Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/09/29 18:55 / 317 Artigos publicados
 

História Social

CRISTAIS DO TEMPO - Capítulo VI (Obra em andamento)  (História Social) escrito em quarta 25 junho 2008 03:50

CANÇÃO DO MAR

Interpretada por DULCE PONTES

CRISTAIS DO TEMPO: história da fotografia no interior do Estado de São Paulo, da última década do século XIX à primeira metade do século XX - CAPÍTULO VI (Obra em andamento)



                                                                                             À mocoquense
                                                                                           RINA D’ANGELO,
                                         amada filha do casal Lauro e Palmira D’Angelo,
                                  hoje residente na histórica e bela SALVADOR/Bahia.



Sertões, extensas planícies, distâncias, abismos...
     Estafantes jornadas a cortar campinas, densas matas, longas estradas. E eu, andarilho, atravesso ruas de cidades, vejo tantas cidades, lanço olhares sobre cada quadro-cidade-labirinto e me pergunto:
     _ Eu sou rural? Eu sou urbano?
     Os campos e as cidades e as escolas e os museus... As praças, a praça Major José Quintino Pereira; a rua, as ruas Campos Sales, Carmo Taliberti, Cel.Diogo, José Bonifácio... o nome, os nomes cristalizados? pergunto com Sebald e Benjamin: colocar o nome em praças, ruas, museus, escolas assegura a alguém o direito de ser lembrado? Quais foram, afinal, os indivíduos que construíram esta cidade? Não seria exatamente os que sumiram, os anônimos, a comunidade sem história; enfim, aqueles que não deixaram vestígios, rastro algum?
     Atravesso o Ribeirão do Meio e alcanço a Rua 15 de Novembro. Número 278: FOTO MATHEUS, na cidade de Mococa.


“Loiro galan — pelo lar
Entra o sol, sem dizer nada,
Alegre como a toada
De uma canção popular

A´ janella brinca um par
Sob o docel da latada;
Preso, de um prego na entrada,
Põe-se o colleiro a cantar...

Pombos, pombas batem aza
Sobre o telhado da casa;
Chamam de dentro — Yayá...

Puxando-a pelas mãosinhas,
Diz-lhe o moço: Mariquinhas
Vem temperar-nos o chá...”

(CHROMOS, de B.Lopes)


D. Mariquinha (mulher do fotógrafo Francisco Matheus Filho)*:
     
     Eu nasci em Mococa, no dia 2 de fevereiro de 1917. Eu estou com 82 anos. Eu morei na Rua Barão de Monte Santo. Eu freqüentei a escola, o Grupo Escolar Barão de Monte Santo, aqui em Mococa. Depois a gente ficou, como é que se diz? Mocinha. Ia passear na praça, no jardim, e sempre namorava. No dia da Festa de São João, dia 24 de junho, eu, com a minha avó e minha tia, nós fomos passear em Arceburgo, e lá encontrei o Francisco Matheus Filho. Nós começamos a namorar lá, em Arceburgo. Aí, ele era daqui, de Mococa mesmo. Aí nós começamos, nos encontramos lá, e continuamos aqui em Mococa... namorava, encontrava sempre, namoramos muito tempo, viu! Depois de namorar muito tempo, veio o casamento. Ele era fotógrafo, ele trabalhava numa “Foto” com o Honório Ferreira Pinto: era patrão do Chiquinho. A família era de Arceburgo também, de Arceburgo. Honório era patrão dele, você vê que nós casamos e o Chiquinho ficou bastante tempo como empregado dele, do Honório.
     
     A data que eu me casei foi 30 de setembro de 1939. Fui ter o primeiro filho em 1940. O Chiquinho continuava a ser empregado do Honório Ferreira. Depois de bastante tempo, depois que eu tive o segundo, o terceiro filho, aí ele  resolveu... o patrão resolveu vender a “Foto” pra ele... ele comprou a “Foto”... ele comprou a “Foto”. Aí, o Chiquinho construiu aqui, depois de comprada a “Foto” do Honório Ferreira, ele construiu aqui, pra por a “Foto” aqui, na Rua 15 de Novembro. Meu Deus, já faz cinqüenta anos que nós estamos aqui! Nós estamos aqui! Cinqüenta e três anos que eu moro aqui, na Rua 15 de Novembro. É onde ele trabalhava, muito. Era um fotógrafo que todo mundo gostava dele, porque era Chico Matheus. Era o melhor fotógrafo. Tinha mais um ou dois na cidade. Tinha ele e... depois não ia fazer reportagem, não. Ele não ia. As fotografias que ele tirava era tudo aqui em casa, no estúdio mesmo, em casa mesmo. Tanto que de sábado tinha os casamentos e as noivas vinham aqui, pra tirar fotografias. Tinha sábado que tinha umas seis noivas, assim, tudo esperando pra tirar retrato. Uma pra entrar e a outra pra sair. Depois entrava outra. E foi assim a vida... Nasceram os filhos, foram crescendo, foram pra escola...
     
     Os viajantes vinham até aqui. Às vezes, o Chiquinho ia pra São Paulo, porque ele comprava muita máquina pra passar filme. Ele ia pra São Paulo, comprar as máquinas e pra tornar a revender. Tanta chapa, raio X... Os médicos compravam dele, encomendavam, pediam pra ele. E ele vinha, ele entregava pros médicos essas chapas pra tirar radiografia. Ele vendia pros médicos. Depois foi melhorando, e eles mesmos [os médicos] compravam.
     A casa era junto com a “Fotografia”. Tinha muita gente. Nossa! todas as classes sociais vinham aqui. Era bastante movimentado mesmo, muita gente de classe média, da fazenda, todos vinham até aqui tirar fotografias, tanto que o Chiquinho pedia demais pra não passar cera na sala, porque muita gente pobre vinha até aqui e tinha medo de escorregar e quebrar a perna. Tiravam as fotografias. As fotografias eram tiradas em chapas de vidro, sabe? Aí, ele revelava as chapas, retocava, pra depois fazer as fotografias. Ele fazia três por quatro, de casamento, tudo retocadinhas, e fazia aqui em casa mesmo. Ele fazia as fotografias.
     O horário de trabalho dele. Nossa! Ele trabalhava o dia todo. Além de trabalhar o dia todo, senta e levanta da cadeira, porque precisava retocar. Ele atendia os fregueses. Tinha empregado, mas quem tirava as fotografias mesmo era ele. Depois que tirava as fotografias, ele trabalhava, não tinha horário, viu! Oito da manhã, o dia todo ou à noite. Às vezes, duas horas da madrugada. Antes de eu morar aqui, ele levava as chapinhas pra retocar em casa, lá onde eu morava. Ele levava e ficava retocando até as duas horas da madrugada. Depois, no outro dia, ele trazia já retocadinha, pra fazer as fotografias. Aqui também ele trabalhava à noite. Sábado até às seis horas, domingo até o meio-dia, trabalhava mesmo, viu! Trabalhava mais era no sábado, porque aos sábados vinha o pessoal, vinha de carroça, de carrocinha, pra tirar fotografia, pra documento. Depois das oito horas, ele vinha e ficava aberto, porque de primeiro fechava às onze e meia pra almoçar. Daí abria meio-dia e meia.
     
     Aí abriu uma Usina que veio pra cá, a “Usina do Limoeiro” veio pra cá, e veio muita gente nos caminhões, eles vinham de turma pra trabalhar na Usina. Eles vinham de caminhão até aqui, pra tirar fotografia, sabe. Aí aumentou, tinha muito serviço, muito mesmo. Mas tinha o meu filho mais velho, o Célio. Ele trabalhava no escritório do Brisiguelo, do Arnaldo Brisiguello. O Célio era despachante. Ele ficou seis anos no escritório de despachante; ele gostava demais de lá. Mas, com o aumento do serviço aqui, o pai dele falou: _ “Não. Você agora vai sair lá do escritório, você vai ficar aqui me ajudando.” O patrão do Célio não queria que ele saísse, de jeito nenhum:
     _ “Olha, Chiquinho, se você tirar o menino daqui, pra ele trabalhar em outro lugar, nós cortamos a relação, nós não temos mais amizade.
     _ “Não. O Célio vai ficar em casa, pra me ajudar.”
     E ele ficou até hoje trabalhando, aí. Aperfeiçou... Começou a tirar fotografias na igreja, no civil, nos aniversários. Ia pra fora tirar fotografia, mas o Chiquinho nunca foi. As pessoas vinham mesmo aqui. O Célio foi tomando o gosto por aquela coisa, por conta dele.
     Até que um dia, o pai... agora não adianta falar, porque é muito triste. Ele ficou doente, deixou a “Foto” por conta dos filhos.
     O Chiquinho fez até o terceiro ano de Grupo. Ele brigava muito com a professora, deixava demais ele de castigo. Ele fez no “Barão de Monte Santo”. Ele era muito inteligente. Ele fez um violino, Nossa Senhora!
     Ah! não tinha material, não tinha material, não! fazia tudo a canivete, tudo. Ele fez um violino, você precisa ver que som! Que maravilha que foi o violino! Até teve uma festa muito bonita no “Variedades”. O rapaz que tocava violino no “Teatro Variedades”, nessas festas, gostou tanto do som do violino do Chiquinho, que ele fez a canivete, que ele pediu emprestado pra tocar numa outra festa. O Chiquinho tocava violino. Tanto que tem o violino, está por aqui. Ah! Ele tocava de ouvido, de ouvido que se fala. Ah! as músicas são essas antigas, mais clássicas. Então... assim foi a vida dele.
     
     As fotografias que ele tirava no estúdio, das famílias inteirinha que vinha aqui pra tirar fotografias, ele colocava muito aquela luz, porque clareava por cima, dava aquele como é que se diz?
     Bonita, viu, ficava muito bonita. Iluminava. Você viu que clareava por cima da cabeça dos fregueses. Eu acompanhava ele, porque quando ia tirar fotografia de criança quem ficava lá pra bater o sininho era eu. Eu tinha um sininho. Sininho... chama a atenção das crianças, porque punha a criança sentada na cadeirinha ou na mesa, então eu ia lá pra ajudar ele. E ele me dava o sininho, porque... Cadê o sininho? Tá lá dentro, tá lá dentro. Então, eu desse lado de cá, fica dum lado só, porque chamando, batendo o sininho, chamava a atenção da criança, e ela olhava pra onde tava batendo o sininho. Aí, tem que bater a fotografia. O que mais tô lembrando?
     O Chiquinho sempre trabalhou muito, eu ajudava ele. Eu auxiliava até no balcão, pra entregar fotografias pros fregueses. Eu ajudei ele, bastante. Às vezes, até revelar as “três por quatro” eu ajudava, porque era branco e preto, as fotografias eram branco e preto. As “três por quatro”... Ele me chamava, ele imprimia, imprimia fotografia e jogava numa banheirinha com líquido e, depois, noutra banheirinha, com água. Então, ele imprimia e jogava nessa banheirinha que tinha líquido. Aí, ele mandava eu passar a mão nas fotografias. Eu mostrava pra ele. Ele falava:
     _ “Mais um pouco. Não, não tá bom! Joga mais água. Não misture as mãos!”
     Muitas vezes, à noite, eu ajudava ele a fazer muitas “três por quatro” também. À noite, pra poder atender os fregueses. Aí, adiantava o serviço. Assim nós fomos indo...
       
