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Ensaios

ADORNO LEITOR DA "ODISSÉIA" DE HOMERO: Poética, Esclarecimento e Terror  (Ensaios) escrito em domingo 13 maio 2007 16:02


                   “Heidegger extiende sus brazos en busca del
                  mito.Pero tampoco el suyo puede abandonar
                 su siglo; la historia lo ha desenmascarado
                como ilusión, que se delata manifiestamente
               en la incompatibilidad total del mito con la
                configuración racionalizada de la realidad;
                              no hay conciencia que
                         pueda
                                   independizarse de éste.”
                     (Theodor Adorno. Dialéctica negativa)
   
                                                   
     
     Não podemos ficar indiferentes ao apelo indignado do filósofo Theodor W. Adorno diante da tragédia da banalização do mal disseminada pelo nazismo alemão:

“Después de Auschwitz, la sensibilidad no puede menos de ver en toda  afirmación de la positividad de la existencia una charlatanería, una injusticia para con las víctimas(...) El terremoto de Lisboa bastó para curar a Voltaire de la teodicea leibniziana; pero la abarcable catástrofe de la primera naturaleza fue insignificante comparada con la segunda, social, cuyo infierno real a base de maldad humana sobrepasa nuestra imaginación.(...) Auschwitz confirma la teoría  filosófica que equipara la pura identidad con la muerte.(...) QUE AUSCHWITZ NO SE REPITA, QUE NO VUELVA A OCURRIR NADA SEMEJANTE.”  (Adorno 1975, pp.361-5)

     Tais palavras, sem qualquer sombra de dúvida, não são oportunistas. São palavras proferidas em tom colérico por um notável filósofo que, com espanto, horror e tristeza, presenciou a progressão diabólica do mal durante a primeira metade do século XX, definindo-se, obviamente, contra o mal, porém, sem perder de vista a significação da extraordinária aventura mítica - mediante a experiência do herói protagonista na “Odisséia” de Homero - do desenvolvimento do precoce Esclarecimento (1) já inscrito em Ulisses (2).
     De posse de tais argumentos inaugurais, já nos encontramos diante de uma questão importante, porque definidora dos rumos do presente artigo, isto é: como situar e avaliar as possíveis contribuições da poética em face dos dilemas acima apresentados?
     Com freqüência, na busca pelas respostas às nossas preocupações e perplexidades contemporâneas, podemos notar, conforme grande parte de lições filosóficas, a força argumentativa de que sempre se tem de regressar ao passado (especialmente aos gregos!) a fim de encontrarmos uma (re)orientação para o nosso presente. Assim, com a linha oculta que liga o filósofo e o historiador, a filosofia pergunta pelo conceito, cumprindo tal indagação, não raramente, um sentido metafórico. Por outro lado, a história procura a uniformização das ruínas do passado, emprestando-lhe um sentido, em virtude de terem sido fatos.
     Por conseguinte, ao pensarmos em retrospectiva, na extraordinária concepção que os gregos têm sobre o valor e o lugar do indivíduo na sociedade (o paradigma grego, sobretudo em perspectiva filosófica), com freqüência, a tendência que se verifica nesse modo de resgate da memória, consiste, tal projeto, converter-se em história política, visto que a era moderna quebrou o antigo elo que unia poesia e mito, para falarmos com Octávio Paz (1972).
     Não seria exato, portanto, afirmar que os antigos só se preocuparam com a liberdade política, na medida em que eles conheceram, também, a liberdade de ser. Assim, os gregos reconheciam no mito uma força de sabedoria que curava e restaurava os feridos, pois os deuses participavam dos destinos da cidade junto aos cidadãos, tudo em autêntica comunhão com o divino, em ritos nos quais a religião não eliminava a razão. A Antiguidade conheceu tentativas desse tipo. E nós, modernos?  Encontramo-nos num beco sem saídas? Ouçamos o que tem a dizer o filósofo da Grécia clássica, Aristóteles, em sua consagrada “Poética”:

“Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois bem poderiam ser postos em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, e que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular...” (Aristóteles 1993, pp.53-4)

     Do fundo dos tempos até os nossos tempos sombrios, depõe o literato italiano Ítalo Calvino, aquele que manteve a “fé” na palavra escrita:
 
“O sinal talvez de que o milênio esteja para findar-se é a freqüência com que nos interrogamos sobre o destino da literatura e do livro na era tecnológica dita pós-industrial (...). Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar...” (Calvino 1993, p.11)
 
     Com essa declaração de confiança na poética, inicia-se o derradeiro livro de Calvino, isto é, “Seis propostas para o próximo milênio”. E é bem tal declaração que este artigo pretende ser, ou, noutras palavras, se o alvo aqui perseguido é a poética, então, o nosso aparelho crítico deve orientar-se para a poética, e com ela caminhar. Falando ao homem que virá e também ao homem que é, prossegue Calvino:

“No momento em que a ciência desconfia das explicações gerais e das soluções que não sejam setoriais e especialísticas, o grande desafio para a literatura é o saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos numa visão pluralística e multifacetada do mundo.” (Calvino 1990, p.127)

   Mais adiante, assim prossegue Calvino:

“Joyce, que tem toda a intenção de construir uma obra sistemática, enciclopédica e interpretável a vários níveis segundo a hermenêutica medieval (...) realiza principalmente a enciclopédia dos estilos, capítulo por capítulo no ‘Ulisses’, ou canalizando a multiplicidade polifônica através do tecido verbal do ‘Finnegans Wake’.”(Calvino 1990, p.131)

     E, procurando finalizar a belíssima série de conferências sobre as qualidades da escritura (“Leveza”, “Rapidez”, “Exatidão” e “Visibilidade”), na derradeira conferência – cujo título é “Multiplicidade” -, Calvino confessa que:

“Entre os valores que gostaria fossem transferidos para o próximo milênio está principalmente este: o de uma literatura que tome para si o gosto da ordem intelectual e da exatidão, a inteligência da poesia juntamente com a da ciência e da filosofia (...)” (Calvino 1990, p.133)

     À luz do que precede, em se tratando da filosofia clássica moderna, é importante frisarmos que é comum a todas as filosofias desdobradas do Iluminismo - suas sucessoras - apresentarem a razão como uma força histórica capaz de libertar a humanidade de seus grilhões, fazendo do mundo um lugar de progresso e de felicidade.
     A reflexão conjunta dos filósofos alemães frankfurtianos Theodor Adorno e de Max Horkheimer no texto “Dialética do Esclarecimento” anuncia a razão iluminista (desenvolvida pela burguesia no início da era moderna) como portadora das dimensões emancipatória e instrumental, conforme previra a conceituação kantiana sobre o Esclarecimento, isto é, sobre o conceito de “Aufklarung” (ou Iluminismo). Nesse sentido, enfatiza o filósofo iluminista alemão Immanuel Kant:

“Sapere Aude. Tenha a coragem de usar seu próprio entendimento!” (...)

