CULTURE
de Jean Baudrillard
Leitura recomendada: "TCHIN-TCHIN
À MONSIEUR BAUDRILLARD...", de ANA VALÉRIA
SESSA
Autoria: ANA VALÉRIA SESSA
Faz quase quatro meses que Jean
Baudrillard morreu. Pouco antes da sua morte, eu estava procurando
um livro aqui em casa, quando um deles subitamente caiu da
última prateleira. Era exatamente o livro “Cool
Memories”, de Baudrillard. Delicioso acaso, pois foi um
grande prazer reler esse livro depois de tantos anos, sem contar
que estávamos em época de eleições -
suas idéias sobre política me extasiaram e me
divertiram. É impossível não se deixar
contaminar por suas opiniões demolidoras e análises
aguçadíssimas da sociedade, as quais,
invariavelmente, desestabilizam paradigmas. Um homem
contraditório, pois usava a psicanálise em sua
análise social ao mesmo tempo em que a criticava.
Polêmico -uns o veneravam, outros o tachavam de
homofóbico, anti-feminista, elitista e até
charlatão. O fato é que em tempos de idéias
magras, quase anoréxicas, todos são unânimes em
concordar: o mundo perdeu um grande pensador. É preciso
rever Baudrillard, para entender o que se passa à nossa
volta.
Segundo o referido filósofo, os
espetáculos midiáticos (como por exemplo: a visita de
George W. Bush) “desaparecem por saturação,
disseminação patológica, difusão
virótica, proliferação excessiva e
caótica, banalização,
hiperexposição, visibilidade exagerada e
doentia”. Como bem pontificou Juremir Machado da Silva, em
artigo para o “Correio Brasiliense”, Baudrillard
percebeu o marasmo e o esgotamento da crítica, que se
transformou numa queixa moralista de ‘tia solteirona’ ,
passando a defender uma “teoria irônica”. Esse
dissidente da verdade, como ele mesmo se auto-denominava, usou a
ironia e o paradoxo como armas para combater a imbecilidade. Um
exemplo: “A humanidade espera que a inteligência
artificial a salve da sua estupidez natural”.
Como afirma um artigo no jornal
“Libération” : " Qualquer que fosse o tema
abordado, Jean Baudrillard dizia sempre alguma coisa que
ninguém jamais disse. Ele era obcecado, verdadeiramente, por
uma questão estranha e inquietante: O que fazer quando os
acontecimentos ultrapassam a velocidade dos sentidos ?"
Muitas de suas idéias cabem como uma
luva nesses tempos velozes em que a mídia parece ter
alcançado um grau quase psicótico, em que as
simulações ultrapassam cada vez mais o real, afinal,
como o próprio escreveu: " Não estamos mais na era da
anomia, mas da anomalia. Não estamos mais na era da virtude,
mas da virtualidade".
Basicamente, Baudrillard se apoiava na
idéia de uma sociedade que rege o sexual no corpo com a
mesma política e economia que rege o valor de mercadoria
“...o corpo na atualidade tornou-se um modelo sexual cujo
modo de aparição extasia-se pelo consumo.”
É bem verdade. Haja vista o número cada vez maior de
‘reality shows’, de celebridades ‘mixando’
insolitamente suas vidas íntimas com pequenos
escândalos, sexo e publicidade; com seus pequenos golpes
ardilosos, numa luta furiosa para não perder espaço
na mídia. Os exemplos são muitos. Ontem mesmo, um
amigo e jornalista mandou-me um e-mail com um vídeo de um
telejornal norte-americano em que a âncora, leve como um
isopor (bem adjetivado por ele!), revoltada, desabafa no ar que
não agüenta mais noticiar as baboseiras da (o que
é mesmo, que ela é ???
milionária-ex-presidiária ???) Paris Hilton. As
máscaras das simulações são trocadas
como se troca de roupa para satisfazer o gosto voraz da "arena"
virtual.
Desde sua obra "As trocas simbólicas e a
morte", até a sua obra mais estruturada como corpus de
indagação: "Transparência do mal", as palavras
baudrillardianas explodem em gritos, solicitando uma
definição do homem contemporâneo que, na
visão do filósofo, também está perdido
nessa parafernália de proposições e verdades
em que não se encontra nenhuma coerência.