     O primeiro encontro foi bom, porque foi em Arceburgo. Nós nos encontramos, depois continuamos o mesmo... assim, durante a vida da gente sempre foi uma vida muito agitada, muito serviço, “muito aperto”, era uma dificuldade.
    Eu perdi um menino com dois anos e três meses. Foi uma coisa horrível. Mas, enfim, levamos uma vida boa, regular... boa, melhor do que pior, sabe. Melhor... Foi sempre melhorando, progredindo, aumentando. A casa era “pequeninha”. Foi aumentando, que dizer? A gente colaborou bastante, economizou. E agora “tá na mão” do meu filho... cem por cento, ele. Eu não tenho filha. Tenho três filhos, mas o Célio é mais do que uma filha, viu! Se eu me queixar de uma coisinha, Nossa Senhora! Ele vem cinqüenta vezes me ver...
     
     O retoque! Acho que ninguém, ninguém aprendeu o retoque, não! Tirar fotografia de casamento. Os álbuns! Você chegou a ver? Muito bonitas, né? Olha, o Chiquinho retocava as chapinhas deste tamanho, “três por quatro”, tudo de vidro. Com o lápis, assim... com a ponta do lápis, bem fininho, pra retocar. Tirava tudo quanto era ruga, tudo. Mas você precisava ver que perfeição ficava a fotografia, bem retocada. Era chapa por cabeça, por cabeça... Agora acabou tudo isso. Agora você tira instantâneo, tudo mais rápido. Naquele tempo não rendia o serviço, porque você precisava retocar a chapinha. Agora, hoje não, hoje é mais fácil. Você tira fotografia e daí uma ou duas horas vem buscar. Agora melhorou, agora o colorido são as máquinas que têm.
     Isso era bom, isso era muito bonito mesmo. Mistura tudo... Volta ao passado...
     Ah! Quando casamos, a gente foi morar “parede e meia”, com os pais. Ali, a gente ficou bastante tempo. Depois de muito tempo, nós compramos um terreno aqui. É. construímos a nossa casa. Ele sempre como fotógrafo. Mas fotógrafo toda vida. O Chiquinho sempre gostou muito de mecânica, viu! Ele ficava muito nas oficinas mecânicas, gostava mesmo. Comprava caminhão velho e carro velho. Pode falar isso agora, comprava carro velho, caminhão velho. Ia na oficina e reformava tudo, pra poder vender. Ele gostava. Ele construiu lá na Mocoquinha. Aqui em Mococa ele construiu uma casa. Ele era de tudo: ele era o pedreiro, ele era o eletricista, ele fazia de tudo. Não tinha... tinha água lá em cima...
     Agora vou falar besteira: não tinha água lá em cima. Então, nós tínhamos um carro D.K.V. Não tinha água e ele vinha com esses latão, desse tamanho aqui. Ele vinha buscar água aqui, na minha casa, pra levar lá no alto da Mocoquinha, pra amassar os reboques. Muito sacrifício! Mecânica... Ele ia muito na mecânica, mexia muito. Ele arrumava os carros que ele comprava. Ele ia até oficina, conversava e perguntava, ou faz isso, ou faz aquilo e depois vendia. Ah, ele demorou pra vender um carro! Ele ficou tão nervoso e disse:
     _ “Vou por gasolina e vou por fogo.”
     É assim a vida da gente...
     O Chiquinho faleceu no dia 16 de janeiro de 1989. Já faz dez anos. No fim, ele já tava doente, muito tempo. Ele quis fazer uma máquina, assim, uma mini-oficina, uma “maquininha”. Se o Célio acha que deve te mostrar, depois você vai ver. Na “maquininha” tem de tudo, tudo: furadeira... Tudo em miniatura. Ele fez, ele fez uma oficina. Tudo funcionavam... liga tudo. Ele fez, mas ficou “ruim da cabeça”. Depois que ele não tinha mais forças, ele pôs na cabeça que tava doente, que tinha isso, tinha aquilo. Foi preciso ser internado, muitas vezes.
     A mini-oficina... Ainda esse alicerce, aqui. Mas, por enquanto, nós vamos deixar de estimação. Nossa, que maravilha! Porque ele não tinha estudado. Olha o que ele fez, só vendo pra acreditar! Por isso ele ficou doente. Essa maquininha...
     Então vamos lá, vamos...  Ah! Tem um nome isso aqui, funciona viu! Olha aqui a furadeira. Tem de tudo, liga todos e eles funcionam. Ele deixou tudo escrito, tá difícil, você vê que não dá pra ler. Assim... dá prá você ler? Tudo pequeno... Tinha a oficina completa aqui. Agora o Célio separou muitas ferramentas.
     É tudo aqui, tudo aqui. Ele trabalhava mesmo. Aqui tudo ligado. Furadeira, agora separou tudo, serra circular... É, agora separamos essas ferramentas, tudo esperando o filho que mora em Ilha Solteira. Eu tenho um filho que gosta de ferramentas, essas coisas. Ele se interessa, fica pra ele. Ele vem buscar.
     Assim, uma vida...
     Ele não gostava de passear, de sair, de viajar, nada. Diz que ele se sentia muito bem trabalhando em casa.


NOTA:
* Depoimento colhido na data de 29/07/1999, na Rua 15 de Novembro, 278: FOTO MATHEUS, na cidade de Mococa/SP.



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é inverno de 2008.
   







SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 24/06/2008
Código do texto: T1049921

Creative Commons License-->
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
/Creative Commons License--> CRISTAIS DO TEMPO: história da fotografia no interior do Estado de São Paulo, da última década do século XIX à primeira metade do século XX - CAPÍTULO VI (Obra em andamento)2008Recanto das LetrasSÍLVIO MEDEIROSSÍLVIO MEDEIROStext/plain -->
permalink

CRISTAIS DO TEMPO - Capítulo V (Obra em andamento)  (História Social) escrito em segunda 13 agosto 2007 16:06

RODOVIÁRIA DE MOCOCA/SP - Década de 50 

Foto de LAURO D'ANGELO 

CRISTAIS DO TEMPO: história da fotografia no interior do Estado de São Paulo, da última década do século XIX à primeira metade do século XX - CAPÍTULO V

                                         (Obra em andamento)



... de grão em grão experimento o passado. Bandeirante povoador no reino do Imperador D.João. 24 de junho: São João!

Onde estão meus heróis?
Onde estão vocês?
Onde?!
Fala-me, Musa!
Do amor,
de onde te encontres!

    Como tantos outros, vi tantas cidades...


Espero o sabiá
Que venha despedir-se em voz saudosa
D´essa tarde formosa,
No verde ramo da cheirosa ingá.
Todo o meu ser n´esta hora se extasia
Mergulhado, tristonho, em scisma funda!
E, cheio de ternura,
Vejo a obra de Deus que me circunda.
Contemplo o encanto ridente da Flóra
N´este céo de suavissima poesia,
Onde passa de rosa a nuvem pura.
Minh´alma se enamora
Até da flor singela das campinas
Que o encanto resume
No célico perfume
Derramado nas auras vespertinas.
E mais longe a jurity suspira...
Bem vejo: um flebil rogo
De viuva na dor, que o companheiro
Carpe, e o filhinho que se foi primeiro
Na solitaria e triste sucupira
Lavrada de fogo.”
(CHROMOS – B. Lopes)




D. Bárbara Elias (D.Borbora)*:

     A minha vida dá um livro, você tem que escrever um livro!
     Nasci no dia 22 de julho de 1907. Nasci em Beirute, no Líbano.
     Meu nome é Bárbara Elias.
     Então o meu pai veio pro Brasil, e deixou minha mãe grávida de mim. E ele veio pro Brasil, que já tinha o meu tio aqui, o Domingo Elias, que morava já aqui... e trouxe o meu pai; morava aqui, em Mococa.
     Meu pai então veio pra Mococa e deixou minha mãe comigo. Eu tinha uma irmã mais velha do que eu; e ele veio pro Brasil, e nos deixou lá. Depois de cinco anos, ele mandou buscar a gente, lá. A minha irmã... a minha avó começou ‘a por medo’ na minha irmã, não deixou ela vir. Porque ela falou que, segurando a minha irmã lá, o meu pai voltava logo pro Líbano. Mas não adiantou nada. Aí, vim com meu pai. Eu estava com cinco anos, quando eu vim pra morar com o meu pai e com a minha mãe.
     Meu pai tinha loja, venda de cereais. Meu tio tinha loja, tinha loja, loja de fazendas, de tecidos. A do tio, eu não me lembro... Domingo Elias... é muito, muito antigo. Domingo Elias... tecidos, aqui em Mococa. Meu pai tinha venda de... armazém... que ele tinha no começo... quando o meu pai veio pro Brasil, ele tinha loja. Depois, meu tio abriu uma casa de chope, lá embaixo, porque ‘era ponto’... “Confeitaria Ponto”. Ponto, assim é que chamava. É muito antiga, foi muito freqüentada. O Malim [ Zamarian] deve lembrar, não é Malim?
     Então, um dia, é...
     Em frente à Prefeitura, ‘subindo as Pernambucanas’, na esquina, onde tem uma casa velha, de roupa de criança; ali era um salão enorme, tinha... Eu acho que a minha filha, Lina, deve ter o retrato lá do ponto, ela deve ter o retrato do meu tio. E tinham cereais, vendiam cereais. Depois...
       