     Todavia, prossegue, num de seus escritos fundamentais, o filósofo de Königsberg (cidade alemã onde Kant nasceu e na qual passou toda a sua existência):

“Discuta quanto quiser e sobre o que quiser, mas obedeça!” (3)

     Neste ponto, podemos constatar que o entusiasmo kantiano pela razão humana e o estabelecimento de seus limites revelam-nos, com efeito, uma fraqueza teórica (“Discuta quanto quiser e sobre o que quiser, mas obedeça!”); visto que a burguesia da ocasião (século XVIII), na medida em que passou, com a queda da aristocracia, a impor o seu projeto de dominação em relação às outras classes sociais, foi, também, ofuscando, de forma acentuada, a dimensão emancipatória da razão, privilegiando, sobretudo, a sua dimensão autoritária, reguladora, que resulta na racionalidade instrumental.
     No já consagrado livro “Dialética do Esclarecimento” (1947), o pensamento de Adorno e Horkheimer é um duro ataque ao modelo científico formulado sob a inspiração iluminista, que resulta na racionalidade totalizante do mundo moderno. Assim, o conceito de Iluminismo, na “Dialética do Esclarecimento”, é definido da seguinte forma:

“No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem  perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo” (Adorno/Horkheimer 1986, p.19)

     Tal crítica da forma contemporânea do Iluminismo, definida por Adorno e Horkheimer, pretende, “grosso modo”, mostrar que a ciência e a técnica, que vieram para libertar o homem da visão mágica, do mito, criaram outros mitos, ainda mais potentes e sofisticados, pois, agora, o homem é vítima do próprio progresso e da racionalidade técnica, visto que a ciência, a tecnologia ou o pensamento crítico em geral - sonhado pelos primeiros pensadores modernos como possibilidade de minorar o sofrimento da humanidade – perde, progressivamente, com o avanço da racionalidade instrumental, todo o potencial libertário que lhe é inerente.
     Contudo, tal recusa da figura iluminista da razão, que dá na razão instrumental, em Adorno e Horkheimer não tem, todavia, como contrapartida, a apologia de um irracionalismo, pois, se o preço do triunfo da razão iluminista, conforme enfatizam Adorno e Horkheimer, foi, precisamente, a incorporação do mito e da razão soberana, da história como progresso e da lógica dualista, na verdade, com a incorporação de tais elementos, a razão incapacitou-se para identificar a irracionalidade que ela própria produz. Resumidamente, a razão iluminista tão decantada pelos filósofos frankfurtianos não é mais que a razão instrumental presente na desigualdade social, na opressão... nos pilares de sustentação da sociedade capitalista; enfim, nos domínios totalitários e ideológicos - especialmente no que se refere ao desaparecimento da perspectiva de felicidade do homem no mundo.
     Desse ponto de vista, na trilha da reflexão frankfurtiana, é preciso empreender uma crítica negativa, a fim de destruir tal mito opressor. Cabe a esta teoria crítica, sobretudo, resgatar o indivíduo em sua totalidade, num esforço para demitizar a racionalidade e (re)sensualizar o indivíduo. Cabe, enfim, a esta teoria crítica, denunciar os vários tipos de fetichismo da sociedade hodierna, sobretudo do pensamento que vai da ciência à política.
     Ainda é preciso ressaltar que o homem (re)sensualizado não significa, apenas, a proposta de reabilitação da sensibilidade humana contra a hegemonia clássica das faculdades intelectuais, isto é, não se trata tão-somente de redimensionar as faculdades divididas pela razão instrumental, mas de reencontrar e de reconciliar as consciências em relação às coisas, noutras palavras, reconciliar o homem e a natureza. Trata-se, enfim, de reincorporar a dimensão da afetividade no pensamento, para que este apreenda a concretude de uma totalidade mais complexa. Entretanto, a vitória da razão sobre o mito representa a tarefa histórica de deixar os instintos sob o controle do tribunal da razão instrumental, ou melhor, da razão dominadora. A partir deste aspecto:

“A essência do esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a dominação. Os homens sempre tiveram de escolher entre submeter-se a natureza ou submeter a natureza ao eu (...) Forçado pela dominação, o trabalho humano tendeu sempre a se afastar do mito, voltando a cair sob o seu influxo, levado pela dominação” (idem acima  p.43)

     Esse entrelaçamento de mito, de dominação e de trabalho está conservado, consoante interpretação de Adorno e Horkheimer, em um dos episódios das narrativas de Homero na “Odisséia”, acentua a “Dialética do Esclarecimento”. É no canto XII da “Odisséia” que a alegoria do Canto das Sereias ilustra os extravios da razão ocidental. Após a descida e posterior descrição do Hades – mundo dos mortos para os gregos (Canto XI), Ulisses, assustado pela multidão de almas que o persegue no Hades, volta ao navio, e retorna à ilha de Circe (Canto XII):

“Ulisses foi alertado por Circe, a divindade da reconversão ao estado animal, à qual resistira e que, em troca disso, fortaleceu-o para resistir a outras potências da dissolução. Mas a sedução das Sereias permanece mais poderosa. Ninguém que ouve sua canção pode escapar a ela” (idem acima,  p.44)

     Assim, no decorrer de toda odisséia homérica, os deuses põem à prova a memória de Ulisses e a dos navegantes que o acompanham em seu infortúnio (por duas décadas, perdido nos mares, após o retorno da Guerra de Tróia), recorrendo ao uso de vários artifícios, para que o herói Ulisses e seus tripulantes se esquecessem de retornar a Ítaca. Isto também se evidencia no episódio que narra o país dos lotófagos (Canto IX), onde Ulisses luta para aniquilar o poder inebriante que o lótus causara em sua tripulação. Ulisses narra, então, o seguinte:

“Os lotófagos não pensaram em matar nossos companheiros; deram-lhes a comer do loto e quem, dentre eles, comia o fruto do loto, doce como mel, já não queria trazer notícias nem regressar, mas sim ficar ali com os lotófagos, sustentando-se de loto, sem pensar no regresso. Eu os trouxe à força para bordo, desfeitos em pranto (...)” (Homero 1994, p.103)

(“ ... ils leur donnèrent  seulement à goûter de leur fruit de lotos. Tous ceux qui mangèrent  de ce fruit ne voulaient ni s’en retourner, ni donner de leurs nouvelles; ils n’avaient d’autre envie que de demeurer là avec ces peuples , et vivre de lotos dans un entier oubli de leur patrie. Mais je les envoyai prendre, et , malgré leurs larmes, je les fis monter sur leurs vaiseaux  ...” )

     Um outro artifício foi utilizado por Circe: a deusa feiticeira transforma os companheiros de Ulisses em porcos, que só retomam a forma humana mediante a intervenção do herói Ulisses, por quem Circe se apaixonara:

“Ela não tardou a sair: abriu as luzidias portas e convidou-os. Todo o grupo, em sua ignorância, seguiu-a: (...)Ela os fez entrar e sentar em divãs e cadeiras; preparou-lhes uma papa de queijo, cevada e pálido mel, com vinho de Pramnos; nessa comida misturou drogas daninhas, para tirar-lhes toda lembrança da terra pátria. Assim que lha serviu e eles a sorveram, bateu-lhes com a vara de condão e fechou-os em pocilgas. Tinham agora cabeça, voz, cerdas e corpos de suínos, embora conservassem a inteligência como antes (...)”  (idem acima, p.118)

(“Elle se lève de son siége, ouvre ses portes éclatantes et les convie d’entrer. (...) La déesse fait d’abord asseoir ces malheureux posé de fromage, de farine et de miel détrempé dans du vin de Pramne, et où elle avait mêlé des drogues enchantées pour leur faire oublier leur patrie. Dès qu’ils eurent avalé ce breuvage empoisonné , elle leur donna sur la tête un coup de sa verge, et les enferma dans l’étable. Ils avaient la tête, la voix , les soies, enfin tout le corps de véritables pourceaux; mais leur esprit était encore entier comme auparavant...”)