Em uma entrevista concedida à revista
“Época”, em 2003 quando esteve no Brasil para
lançar seu livro “A verdade Oblíqua”,
Baudrillard explica como desenvolve as próprias
idéias:
"Não creio na idéia de discurso de verdade, de uma
realidade única e inquestionável. Desenvolvo uma
teoria irônica que tem por fim formular hipóteses.
Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro
refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de
fragmentos, não de textos unificados por uma lógica
rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais
importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida
que acontece no momento, como um fotógrafo. Aliás,
sou um fotógrafo!”
Esse era o francês baixinho e
mal-humorado que, como muitos outros franceses, se negava a falar
inglês e, mesmo assim, era ovacionado pelas platéias
nos EUA; tornou-se ícone da expressão
"pós-moderno"; e quando questionado sobre o assunto ficava
irritadíssimo:
“Há um mal-entendido em relação a meu
pensamento. Citam meus conceitos de modo irracional. Hoje o
pensamento é tratado de forma irresponsável. Tudo
é efeito especial. Veja o conceito de
pós-modernidade. Ele não existe, mas o mundo inteiro
o usa com a maior familiaridade. Eu próprio sou chamado de
'pós-moderno', o que é um absurdo. A
noção de pós-modernidade não passa de
uma forma irresponsável de abordagem pseudocientífica
dos fenômenos".
No filme “Matrix”, o ator
protagonista Keanu Reeves guarda seus programas de paraísos
artificiais no fundo falso do livro “Simulacros e
Simulação”, de Baudrillard. Keanu leu o livro e
adorava citá-lo em suas entrevistas, mas Baudrillard
não gostava do filme. Dizia que se inspiraram nele, mas
não o compreenderam.
Todavia, o que mais me encanta em Baudrillard,
tônica dessa crônica quase amorosa, é a sua
produção poética. Em forma de aforismos,
reflexões filosóficas sempre permeadas de
críticas ácidas à sociedade de consumo, sua
literatura poética mostra-se dura, severa, mas
também, doce e densa. Uma fina arquitetura dos sentidos que
capta um gesto, uma piscadela, um cruzar de pernas como o flash
certeiro de uma câmera capaz de traduzir num detalhe anseios
profundos da alma, no qual o sujeito fragilizado parece sempre
permeado por uma certa angústia numa sociedade incerta. Suas
observações são de um requinte extremado,
sensual e belo, por vezes cruel, cínico, mas tudo permeado
por uma estética sedutora.
Sua obra poética condensa-se em: COLL
MEMORIES I , II, III, e IV; seus artigos para o jornal
“Libération”, além de escritos tidos como
não acadêmicos.
A seguir, transcrevo alguns fragmentos
baudrillardianos, enfatizando a brilhante
“poiesis” que neles repousam:
Cool Memories
Entre aforismos, fragmentos de pensamentos, nada escapava à
crítica baudrillariana: capitalismo, guerra,
sedução, sexo, morte, clonagem, desejo, terrorismo...
:
“É difícil remediar nossa própria
tristeza porque dela somos cúmplices. É
difícil remediar a tristeza alheia porque dela somos
cativos.”
“Nova silhueta urbana: Um homem imóvel na esquina com
seu celular, ou girando em torno de si como uma fera resfolegante,
falando no vazio sem parar. Insulto vivo a todos que passam.
Somente os loucos e os bêbados podem desprezar assim o
espaço público e falar no vazio; mas, eles, pelo
menos, estão ligados a seu delírio interior. Enquanto
o homem celular impõe a todos, que não têm nada
a ver com aquilo, a presença virtual da rede, que é o
inimigo público nº1."
“Frenesi de indiferença nesses períodos de
speed. Como se conjura a aceleração das
moléculas mediante uma bebida gelada, é preciso
distrair a euforia artificial através do freio da
melancolia.”
“A acumulação é um sonho de
paralítico. Quando se acelera tudo começa a
turbilhonar.”
“A loucura só é obscena por causa da terapia; o
deficiente só é obsceno por causa do cuidado que lhe
é dado (handicapped is beautiful !) obsceno é o que
afoga a crueldade do mal na sentimentalidade do olhar. Obscena
é, por excelência, a piedade, a condescendência
impudica."
“Há um modo nervoso e um modo langoroso de fazer
política, como de fazer amor. O encontro dos dois produz os
efeitos mais belos, ou as crianças mais belas.”