     Quando nós chegamos pra cá, eu lembro que eu era muito criança, eu não lembro...?! Depois de uns tempos, meu pai mudou pra Conquista [MG]. Ficamos lá uns cinco anos, acho, mais ou menos. Ali ele morreu, ele foi cobrar os fregueses lá, ‘umas coisas’, pra receber o dinheiro, pra ir pro Líbano, que essa minha irmã escreveu pra ele, que ela estava sozinha, que morreu meu avô e minha avó e ela ficou sozinha. Ela estava com 14 anos, mais ou menos, 13 anos... ?! Nagiba, ela ainda é viva. Ela está com 90, ou quase 94 anos?! Agora ela está morando na Austrália. Ela mudou pra Austrália, os filhos dela está tudo morando lá. Então, ela foi pra lá...
     Aí meu pai morreu, e nós viemos todos pra cá. Viemos pra cá. Meu tio, Domingo Elias, foi lá e me trouxe logo pra cá. Minha mãe, com sete filhos, pra Mococa, pra Mococa...
     Meu pai... ele morreu lá, naquele Rio Grande. ‘Morreu novo’, não tinha nem, não tinha ... quantos anos tinha o papai quando morreu?! morreu afogado. Então, minha irmã falou pro meu pai que fosse buscar ela; fosse buscá-la, bom, não repara ‘o meu português’, não, viu?
     E depois ela então queria... naquela época, os comerciantes vendiam pro colono, pra pagar no pagamento geral. Pagamento geral... a gente vendia até o ano inteiro. Chegava na colheita é que colhiam e pagavam o negociante. E meu pai, então, foi receber esses... do pessoal, que devia pra ele, e atravessou o rio; foi numa véspera de São João. E ele se chamava João! E quando ele foi lá e atravessou o rio, já era mais tarde, ele foi numa noite, num dia que ventou muito, acho que no Brasil inteiro, ventania medonha! Disseram que o mar, o rio ‘faziam assim’, a água!! Foi em mil novecentos e quanto?! O papai morreu em 1921. É, em 1921.

     Aí ele quis vir, não quis ficar lá, falou que a mamãe ia ficar preocupada e não quis ficar lá. Tinha um canoeiro que falou:
     “_ Não, João, eu não vou atravessar, você não vai atravessar, o rio tá muito cheio, bravo!”
     Um outro falou:
     “_ Eu levo você, eu vou atravessar com você.”
     Atravessou e afundaram os dois. O papai e o barqueiro morreram; e nós lá na cidade, esperando o papai chegar, e nunca, não chegava. E todo dia de São João ele soltava balão, descarregava o revólver pra festejar o São João, que era dia dele, o dia de São João. E nós fazíamos fogueira lá e tudo, esperando o papai chegar, e não chegava, esperando ele chegar, e não chegava. Ia acender a fogueira, não acendia a fogueira, não pegava o fogo. Aí chegou a notícia que ele tinha morrido e foi aquela tristeza.
     ... aí meu tio trouxe nós pra Mococa. Aí eu fiquei morando com o meu tio.
     Eu era a mais velha, era eu... estava com 12 anos,
     Então eu fiquei morando ali. O meu tio morava naquela casa, ali [perto da Caixa D’Água]. É uma casa antiga. Hoje tá tudo diferente, mudou tudo! Então, eu morei com o meu tio. Mas sabe como é que é, meus primos eram ricos, eles estavam bem, tinham de tudo, e eu era pobre, ficava dependendo deles. Meu pai tinha armazém. Com o tempo sumiu tudo, depois que ele morreu, não sei que fim levou. Ficamos sem nada. Aí vim morar com meu tio. Depois, meu tio achou que eu não estava bem ali com ele. Ele mandou eu morar com o meu primo, que já era casado; meu primo, Alípio Elias. Alípio Elias: “_ Cê lembra, Malim, do Alípio?”. Morei com Alípio. Ele tinha uma loja muito grande, lá embaixo. Loja de tecidos, era a maior aqui de Mococa. Era ali onde é a “Casa de Calçados”, em frente à “Fidalga”, ali que era a loja do Alípio.
     Aí, depois, surgiu o meu casamento. Meu marido... eu já estava com 15, 16 anos, os meus 16 e pouco... apareceu um casamento. Meu marido falou: “_ Se você for separar a casa, ela mora com você...”
     ‘Separamos’ a casa. Aí fomos morando, moramos ali... onde é?! Deixa eu ver onde que foi... ali, onde é a “Casa de Calçados”, ali, do “JF”, em frente, ali no “JF”. Casamos, moramos ali. Eu não tinha nada e ele também não tinha nada. Casamos, sem ambos ter nada, nem um nem outro. Meu marido ‘mascateava’ na roça. Aí meu primo falou:
     “_ Se você quiser, eu vou te mandar uns fardos de tecido e você vai vender, você me paga...”
      Naquele tempo, vendiam fiado pra gente, não faziam tanta questão como hoje; aí, depois, ele falou:
     “_ Ô, é bom o senhor abrir uma loja, então abre...”
     Ele ia mascatear e eu ficava na loja. Meu marido carregou baú nas costas muito tempo, coitado! Depois comprou um burrinho, depois foi indo e comprou uma charretinha. Aí que ele parou de mascatear, ficava na loja, na loja. Abriu a loja ali, onde é a “Relojoaria do Borges”, na rua Visconde do Rio Branco, perto da Maçonaria, encostada à Maçonaria, ali: Visconde do Rio Branco, Visconde do Rio Branco... Na época, era “Loja Paulista”, depois, quando tinha outra “Loja Paulista”, lá do Salim, do pai dele, saindo da “Loja São Jorge”...
     Aí mudamos de lá, mudamos pra diversas casas, é! Moramos ali, na casa de um tio... depois compramos aquela casa onde eu tô morando. Agora compramos e mudamos pra lá, e ficamos...
     A loja foi progredindo, foi aumentando, aumentando... Era uma loja grande, tinha de tudo! A loja era grande; tinha calçado, tinha chapéu, tinha roupa feita, tinha roupas de cama, tinha de tudo: linhos, linhas... tinha, de tudo! Eu tinha uma freguesia que era uma beleza! Eu e meu marido; aí ele me ajudava também, mas o povo me conheceu mais, porque era eu que ficava na loja. Enquanto ele ‘mascateava’, eu estava na “Loja da Borbora”. Logo que chegava, ia na loja da Borbora, Borbora... Ninguém me conhece aqui em Mococa se você fala Bárbara, aí ninguém me conhece, ninguém sabe quem é, não! Tem que falar Borbora. Aí foi indo a vida, lutando com a vida. Depois, houve um transtorno na gente... na vida da gente. Ah! Antes de mudar pra lá, pra aquela casa, nos mudamos pra cidade de Tapiratiba. Eu estava com quatro filhos, dois filhos homens e duas mulheres. Porque não estava bom o negócio aqui pro meu marido, e ele mudou para Tapiratiba, porque disseram que lá estava bom. Mudamos pra lá. Chegamos lá... Um dia, eu estava com uma filha de 9 anos, outra com 7 anos, outro com 5 anos e outro com 3. Quatro filhos! E chegando lá, no outro dia, minha filha mais velha ficou doente, ficou com febre, febre! Naquela época, estava dando epidemia de tifo, aqui na cidade, em todo lugar. Foi mil novecentos...?! E agora? Agora que ‘é o negócio’! Eu não me lembro bem da data, eu sei que faz... quantos anos a Nila têm? 55 anos! Faz, faz 56 anos!! Aí, nesse meio tempo, a minha outra menina ficou doente, a outra, com 7 anos, a Odete. E tinha a Mirna Juvelina, com 9 anos. E a Odete com 7 anos, o João com 5 e o Anízio com 2. Então, ela, a mais nova, a Odete, ficou doente lá, e me morre lá! Perdi a menina! Em doze dias me morre a outra com 9 anos!
     Eu trouxe a outra pra Mococa, mas não teve jeito. O médico ‘pelejou’... mas não teve jeito, morreu. Eu fiquei com os dois meninos, as duas meninas morreram. Naquele ano, que morreu a menina, nasceu a Nila, e eu coloquei o mesmo nome: Nila, mas como eu não tive coragem de chamá-la de Nila, então eu a chamo de Nenê.
     Depois eu tive a Odete, depois eu tive a Neja, eu tive o Nejo. Depois eu tive o Anízio, depois eu tive o Fuéde, depois a Odetinha ... eu tive nove filhos! Nove filhos... trabalhando no balcão. Lutei no balcão, fazendo escrita, fazendo de tudo, era eu que fazia tudo! Meu marido não sabia ler e escrever no idioma português. Ele não escrevia, era eu que ‘tomava conta da loja’.
       
      Eu fiz segundo ano de Grupo. Estive aqui no “Grupo Escolar Barão de Monte Santo”, quando pequena... depois fui pra Conquista [MG],  porque, nesse tempo, o meu pai não deixava ir à escola. Ele dizia que mulher não precisava aprender a ler e a escrever, não! Só o homem é que precisa aprender, é! Uai! Não deixava. Eu ia ‘escondido’ pra escola. Fiz segundo ano de Grupo... acho que até o primeiro ano. Só depois nós mudamos, fiz um pouco lá, e não fui mais.
      Nossa, mas olha! Acho que tinha... acho que toda a Mococa, se não me engano, dos ‘antigos’, que não comprava um pedacinho de pano lá em casa. E depois, naquela época, que a gente tinha loja, os fregueses da gente não era freguês, era amigo da gente. A gente tem amizade até hoje com os ‘antigos’. Aí, quando foi em 1960, perdi um filho, com 30 anos, o João Jorge; o Cupim, que jogava futebol, com 30 anos, teve um derrame cerebral. Aí foi tocando a vida, foi indo...
     Ah! meus filhos jogavam bola! O João jogava futebol, o Anízio jogava; o Anízio jogava aqui, no “Cruzeiro” de Mococa; o Nejo jogava no “Brás” e o João na “Vila Mariana”; na “Vila Mariana”... jogou também... no fim. Então eu ia no jogo, ia assistir jogos, todo domingo eu ia assistir os jogos deles! Desde quando o meu irmão jogava, eu já ia lá. Meu irmão, Jamir, foi jogador do “Radium”! O Jamir... desde essa época eu já ia lá assistir jogo. Eu gostava muito de jogo. Naquele tempo, disputavam! Os bairros tinham... cada um tinha um time; dava aquela ‘brigaiada’, cada um torcia por uma coisa.