     Este trecho do Canto X da “Odisséia” é por demais ilustrativo, pois, diante de inúmeros significados que a narrativa poética permite-nos inferir, ao menos um aspecto destaca-se: a memória é um perigo e um poder - ambos precisam ser constantemente reforçados e vigiados, visto que, aqueles que cederam aos artifícios das divindades, animalizaram-se ou morreram. Apenas Ulisses, o herói astucioso, que incorpora o sonho de fazer a sua própria história, parece ter entendido que a memória era a garantia de sua sobrevivência, de sua humanidade, bem como, de seu retorno a Ítaca. Noutros termos, consoante Rodrigo Duarte (1993):

“Ulisses só consegue retornar a Ítaca, sendo capaz de passar não apenas pelas sereias, mas também por Calipso, Polifemo, Cila, Caríbdis - seres que, de uma forma ou de outra, simbolizam a natureza exterior -, à medida que ele próprio aprende a se dominar a si mesmo. Dito de outro modo: ele só pode dominar a natureza que a ele se contrapõe à medida que domina a sua natureza interna(...)” (Duarte 1993, p.93)

     Tecidas tais considerações, é bom lembrarmos que, em última instância, a “Dialética do Esclarecimento” procura enfatizar a incapacidade da razão em propor teses ao processo de emancipação social, dado que o processo de racionalização cada vez mais acelerado - tal como se a compreende e a pratica na civilização moderna - tende a destruir a própria substância da razão. Se Marx recebeu de Kant e do idealismo alemão a tese do primado da razão prática, levando-a até o fim (a exigência de transformar o mundo, ao invés de interpretá-lo!), o núcleo da distância que Adorno e Horkheimer tomam em relação a Marx encontra-se na constatação histórica de que a transformação do mundo fracassou, pois, eliminando toda a pluralidade do ato de pensar e instituindo um padrão de pensamento unidimensional, com efeito, a razão instrumental triunfa:

“O caminho da civilização era o da obediência e do trabalho, sobre o qual a satisfação não brilha senão como mera aparência, como beleza destituída de poder. O pensamento de Ulisses, igualmente hostil à sua própria morte e à sua própria felicidade, sabe disso. Ele conhece apenas duas possibilidades de escapar. Uma é a que ele prescreve aos companheiros. Ele tapa seus ouvidos com cera e obriga-os a remar com todas as forças de seus músculos. Quem quiser vencer a provação não deve prestar ouvidos ao chamado sedutor do irrecuperável e só o conseguirá se conseguir não ouvi-lo. Disso a civilização sempre cuidou. Alertas e concentrados, os trabalhadores têm que olhar para frente e esquecer que foi posto de lado (...) A outra possibilidade é a escolhida pelo próprio Ulisses, o senhor da terra que faz os outros trabalharem para ele. Ele escuta, mas amarrado impotente ao mastro (...)”(Adorno e Horkheimer 1986, p.45)

     Dessa forma, uma vez acordados com a hermenêutica do referido Canto homérico, proposta pelos frankfurtianos, a passagem acima indica a gênese e a constituição da razão instrumental: ela se reifica, se coisifica e, como já vimos anteriormente, por meio de sua unidimensionalidade, ela se torna a negação de sua dimensão emancipatória. Por conseguinte, seu objetivo, aliás, visa, exclusivamente, a reprodução do capital. Ela se coloca, sobretudo, a serviço da produção e da exploração dos trabalhadores. Assim:

“As medidas tomadas por Ulisses quando seu navio se aproxima das Sereias pressagiam alegoricamente a dialética do esclarecimento” (idem acima, p.45)

     Esta é, segundo a “Dialética do Esclarecimento”, a situação do patrão amarrado ao mastro, impossibilitado de fruir e condenado a apenas contemplar, enquanto seus subordinados, de ouvidos tapados pela cera, realizam o trabalho braçal. Eis a repressão da natureza interior (freudianamente: a renúncia ao princípio do prazer) amparada pela divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho manual na produção de mercadorias, e de indivíduos tornados objetos de manipulação para outros homens.
     Dito de maneira mais ampla, esta é a codificação do momento em que o prazer é neutralizado pela arte. Nesse sentido, a arte não está de forma alguma livre do princípio de dominação, visto que a arte está sujeita, como todo o resto, à lei de objetivação (existe em Adorno uma relação direta entre o estético e o social). Nesse sentido, a arte não pode evitar tal espécie de fetichismo:

“Amarrado, Ulisses assiste a um concerto, a escutar imóvel como os futuros freqüentadores de concertos, e seu brado de libertação cheio de entusiasmo já ecoa como um aplauso. Assim, a fruição artística e o trabalho manual já se separam na despedida do mundo pré-histórico” (idem acima, p.45)

     Contudo, surge, neste ponto, uma inquietação que, para nós, se traduz do seguinte modo: uma filosofia que deseja romper os limites da racionalidade instrumental, com o fito de denunciar o “desencantamento do mundo moderno”, reinterpretando o mito por intermédio de sua crítica ao Iluminismo (Ulisses “...o herói das aventuras revela-se precisamente como um protótipo do indivíduo burguês...” (Adorno e Horkheimer: 1986)) não estaria a duplicar, inadvertidamente, a irracionalidade, visto que projeta o mal do mundo moderno no mundo antigo? Ademais, a “Dialética do Esclarecimento” não teria encampado a obra de Homero, a “Odisséia”, numa só categoria, isto é, a da racionalidade instrumental?
     Diversas são as possibilidades de leitura, de interpretação e de apropriação da verdade poética. Felizmente o campo não é uniforme, nem homogêneo. Mas o fato é que a dialética negativa de Adorno e Horkheimer (Ulisses forjando o “Eu” e se reprimindo, indefinidamente...) a permanecer na negatividade parece não nos indicar nenhum caminho que nos auxilie a sobreviver às intempéries do nosso tempo.
     De outra parte, o “inferno” do mundo atual não estaria justamente num mundo esvaziado de poética, conforme as precedentes de Ítalo Calvino?
     Por outro lado, é neste ponto que Walter Benjamin, abordando a questão sobre um outro prisma, isto é, insistindo na leitura político-alegórica dos textos clássicos pertencentes ao nosso patrimônio cultural, nos afasta da razão aporética-perplexa de Adorno e Horkheimer.
     Por fim, como outra alternativa, visando a problematização concomitante a um futuro aprofundamento da nossa presente reflexão, transcrevemos, abaixo, a versão alegorizada da “Odissséia” homérica – inacabada! - nas páginas de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, a qual segue na direção apontada pelo projeto teórico benjaminiano:

  “Ó irmãos (eu falei), que desta feita
    aos confins avançastes do Ocidente,
    entre perigos, onde o sol se deita,

   à pouca vida em vós remanescente
   não recuseis a esplêndida experiência
   do mundo ermo e ignorado à nossa frente.

