sereias. O canto puro representa uma força de atração direta que atinge algo que está para além das construções defensivas do ego, indo diretamente mobilizar, constelar poderosos aspectos inconsciente da personalidade. Já Apolo havia caído fascinado pelos sons que o jovem Hermes tirava de sua lira. Os mantras sagrados funcionam da mesma maneira, tanto para harmonizar quanto para destruir. Mais recentemente, no famoso conto de Andersen, A Pequena Sereia, vemos que ela troca sua voz encantadora por um par de pernas humanas. Nos dias de hoje as sirenes (sereias) de ambulâncias e bombeiros nos paralisam por breves instantes numa angústia de aflição e morte. Temos também a expressão "cair no canto da sereia" com o sentido de logro, engano. Em todas essas expressões os sons, a música e a voz são os instrumentos utilizados para atrair, seduzir e convencer, ultrapassando todos os contra-argumentos retóricos, morais e psicológicos. É importante notar que essa força de sedução talvez se deva menos a debilidades do ego e mais ao fato de que algo profundo é tocado ou despertado ao som dessas sirenes.Isso é sedução. Essa atração encantadora e irresistível é parte essencial desse símbolo mas, como veremos mais adiante, talvez a razão profunda de tão brutal fascínio não possa ser compreendida com base em interpretações rasas em torno do tema da sexualidade. Então, entre outras coisas a sereia representa a sedução arquetípica, a sedução da psique unilateral promovendo uma inevitável enantiodromia, "o princípio que governa todos os ciclos da vida natural, desde o menor até o maior" . Seduzir vem do latim se-ducere e significa, dentro de seu campo semântico, conduzir à parte, guiar a outro lado, mudar de rota, deslocar, divagar, digredir, obrigar a mudança. Mas que mudança? Mudança no sentido psíquico, para que se dê ouvidos à alma, à anima, para que dialoguemos com nossas potências inconscientes e para que possamos de fato dar asas a nossa imaginação simbólica, criativa. O canto (sedução) da sereia pode ser arrebatador e mortal, para o ego. Não é de outra coisa que está falando Hillman ao dizer que o lugar da alma é o “mundus imaginalis”, o mundo imaginal, o mundo dos sonhos para o qual o ego é irremediavelmente seduzido todas as noites. Isso não é a morte, mas o reino de Hades. Para Hillaman a metáfora da morte nos permite entender o reino dos mortos como o mundo das almas, ou seja, como o lugar da anima, da psique viva. "Das sedutoras do mar dizia-se que adestravam o homem para a morte, o que poderia ser correto, mas no sentido proposto por Baudriallard: Qualquer força masculina é força de produção[...] A única, e irresistível força da feminilidade é aquela, inversa, a da sedução [...] A sedução é mais forte do que a sexualidade, com a qual não há que confundi-la nunca [...] Para nós, só está morto aquele que não quer seduzir em absoluto, nem ser seduzido". (Lao, M., 1995, 45) Essa é a sedução essencial, expressão profunda do arquétipo da anima, arquétipo de ligação, seja ele representado como sereia pássaro, sereia peixe, amante, santa, prostituta, Iara, Boto ou Iemanjá. A sedução / canto é a expressão primordial da anima. No mundo capitalista contemporâneo o canto da sereia exerce igualmente o seu poder de sedução, funcionando na polaridade oposta. O capitalismo nos promete a felicidade total pelo consumo de bens e as novas tecnologias nos fazem sonhar com um mundo de progressos sem limites, infinitos. Entretanto, na nova mítica já não morremos mais, apenas ficamos obsoletos. Uma propaganda de cartão de crédito mostra que apenas algumas poucas coisas na vida o dinheiro não é capaz de comprar (e são cada vez menos). Para todas as outras basta um cartão de crédito. E já não falta quem defenda que com a decodificação do DNA (e com um bom cartão de crédito) em breve será possível comprar vida, anos de vida, ou até mesmo sobreviver por meio de um clone. Essa é a verdadeira sedução perversa, que foge da morte, nega a morte e qualquer possibilidade de iniciação simbólica, forjando analfabetos psíquicos. Não iniciados são não-nascidos, e estes se prestam a permanecer numa incubadora, alimentando a poderosa Matrix que são nossos complexos autônomos, para quem se lembra do filme de Larry and Andy Wachowski. As sereias cantam para que mantenhamos o diálogo criativo com o inconsciente, com a imaginação, entre a vida e a morte, entre a sereia e o pescador, que afinal somos todos nós. Não adianta apenas ficar amarrado ao mastro, como Ulisses, e depois deixar morrer a tentação. É preciso mais. É preciso que em nossas vidas haja mais espaço para processamento, tempo de elaboração, um tempo circular, tempo para circum-ambular pela experiência, no cumprimento de ritos que venham a atualizar os mitos dentro de nós. Precisamos urgentemente reconstruir o diálogo com a Imaginação e valorizar as expressões do nosso imaginário mitológico, folclórico, coletivo e pessoal. Ao longo da história observamos que o desprestígio da Imaginação e do mundo imaginário se dá ao mesmo tempo em que a mulher e o mundo feminino também vão sendo desvalorizados, já a partir do século V a.C., na pólis grega. Segundo Zoja, "a hýbris” , pela qual o grego prevê a punição e plasma a figura de nêmesis, é o pecado de uma sociedade cujos excessos trazem a marca do homem; e o primeiro desses pecados foi exatamente a submissão da mulher". (Zoja, L., 2000, 50)Essa também era a mentalidade portuguesa que aportou por aqui em 1500 e que não entendeu que para os nossos indígenas o mundo feminino era supremo. "O índio dizia que tudo neste mundo tinha uma Mãe.  O Sol era a Mãe dos Viventes e não o Pai. A Mãe bastava. Explicava". (Cascudo,L.C., 1948,128) Muitos, ainda hoje, tratam a Imaginação com uma mentalidade bárbara, tal como as nossas mulheres índias violentadas ou as sereias que tiveram suas penas arrancadas. Mas a Psicologia Analítica já pode mostrar algo diferente. Como última imagem quero restituir aqui a imagem da sereia alada que em algum lugar, e sempre, ainda canta para dar asas à nossa Imaginação e à construção da Alma."