     Aí fui indo... Depois, depois que o João morreu, o Cupim, que jogava futebol, eu já fui desanimando, não fui mais no campo, não. Depois, passados uns anos, perdi outro filho, com 50 anos, o Nejo! O Nejo era jogador do “Brás”, o goleiro do “Brás”! Depois eu te mostro a fotografia que eu tenho dele. Aí... o que eu estava falando?! Esqueci! Ah! Aí eu tive um outro filho, lá em São Paulo, que fez operação do coração, foi tudo bem a operação, depois complicou. Ele era diabético, morreu. Nejo Jorge era o goleiro do “Brás”; ele até ganhou, tinha uma estátua que ele ganhou, eu até mandei isso pra São Paulo, pros filhos dele, agora. Goleiro menos vazado, é! Ele era muito querido aqui. Aí, passado um ano e pouco, aí morreu o sobrinho, o filho do Nejo, num desastre; depois de 9 meses, depois que morreu o Nejo. Daí, um ano e sete meses, perdi o outro, Anízio. Era jogador, jogador do “Cruzeiro” de Mococa. Anízio Jorge, ele trabalhou na loja comigo. Depois que o Jorge morreu... Ele trabalhou na loja comigo. E foi essa vida, aquela luta...
     Depois fechamos a loja. Ele se casou, quis ir pra São Paulo, aí fechamos a loja... faz, não me lembro muito bem?! Faz uns 20 anos, mais ou menos.
     Temos 50 anos de balcão! Naquele endereço ali, a loja ficou muitos anos ali, trabalhava na loja o Jorge... Nós estivemos lá desde 1925?! 1926! Desde 26 que trabalhamos lá. É mais ou menos isso aí, é! porque o Jorge morreu em 1969. Durou mais 10 anos a loja, é isso mesmo!

     A moda! Eu era uma balconista que se uma pessoa fosse lá e queria um pano xadrez, e eu não tinha xadrez, ela levava o listrado. ‘Convencia’, era... ‘convencia’! E eu trabalhei no balcão, mas era muito honesta, graças a Deus! Nunca aumentei um tostão na conta de ninguém. Medida certa, tudo certo, nunca logrei ninguém.
     E foi melhorando a loja, foi aumentando a loja, foi tendo mais, mais, mais, mais coisas pra vender, diferentes, foi aumentando a loja... Ah! Usava muito linho, muito! mas o que vendia mais era algodão, mais era algodão. Depois, começou a aparecer esses tecidos, seda natural, tinha seda. Na época, tinha seda natural e algodão. Depois, foi em 1960 que começou a vir a moda do nylon, do... eu esqueci até os nomes da fazendas!  tudo esses tecidos. Então, eu vendia muitas colchas piquê, do Tonhato; comprava deles, muito! Eu vendia muitas colchas deles, lá..

     Isso foi, foi, foi vindo aos poucos; foi vindo... Depois do nylon, veio também aquela seda natural, o linho, a seda, mas o que mais usavam, o povo, era tricoline, era o pano que usava primeiro, o pano que usava primeiro, tricoline, é! tricoline. Usava, também, muito brim. Ah! No começo usava muito aquele colonial, que eu vendia muito pra colônia, pra fazer terno, pra bater arroz, aquele colonial, tecido, é! Eles compravam pra forrar o chão, pra bater os tecidos, porque usava muito “arranca-toco” pra vestir, pra homem, a calça era “arranca-toco”, aqueles brins, grossos... “arranca-toco”, o brim, o brim, é bem grosso, era bem o que agüentava pra trabalhar; que os roceiros usavam esse brim, “arranca-toco”...
     Tinha freguesia da roça também, tinha muita gente da roça que pagava no fim do mês. E na cidade mesmo, a gente vendia pros fregueses. Naquela época, a gente vendia, por exemplo, a prazo; trinta dias. Não tinha, não era como hoje, marcado os dias, não! Eles compravam: “_ Olha, no fim do mês eu venho pagar”. Por exemplo, comprava 20 mil réis. Chegava no fim do mês: “ _ Olha, esse mês não deu pra pagar.”  “_ Dez, fica dez pro outro mês! Que é que você vai comprar? Comprar mais do que você precisa? Pode levar tudo, o que quiser”. É, tudo marcado ali, na notinha, no livro... eu vendia pra costureira, meia, linha, retrós... As costureiras! nossa! tinha costureiras em Mococa! Tinha a Djanira, a Adelinha Scardazi, a Nilza Güerele, a Iolanda Puciarelli, a Liza Guebori, essa morreu, coitada! Como é que chamava? A Nida Pelegrini! Todas compravam ali, levava a caderneta, marcava. Tudo costureira... marcava, elas marcavam em... Julieta Comparato! Antonieta Bresiguelo também era costureira. Eu sei que essas costureiras... tudo compravam de mim. Tinha aquela na Mocoquinha, como ela se chamava? Esqueci até o nome dela!
     Alfaiates também compravam, a gente vendia aviamentos de alfaiates, todos aviamentos para alfaiates tinha! Vinham até de Arceburgo [MG] e compravam. Tinha intertela de lã, retrós, linha... como é que chama aquele tecido pra forro?! Alpaca! Era o que mais vendia. Intertela de lã, tudo isso, era, sabe? Intertela de colarinho, pra camisa. Também vendia botões, tudo, essas coisas, tinha, filho de Deus.
     Os nomes dos alfaiates?! Tinha um que era meu irmão. Tinha o Chafi, meu irmão, era alfaiate. O Chafi teve casa de alfaiataria. Era lá em frente d’A Fidalga, não lá, não! O posto de gasolina fica lá embaixo, na esquina. A “Fidalga” fica aqui, o posto aqui, a alfaiataria..., é desse lado aqui, do lado da calçada; desse lado de cá, era a alfaiataria. Tinha uma alfaiataria grande, “Brasília”... chamava a alfaiataria dele. Ah! tinha... mas não me lembro agora... Tinha o Safir, também meu irmão, que era alfaiate, mas ele trabalhava particular. O Nicola Paioni! Nossa Senhora, o Perroni! Uma alfaiataria grande a dele, uma alfaiataria grande. Então, ele comprava tudo de São Paulo; comprava tudo de São Paulo. Lucio Marquesini, tem Zé Vascaíni. Todos alfaiates, todos! Eles compravam na loja. Lucio Marquesini também! Isso mesmo! A gente esquece de todo o passado... Em Arceburgo [MG] tinha, também, um senhor lá, em Arceburgo. Tinha dois ou três alfaiates de Arceburgo que compravam aqui também.
     Ah, eu recebia! Vinham até aqui pela Mogiana, os tecidos de São Paulo, que eu comprava, isso, vinha pela Mogiana! Eu pedia ao viajante, eu pedia, e o viajante vinha, eu fazia o pedido. Eles, lá em São Paulo, encaixotavam e ‘punham’ na Mogiana. Tinha muitas lojas, “Barros e Companhia”. Ah! vinham os tecidos, vinham em fardos! Tinha, nossa, tanta loja, meu Deus, é! “José Silva”, eu também comprava dele, quando eu vendia, é! Ah, nossa! “Michel Salim”, em São Paulo também. Domingo José... “Primo José”! Tinha, ah, meu Deus! Ah, eu sei que nós compramos de uma porção, não estou lembrada agora. Vinha tudo pela Mogiana. Ah! Compramos também de Santos, também vinha, “Hadad Companhia”, roupa de calças feitas, eu comprava muito de lá, calças de brim, tinha fábrica lá, e nós comprávamos. Vinha, vinha tudo encaixotado; em caixotes, vinha de tudo, em fardo, tudo em fardo. Vinha até a “Estação da Mogiana”. Nós já tínhamos o carroceiro, que já vinha, vinha da Estação. Então vinha... “_ Avisa que tal encomenda tá assim!” Vinha o papel, da Estação, avisando que tinha chegado mercadoria pra gente, pra loja. Então a gente mandava retirar; é, às vezes eu ia buscar também, é mesmo! Nossa, meu Deus! Compramos em tantas lojas de São Paulo, e eu não me lembro de nenhuma. Esqueci uma porção de nomes das lojas, meu Deus!

     Conheci, conheci! fotógrafo! Era um bom fotógrafo, um bom fotógrafo, Nossa Senhora! Ele era... ele sabia mesmo, fotografava mesmo! Bonora! Acho que ele mudou daqui pra cima. Eu me lembro dele aqui, porque nós tiramos fotografia... aqui, na esquina da rua Visconde do Rio Branco. Ele tinha um estúdio fotográfico ao lado, onde hoje é uma drogaria. Ali perto do Mercado, era ali. Que eu me lembro ficava aqui. Acho que foi de 1912 a 1913. Ele deve ter mudado, sim, deve ter mudado pra lá, porque eu me lembro dele aqui. Acho que depois ele mudou, eu não tomei mais conhecimento...
     E apareceu o Honório Ferreira [fotógrafo], lá perto de casa. Então, a gente não procurou mais o outro. Honório Ferreira, o pai da Rosa Maria, você entrevistou a filha dele, a Rosa Maria?!
     Naquela época, nós não tirávamos fotografia como hoje, não! A gente, hoje... qualquer coisa ‘tem essa fotografia’. É só em ocasião especial que tirava fotografia, não se tirava foto com freqüência, a toda hora, não! Agora, a minha, a minha fotografia aí [ sobre a mesa dezenas de fotografias], essa aqui tiramos no Honório. Ah, eu me lembro dessa aqui! Aqui o... eu e a minha mãe, o meu irmão... aqui o Rafi, Nila, Julieta, o Nagib, o Chafi e o Jamil. É o Nagib, eu e o Jamil; Jamil, o Chafi, Rafi, Julieta, minha mãe, e essa a minha filha, essa que morreu, que eu falei pro senhor, que morreu com 9 anos. Juvenila, chamava de Nila... então, essa aqui tirou aqui... É isso aí, meu bem.


* Trata-se da primeira parte da ENTREVISTA concedida pela sra. Bárbara Elias, na data de 25 de novembro de 1999, na residência do sr. Tuta e esposa, sra. Julieta (irmã da sra. Bárbara Elias), na cidade de Mococa/SP.


BIBLIOGRAFIA

AMARAL, Aracy. Tarsila Cronista. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
LOPES, B. Chromos. 2 ed. Rio de Janeiro: Fauchon & Editores, 1896.

 

Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Campinas, é inverno de 2007.
   