   Relembrai vossa origem, vossa essência:
   criados não fostes como os animais,
   mas donos de vontade e consciência.

   Aos companheiros, com palavras tais,
   instilei tanto o gosto da jornada,
   que nem eu mesmo os reteria mais.

   A popa à parte matinal voltada,
   demos com força aos remos, e cingindo
   à esquerda a rota, fomos de longada.

   A noite os astros, todos descobrindo
   ia do polo austral, e, pois, se via
   na linha dágua o nosso decaindo.

   Cinco vezes brilhante ao céu subia
   a lua, e tantas outras se apagava,
   enquanto o firme rumo a nau seguia.
 
   Súbito, um monte vimos, que se alteava,
   escuro, na distância, e erguido tanto,
   que de outro igual nenhum de nós lembrava.

   Logo mudou nossa alegria em pranto:
   eis que veio da terra um furacão,
   e ao frágil lenho arremessou seu manto

   Por três vezes levou-o de roldão;
   na quarta, a popa ergueu, e mergulhou
   no fundo a proa, à suma decisão,

   até que o mar enfim nos sepultou”


   (Dante Alighieri. A Divina Comédia, Canto XXVI)



NOTAS

1. Referimo-nos ao texto: “Ulisses ou Mito e Esclarecimento” in Dialética do Esclarecimento. 2 ed.Rio de Janeiro: Zahar, 1986, pp.53-80. Nele, Adorno e Horkheimer advogam a tese de que, ao propor eliminar o mito no mundo em que a razão humana se torna absoluta, o movimento de pensamento (do século XVIII) do Iluminismo recaiu num novo mito.

2. Ulisses é tradução latina de Odisseu, nome do herói greco-homérico protagonista da “Odisséia”.

3. KANT, Immanuel. “O que é Iluminismo” in Humanidades: R. da UnB. Brasília, v.1, pp.49-53, out/dezembro 1982.


BIBLIOGRAFIA

ADORNO, Theodor W. Dialéctica negativa. Tradução José María Ripalda. Madrid: Taurus, 1975.

ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução Guido Antonio de Almeida. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986.

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução Cristiano Martins. 2v. 5 ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda., 1989.

ARISTÓTELES. Poética. Tradução Eudoro de Souza. 2 ed. São Paulo: Ars Poetica, 1993.

BENJAMIN, Walter. La metafísica de la juventud. ( Traducción Luis Martínez de Velasco) Barcelona: Paidós, 1993.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sergio Paulo Rouanet. In Obras Escolhidas I, v.1, São Paulo: Brasiliense, 1985.

____. Origem do drama barroco alemão. (Tradução Sérgio Paulo Rouanet) São Paulo: Brasiliense, 1984.

CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

DUARTE, Rodrigo A. de Paiva. Mímesis e racionalidade: a concepção de domínio de natureza em Theodor W. Adorno. São Paulo: Loyola, 1993.

HOMÈRE. L’Odyssée. Traduction de Mme. Dacier. Paris: Librairie Garnier Frères, [s.d.]

HOMERO. Odisséia (na forma narrativa). Tradução Jaime Bruna.13 ed. São Paulo: Cultrix, 1994.

PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1972.



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, primavera de 2005









SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 21/12/2005
Código do texto: T88851

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PREFÁCIO PARA UMA MITOLOGIA MODERNA: por uma lírica da Metro-Pólis  (Ensaios) escrito em quarta 18 abril 2007 12:42

Cena do filme METROPOLIS,

de Fritz Lang     

    

     “O surrealismo é o último instantâneo da inteligência européia”, enfatiza Walter Benjamin, em seu notável ensaio sobre o Surrealismo (1); dentre alguns de seus representantes estão André Breton, Guillaume Apollinaire, Paul Éluard, Louis Aragon... Levar a vida literária até os limites extremos do possível: Iluminação Profana. No Surrealismo são as experiências que estão em jogo e não teorias: o poeta moderno não entende mais o sentido das coisas. Desse modo, o poeta entrega-se ao fluxo da palavra, à linguagem que vai além dele. Se por um lado, o homem clássico contemplava o objeto, de outro, o homem moderno é levado pelo fluxo da vida...
     A cidade de Paris: a Paris - em instantâneos da primeira metade do século XX - é lírico-onírica. Trata-se de uma cidade hiper-significada, porque ditada pelo inconsciente. Assim, a cidade dos surrealistas aceita a escrita ditada pelo fluxo da linguagem em total liberdade! Escrita automática, anti-retórica... Então, o poeta-camponês a perambular por Paris prefacia o esboço de uma mitologia moderna:

“Hoje não se adoram mais deuses sobre as alturas. O templo de Salomão passou (...) Mas há outros lugares que florescem entre os homens (...) A divindade ainda não os habita. Ela se forma neles, é uma divindade nova que se precipita nessas modernas Éfesos (...): nossas cidades são assim povoadas por esfinges desconhecidas que não detêm o passante sonhador se ele não volta para elas sua distração meditativa, esfinges que não lhe colocam questões mortais.” (Aragon 1996,  pp.43-4)

     Cidades, metrópoles, territórios da memória. “Nós” da experiência pessoal e da experiência coletiva: “Baudelaire amava a solidão, mas a queria na multidão (...) ‘Corro a cortinas contra o Sol que agora foi dormir, como de hábito; doravante não vejo outra luz senão a da chama do gás. A Lua e as estrelas já não são dignas de menção.’” (Benjamin :1989). Com efeito, o poeta moderno é um visionário por um longo e imenso desregramento de todos os sentidos: ele toma as palavras e, no rodopio sintático das palavras, submete-se à força das palavras.
     A cidade é Berlim, a “Berlim Alexanderplatz” - de Döblin. A prosa poética é música! Eis a sinfonia da metrópole! A cidade é uma paisagem, uma floresta de signos, a cartilha do homem moderno. A cidade é um livro em “neon-barroco”. Uma explosão colorida: a cidade com suas múltiplas facetas de sonho e de desencantamento. A cidade é, enfim, um jardim surrealista:

“Uma vez viveram no paraíso duas pessoas, Adão e Eva. Tinham sido colocadas ali pelo Senhor, que também fez animais e plantas e céu e terra. E o paraíso era o belíssimo jardim do Éden. Flores e árvores cresciam ali, animais brincavam por toda parte, ninguém atormentava ninguém. O sol nascia e se punha, e a lua fazia o mesmo, o dia todo era festa no paraíso.
Assim começaremos alegremente. Vamos cantar e nos mexer: com as mãozinhas palma, palma, palma, com os pezinhos, pé, pé,pé, uma vez pra lá, uma vez pra cá, uma voltinha, isso é o que dá!