"Infelizmente a idiotice típica de nossa época
não se diferencia mais da inteligência. Confunde-se
com ela. Não é mais inculta; ao contrário,
é superinformada, possui a mesma vivacidade reflexa da
inteligência artificial. É o grau xerox da estupidez
que se confunde com o grau xerox da inteligência."
“O segredo de uma vida está aqui: quantos rostos,
corpos, você reconheceria acariciando-os de olhos fechados ?
De quem você aceitaria qualquer coisa, de olhos fechados ?
Você mesmo já fechou os olhos, conduziu-se cegamente,
amou cegamente e pressentiu no escuro o desvio táctil das
idéias ?”
...e que prosa poética da melhor qualidade nesse texto em
que ele tece com maestria a teia complexa da sedução
no universo amoroso:
“Mesmo numa cama muito grande, ela dorme na ponta e seu corpo
leve não deixa traços. Não consigo domar esse
corpo frágil e distante.
Tenho direito apenas a um breve abraço a longos intervalos,
e mesmo assim ela não separa as pernas. Não me beija,
não me acaricia. No entanto tem algo de terno, de animal, de
rebelde."
"...tudo em seu corpo se defende. Seu próprio modo de falar.
A frase se precipita para escapar de você, ela se pontua com
um riso leve, agudo, para se colocar fora de alcance, riso de ninfa
triste e perolada, de uma jovialidade artificial e infeliz."
"Seu rosto continua virado, ausente sobre o travesseiro, como se
alguém a fizesse gozar a contragosto. Dança felina e
contraditória para escapar um do outro, particularmente
à noite quando os movimentos do corpo acabam respondendo aos
outros. Um pé que se move causa uma mudança na
respiração do outro, uma eletricidade negativa
conecta os corpos mesmo durante o sono....como jurei para mim mesmo
não tentar mais nada sem um sinal de afeto, sem uma marca de
fraqueza, estamos agora, de fato distantes um do outro, e
não a toco mais. Situação original: O primeiro
que romper o silêncio se perde, o primeiro que quebrar o
espelho perde a face. A situação é de
violação impossível e desafio silencioso. Na
falta de cena violenta(ninguém percorre dez mil
quilômetros para fazer uma cena) estamos desatando um a um
todos os fios que nos ligavam sem arrebentar um único que
seja. O mais difícil será conduzir até o final
essa cerimônia escabrosa, e terminar sem
escândalo...Por trás dessa fachada de
indiferença, será que sou um monstro de ternura e ela
um monstro de sensualidade?”
A crítica ácida à maior forma de poder:
“O carisma político não é exatamente o
carisma gracioso que vem do poder irresistível de um objeto
puro, como o de uma mulher, mas uma vontade sem graça que
tira a sua glória e sua força de uma servidão
voluntária. A política continua sendo a
alucinação mais evidente de todas as fraquezas da
vontade. Pode-se justificar de todas as maneiras a existência
dos homens de poder, nada impede que sejam um objeto nefasto,
porque aquilo que os justifica e inexpiável.”
Imagens delicadas, quase melancólicas:
“Vi, em sonho, o rosto da servidão. É uma
mulher de olhos pesados, azuis, atônitos. As lúnulas
de seus seios são assimétricas. Tem sempre um sorriso
para os mais pobres e rasteja em direção ao infinito
com delicadeza.”
"Eu colocava meus dedos sobre seus olhos como sobre os
botões silenciosos de um canal de TV. O que apenas
roçamos com os dedos - os olhos precisamente, certas partes
do corpo suaves e cegas a sexualidade, que não querem ser
nem tomadas nem violentamente acariciadas - onde o sangue aflora
sob a pele, onde o sentido aflora sob as palavras. Misteriosa
expressão: à flor da pele."
A sagacidade aliada a um delicioso senso de humor que beira o non
sense numa sociedade que cultua, acima de tudo, a forma :
“Seu nariz não lhe agradava: entregou-se aos cuidados
da cirurgia estética. Sua alma também não lhe
agradava: entregou-se aos cuidados da psicanálise. Mas o
pior é o seu signo astrológico. Ele gostaria tanto de
ser escorpião, Virgem ou Câncer. Qualquer signo que
não o seu, porque com aqueles de que gosta ele está
sempre em conjunção negativa.