                 
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 13/08/2007
Código do texto: T605144

Creative Commons License-->
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
/Creative Commons License--> CRISTAIS DO TEMPO: história da fotografia no interior do Estado de São Paulo, da última década do século XIX à primeira metade do século XX - CAPÍTULO V2007Recanto das LetrasSÍLVIO MEDEIROSSÍLVIO MEDEIROStext/plain -->
permalink

CRISTAIS DO TEMPO - Capítulo IV (obra em andamento)  (História Social) escrito em segunda 09 abril 2007 21:30

FILARMÔNICA DE MOCOCA/SP

Foto de Lauro D'Angelo; década de 50  

  

  

  

  

CRISTAIS DO TEMPO: história da fotografia no interior do Estado de São Paulo, da última década do século XIX à primeira metade do século XX - CAPÍTULO IV

    
     Quando eu era pequeno, como tantos outros, vi tantas cidades, cidades anchietanas: São Paulo; Itu; Pirapora do Bom Jesus de Aparecida... Vi tantas cidades, cidades das bandeiras paulistas: São Carlos, Ribeirão Bonito... brinquedo andradino: “_ Livro de férias escrito no meio de mangas, abacaxis e cigarras de Araraquara.” Eia, Anhanguera! De grão em grão experimento o passado...



“Bem ora a fronte branca e veneranda
Do tremulo ancião
Pousasse, acabrunhada, sobre a mão
Trigueira e descarnada,
Assim como quem anda
A imaginar a morte muito perto,
Elle sorria sempre, — rir incerto!
Dando ao semblante uma expressão, um brilho,
Como luz de relampago em sudário,
Ao infantil espirito do filho,
Ao requebro mavioso do canário!
Tanto que, si o achava na gaiola
Mudo e arrepiado,
Quando voltava do labor diario,
Ia chorar o velho na viola
Um languido estribilho...
E o bom cantor erguia o bico aberto!
Melancholico, então era o concerto!”
(Chromos – B.Lopes)



     PRIMEIRA PARTE DA ENTREVISTA JUNTO AO SR.HERMÍNIO FARACO*

    
     Meu nome é Hermínio Faraco, com “agá”, é Hermínio com “agá”. Nasci em Três Barras, em Mococa. Três Barras era uma fazenda. Na época que eu nasci, acho que tinha mais movimento que Mococa, mais movimento do que aqui, era melhor que Mococa. Três Barras é próximo, é perto. Mas era o começo da cidade. Eu nasci em 19 de abril de 1913. O movimento deve ser por causa da colônia italiana, porque os italianos não paravam de vir pra São Paulo, é isso, não paravam de vir pro Brasil, vinham pra São Paulo, Mococa; eram os focos deles. Meu pai era tradicional, nascido na Itália. Minha mãe era filha de italianos, meus avós maternos eram italianos, Maria da Graça Garófalo Faraco e Emílio Faraco.
     Pouquinho de tempo passei na fazenda. Eu me lembro que no carrinho que a gente fazia amarrava um tijolo no barbante e puxava. Ah, minha mãe! Que atraso: pegava uma caixinha cheia de terra, fazia que nem caminhão. Brincando... o nosso brinquedo era esse. Nós fazíamos rodinhas com o chuchu, colocávamos palito de fósforo no meio... Eu me lembro só dessas coisas, não tinha desses brinquedos que tem hoje, não.

     Nós mudamos pra cidade. Lembro daquela casa, que hoje é a sorveteria, do lado do Teatro Municipal de Mococa. Tudo aquilo era do meu avô, tudo aquilo foi vendido, era um patrimônio do Miguel Garófalo, avô materno. O paterno eu não conheci, porque ele morava na Itália. A casa... Eu vou recordar... Eu recordo! Naquele casarão, aquele casarão, lá, que eu atravessei... era um casarão velho, muito grande, aquele, o velho reformou, passou por diversas reformas o casarão, com telhado jogando água pra calçada. Ali tinha água na calçada, porque não tinha cobertura. Naquele tempo era tudo telhado corrido, que nem cobertura de paiol que faziam, me lembro como se fosse hoje... No sábado, parecia festa. Pode ver que ainda hoje têm nas calçadas umas argolas de ferro que amarravam os cavalos. Por curiosidade, passe nesses lugares mais antigos e o senhor vai ver que ali têm umas argolas de ferro.
     _ “Meu filho — pergunta papai — Pra que servem essas argolas?” _ “Pra amarrar os cavalos.”
     Quem chegava primeiro ali, pegava a argola. Era um casarão comum. Ele ainda existe, mas passou por muitas reformas... ele ainda existe. Era chão de tijolo e cimento. Usavam muito cimento naquele tempo, só que o cimentado era perfeito, porque não tinha cimento nacional, o cimento vinha da Alemanha. Era cimentado, em vermelho, não trincava, ficava bonito! Era cimento especial. Da Alemanha, vinha o cimento, em barricas. Uma ocasião, a gente conheceu esse cimento, ‘só contava’ o cimento, falavam o nome do cimento, não me lembro. Aí misturava com areia e fazia aquele cimentado que as casas tinham. Tudo cimentado...
     Em frente à casa do Garófalo tinha uma casa de luxo, que era de um fazendeiro chamado Zeca Manuel. Até hoje ainda existe aquela casa, só que passou por reformas. Ali morava o seu Zeca Manuel, fazendeiro, um velho, careca. Eu me lembro como se fosse hoje... Ele usava boné. Em volta da Igreja era reduto dos ricos, como é ainda, até hoje, dos ricos. Faziam as casas perto da Igreja.
    
     Eu fiz o Grupo Escolar no Barão de Monte Santo. Eu ia descalço pra escola. Naquele tempo, não usava sapato. O moleque punha um bornal nas costas e, com os livros, ia pro Grupo. Bornal é... não tinha bolsa, só rico que tinha pasta. Um ou outro era chique, quando tinha pasta. Eu pegava o bornal, enfiava os livros lá dentro e ia pra escola. Os mestres eram bons, mas os alunos não eram bons, porque educação... era primitiva. Os alunos não tinham educação. Precisava sempre examinar as unhas, se estava com as unhas cortadas, cortar o cabelo e com roupa limpa. Poucos meninos faziam isso. De um modo geral, não tinha Ginásio, não tinha seleção, era tudo, como diz o caipira, ‘um pau só’, ‘um pau só’..., tudo misturado. Era difícil ver um aluno calçado, tudo descalço, não usava mesmo. Os pais, eu falo os pais, de um modo geral, compravam sapato, na época de festa. O menino usava duas ou três vezes e depois precisava jogar fora; o pé crescia, não servia mais. Sapato não usava naquele tempo, não usava mesmo, só quando era dia de festa. Então, quando o moleque era muito pobre, eu me lembro que eles tinham uma invenção: um usava um pé, um o outro, um punha o direito e outro o esquerdo.
     Os livros, os livros são em série, eu me lembro até hoje. Em série: primeira série, segunda, terceira e quarta série. Era “Braga”, é, tinha a primeira série, depois segundo ano, segunda série, terceiro ano, terceira série, quarto ano, quarta série, depois acabava a carreira. Depois é que veio o Ginásio. Aqui em Mococa, não tinha o Ginásio. Depois veio o Ginásio, o Ginásio... Barreto Coelho, ele foi o meu professor. O Ginásio era ali, no Largo do Mercado, um casarão. Derrubaram e fizeram um largo ali, um estacionamento.


...............................................................................................
No jornal “A MOCOCA” – edição 973, de 19 de setembro de 1915, lê-se a seguinte chamada:

“... 7 de setembro e discurso proferido pelo orador official José Barreto Coelho (Grupo Escolar de Mococa)...”

...............................................................................................
Retomada da narrativa do sr. Hermínio Faraco:

     Eu me lembro, tinha muitos bons professores, todos bons professores: João Guimarães, professor Barreto, Barreto Coelho, professor Godoy, que é o pai do João Godoy, você não conhece? O professor Godoy é pai desse atual diretor do Ginásio de Mococa. O pai dele era diretor lá. Seu Godoy..., eles eram bons, sabe. Você precisava ver que esforçados pela educação, pra poder estudar. Hoje mesmo, eles [os alunos] vão limpinhos. Naquele tempo, ‘faziam revista’ pra cortar unha, cabelo..., era muita pobreza. Os mestres cuidavam mesmo, com afinco, com amor, eles eram muito bons mestres, tinham paciência. Era um verdadeiro pai adotivo.
    
     Meu pai era funileiro. Emílio Faraco, funileiro. Tinha funilaria em frente ao Pedro Borges, relojoeiro, na Visconde do Rio Branco. Ali era uma selaria, chamava “Selaria Soares”, uma selaria chique, fazia arreio. O Pedro Soares era um mulatão, casado com uma filha de italiano, uma mulher bonita. Só que ela era muito pobre e ele era um homem abastado. Ela casou, mas isso não vem ao caso. Ele tinha uma selaria, muito ‘bem montada’. Meu pai era funileiro. Funileiro era aquele que todo mundo chamava de folheiro. Meu pai tinha uma oficina, separada, em frente ao Soares. Meu pai fazia canequinha, bule, panela... Naquele tempo, não tinha alumínio, foi antes do alumínio. Depois que veio o alumínio. Todos os filhos ajudavam o meu pai, todos, seis. Três homens e três mulheres.
     Eu me recordo de tudo... lamparina, caneca, bule. Quando punha um empregado, um aprendiz, vinha sempre do interior. Só o filho dos donos da oficina tinham liberdade de estragar material. Tinham medo, então a gente aparecia mais, se engrandecia, mas não era isso, não... Eu me recordo da injustiça. Funileiro, antigamente, era folheiro, hoje funileiro chama quem trabalha com carro. Naquele tempo não tinha isso; folheiro... canequinha, bule, lamparina, faziam muita lamparina, porque no trabalho não tinha luz elétrica, era tudo iluminado com querosene. Nossa Senhora, eu me lembro! Começava a escurecer. Tinha um português que se chamava... ?! A iluminação da rua era acesa com um bambu, um fogo, punha fogo lá e acendia, com gás. César! César Português, nós chamávamos. Ele se chamava César Português, ele era o candeeiro.
    