Franz Biberkopf entra em Berlim


Comércio e indústria

Limpeza urbana e transportes

Serviço de saúde

Construção subterrânea

Arte e educação

Tráfego

Caixa Econômica e Banco Municipal

Companhia de Gás

Corpo de Bombeiros

Finanças e Impostos..."
                         (Döblin 1995, pp.43-4)

     Um rodopio, e a descida aos infernos. “Pobreza de experiência: não se deve imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo decente possa resultar disso.” (Benjamin: 1985).
     O surrealismo e a ilustração da mente inconsciente. Palavra de ordem: _Devemos conscientizarmo-nos do potencial da imaginação! Paranóia crítica e “Breton anota: ‘Silêncio, para que eu passe onde ninguém jamais passou, silêncio!... Eu te seguirei minha bela linguagem.’” (Benjamin: 1985)

                                   
                  DE VOLTA AO COMEÇO

“14 de julho. Desde o ‘Sacré-Coeur’ fogos de artifício se derramam sobre ‘Montmartre'. O horizonte atrás do Sena arde. Os rojões sobem e se apagam sobre a planície. Na encosta íngreme se apinham dezenas de milhares de pessoas a fim de acompanhar o espetáculo. E essa multidão encrespa sem cessar um murmúrio igual às pregas de uma capa quando o vento brinca com ela. Se apurarmos o ouvido, o que ressoa é algo diferente da espera dos foguetes e rojões luminosos. Não estaria essa surda multidão à espera de uma desgraça bastante grande para que, de sua tensão, salte a faísca , de incêndio ou fim do mundo - qualquer coisa que transformasse esse murmúrio aveludado de mil vozes num único grito, como quando um golpe de vento põe a descoberto o forro escarlate da capa? Pois o claro grito de horror, o terror pânico, é o reverso de todas as genuínas festas populares. O leve estremecer que aos poucos percorre os inumeráveis ombros anseia por ele. Para a multidão, em sua existência mais profunda e inconsciente, festejos e incêndios são apenas jogos, nos quais se prepara para o momento de emancipação, para a hora em que pânico e festa , irmãos separados por longo tempo, ao se reconhecerem, se abracem na insurreição revolucionária. Com todo direito celebra-se na França a noite de l4 de julho com fogos de artifício."
                            (Walter Benjamin. “Belo Horror”)




NOTA

1.Cf. BENJAMIN, Walter. “O surrealismo. O último instantâneo da inteligência européia”. In ‘Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura’. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985, pp.21-35.


BIBLIOGRAFIA

ARAGON, Louis. “O camponês de Paris”. Tradução Flávia Nascimento. São Paulo: Imago, 1996.

BAUDELAIRE, Charles. “As flôres do mal”. Tradução Jamil A. Haddad. 2 ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1964.

____. “O spleen de Paris: pequenos poemas em prosa”. Tradução António Pinheiro Guimarães. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.

____. “Sobre a modernidade: o pintor da vida moderna”. Org. Teixeira Coelho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

BENJAMIN, Walter. “Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo”. Tradução José C. Barbosa, Hemerson Alves Baptista. In: ‘Obras Escolhidas’, v.3, São Paulo: Brasiliense, 1989.

____. “Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre a literatura e história  da cultura”. Tradução Sérgio P. Rouanet. In ‘Obras Escolhidas’, v.1, São Paulo: Brasiliense, 1985.

____. “Sobre a arte, técnica, linguagem e política”. Tradução Maria L.Moita, Maria A. Cruz, Manuel Alberto. Lisboa: Relógio D’Água, 1980.

DÖBLIN, Alfred. “Berlim Alexanderplatz: a história de Franz Biberkopf”. Tradução Lya Luft. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, 31 de dezembro de 2005

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 31/12/2005
Código do texto: T92614

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NIETZSCHE, BENJAMIN e JOYCE: LEITORES DA TRADIÇÃO. BENJAMIN e JOYCE: LEITORES de NIETZSCHE  (Ensaios) escrito em domingo 15 abril 2007 18:24

SKULL AND CANDLESTICK

de Paul Cezanne

 

 

 

NIETZSCHE, BENJAMIN E JOYCE: LEITORES DA TRADIÇÃO. BENJAMIN E JOYCE: LEITORES DE NIETZSCHE... E A INTERTEXTUALIDADE EM BAKHTIN.



“Aqui, onde entre os mares surgiu a ilha,
uma pedra de altar subitamente erguida,
aqui, sob o negro céu,
acende Zaratustra o seu fogo das alturas,
sinais de fogo para navegantes sem rumo,
ponto de interrogação para os que têm resposta(...)

Navegantes sem rumo! Ruínas de antigas estrelas!
Ó mares do futuro! Céus inexplorados!
A tudo o que é solitário lanço agora o anzol:
Dai resposta à impaciência da chama,
apanhai para  mim, pescador sobre altos montes,
a minha sétima última solidão! –
(Nietzsche. “Sinal de Fogo”)


     Quando Friedrich W. Nietzsche refere-se com desdém à filosofia e aos filósofos é, geralmente, para apontar os impasses e as armadilhas em que se deixou enredar o pensamento filosófico, devido aos comprometimentos com uma cultura adoecida e decadente. É no contexto de desencantamento de uma época – segunda metade do século XIX-, no qual a civilização européia  (depois do século anterior, que pregava as “Luzes”), saciada de ciência positiva, de industrialismo e de revoluções políticas; suprimi, enfim, a transcendência do mundo... É em tal momento que Nietzsche anuncia a morte de Deus e a alegria de Zaratustra – vidente de uma verdade nova.
     Postando-se diante do sol nas montanhas, Zaratustra assim roga:

“ ‘_ Grande astro! Qual seria tua felicidade sem aqueles a quem iluminas? (...) Vê! Estou saturado de minha sabedoria, como a abelha que acumulou demasiado mel; anseio por mãos que se estendam (...) Vê! Este cálice quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer de novo ser homem’ (...) Zaratustra desceu só da montanha (...) Assim que chegou à cidade mais próxima, na orla da floresta, Zaratustra encontrou muita gente reunida (...) e dirigiu-se assim à multidão: ‘_ Eu vos proponho o super-homem. O homem é algo que deve ser superado (...) O super-homem é o sentido da terra (...) Deus está morto, e com ele morreram seus detratores.’ (...). E toda a multidão se riu de Zaratustra.”
                                                                              (Nietzsche 1991, pp.11-17)