Signo, oh! signo voraz, que posso fazer com meu signo?
Felizmente existe a Clínica Mundial de Lifting Zodiacal,
onde se refaz o seu céu e a hora de seu nascimento,
não me pergunte como. Dão-lhe um signo novo, é
a clínica do destino.
Signo, oh ! meu signo fatal, és tu que mudas e eu não
sou nada.
Mas com um destino totalmente novo, é preciso prestar muita
atenção. Com um signo novo o transplante é
frágil. É preciso tomar muito cuidado com o
ascendente, e não muda-lo com muita freqüência.
É preciso, sobretudo nunca passear nu sob seu signo.
Signo, oh! signo voraz, tu devoras a sociedade
carnívora.”
Sobre Borges
"Borges e sua face cega de mulher asteca, de velho gatuno da
metáfora, diante da qual passam sem comovê-lo, sobre
seus olhos abertos, os clarões de magnésio. Os cegos
parecem manter a cabeça fora d’água. Mas
são dotados para a irrealidade e para a astúcia...
Ponha um tigre dentro de sua biblioteca e retire-lhe a
visão: é Borges..."
O mundinho intelectual e provinciano de ódios e rivalidades
traduzido aqui, magistralmente. Quem conhece sabe - É mesmo
um verdadeiro porre, não ?!:
"O embaralhamento de ódios, de cumplicidade de escolas,de
peripécias de humor faz com que cada átomo do mundo
intelectual, que vive num estado de superexposição a
si mesmo e à sua má consciência, prefira a si
mesmo e deteste os demais. Há aí uma animosidade
insondável, mil serpentes venenosas entrelaçadas em
vasos comunicantes. O despedaçamento respectivo é o
enfeite dessa micro- sociedade, e a prova iniciática exigida
à entrada do santuário intelectual é esse
contrato de ódio e exclusividade. Paixão provinciana
exacerbada pela sofisticação dos meios de
expressão. Que certos efeitos desconcertantes de beleza
possam vez por outra brotar desse esterco de relações
humanas continua sendo um paradoxo miraculoso, resultante de
efeitos perversos ou astúcias da virtude"
A mulher é uma constante em seus escritos em que ele parece
perscrutar os meandros do mundo feminino com um certo conhecimento
de causa:
“Claro que é preciso sonhar com todas as mulheres.
Não há uma sequer que não ficaria ferida se um
homem não sonhasse com todas através
dela.”
Por fim, apresento um trecho bastante
interessante do livro “Power Inferno”, o qual
reúne artigos jornalísticos publicados na imprensa
francesa, após 11 de setembro de 2001.
“Por que, antes de mais nada, as Twin Towers? Por que as duas
torres gêmeas do World Trade Center?
...Nova York é a única cidade no mundo a
retraçar assim, ao longo de sua história, com uma
prodigiosa fidelidade, a forma atual do sistema com todas as suas
peripécias. Deve-se, portanto, supor que o desabamento das
torres - acontecimento ele próprio único na
história das cidades modernas - prefigura a
concretização dramática dessa forma de
arquitetura e do sistema por ela encarnado. Como pura
'modelização' informática, financeira,
contábil, digital, eram o cérebro dele. Ao
atacá-las, os terroristas atingiram, portanto, o centro
nevrálgico do sistema. A violência do global,
também passa pela arquitetura, pelo horror de viver e de
trabalhar nesses sarcófagos de vidro, aço e concreto.
O pavor de morrer aí é inseparável do pavor de
viver aí. Por isso a contestação dessa
violência passa também pela destruição
dessa arquitetura.
#Q#
Esses monstros arquitetônicos sempre suscitaram um
fascínio ambíguo, de uma forma contraditória
de atração e repulsão, e, portanto, em algum
lugar um desejo secreto de vê-las desaparecer. No caso das
Twin acrescenta-se a isso tudo essa simetria perfeita e essa
condição de gêmeas, com certeza uma qualidade
estética mas sobretudo um crime contra a forma, uma
tautologia da forma, que provoca a tensão de
quebrá-la. A própria destruição
respeitou essa simetria: duplo impacto com alguns minutos de
intervalo - suspense que leva a crer ainda que possa tratar-se de
um acidente; mais uma vez é o segundo impacto que assina o
ato terrorista.