Sinopse  -  O autor discute as lendas sobre as sereias e suas manifestações no imaginário popular, em especial na América Latina. O mito da sereia e o tema da sedução são entendidos como expressão arquetípica da anima. A sereia representa a sedução arquetípica, a sedução da personalidade unilateral, possibilitando profundos movimentos na psique e favorecendo o diálogo criativo com o inconsciente.



BIBLIOGRAFIA


HILLMAN, J. (1979) The Dream and the Underworld, Harper&Row, NYHOMERO, Odisséia, Col. Universidade, Edições de Ouro IWASHITA, E. (1991) Maria e Iemanjá, análise de um sincretismo, Ed. PaulinasLAO, M., (1995) Las sirenas, Ediciones EraSAMPAIO, T., (1928) O Tupi na Geografia Nacional, BahiaVERGER, P. (1981) Orixás, Deuses iorubás na África e no Novo Mundo, São PauloZOJA, L. (2000) História da Arrogância, Axis Mundi Marcos Fleury de Oliveira é Psicólogo, Analista em Formação pela SBPA-SP

Fontes 

Mito, Rito e Religião – Texto encontrado na Internet conceituando o mito. Infelizmente o nome do autor não aparece. 

O Poder do Mito - Joseph Campbell.

Foto -  "SEREIAS, O CANTO DO MAR", do Blog polen.blogs.sapo.pt

ANA VALÉRIA SESSA

Ana Valéria Sessa
Publicado no Recanto das Letras em 07/04/2007
Código do texto: T441168

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CARTA AO VIDENTE RIMBAUD  (Poesias de Ana Valeria Sessa) escrito em terça 03 abril 2007 13:06

 

Foto do poeta Arthur RIMBAUD

 

 

 

 

Carta ao vidente Rimbaud



Na minha homenagem ao ícone que gerou a expressão "Maldito" e a todos os outros gênios "Les maudits" que o procederam, deixo um pouquinho de sua mágica e vertiginosa poesia, seguida de uma pequena biografia, no mínimo, intrigante! No final -  a minha humilde cartinha.