     Fiz o Grupo Escolar, aí meu pai me levou pra Santos. Tinha um tio lá, em Santos, que era ourives. Fui aprender o ofício com ele. Uns dois anos, mais ou menos, eu ‘tava lá, em Santos, quando caiu o Monte Serrat, em mil novecentos e... Não me recordo. É, aqueles bondinhos. Mas não foi bonde, caiu um pedaço do morro, despencou, matou gente soterrada. Eu ‘tava lá, na Rua Dom Pedro II, que faz divisa com a Praça Mauá, até hoje. Eu trabalhava ali, com o meu tio. Eu era moleque, vi aquilo desmoronando..., chovia, enchia a rua de terra, matou gente, foi um desastre. Fiquei dois anos em Santos. Eu era moleque. Eu trabalhava de ourives, com meu tio que nunca tinha vindo pra Mococa, eu é que tinha ido pra lá. Nunca vim visitar meus pais, meus pais é que iam pra lá. Um dia, ‘deu na cabeça’ de meu pai, de me chamar. Chegou, veio junto com um cachorro policial, muito bonito. Meu pai de chapéu novinho; o cachorro brincava com o chapéu dele, o sapato jogava pra cá...  Então falei:
     _ “Não volto mais pra casa, não! Aqui é que eu vou ficar, aqui tá bom.”  
     Aquilo estragou a minha carreira de ourives, porque eu não queria voltar mais. Aí fiquei com meus outros irmãos. Eu ia ser ourives, uma profissão melhor do que funileiro. Então, ficaram três funileiros, eu e mais esses dois irmãos, ficamos os três, até morrer meu pai, no mesmo endereço, Caetano e Mário.
     Quando caiu o Monte Serrat? Deixa ver se eu lembro...  1931... 29! Em 1929, eu ‘tava em Santos, na derrocada do café. Queimava café em Santos, queimava carneiro na Argentina, porque tinha produção e não tinha consumo. Foi a derrocada, foi uma crise medonha, ‘quebrou’ todos os fazendeiros. Foi por isso, ‘tava em crise, coisa igual eu nunca vi. A crise de 29 foi uma coisa triste de recordar; fazendeiros sem cigarro, uma coisa medonha, miséria...

     A viagem... Um dia inteiro, o dia inteirinho, o dia inteirinho, o dia inteirinho... Vinha de trem, fazia baldeação: Santos, São Paulo, depois parava em Campinas, fazia baldeação, ficava umas quatro, cinco horas sentado lá no banco da Estação da Mogiana.
     Eu morei em Gália, na Alta Paulista, Bauru. Tinha quatro estradas de ferro: Paulista, Sorocabana, Mogiana e Noroeste. Bauru, foi...
     De Santos pra Mococa, de trem, a gente subia a serra. Em Campinas era a Mogiana, tinha a Mogiana também muito ruim, péssimo. Nossa Senhora! quase o dia inteiro pra vir de São Paulo até aqui, era o dia inteiro, um dia inteirinho. Saía cedo, chegava de noite.
     Tinha quatro automóveis aqui em Mococa, naquela época. Eu me lembro, que era terra, tudo terra. Estrada quando era asfaltada, eles falavam: estrada do governo. Não falava estrada asfaltada. Tudo, como daqui a Campinas era estrada do governo. É, pode falar sem medo, que era isso aí. Teve uma estrada do governo que era boa...

     Aí fiquei em Mococa. A Carmem Lúcia nasceu em Gália. Porque deu aquela crise aqui, que então ‘pegamo o rumo’. Em 29, a crise do café, ainda. Porque eu não tinha dinheiro, o café não tinha valor, café jogava tudo. Isso porque tinha campo pra mais gente. Agora, se todo mundo viesse pra Mococa, fazer o quê? São Paulo, bem ou mal, se acomodava. Quem ‘tava lá na fábrica... O jornal noticiava... não é que facilitavam, tinha mão de obra. Tinha serviço, e aqui não tinha. Gália, em mil novecentos e vinte e nove, em vinte e nove... Eu fiquei menos [em Mococa], porque eu fui pra Santos. Minha família ficou mais tempo. Em Gália, eu fiquei de 29 até 1940... Pouco me lembro. Tinha oficina de radiador [oleiro], fazia lamparina, bule... Fiquei, fiquei muito tempo em Gália. A Carmem Lúcia nasceu lá, o Casemiro, meu filho, também. De Gália eu fui, eu vim pra cá, pra Mococa, voltei pra cá. Voltei porque tinha meu irmão que morava aqui.

...desmanchou a casa. Meu irmão mais velho, Caetano, em frente ao Pedro Borges, no mesmo lugar, meu pai ‘tava vivo. Ih! Mas foi feio, viu, a crise de 29. Nossa Senhora, só dava notícia ruim! Queimava carneiro, já pensou!  Colocava fogo nos pastos, queimava tudo na Argentina.

     A Borbora foi vizinha nossa, em frente à nossa oficina. Ela morava em frente, morava em frente à oficina.

     Meu pai era um homem que ‘teve pouca escola’, mas que, modéstia à parte, ele era inteligente, ele lia muito, ele assinava “O Pícoli”, “O Fanfulha”, jornais italianos, dois jornais!por dia; não era qualquer um que assinava...
     Meu pai, quando foi operário, ele assinava e lia. Então, ele trabalhava à noite, também. Juntava aquela italianada na oficina, e eu lia, eu lia pra eles, mas eu não entendia ‘patavina’. Ai, quanta besteira eu falava! Hoje eu leio correntemente o italiano. Me dá qualquer jornal aí que eu leio, porque entendo também a língua italiana. É, de moleque, eu ficava lendo. A italianada... tudo em volta. Coitados; tristeza, saudade da terra. Aí, o meu pai ‘fazia a escrita’ da Borbora*, fazia pra padaria, que tinha lá na esquina da Borbora. Tomás Fusquilo. Fusquilo, Fusquilo é italiano. Meu pai ‘fazia escrita’; não sei como é que ele aprendeu, ele ‘fazia escrita’ pra eles, pro Tomás, e fazia pra outros que eu não me lembro mais. Com aquelas mãos, tudo calejadas de trabalhar. Mesmo assim, ele ‘fazia escrita’, porque tinha fiscais, mais de rua, não é? Então, às vezes, eu não podia sair do estabelecimento, de jeito nenhum. E meu pai fazia... foi um herói. Ficou viúvo em 1918, com a gripe espanhola. Minha mãe morreu. Ele criou seis filhos. Foi em 1918, em Mococa mesmo. Foi uma epidemia que arrasou com o país. Aí, ele não casou outra vez, não. Criou os filhos todos aqui. Madrasta judiava dos filhos... Foi um herói, trabalhava ‘que nem um louco’...
     Eu não sei como é que ele aprendeu. Acho que é porque ele teve casa de comércio. É que os primeiros fundadores de Mococa foram Faraco e Garófalo. Garófalo era o sogro dele e Faraco era ele. Foi um dos primeiros de Mococa, aqui é terra de capitalista; porque têm esses ‘fazendeiros grandes’. Eles não gostam que a gente fale isso, querem ser ‘o dono da bola’. Mas pra mim, eu pouco incomodo. Quem descobriu, quem desenterrou, não refresca nada, não? Não vê que eles não comentam? Mas os primeiros fundadores daqui foram Faraco e Garófalo.

     Eu nasci em Três Barras. Eu nasci lá. Lá tinha fazenda, movimento. Não sei porque, mas quem era o ‘chefão’, na época, lá, era o Ítalo Mazieiro. Tinha café, o café sempre foi o forte... Não lembro, não. Há pouco tempo, ainda, eu contava a história das Três Barras, mas agora ‘tá começando a apagar.

     Nossa Senhora, aqui nesta esquina! Ele era fotógrafo, parece que ele tinha só uma vista, era cego, de um olho. Eu sei que ele tinha um problema na vista. Ele morou nesta esquina, aqui. Nossa Senhora, eu era moleque! Olha, ele veio da Itália, o velho. Não me lembro, eu sei que nós chamava de Bonora, os filhos dele. Ele era fotógrafo. Aí na esquina, essa casa foi dele ... Aí, na Visconde do Rio Branco. Desce da minha calçada, a primeira casa da esquina era a dele. De lado, porque a minha casa faz frente com a rua Visconde do Rio Branco. Aí em frente, de lado, é do lado... Nossa Senhora! Mococa era uma família só.
...............................................................................................
1) No jornal “A MOCOCA” – edição 700, de 05 de dezembro de 1909, lê-se o seguinte editorial:

“CINEMA BIJOU – Com duas excellentes casas...
Srs. Maglioca, Bonora e Magalhães...
... exibido o film d’arte...”

2) No jornal “A MOCOCA” – edição 849, de 24 de novembro de 1912, lê-se a seguinte propaganda:

“Irmãos Bonora (photógraphos)” – página 4
      
...............................................................................................
Retomada da narrativa do sr. Hermínio Faraco:
    
     Não, o Bonora não era o dono do “Hotel dos Viajantes”, era Lucindo Gozo. Lucindo Gozo... portão... eu não me lembro, não. Não! Eu lembro dele..., do Bonora, era fotógrafo, tirava fotografia..., falava ‘tirar retrato’. Eles punham aquela máquina, aquele pano preto, ficava quase uma hora pra acertar. O moleque ali... ‘olha o passarinho’. Mas levava um tempão, Nossa Senhora! Era o velho [Bonora], o pai. O filho era um colega da gente. Era um ‘molequote’; o velho é que era o ‘fotógrafo bonzão’.
     Lembro da banda de música, tinha duas bandas: uma do Pascoal Galhardi, que o fundador do [Teatro de] Variedades, e outra... a outra eu não me lembro mais. Esse que tinha duas bandas, ele era alfaiate, dedicado. Eu vou lembrar o nome dele... Franscisco Fortunato! Tinha uma banda e tinha a do Pascoal Gagliardi. A Filarmônica Mocoquense era outra.

     Jamil Mateus era mais pra cá. O Jamil é meu colega. Honório Ferreira... Bonora, com ele, eram da mesma época, pouquinho mais novo...

     Tirava com qualquer um. Naquele tempo não usava quase fotografia. Tenho a caixa, ‘tá lá, na [casa da] Carmem, no corredor, mostra as fotografias. Na casa da Carmem têm muitas fotografias na parede. O filho do Bonora também tirava fotografia. Ele era músico, músico, boêmio, lembro o apelido: Tim, Tim Bonora. O Tim casou... Ah! agora eu não lembro mais. Sabe, porque eu passei uma fase fora de Mococa, então tudo ficou misturado. 1929, 28?! Eu ajudava... eu não posso falar, porque depois eu mudei pra Gália, e desmantelou aquelas famílias antigas, desmantelaram, desmantelou a família, separou. E o mocoquense separou, cada um foi pra um lado, não tinha serviço, passava miséria. Foi uma derrocada feia.

     Conheci o Lauro D’Angelo. Quando ele veio pra cá, eu não estava aqui. Depois eu voltei, peguei um período dele, ele era muito atuante. Ele era repórter, fotógrafo, na rua Barão de Monte Santo. Foi, é ali, mas antes era na rua de cá, depois do muro... Barão de Monte Santo, Ateliê Fotográfico... Eu não lembro, porque eu não morava aqui. Eu vim aqui, eu passei muito tempo fora, muitos anos. Quando eu vim pra cá, ele já estava lá, ele gostava muito de esporte. Nossa Senhora, futebol era com ele! Agora, quando o “Radium” foi pra Primeira Divisão, eu não ‘tava em Mococa, eu morava em Garça, perdi a festa.