O desabamento das torres é o acontecimento simbólico
maior. Imaginem se elas não tivesse desabado, ou que apenas
uma delas desabasse, o efeito não seria de modo algum o
mesmo. A prova da fragilidade da potência mundial não
teria sido a mesma. As torres, que eram o emblema dessa
potência, ainda a encarnam nesse fim dramático, que
lembra um suicídio. Vendo-as desabar sozinhas, como numa
implosão, tinha-se a impressão de que estavam
suicidando-se em resposta ao suicídio dos aviões
suicidas.”
BIBLIOGRAFIA
Cool Memories I – Jean Baudrillard. Rio de
Janeiro: Editora Espaço e Tempo, 1992.
Cool Memories II - Jean Baudrillard. Rio de Janeiro:
Estação Liberdade, 1995.
Cool Memories IV - Jean Baudrillard - edição
2002.
Power Inferno - Jean Baudrillard - Editora Sulina, 2001.
Entrevista a Luís Antônio Giron, Revista Época,
7 junho 2003.
Paulo Alexandre Cordeiro de VASCONCELOS. Porque estudar Jean
Baudrillard. Site do Projeto Tellus, 2000.
Jornal Libération - Jean Baudrillard au-delà du
réel, 7 de março de 2007.
* Para os que se interessarem em ler a obra de Baudrillard, a
“Folha de São Paulo”, no “Caderno Especial
Mais”, publicou conceitos-chaves do filósofo, os quais
abaixo reproduzo:
Sociedade de consumo
Preocupação principal das primeiras obras de
Baudrillard: necessidades, forças e técnicas naturais
são substituídas por um sistema em que os objetos de
consumo dão forma e significado à vida
cotidiana.
Pós-modernidade
É definida como o vazio deixado pelo desaparecimento das
ideologias e dos limites da modernidade, embora Baudrillard
recusasse o rótulo de
“pós-moderno”.
Simulacro
Enquanto o mundo moderno era organizado em torno da
produção, o mundo pós-moderno é
regulado pela reprodução, pela
simulação. Diferentemente da imitação
ou do fingimento -casos em que a diferença entre produto e
realidade se mantém- o simulacro (a TV, a realidade virtual)
confunde realidade e ilusão.
Hiper-realidade
É o mundo dos simulacros em que as pessoas vivem, a
sociedade de imagens -idealizadas pela TV, rotuladas pelos meios de
comunicação de massa e distantes do cotidiano do
trabalho- que substitui a sociedade de classes e do trabalho.
Fim do trabalho
Nos anos 70, Baudrillard rompe com o marxismo, que, segundo ele,
perde sentido no mundo pós-moderno: o trabalho deixa de ter
valor em si, aparecendo apenas como mais “um signo entre
outros”, um sinal de status ou modo de vida.
Sedução
Com seus rituais ambíguos, opõe-se ao conceito de
“sexual” -este está associado à
produção. A sociedade burguesa teria subvertido a
ordem original, em que a sedução viria primeiro. Ao
tentar resgatar o conceito de sedução, no final dos
anos 70, Baudrillard o associou ao feminino, criticando,
porém, o feminismo -o que gerou mal-estar no círculo
dos estudos de gênero.
Orgia e pós-orgia
A expansão cultural moderna aparece como
“orgia”. Baudrillard ressalva não se tratar de
liberação, mas de “metáfora da
liberação” manifesta na sociedade moderna. A
sociedade contemporânea, portanto, viveria a
pós-orgia, a reação a essa explosão
-uma implosão.
Implosão
Conceito emprestado do canadense Marshall McLuhan (1911-80), nomeia
o colapso da diferenciação entre os planos
econômico, político, artístico etc. Na
sociedade da simulação, a economia e a vida
“reais” não se diferenciam mais dos simulacros;
a sexualidade permeia tudo.
Transestética
Situação conseqüente da implosão: ao
mesmo tempo em que a arte tudo permeia, ela deixa de ser entendida
como fenômeno próprio; seu poder de
oposição à realidade desaparece, juntamente
com suas normas.
ANA VALÉRIA SESSA
SÃO PAULO, 01 de julho de 2007.
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/anavaleriasessa
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
13/07/2007
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À MONSIEUR BAUDRILLARD...", de ANA VALÉRIA
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