  
  ~~~~  Arthur Rimbaud (1854-1891)   ~~~~ 



Uma Temporada no Inferno e Iluminações
Tradução de Lêdo Ivo 



FRASES

Quando se reduzir a um só bosque negro para nossos quatro olhos atônitos - a uma praia para duas crianças fiéis - a uma mansão musical para nossa clara simpatia - vou te encontrar. Haja aqui embaixo só um velho solitário, calmo e bonito, em meio a um "luxo incrível"- vou estar a teus pés. Assim que eu realize todas as tuas fantasias - sendo eu aquela que sabe torturar-te - vou te estrangular.

***

Quando a gente é forte,- quem se afasta? muito fresco - quem cai no ridículo? Quando a gente é mau, que fariam de nós? Se arrume, dance, ria - Nunca pude mesmo jogar o Amor pela janela.

***


E se anseio mares de Europa, é a poça
Escura e fria onde ao crepúsculo perfumado
Uma criança se abaixa triste e solta
Qual borboleta de maio um barco delicado.

                    .....Estrofe de "Bateau Ivre"

***

REPOUSANDO NO VALE
POEMA II 

(...e com que beleza sinestésica e imagética, ele traça um quadro colorido, delicado e vivo, para dele fazer sair o horror da guerra. Soneto inspirado na guerra de 1870)


É um pedaço de erva onde canta um ribeiro
Que rasga tresloucado o parco prateado
Verde; onde o sol, do despenhadeiro
Brilha: é um pequeno vale espelhado.

Um soldado jovem, boca incerta, cabeça descoberta,
Nuca banhada pelo fresco agrião azul,
Dorme; ele se estica sobre a relva, sob a mata aberta,
Pálido em seu leito verde onde chove luz.

Pés sobre os gladíolos, dorme. Sorriso disforme
De criança doente, ele dorme:
A Natureza calorosamente o envolve: ele tem frio.

Suas narinas não estremecem com os cheiros;
Dorme sob o sol, com a mão sobre o peito.
Tranqüilo. Tem, no lado direito, dois vermelhos orifícios. 

***


 (...as artes visuais disseminadas em quase todos os poemas em prosa, tentando arrancar a pintura de seu hábito antigo de copiar)


"Eu amava as pinturas idiotas em cima das portas, cenários, lonas de saltimbancos, insígnias, iluminuras populares, literatura fora de moda, latim de igreja, livros eróticos com ortografia errada, romances de nossas avós, contos de fadas, livrinhos infantis, óperas velhas, refrões imbecis, ritmos ingênuos"

"Eu ilustrei a comédia humana"

***


             
Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol. 

***

Eu não falarei,
Eu  não pensarei mais 
mas um amor imenso
entrará na minha alma.

trecho de "Sensações" , 1870

 


A vida de Rimbaud marcou todas as biografias pela sua curiosa incoerência. Um adolescente que compõe dos quinze aos dezenove anos, poemas fulgurantes, vertiginosos de imagens e questionamentos. Com uma total ruptura de idéias, concepções religiosas e tradição literária de linguagem, ele mergulha no poço escuro do inconsciente, sem nenhum Freud para socorre-lo e emerge lançando cores e sabores como um desbravador selvagem da ficção. Num futuro muito próximo, ele mesmo iria se tornar o próprio selvagem abandonando a civilização ocidental para sempre. Rimbaud se entediou com todos os tapetes vermelhos que lhe jogaram, gênios na época, como Verlaine, que quase enlouqueceu com o pequeno e belo maldito. Verlaine comeu o brioche que o diabo amassou...e com prazer!  Abandonando a esposa, acabou na sarjeta. Um dos casais literários mais famosos pelos tantos barracos armados com direito a polícia e escândalo. Pois é, Rimbaud deu uma bela banana para tudo isso. Abandonou a Cidade-Luz, na época, a capital literária do mundo, com seus cafés, baladas dignas da atual Canden Town, em Londres, e um clima cultural que atraía exilados de todas as nacionalidades, idiomas e tendências políticas e sexuais. O jovem que não assimilava, mas tragava vorazmente tudo a sua volta numa velocidade estonteante, sentia-se só no seu mundo de futuras descobertas e outras que até hoje ainda estão por vir. Lançou-se em caminhadas, numa energia assustadora, não só mental, mas física percorrendo a pé a Inglaterra, a Áustria, Alemanha e Suécia. Aprendeu várias línguas, fazendo os mais diversos trabalhos para sobreviver, viajando enfim para a longínqua África, na época chamada Abissínia. Ali percorreu regiões inóspitas e primitivas, antes nunca pisadas pelo homem branco. Negociou com os donos do pedaço,  sultões fascinados com armas de fogo, vendeu peles e marfim para os povos nômades. Fundou seu louco exílio Em Arar, cidade estranha e misteriosa, dominada pelo código severo do Islã, onde o termômetro marca 30 graus centígrados no "inverno". Ele amaldiçoava os cães selvagens que urinavam nas peles e ainda assim, lá de seu reino meio  *"Apocalipse Now", encomendou uma máquina fotográfica, a grande invenção, na época.  