     Os gregos criaram os deuses olímpicos. Com isso, a Grécia criou a arte: “agora como se abre diante de nós a montanha mágica do Olimpo, e mostra-nos suas raízes...” (Nietzsche 1987)

     Sobre Sócrates: “quem é esse que pode ousar, sozinho, negar a essência grega, essa essência que, em Homero, Píndaro, e Ésquilo, em Fídias, em Péricles, em Pítia e Dioniso, como o mais profundo dos abismos e a mais alta das alturas, está segura de nossa admiração assombrada? Que força demoníaca é essa, que pode atrever-se a despejar essa poção mágica no pó? Que semideus é esse, ao qual o coro espiritual dos mais nobres da humanidade tem de clamar: ‘_ Ai de nós! Ai de nós! Tu o destruíste, o mundo da beleza, com teu punho poderoso; ele desmorona, ele se desfaz!”
                                                                                 (Nietzsche 1987, p.12)

     Um Sócrates moribundo: (“A Gaia Ciência”, aforismo 340) “_ Admiro a bravura e sabedoria de Sócrates em tudo o que ele fez, disse _ e não disse. Esse zombeteiro e enamorado monstro e caçador de ratos de Atenas, que fazia estremecer e soluçar os jovens mais altivos, não era somente o mais sábio dos tagarelas que houve: ele tinha a mesma grandeza no calar (...) Mas, se foi a morte ou o veneno ou a devoção ou a maldade _ algo lhe soltou a língua naquele instante e disse: ‘Ó Críton, devo um galo a Asclépio’. Essa ridícula e  terrível ‘última palavra’  significa, para aquele que tem ouvidos: Ó Críton, a vida é uma doença!’ Será possível! Um homem como ele, que viveu sereno e diante de todos os olhos como um soldado_ era pessimista! Sócrates, Sócrates, sofreu com a vida!_ Ai, amigos! Temos de superar também os gregos!                                                                    (Nietzsche  1987, p.164)

     Evocação filosófica nietzschiana de uma Grécia passada, pré-socrática, cuja finalidade é diagnosticar os valores estabelecidos; tal subversão crítica exige a pergunta pela criação dos valores, porque para Nietzsche os valores não são transcendentes:

“Eu fui o primeiro que viu a primeira oposição: _ o instinto degenerado, que se volta contra a vida com subterrânea sede de vingança ( _ cristianismo, a filosofia de Schopenhauer, em certo sentido já a filosofia de Platão, o idealismo inteiro, como formas típicas), e, nascida da plenitude, da abundância, uma fórmula da suprema afirmação, um dizer-sim sem reserva, mesmo ao sofrimento, mesmo à culpa, mesmo a tudo o que é problemático e estranho na existência (...) Este último sim à vida, o mais alegre, o mais efusivamente arrogante (...) o dizer-sim à realidade, é para os fortes uma necessidade (...); os decadentes precisam da mentira (...) Quem não só compreende a palavra ‘dionisíaco’, mas se compreende na palavra ‘dionisíaco’(...) _ sente o cheiro da decomposição.”     (Nietzsche  1987, p.24)


JAMES JOYCE E AS BACAS

     Dublin: cidade das vozes. A influência do clássico, do mito, enfim, de Homero, é quem forneceu a James Joyce o andaime com o qual ele pôde construir o “edifício” ou a estrutura do seu “Ulisses”. Mas, se a odisséia homérica revela-se como  memória de um passado épico, cuja interioridade  heróica é claramente narrada, a poética joyciana em “Ulisses”, pelo contrário,  devido ao fluxo da consciência (transporte da voz interior para a linguagem, que se curva para comunicar não mais palavras conscientes ), mais próximo do inconsciente, é pura emanação de palavras, cores, sons, livremente associadas e sem qualquer ponto de referência. Daí, termos a nítida impressão de ouvirmos os personagens de “Ulisses”, característica aliás que imprime na obra um caráter mais sinfônico que narrativo ou até mesmo poético. Quando Jean-Michel Rabaté (1) recoloca em discussão a incômoda vertente da crítica literária, que sublinha Hermann Brock como o “Joyce alemão”, o referido crítico literário faz algumas alusões esclarecedoras quanto ao conteúdo de um artigo de Karl Jung, isto é, ao  “Ulysses: ein Monolog”. Numa discussão acerca do caráter alegórico de “Ulisses”, encetada por Jung, Rabaté questiona:

“(...) a questão do título e do ‘sujeito’ do romance: quem é Ulysses, o que simboliza, o livro não oculta símbolos? O único ponto ao qual Jung pode então chegar é o ‘eu criador’ em si mesmo, pois no ‘Ulysses’ romance, o Ulysses ‘sujeito’ será este eu, o equivalente de Fausto para Goethe, de Zarathustra para Nietzsche, um ‘Si’ que organizaria uma consciência da totalidade do livro (...)”                         (Rabaté  1992 , p.148-9)

     Ancorados nessas considerações, multiplicam-se os enigmas procedentes da escrita joyciana: alegorias do  “Eu”? Micelâneas de metáforas? Sabemos, exatamente, para que fronteiras nos leva James Joyce? Reordenação de um novo mundo para um novo homem? Vislumbre de um novo tempo para um novo homem desejoso em se libertar de valores decadentes? A isso parece claro que poderíamos chamar de elementos nietzschianos na escrita joyciana: “A evolução progressiva da arte resulta do duplo carácter do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco”, são as palavras inaugurais de Nietzsche na obra “Origem da Tragédia”. Apolo e Diónisos, estas duas divindades da arte andam lado a lado. Porém, desconcertadamente, face a face,  Antigüidade e  Modernidade = têm-se, então, os pares de opostos. De um lado, o herói homérico Odisseus. De outro, o anti-herói joyciano Leopold Bloom. De um lado, a fidelidade de Penélope;  d’ outro, a infidelidade de Molly Bloom... Os dois instintos impulsivos andam lado a lado? Homero (Antigüidade) e James Joyce (Modernidade). Floresta de signos...
     No texto clássico, as significações limitada. No texto moderno, a proliferação dos sentidos, ou melhor, a desorientação.
     Foi vã a tentativa de Nietzsche em procurar acomodar literalmente o trágico como algo de universalmente humano aos espectadores modernos, que, aliás, já não contam com valores absolutos, mas são dilacerados pela história?  Elegendo o drama barroco alemão como objeto de estudo, o leitor nietzschiano Walter Benjamin refuta o conceito tradicional da estética clássica, endereçando severas críticas a Nietzsche, pois,

“Na verdade, nada é mais problemático que a competência do ‘homem moderno’ para julgar, sem qualquer orientação, à luz dos seus sentimentos, e mais ainda quando se trata de um julgamento sobre a tragédia. Essa tese está documentada no ‘Geburt der Tragodie’, publicado quarenta anos antes da ‘Asthetik des Tragischen’, e se torna ainda mais plausível se se leva em conta o simples fato de que o teatro moderno não conhece nenhuma tragédia que se assemelhe à dos gregos. Desconhecendo esses fatos, tais teorias dão a entender, presunçosamente, que ainda hoje é possível escrever tragédias.” (Benjamin 1984, p.124)
 
     Além disso,  Benjamin, compreendendo as diferenças conceituais entre o drama barroco (que visa o espaço interno dos sentimentos) e a tragédia (que visa a catarse purificadora) - ambos igualmente comparados por estudos literários tradicionais -, entende que essas duas formas de expressão pertencem a universos espirituais distintos.