     Todo dia ele vinha pedir dinheiro pra uma coisa, pra outra. Conheci o Lauro. Ele era muito inteligente, ativo, aquele tipo de paulistano, sabe, afobado... lembro perfeitamente dele. Ele usava gravata borboleta, preta. Só que ele usava gravata borboleta, aqui, em Mococa, sempre bem vestido. Eu achava engraçado aquilo, parecia uniforme, tô vendo ele na minha frente, agora, Lauro D´Angelo, afobado, sempre, em esporte, é, atuante. Parecia, sempre, que estava com pressa.
     Eu não lembro, não, a família do Lauro, não é? Essas duas fases que eu não tive em Mococa atrapalhou tudo, tudo, no meu calendário. Morei em Gália, morei em Garça, morei em Santos; pra Santos, eu fui na adolescência. Gália, eu casei lá. Depois, eu mudei pra Garça, fiquei cinco anos em Garça. Depois de Garça, eu vim pra cá. Garça é o lugar que eu fiquei menos tempo. A minha filha caçula nasceu lá, Arlete, você não conhece ela? Ela é dentista, mora em São José do Campos.


*Parte I da entrevista concedida pelo sr. Hermínio Faraco na data de 10 de fevereiro de 2000, em Mococa/SP.

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2007. 
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 09/04/2007
Código do texto: T443223

Creative Commons License-->
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
/Creative Commons License--> CRISTAIS DO TEMPO: história da fotografia no interior do Estado de São Paulo, da última década do século XIX à primeira metade do século XX - CAPÍTULO IV2007Recanto das LetrasSÍLVIO MEDEIROSSÍLVIO MEDEIROStext/plain -->
permalink

CRISTAIS DO TEMPO - Capítulo III (obra em andamento)  (História Social) escrito em segunda 09 abril 2007 01:22

Igreja Matriz de Mococa/SP  

Foto de Lauro D'Angelo, na década de 50  

  

  

  

CRISTAIS DO TEMPO: história da fotografia no interior do Estado de São paulo, da última década do século XIX à primeira metade do século XX - CAPÍTULO III


 
“É uma branca saleta
De tinhorões nas janellas;
Com o luar entram por ellas
Auras de sonho e violeta;

Alta e pequena; repleta,
De riso e sol, bagatellas!
Uma porção de aquarellas
Esse El-Dorado completa.

Em meio da cantarola
Dos canarios na gaiola,
Poeta sem saber como,

Mettido em ‘chambre’ de chita
Um moço á mesa da escripta
Rabisca, a lápis, um ‘chromo’.”
("Chromos" - B.Lopes)




D. Ophelia Bonora (1) (2) (3) (4):

      Eu sou daqui, Palmeiras. Santa Cruz das Palmeiras. Meu nome é Ophelia Baston Bonora. Nasci em 30 de março de 1908. Meu marido, o Virgínio Bonora, nasceu em Palmeiras também. Virgínio era de 16 de maio, ele era nove anos mais velho que eu, de 1901. Faleceu em junho, 17 de junho de 1960. Faz 39 anos que ele morreu.
     Ele começou por aí... Conheci ele num casamento, ele estava tirando retrato do casamento, aqui em Palmeiras mesmo. Ah, a festa! Era uma parente minha, mas eu não me lembro quanto, quanto tempo ainda, eu não me lembro quanto,
e ele começou a olhar pra mim, olhava... No dia seguinte, ele estava na casa de uns primos, por aí. E o primo dele falou: “ _ Meu primo tá olhando pra você!” E eu também olhei pra ele; aí, ele foi embora.
     Ele tinha uma irmã que foi morar - que uns amigos nossos criaram - ... ele foi morar em Mococa, tinha um hotel em Mococa, “Hotel dos Viajantes”, em Mococa. E eu fui... Era ver a minha mãe brava comigo, sabe. Vamos deixar ela ir pra Mococa... fui uma vez. Cheguei lá e eles tomavam conta do cinema, os Bonora, os irmãos Bonora. Delfino Primo e os filhos: Íride, Virgínio, Ernesta, Alzira . Eles tomavam conta do cinema. Então, eu... quando fui no cinema, tinha intervalo antigamente no cinema, tinha música. Assim fui passear em Mococa, antes do casamento; e aí ele veio aqui, eu não o conhecia antes do casamento, não. Aí ele chegou e falou assim:
     “_ Hoje à tarde, pode falar com o seu pai?”.
     Eu falei:
     “_ Pode.”
     E na semana seguinte, ele veio... o pai dele falou com o meu pai. Meu pai deu um ano de prazo. Ele foi embora pra Presidente Prudente. Ele escrevia as cartas... ficou um ano. Eu fiquei sem ver o noivo durante um ano. Nós escrevíamos. Quando fez um ano; meu pai é daqueles italianos, daqueles italianos... Então, ele falou assim, pra mim: “_ ‘Fé’, (aqui eles tudo me tratavam de ‘Fé’) aquele rapaz não arranjou 36 mil réis pra casar? então larga dele”. Então, na última carta, eu escrevi: meu pai falou assim, se de tudo você não puder dar uma satisfação, fica o dito por não dito.
     Então, ele veio, era dezembro. Eu falei:
     “_ O que você veio fazer aqui?”
     “_ Eu vim casar, mas eu não tenho nada pronto. Como é que seu pai falou assim? Como falou assim? Então, bom, fica marcado pra fevereiro. Eu venho.”
E ele tem um tio aqui... eles falaram com o padre e tudo, sabe.
     “_ Tá marcado pra fevereiro. Em fevereiro eu venho.”
     Quando foi em fevereiro, na semana de fevereiro, o pessoal perguntava pra mim:
     “_  Senhora Ophélia, a senhora vai casar?”
     “_  Não sei, acho que vou... não sei.”
     Quando faltavam dois dias pro casamento, ele apareceu. E nós nos casamos, e fomos pra Presidente Prudente. Eu sem conhecer ele! 1929... 11 de fevereiro de 1929. Fomos lá, fomos lá, mas eu pensei que ele fosse morar numa casa e tudo. Não! Fui morar na casa de uma irmã dele, da Maria Zanchi. Ele tinha um bazar; ele vendeu pra casar. Ele não tinha esse trabalho [profissão de fotógrafo]. Aí, eu descobri só depois, que eu ‘tava lá... Aí, depois, ele arranjou emprego; ele fazia demonstrações com caminhões Naufaul.
     Depois, fomos pra São Paulo. Aí, em São Paulo, ele trabalhou no... será que ainda existe a “Foto Santiago?!”, na Avenida São João. Será?! Avenida São João... Mas era de um outro fotógrafo, que se chamava Francisco Nudi. Esse Francisco Nudi vendeu para o Santiago, porque era um “lambe-lambe”, no Jardim da Luz... fotógrafo do Jardim da Luz, e ele vendeu pro Santiago. O Santiago comprou o Ateliê do Francisco Nudi; e o Virgínio continuou trabalhando com o Santiago, no Jardim da Luz. O pai dele [do Virgínio] era fotógrafo na Itália, ele já era fotógrafo, eu o conheci... nós tiramos um retrato de casamento; o pai dele se chamava Delfino Bonora... era italiano.
     Nos 30 anos que nós ficamos em São Paulo, nós ficamos no Ateliê, na Rangel Pestana. Tivemos um Ateliê durante 2 anos, na Rangel Pestana. Era a “Foto Launor”, Laura e Norma; “Launor” era o nome das duas filhas, Laura e Norma. Então, o pessoal chegava e chamava:
     “_ Seu Launor! Seu Launor!”
     Não era Launor, ele se chamava Virgínio. Nós tratávamos ele de seu Launor.    
     Ah! Em 39, 39... passamos, mudamos, acho que pra Santana. Em 40, saímos de lá. Em 60, ele teve enfarte.
     Nós tínhamos Ateliê, trabalhando como fotógrafo. Nós tínhamos um, porque nosso Ateliê era perto da Igreja Santana. O Bonora tinha muitos casamentos lá, em Santana, sabe? E tudo vinha pra tirar retrato lá, em São Paulo... costumavam sair da Igreja e ir ao fotógrafo.
     Naquele tempo, retocava negativo... eu retocava negativo, eu ficava até zonza, você não vê? As pessoas [nas antigas fotografias] sem rugas?! eu dava acabamento nas fotografias, eu coloria, uma a uma. Ah, isso exigia! O Bonora retocava, naquele tempo, agora eles não retocam. Naquele tempo, ele retocava negativo, ficava sem rugas. O senhor não vê? O senhor não vê? Retoque dele, fica sem rugas, o retoque é dele, tá aqui! Essa fotografia aqui, essa é... era do ... que se matou, e o irmão dele mandou ela pra mim. Estava com ele, lá em Catanduva.
     Aí está, o Alonso e a Clélia, pai e mãe da Marília Gabriela (5).
     Eu ajudava a tirar as fotografias, arranjava as noivas. Tínhamos um Ateliê muito bonitinho. Tinha as colunas e as cortinas. As noivas chegavam, subiam, porque era um sobrado; ficavam duas ou três noivas na escada, quando era sábado. Daí eu saía, porque nós tínhamos outra sala. Um noivo saía por outra porta, já entrava outro casal! Eu e o Virgínio íamos carregar chapas... carregar chapas, carregava as chapas e eu ficava arrumando... arrumava as noivas. Eu retocava positivo; positivo, porque depois sempre aparecia uma ‘coisinha’ branca, uma ‘coisinha’... Eu aprendi a retocar junto ao Virgínio. Então eu retocava e coloria uma a uma; eu, junto com ele, eu retocava positivo. Retocar positivo é quando a fotografia está pronta; ficam umas manchinhas, alguma coisa que você precisa raspar, qualquer coisa... retoque de positivo. O negativo é a chapa, o retoque do negativo é na chapa. E o positivo retocava assim, como aqui. Aqui, nesse não, nesse já não tem nada pra retocar. Na chapa você retoca quando fica branquinho, um lugar branco, manchinha preta, aí com o retoque da chapa, tira no negativo, no retoque da chapa.
     Lápis, lápis, lápis, não; tinha... eram uns lápis próprios pra fotografia. Eram uns lápis amarelos, eram próprios pra fotografias. Tinha a máquina, tinha ampliador, revelador... eram bacias, bacias assim, do tamanho dessas, assim. Põe as chapas lá dentro, assim, até aparecer a fotografia. É difícil, porque se entrasse a luz estragava a chapa. Tinha que ser no escuro. Num quartinho, uma câmera escura. Fiz muito, bastante, durante 30 anos! e coloria. Para os ‘pequeninos’ [fotos] eu coloria e punha na ... Eles vinham tirar meia dúzia, de ‘pequenos’, porque eles eram ‘pequenos’, 3 por 4, 3 por 4, e então eu coloria um e punha numa carteirinha. E vinham cinco, e um colorido, isso ‘chamava gente’, o pessoal vinha tirar retrato que só vendo! Eu coloria com pincel, com pincel, e põe trabalho nisso... Ah! têm ainda... têm aquelas das meninas. Já está muito velha esta fotografia...