O fascínio pela imagem e pelo novo, no fundo, ainda estava presente em meio aos papéis sujos onde fazia cálculos e contava as onças de ouro. Em seu ciclo infernal, em condições atrozes, passando toda espécie de privação e dor, ele se perdeu em sua teia de aranha e dela só saíria para morrer em Marseille aos trinta e sete anos. 
Às vezes, quase o vejo como um pré-max minimalista querendo abarcar todos os sons, mas guardando a delicadeza do essencial. Como um pioneiro de  Andy Warhol, em plena época de uma pintura clássica e rígida em conceitos, ele adorava tudo o que era imagem, das mais vulgares as mais sublimes e queria que elas se desprendessem das letras para tocar o leitor com mãos alucinadas de ternura. Nenhum poeta exerceu tanto sortilégio. Nenhuma biografia foi tão intrigante.


Comentário de Henry Miller: 


"Creio que há muitos Rimbaud neste mundo, e que seu número crescerá sempre. Creio que, no futuro, o tipo Rimbaud substituirá o tipo Hamlet e o tipo Fausto.
Rimbaud é uma curiosa mistura de audácia e timidez. Ele tem a coragem de se aventurar lá onde nenhum branco jamais pôs os pés, mas ele não é capaz de enfrentar a vida com pouco dinheiro. Não tem medo dos canibais, e sim dos brancos, de seus semelhantes. Nele havia luz, uma maravilhosa luz, mas ela não devia se espalhar antes que ele morresse." 


O outro Rimbaud, o andarilho ( Uma de sua cartas à família) 

Cairo, 23 de agosto 1887.

Meus caros amigos

...eu vim para cá porque o calor era insuportável esse ano no mar Vermelho. Todo o tempo fazia de 50 a 60 graus. Me sinto enfraquecido, depois de sete anos de muito cansaço. Vocês mal podem imaginar (...) eu não tenho empregados, no momento e tenho medo de perder o pouco que eu tenho. Imagine vocês que carrego todo o tempo na minha cintura, seis mil e poucos francos de ouro; isso pesa mais de oito kilos, o que as vezes me provoca muita dor (...) portando não posso voltar para a Europa por muitas razões: primeiro porque eu morreria no frio, depois já estou habituado a vida errante e gratuita; enfim não tenho uma posição (...) eu tenho que voltar para a costa do Sudão e Arábia, talvez eu vá para Zanzibar onde eu possa fazer longas viagens na África, talvez China, Japão...quem sabe onde ? 
Enfim mandem notícias. Eu vos desejo paz e felicidade.

***



Minha carta ao vidente
                                  
                             
  
primavera - 2006                                        

Mon petit chéri,


As coisas melhoraram por aqui.  Ah ! como adorarias ver teu mundo vertiginoso de imagens  agora liberto em coloridos versos, cinema, fotografia, holografias, imagens digitais. Meninos e meninas  brincando livres na relva das tuas lindas iluminuras !  Irias mandar muitos emails perturbando os maniqueístas...já posso te ver... digitando e rindo ! Pois é, eles ainda existem !  mas também tem uma turma da pesada que cada vez cresce mais, lutando por um pluralismo de culturas, tentando  sumir com esses malditos dadinhos que jogam com a velha díade do bem e do mal. Irias adorar o relativismo de Einstein, a física quântica, o jazz, o soul, as maravilhas que andam fazendo com a música clássica.  Menino, você ia se divertir a valer !

**Gros bisous, 

   Valéria
   PS: Segue um poeminha de pé-quebrado vestindo as tuas roupas.


"...das delicadezas que só a bruma
acaricou em devaneios azuis.

Em nome da tua dama violeta
sensual e aveludada
que se deita nua embaixo da lua
na  relva fresca e cintilante,
te digo :
Meu ouro continuará luzindo.
 
Ainda que numa Abissínia distante 
tua doce música no ouvido
não será mais um ruído.
Sempre e de novo será liberta