“O mito trágico é para Nietzsche uma construção puramente estética, e a interação de energias apolíneas e dionisíacas, da aparência e da dissolução da aparência, permanece restrita à esfera estética. Tendo renunciado a um conhecimento histórico-filosófico do mito trágico, Nietzsche pagou um preço alto por seu projeto de emancipar a tragédia  dos lugares-comuns morais com que os comentadores a desfiguravam (...) Quando a arte ocupa na existência  uma posição central que os homens são vistos como manifestações dessa arte, e não como o seu fundamento, não como seus criadores, mas como os temas eternos das criações artísticas, podemos dizer que não há mais base para a reflexão racional.”                                                                       (Benjamin 1984 , pp.125-6)


DIALOGISMO E POLIFONIA

     Acomodar o texto ao de / em outra época. Devemos observar que a intertextualidade na obra de Mikhail Bakhtin é, antes de tudo, a intertextualidade interna das vozes que falam e polemizam no texto, num texto, nele reproduzindo o diálogo com outros textos. Os fios dialógicos de vozes completam-se ou respondem uns aos outros. Em Bakhtin afirma-se o primado do intertextual sobre o textual. A paródia e o diálogo intertextual:

“Bakhtin é um dos primeiros a substituir o recorte estático dos textos por um modelo onde a estrutura literária não é / não está mas se elabora em relação a uma outra estrutura (...) Cruzamento de superfícies textuais, diálogos de várias escrituras (...) todo texto é absorção e transformação de outro texto. No lugar da noção de intersubjetividade instala-se a noção de intertextualidade”.(apud Kristeva  1993, p.93)   (2)

     E, assim, os “nós” da literatura e da filosofia tecem brilhantemente o intertextual:

     Zaratustra anuncia: “seduzir e afastar muitos do rebanho - eis a meta a que vim”. Com plena aceitação do real até em seus piores aspectos, Zaratustra, mensageiro da moral do super-homem, diz SIM a este mundo, o único.

     Nietzsche:  “_ O dizer-sim à vida, até mesmo em seus problemas mais estranhos e duros.”

     Molly Bloom (3):  “_  ...  E EU PUXEI ELE PRA BAIXO PRA MIM PARA ELE PODER SENTIR MEUS PEITOS TODOS PERFUME SIM O CORAÇÃO DELE BATIA COMO LOUCO E SIM EU DISSE SIM EU QUERO SIMS.”

     Nietzsche: “_ O dizer-sim à vida, (...) alegrando-se no sacrifício dos seus tipos mais superiores à sua própria inexauribilidade”.

     Molly Bloom: “_ ...  ET JE L’AI ATTIRÉ SUR MOI POUR QU’IL SENTE MES SEINS TOUT PARFUMÉS OUI ET SON COEUR BATTAIT COMME FOU  ET OUI J’AI DIT OUI JE VEUX BIEN OUI.”

     Nietzsche: “_ ... o dizer-sim à contradição e à guerra, o vir-a-ser, com radical recusa até mesmo do conceito de ‘ser’ ” .

     Molly Bloom: “_ ... AND DREW HIM DOWN TO ME SO HE COULD FEEL MY BREASTS ALL PERFUME YES AND HIS HEART WAS GOING LIKE MAD AND YES I SAID YES I WILL YES.”

     Nietzsche: “Alguém, neste final do século dezenove, tem nítida noção daquilo que os poetas  de épocas fortes denominavam inspiração? Se não, eu o descreverei...”         (Nietzsche, Ecce Homo)

     Benjamin (1984), citando Rosenzweig : “ ... a tragédia moderna visa um fim desconhecido pela antiga, a tragédia do homem absoluto em sua relação com o objeto absoluto”.



NOTAS

1. Referimo-nos ao ensaio 'Broch e Joyce'. In “riverrun: ensaios sobre James Joyce. Org. Arthur Nestrovski. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

2. Cf. LOPES, Edward. “A palavra e os dias: ensaios sobre a teoria e a prática literária”. São Paulo: Editora Unesp x Unicamp, 1993.

3. Cf. “Ulisses”, de James JOYCE. Moly Bloom é mulher do protagonista do referido romance, isto é, do personagem Leopold Bloom.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais”. São Paulo: Hucitec, 1987.

BENJAMIN, Walter. “Origem do drama barroco alemão”. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

HÉBER-SUFFRIN, Pierre. “O ‘Zaratustra’ de Nietzsche”. Tradução Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed. Tradução Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.

____________. “Ulysse”. Traduction Auguste Morel e Stuart Gilbert. Paris: Gallimard, 1948.

____________. “Ulysses”. New York: First Vintage Books Edition, 1986.

LOPES, Edward. “A palavra e os dias: ensaios sobre a teoria e a prática da literatura”. São Paulo: Editora Unesp x Unicamp, 1993.

NESTROVSKI, Artur. (Org.) “riverrum: ensaios sobre James Joyce”. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

NIETZSCHE, F.W. “Ditirambos de Diónisos”. Tradução Manuela Sousa Marques. Lisboa: Guimarães Editores, 1993.

NIETZSCHE, Friedrich W. “Obras incompletas”. 4 ed. 2 v. Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1987.



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS 
Campinas, é outono de 2006
 
 Sílvio Medeiros
 Publicado no Recanto das Letras em 11/05/2006
Código do texto: T154514

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POR QUE ReLer OS CLÁSSICOS NO CONTEMPORÂNEO?  (Ensaios) escrito em quarta 11 abril 2007 14:45

                     

        L'Apothéose d'Homere         

de Jean-Auguste Dominique Ingres




À memória de uma parente querida,
de uma princesa,
da minha prima-irmã
Kátia Marques Peres,
que foi levada deste mundo
no momento em que eu encerrava
estas linhas.

                                                                                                    Sílvio Medeiros
                                                                        Campinas, 20 de janeiro de 2003.