.........................................................................
Contemplando e narrando-catalogando fotos:
    
     O Virgínio era filho de fotógrafo, o pai dele morava lá [em Mococa]; ele era filho de fotógrafo. Ele [Virgínio] casou e ficou 20 anos sem ir a Mococa.

     Esse não sei se ele combinou com o pai, tudo..., ficou vinte anos sem ir a Mococa.

     Depois o pai dele mudou pra São Paulo, na Rua dos Patriotas. Ele tinha um Ateliê também, até 1929, 29... Ele [Virgínio] saiu de lá pra ir pra Presidente, quando ficou noivo, foi pra Presidente Prudente.

     Ah! nasceram, ah! Não...

     O Virgínio nasceu aqui [Santa Cruz das Palmeiras]... foi lá, ficou lá anos. Aí já estava com 28 anos.

     Foi assim: Irmãos Bonora, então era “Irmãos Bonora”. Era o velho (não, tá aqui! o retrato dele com a sanfona). Era Fratele Bonora.

     Eles já eram da italiana... Irmãos Bonora.
.....................................................................................
D. Ophelia:    
     Aí, fotógrafos, eles..., acho que moravam em Engenheiro Gomide. Mas depois foram pra Mococa. Irmãos Bonora, Fratele Bonora, os dois. E os dois tocavam harmônica. Este era o meu sogro, ele era cego de um olho. Esse é o Delfino Bonora. Sabe o que aconteceu? Eles, antigamente, acendiam as luzes da rua, de gás, de gás. Quando eles moravam aqui [Santa Cruz das Palmeiras], ele subiu no poste; de certo ele era empregado da Prefeitura, e eles acendiam as luzes da rua. Então o poste não acendeu. Meu sogro foi olhar assim..., subiu na escada e olhar assim, e esse aqui botou fogo por baixo e cegou ele, sem querer, é. Foi um desastre... Então, eles eram de lá, da cidade, eles..., acho que fundaram o cinema de Mococa. Eu acho que fundaram o cinema, não o atual. Eu acho que eles fundaram o cinema de lá, construíram. Ele que morava lá. Eles gostavam de Mococa, é uma cidade boa até hoje, não é?
      Eu tenho o retrato do Tarquínio, porque foi um amigo dele. O Tarquínio foi pintar em São Paulo. Orlando Tarquínio, pintor renomado; ele pintou a Santa Casa de Mococa. Ele foi pintar toda a casa de lá. Quando fizeram a pintura, foi passado uma pintura. Depois eles subiram numa grade assim! Os pintores e o meu marido tiraram uma fotografia. Eu mandei pra lá, pra... Não sei quem é, no Museu de Mococa. Eu mandei pra lá, pra Prefeitura de Mococa.

............................................................................................
Entrevista junto à sra. Norma Maria Bonora (filha de Virgínio e Ophelia Bonora):


D. Norma:
    
     Meu nome é Norma Maria Bonora. Eu nasci aqui, em Santa Cruz das Palmeiras, no dia 22 de março de 1930.
     É, não... São, são os fundadores.  É, são, são os fundadores...
     Virgínio e um primo. Ele tinha um... Com o primo ele não ‘tava, não... É o Delfino e o Primo Bonora. Meu pai contava que as irmãs também trabalhavam no cinema, na bilheteria, ele sempre contava. É, as minhas tias...

D.Ophelia:

     Não sei! A minha sogra se chamava Augusta. Augusta Terci...

D.Norma:
    
     Tinha a tia Alzira, Antonieta e Ernesta, Maria e Elvira. Tudo em Mococa. Uma casada com o Zanchi, Antonieta Zanchi. Eles têm uma família Zanchi também. Eu, eu tenho uma tia que é casada com o Zanchi. É lá de Mococa; uma família de Mococa; então, Antonieta, minha tia, Antonieta tocava órgão, ela também tocava no cinema. E o meu pai, ele tocava de tudo. Ele tocava sanfona, meu pai. O pai tocava, também, tocava sanfona e piano, pr’aquele pessoal rico, de Mococa. Porque tinha muita gente rica em Mococa, tinha aquela sociedade, os fazendeiros... Então, quando tinha festa, eles convidavam:    
     “_ Olha, o convite é do Bonorinha, mas não esquece de trazer a sanfona!” Meu pai lembrava assim: só interesse, por causa da música: “_ De noite, você tem que trazer a sanfona.” - e o meu pai tocava no baile.
      
D. Ophelia:
      
     Olha, ele gostava de música. Ele tocava piano e harmônica. As nossas filhas estudaram e se formaram no Conservatório Dramático Musical de São Paulo, na Avenida São João, em frente ao Correio, lá onde estudou o Mário de Andrade.

D.Norma:
      
     A nossa casa sempre teve música, muito música. O meu pai me ensinou música, antes de eu aprender a ler e a escrever. Então, ele me ensinava música, ensinava a solfejar tudo de música. Ele sempre gostou de música.

D. Ophelia:
      
     Ah! Ele tocava qualquer música.

D. Norma:
      
     Ele gostava daquelas valsas antigas...

D. Ophelia:
      
     Valsas antigas!

D. Norma:
      
     Naquele tempo...

D. Ophelia:
      
     Ele tocava qualquer música.

D. Ophelia:
      
     Ele tocava no cinema, em Presidente Prudente, é, o cinema. Depois tinha a orquestra, e ele ia tocar piano lá. E ele tocava, com certeza, porque... Ah! ele tocava..., ele tocava nos bailes!

D. Norma:
    
     Ele contava que precisava molhar a tela do cinema, não é mamãe?

D. Ophelia:
    
     É, antigamente molhava a tela, esquentava. Eu vi, também, aqui, no cinema. Eles esguichavam água na tela, porque esquentava muito.
     Então, naquele tempo tinha orquestra. A orquestra ficava sentada ali, embaixo da tela e, quando antes de começar o cinema, eles molhavam, molhavam a tela com esguichos.

D. Norma:

     Pra não pegar fogo!

D. Ophelia:      
    
     Eu acho que o foco de luz era forte, eu penso que seja por isso. Ah! eles nasceram dentro do cinema, de cinema eles gostavam de tudo. O cinema daqui [de Santa Cruz das Palmeiras] era do meu irmão. Agora ele parou com o cinema e pôs um Bazar. A Rádio também é do meu irmão...
     Isso daí é em Mococa, é. Ah, isso é a Banda de Mococa! A Filarmônica de Mococa. Esse aqui, ele era o Maestro, o Chico, era maestro... O Chico era maestro. É ele, esse aqui, é esse aqui. Esse aqui!

D. Norma:

     O outro Adriano. E esse aqui é o Virgínio, Virgínio... Esse é o Chico Fortunato, Chico Fortunato, maestro. Esse aqui é irmão dele [do Virgínio]. Ah, isso! É o tio Guilherme, Guilherme Bonora! É, são os três irmãos: o Adriano...
     Não, é o Hugo! é o Hugo, mamãe! Esse aqui é o tio Hugo, o papai e o tio Guilherme, são os três mais novos. Hugo, Virgínio, o maestro e o Guilherme Bonora.

D. Ophelia

     Três Bonora, e esse aqui é o maestro Chico Fortunato, Francisco Fortunato. Esse aqui é o Delfino e esse o Virgínio, e este (“eu estou esquecida!”) é o Primo Bonora, Delfino e o Primo. É o Primo Bonora, é irmão, são irmãos. Essas fotos devem ter sido tiradas aqui, em Palmeiras?! Engenheiro Gomide ?!... Acho que sim. Era o carimbo, o papel vinha da Europa. O papel a gente comprava... Veja, Caixa Postal... Isso vinha de fora.

     Isso aqui é Mococa! Não me lembro mais não... Me lembro! Era uma rua lá, em Mococa... Eu não me lembro.
     Guilherme, Hugo, Antonieta é irmã, Virgínio, Ernesta..., até que era pequena ..., feia, ‘era feia que nem um diabo’. Como é que se chamava a pequena, Norma?

D. Norma:
    
     Alzira!

D. Ophelia:
    
     Tirado no Ateliê deles, em Mococa. Clélia e Alonso Toledo, pais da Marília Gabriela. Essa aí é a minha irmã. É, eu me lembro quando a Clélia casou-se, mas eu não me lembro a data...

     O Virgínio trouxe a máquina, mudaram pra Campinas. Esse aqui é o batizado da Marília Gabriela. Olha aí, eu batizei a Marília aí, na Igreja do Bonfim, em Campinas. Eu, segurando a Marília. É o batizado dela. O senhor se lembra da Igreja do Bonfim? Então, a Igreja. A Mariza, irmã mais velha, era casada com Alfredo Soares.

     Esse é o Virgínio no Ateliê, na Rangel Pestana. Eu que ‘tirei’ dele. Ah! Era... É 1939! Aqui, eu! Olha aqui, eu trabalhando... eu ‘tirei’ dele e ele de mim. Tudo na mesma época.

     Esse! Ele era menino, 17 anos, Primo Bonora, Primo Bonora. Esse primo, Avelino Bonora pensou que eu não tivesse essa fotografia, mandou pra mim, no Natal. Esse é o Virgínio Bonora, é..., naquela época o Studio já era dele. Olha o chapéu em cima do sofá! Foi, foi, foi..., é, eu tirei essas fotos no nosso Ateliê, na Rangel Pestana,“Launor”; [D. Ophelia aponta para a foto] ela que é a Laura, a outra filha que eu tenho, não estava aí. Norma e Laura..., aqui o Virgínio está ensinando as filhas. Estão estudando, estão estudando. É em São Paulo, na Voluntários da Pátria...

D. Norma:
    
     Eu não lembro, não lembro. Eu tinha uns dezessete anos, deve ser isso, dezesseis, dezessete anos?!

D. Ophelia:    

     É na Voluntários da Pátria. Ah! bom essa foto aqui é da minha irmã, quando ela se casou, a Íride. Ela se casou, e foi lá