na cor das vogais, na alquimia dos verbos.


Se escondeste tua poesia em peles de animais mortos
com medo dos salteadores
Se viraraste selvagem para conhecer, de fato, a viagem
e acabaste naufrágo do esplendor,
aqui fica um porto onírico,
uma linda aurora grávida de amanhãs
No teu leito, deixo alguns louros frescos e um cheiro de rosas."


------------------------------////


* Apocalipse Now - filme de Francis Ford Coppola
 
**gros bisous - grande beijo.

 - O título é uma alusão a "Carta do Vidente" a cérebre carta escrita por Rimbaud aos 16 anos à Paul Demény. Com uma simples missiva, ele lança um novo código que influenciaria toda a literatura no futuro. 


Mesdames et Messieurs, respectez les Droits d'Auteur ! 

Ana Valéria Sessa

Publicado no Recanto das Letras em 13/09/2006
Código do texto: T239485


 

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LIÇÕES SOBRE INTERTEXTUALIDADE  (Poesias de Ana Valeria Sessa) escrito em segunda 26 março 2007 11:09

 

El Papiro Rhind 

 

 

 

Intertextualidade...uma constante na Literatura



Esse artigo tem como objetivo a compreensão dos conceitos básicos de intertextualidade, discorrendo sobre o assunto de maneira sucinta e clara. Achei interessante divulga-lo aqui, visto que, publicamos textos literários e dentro de um veículo, a Internet, em que cada vez mais encontramos uma proposta de comunicação que abre caminhos para diferentes gêneros discursivos. Aqui mesmo, dentro do Recanto, podemos observar uma intertextualidade que se dá, por exemplo, através de: duplix, artigos que nascem de outros artigos, textos que nascem de comentários...etc. Afinal a própria história da literatura é fruto da intertextualidade e o seu processo pode ocorrer em vários graus. Hoje com as novas tecnologias da informação e da comunicação tal assunto tem sido objeto de várias discussões. Espero que o texto a seguir possa ser útil e elucidativo.

Intertextualidade:

A palavra intertextualidade significa interação entre textos, um diálogo entre eles. E texto no sentido amplo: um conjunto de signos organizados para transmitir uma mensagem, portanto, no mundo atual da multimídia, ela acontece entre textos de signos diferentes.
Veja um exemplo de intertextualidade :

Para que mentir?

Para que mentir
tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra quê? Pra que mentir,
Se não há necessidade
De me trair?

Pra que mentir
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir, se eu sei
Que gostas de outro
Que te diz que não te quer?

Pra que mentir tanto assim
Se tu sabes que eu sei
Que tu não gostas de mim?
Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido?
(Vadico e Noel Rosa, 1934)

Dom de Iludir

Não me venha falar na malícia
de toda mulher
Cada um sabe a dor e a delícia
de ser o que é.
Não me olhe como se a polícia
andasse atrás de mim.
Cale a boca, e não cale na boca
notícia ruim.
Você sabe explicar
Você sabe entender, tudo bem.
Você está, você é, você faz.
Você quer, você tem.
Você diz a verdade, a verdade
é seu dom de iludir.
Como pode querer que a mulher
vá viver sem mentir.
(Caetano Veloso, 1982)

O poema-canção Pra que mentir? foi escrito por Noel Rosa em 1934, em parceria com o compositor paulista Osvaldo Glogliano, o Vadico. Caetano, em 1982, compôs Dom de Iludir, estabelecendo uma imaginária correlação dialogal com o poema de Noel.
A música de Caetano Veloso mantém um diálogo explícito com a de Vadico/Noel Rosa, como muitos poemas mantêm interação com a Canção de Exílio, de Gonçalves Dias.

Exemplos:

Mário Quintana

Minha terra não tem palmeiras...
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Oswald de Andrade

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
Onde cantam gaturamos de Veneza
(...)
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
E ouvir um sabiá com certidão de idade!



Duas intertextualidades

Dentre a intertextualidade explícita, temos vários gêneros, como: epígrafe, citação, referência, alusão, paráfrase, paródia, pastiche e tradução.

Epígrafe

Epígrafe ( do grego epi = em posição superior + graphé = escrita) constitui uma escrita introdutória de outra.
A Canção de Exílio, de Gonçalves Dias, apresenta versos introdutórios de Goethe, com a seguinte tradução: "Conheces o país onde florescem as laranjeiras? Ardem na escura fronde os frutos de ouro... Conhecê-lo? Para lá , para lá quisera eu ir!"
A epígrafe e o poema mantêm um diálogo, pois os dois têm características românticas, pertencem ao gênero lírico e possuem caráter nacionalista.

Citação

É uma transcrição de texto alheio, marcada por aspas. A música Cinema Novo, de Caetano Veloso, faz citações:

O filme quis dizer "Eu sou o samba"
A voz do morro rasgou a tela do cinema
E começaram a se configurar
Visões das coisas grandes pequenas
Que nos formaram e estão a nos formar
Todos e muitos: Deus e o Diabo, Vidas Secas, os Fuzis,
Os Cafajestes, o Padre e a Moça, a Grande Feira, o Desafio
Outras conversas, outras conversas sobre os jeitos do Brasil.

Na citação sobre o samba, Caetano Veloso diz que o Cinema Novo quer representar o Brasil, como fez o samba da época de Carmen Miranda.

Referência e Alusão

Machado de Assis é mestre nesse tipo de intertextualidade. Ele foi um escritor que visualizou o valor desse artifício no romance bem antes do Modernismo. No romance Dom Casmurro, ele cita Otelo, personagem de Shakespeare, para que o leitor analise o drama de Bentinho.

Paráfrase

A paráfrase é a reprodução do texto de outrem com as palavras do autor. Ela não confunde com o plágio porque seu autor explicita a intenção, deixa claro a fonte. Exemplo de paráfrase é o poema Oração, de Jorge de Lima:

"- Ave Maria cheia de graças..."
A tarde era tão bela, a vida era tão pura,
as mãos de minha mãe eram tão doces,
havia, lá no azul, um crepúsculo de ouro... lá longe...

"- Cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita!"
Bendita!
Os outros meninos, minha irmã, meus irmãos
menores,
meus brinquedos, a casaria branca de
minha terra, a burrinha do vigário
pastando
junto à capela... lá longe...

Ave cheia de graça
- ..."bendita sois entre as mulheres, bendito é o
fruto do vosso ventre..."

E as mãos do sono sobre os meus olhos,
e as mãos de minha mãe sobre o meu sonho,
e as estampas de meu catecismo
para o meu sonho de ave!
E isto tudo tão longe... tão longe...

O autor retoma explicitamente a oração Ave Maria e mantém-se fiel a ele, justapõe a figura de Maria à da sua mãe, refere-se à hora do Angelus.

Paródia

"A paródia é uma forma de apropriação que, em lugar de endossar o modelo retomado, rompe com ele, sutil ou abertamente".
Ela acontece no famoso poema de Carlos Drummond de Andrade No Meio do Caminho, que faz uma paródia do soneto Nel Mezzo del Camin, de Olavo Bilac que, por sua vez, remete ao primeiro verso da Divina Comédia, de Dante Alighiere: "Nel mezzo del camin de nostra vita".
Além do título, Drummond imitou o esquema retórico do soneto de Bilac, ou seja, em vez de parodiar o significado, promoveu um paródia na forma: empenhou-se na imitação irônica da estrutura, reproduzindo apenas o quiasmo (repetição invertida) do texto.

No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nel Mezzo del Camin

Olavo Bilac

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Pastiche

O pastiche pode ser plágio, por isso tem sentido pejorativo, ou é uma recorrência a um gênero. A estética clássica, por exemplo, promovia o pastiche e não era desdouro fazer isso. O pastiche insiste na norma a ponto de esvaziá-la, como acontece com o dramalhão, que leva o gênero drama às últimas conseqüências.
É bom esclarecer que a questão da originalidade e da autenticidade nas artes nasceu com o Romantismo, cuja concepção artística era que a obra expressasse a subjetividade do autor.

Tradução

A tradução de um texto literário implica em recriação, por isso ela está no campo da intertextualidade também.


Intertextualidade implícita.
Quando uma articulista de jornal escreve sobre a importância dos direitos humanos na atualidade, suas idéias fazem parte de um discurso ideológico, portanto, com certeza, seu texto mantém diálogo implícito (ou explícito) com a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU e outros documentos.

Na Literatura, a intertextualidade é uma constante, porque cada estilo de época se opõe ao anterior e retoma parte da estética passada. Exemplos: o Classicismo retomou a Antigüidade Clássica, assim fez também o Arcadismo e o Parnasianismo. O Realismo combatia os excessos do Romantismo, já este contrariava o formalismo dos clássicos.

Nesse caudal de retomada e oposição, acontece a intertextualidade que forma a história da literatura de uma nação. João Cabral de Melo Neto tem um poema que ilustra muito bem esse fenômeno com a metáfora do cantar dos galos:


Tecendo a manhã

João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, todo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 

*Aqui mesmo no Recanto os duplix são um ótimo exemplo de intertextualidade.

Quando se vê um (a) jovem tentando rabiscar um poema, espremendo os miolos para colocar no papel a sua subjetividade trabalhada em forma de palavras, qualquer escritor se encanta, pois é mais um que quer ser água no rio caudaloso da literatura. Camões, Machado de Assis sorriem porque com esse gesto não deixa a literatura morrer. Intertextualidade também é isso: os cantares de cada geração dialogando entre si.

*Este texto é uma paráfrase do livro Intertextualidades: Teoria e Prática, várias autoras, Editora Lê.



Texto- Hélio Consolaro
Bibliografia - Paulino, Graça; Walty, Ivete; Cury, Maria Zilda Cury. Intertextualidades:
Teoria e Prática, 1ª edição, Belo Horizonte-MG, Editora Lê, 1995.


Ana Valéria Sessa
Publicado no Recanto das Letras em 21/02/2006
Código do texto: T114687

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CONTO: ÍTACA  (Poesias de Ana Valeria Sessa) escrito em quinta 22 março 2007 18:51

 

 

MAN RAY

de William Wegman

 

 

 

Antes mesmo de conhecê-la, ele pressentia algo estranho, como se chegasse a um divisor de águas. Um vazio e uma angústia, o assaltavam como se o tempo escoasse rapidamente. Talvez até por isso, amou-a como se não houvesse amanhã. Ela, lamentavelmente, como se apenas fosse um dia nublado de ontem e nele desapareceu. Desde então, foi incapaz de refazer-se nos braços da vida. Em seu novo e amplo apartamento, num antigo prédio do centro da cidade, foi criando sua zona de conforto, seus oásis. Nada como deixar fluir seus pensamentos como um barco, entre rios de palavras e livros. Saía pouco. Escrevia. Lia muito: poemas, estórias plenas de feitos, filosofias e sínteses magníficas, mas nenhum afeto as curvava sinuosas em mistério. Em seus sonhos, pouco a pouco, apagavam-se também as requintadas vias para fêmeas raras, nem mesmo doces meninas ou bad girls e assim ergueu um mundo supostamente indolor. Sem se dar conta, acabou cultuando o espectro da sedução. Matou todos os sortilégios e fascínios perigosos. Exterminou o enigma, o segredo do que não pode ser dito. Protegido, na sua torre de simulação, comandava suas redes sem contatos, alimentando seus fantasmas sem afetos. Tornou-se um simulacro de si mesmo. Sem emissor nem receptor, instaurou a auto-sedução. Ele não sabia que um mundo, até mesmo dentro dele - sem o perigo de sucumbir à vertigem de uma sombra, não era mundo. Rompida a harmonia feita de tensões, tornou-se uma lira sem arco, onde o vento transpassava debilmente. Por fim, se perdeu em insanas conjecturas, pensando-se além do bem e do mal. Mergulhado nelas, já nem se importava com seu velho companheiro Sherlock, um belo cão weimaraner. Na última semana mal o alimentava. Sherlock, assustado, pressentia um perigo e deitado num canto, enroscava-se em si mesmo, olhando-o de soslaio. Em sua mímica ancestral, ele tentava dizer que ali, já não era mais um lugar seguro, mas seu dono tinha perdido tais referências. Os dotes de Sherlock adquiridos ao longo de séculos eram infrutíferos. Numa tarde, vendo que o dono esquecera a porta aberta, saiu por ela furtivamente. Perambulou pelo longo corredor mal iluminado, olhou para as escadas que davam para o térreo mas acabou voltando. Aninhou-se na porta ao lado, ressonando na interminável espera dos cães. Já tarde da noite, Sherlock ergueu a cabeça, suas orelhas se eriçaram com o barulho de passos. A vizinha chegava. Era uma jovem bailarina clássica que há alguns meses dançava em casas noturnas para sobreviver. Ao ver o cão tão maltratado, sentiu pena e levou-o para dentro de casa. Deu-lhe água e comida depois, abriu a porta para que ele voltasse para o dono, mas Sherlock permanecia ali. Com um ar de súplica, quase humano, ele olhava para ela e apontava para a porta entreaberta. Ela se aproximou e devagar empurrou a porta. Naquela sala esquecida, entre garrafas de  whiski vazias, cinzeiros abarrotados de cigarros, ele dormia no sofá. No deserto de suas impalpáveis dores e amores, tinha engolido todo o pó do desafeto. A jovem sentou-se num canto do sofá, suspendeu cuidadosamente sua cabeça e colocou-a em seu colo. O corpo dele estremeceu ao tato. Sentiu um vento fresco que batia em seu rosto como uma brisa de verão. Pensou estar sonhando, quando ouviu o pequeno ruído contínuo do ventilador no teto, trazendo-lhe de volta àquela  atmosfera opressiva. Ao abrir os olhos, se deparou com os dela, calmos como dois pequenos lagos. Confuso, perguntou seu nome e pausadamente ela o pronunciou: Ítaca. Exausto, acabou dormindo de novo. Acordou pela manhã muito cedo, olhou em volta e viu Sherlock que contente, abanava a cauda. Por algum motivo inexplicável ele sentia-se muito bem, como se estivesse livre daquele enlutamento, do sol negro da melancolia. De alguma forma inconsciente ele tinha revertido aquele processo. Lembrou vagamente daquele sonho, do encanto daqueles olhos, olhos pássaros que pareciam ter diluído o peso daquele mundo cindido e triste. Pensou em sensações que somente o mundo dos sonhos propiciam, tão ilógico e avesso a razão ! e no entanto, concluiu: "É o sonho da razão que produz monstros". Ele, mais do que ninguém, agora sabia disso. Lá fora, uma clara manhã prometia um dia ensolarado e sair daquele apartamento era só o que ele queria - Tomar o café da manhã na rua, dar uma grande volta com Sherlock. Pobre cão ! - pensou pegando a coleira. Sentia-se culpado por te-lo negligenciado tanto. Ao procurar a chave da porta, sob uma estante viu um livro aberto numa página. Era um poema. Com pressa, passou os olhos aleatoriamente, mas acabou se debruçando nas duas últimas estrofes :


"Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável." 
                                        Jorge Luis Borges. 


Por uns segundos ficou ali, divagando... Borges, Heráclito - o velho pré-socrático ”taoista”, a Odisséia de Ulisses... tudo aquilo ele tinha lido, mas aquele nome em particular, ecoava como um déjà vu... Ítaca... quando sua atenção desviou-se para o cão que latia em frente a porta, ansioso pelo tão esperado passeio. “Et voilá ! “ – disse ele em voz alta -  "A chave está na porta,  já nem me lembrava". Ao destrancá-la para sair, surpreendeu-se ao ver que estava apenas fechada. Qualquer um poderia ter entrado. "Que noite!" - desabafou.  Afagou a cabeça do cão e disse: 
  - É, meu amiguinho, tem coisas que é melhor nem entender !
Para Sherlock, em seu mundinho desprovido de razão, tudo parecia elementar...elementar meu caro leitor.



------------------*** 



* foto - William Wegman. O modelo na foto é realmente uma estrela. Um weimaraner chamado Man Ray. Willian Wegman também pintor, ficou famoso por fotografar Man Ray em belas composições marcadas por uma plasticidade incrível vestindo roupas de gente em diferentes poses. Para quem quiser conhecer outras fotos é só digitar o nome do artista no Google.

OBS. OUTRA FOTO DO BELO CÃO "MAN RAY" ENCONTRA-SE DISPONÍVEL NO SEGUINTE ENDEREÇO:

http://recantodasletras.uol.com.br/contos/393202



Ana Valéria Sessa
Publicado no Recanto das Letras em 25/02/2007
Código do texto: T393202

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LUMINÂNCIAS  (Poesias de Ana Valeria Sessa) escrito em segunda 19 março 2007 00:43

 

 

 

O que em glória nos ilumina
Não nos cai do céu como um presente
E dado que a sombra não nos pede pousada
Quem determina o jogo de sombra e luz
Somos nós em nossa morada.


  
ANA VALÉRIA SESSA
       

Ana Valéria Sessa
Publicado no Recanto das Letras em 18/03/2007
Código do texto: T417108

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