“...tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! (...)
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes elétricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços de Alexandre Magno do século talvez cinqüenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro de Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma...”
[FERNANDO PESSOA. Poemas de Álvaro de Campos: Orpheu I, Ode Triunfal]


     A aurora do nosso presente anuncia a ruptura com a tradição representada pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa. O Esclarecimento ou Iluminismo foi o principal movimento do pensamento moderno. Uma época esclarecida é aquela em que os homens atingem a maioridade pela capacidade de pensarem com autonomia (Kant, 1992). No entanto, aqui indagamos: o mundo moderno ou o mundo do progresso, ou ainda, o mundo da emancipação da humanidade deu certo?
     Pelas precedentes, o objetivo deste breve estudo anuncia-se no horizonte da modernidade. Iniciamos, portanto, enfrentando o problema crucial de uma caracterização do fenômeno contraditório da modernidade. Logo a princípio, entendemos tratar-se de um conceito ambíguo, polissêmico e gerador de equívocos. Entretanto, tais considerações não invalidam a possibilidade de tentarmos nos aproximar de uma definição, ainda que provisória e lacunar. Assim, numa primeira aproximação, caso nos refiramos à nossa modernidade (ao contemporâneo), ela bem se define enquanto um mundo sempre sujeito ao fluxo, em que nada é durável; um mundo em que “tudo que é sólido desmancha no ar”, para ficarmos com a definição de Marsahll Berman (1988), criada com base no vocabulário marxiano, que preenche as páginas do “Manifesto do Partido Comunista”, de Karl Marx. Nesse sentido, é próprio da nossa modernidade – regida pelo signo da novidade (o consumo, a moda, a publicidade etc.) – expulsar continuamente o antigo; nesse caso, ela se define pelo distanciamento que toma em relação ao passado, ou melhor, pela vontade obsessiva de aprofundar a dicotomia entre o velho e o novo ou entre o antigo e o moderno. É precisamente neste ponto que o eixo central do nosso questionamento se instala, ou melhor, procura entender o nosso tempo lendo os clássicos. Mormente, “por que ler os clássicos em vez de concentrar-se em leituras que nos façam entender mais a fundo o nosso tempo?” Uma das repostas que o escritor Ítalo Calvino (1993) remeteu a tal questão repousa no sentido de que cada sociedade está edificada sobre um poema (e, nesse caso, os modelos não nos faltam quanto a este dado; para fixarmos alguns exemplos, citemos, como por exemplo: a “Ilíada” e a “Odisséia”, ambas do aedo grego Homero, as quais edificaram a antiga civilização grega. A “Eneida”, do poeta mantuano Virgílio, edificou o Império Romano. “Os Lusíadas”, de Camões, edificou a civilização marítima portuguesa. “Dom Quixote”, de Cervantes, a cultura espanhola... E a nós, brasileiros, qual o poema afinal que nos edifica? “Macunaíma”, de Mário de Andrade?!...
     Em face disto, pensamos tratar-se de uma resposta típica de um historiador que se permite ir além das limitações impostas por certos cânones de historiografias tradicionais, na medida em que este historiador não exclui a visão literária do seu horizonte histórico. Como bem observa o historiador Paul Veyne (1984) “... em nossos dias, os raros estudiosos que, como Pound [Ezra Pound, poeta e crítico literário norte-americano] se interessam por um Propércio, fazem-no por razões que são as do nosso século e não pelas da poética antiga”, com a finalidade de ir mais longe na beleza e na realidade. Nesse caso, aqui conferimos legitimidade ao olhar interdisciplinar do historiador-materialista benjaminiano (1) que concebe a história literária como um momento da história geral ou como uma disciplina histórica. Desse modo, é do interior da configuração de uma historiografia, que autoriza o auxílio da imaginação literária, a fim de ampliar a busca da realidade histórica, que devemos lançar as perguntas do nosso tempo aos textos clássicos. Com quais finalidades?:
     a) Na tentativa de recuperarmos ou reavaliar os elementos perdidos ou reprimidos na transmissão, de geração a geração, dos conteúdos (tradição) da cultura ocidental; perdas estas causadas, em grande medida, pela progressiva e violenta recusa do passado que se constata desde o porvir da modernidade - cujo marco histórico encontra-se, a princípio, nos movimentos revolucionários que varreram o território francês, culminando com a queda da Bastilha, em 1789.
     b) Para entender o nosso tempo e, além disso, para desafiar os discursos predominantes no contemporâneo, construídos com base no culto ritualístico do futuro e na fragmentação da existência humana, características, aliás, fundamentais do mundo hodierno. Nesse caso, pensamos que somente a forma poética possui a propriedade de liberar a linguagem, redescobrindo, com isso, a figura do mundo na dispersão dos fragmentos.
    
     De outra parte, como se define a modernidade na tradição mais recente do pensamento filosófico ocidental?
     Percorrendo a extensa literatura filosófica voltada para o referido tema, constatamos que qualquer tentativa de apreendê-la em definitivo sempre se revelou tarefa sedutora, porém enganadora, pois, como já assinalamos anteriormente, as tentativas levadas a cabo para se conceituar esta “sereia industrial” tendem geralmente a desmancharem-se em ambigüidades e polissemias, como por exemplo: a modernidade já foi relacionada com os avanços da ciência, da técnica e até mesmo com a sucessão dos processos revolucionários; daí podermos até mesmo falar em modernidades, dado à maneira plural dessa fase histórica, sobretudo do mundo ocidental, se nos apresentar. É freqüente a corrente de pensamento marxista defini-la pela abstração, isto é, pelo princípio econômico; trata-se, na verdade, de uma tendência teórica reducionista, pois, definindo a modernidade pelo primado do econômico, é comum identificar a modernidade diretamente com o capitalismo.
     Contudo, de certos pontos de vista, a história pode ignorar a linha reta, cronológica, o “continuum”, pois, uma vez calcados na linha teórica da historiografia benjaminiana, a idéia de progresso histórico linear, legitimadora da idéia de progresso na história, mais do que a pretensa realização da razão na história (Hegel, 1995), apresenta-se, nas palavras de Walter Benjamin, como a força geradora da infernalidade do presente, isto é, da modernidade; ou também como algo destruidor da própria razão, na constatação de Adorno e Horkheimer (1986). São por tais motivos, aliás, que o Esclarecimento veio a revelar-se totalitário: esta é a tese frankfurtiana que interpreta a modernidade enquanto acúmulo de esperanças frustradas. Nesse caso, o conceito de Iluminismo é pensado como negatividade. Na obra “Dialética do Esclarecimento”, Adorno e Horkheimer identificam na “Odisséia”, de Homero, os germens da cultura contemporânea por meio de uma análise que interpenetra Mito e Esclarecimento. Contudo, persistindo na questão encetada no presente texto, perguntamos: O Iluminismo deu certo? A tecnologia é obra divina ou obra demoníaca? O mundo contemporâneo, como afinal se nos apresenta? Massificação, padronização, informatização, saturação, paisagens urbanas das metrópoles modernas superpovoadas e cheias de máquinas, de ruínas, e o humano, com efeito, se estandartiza. Trata-se, na verdade, de um processo que leva a perda do essencial nas pessoas e nas coisas. Em toda a superfície do planeta surgem poderosos movimentos de aceleração e de excesso. O desenvolvimento sem precedentes - na história da humanidade - da tecnologia nos dá a nítida impressão de que o tempo ou a história na nossa modernidade se acelera (Augé, 1997). Por meio do alheamento e da ausência de releitura ou de reinterpretação ou de atualização do quadro de valores (sobretudo direitos e deveres) gerado pela nossa tradição cultural - tecido no interior de um longo desenrolar histórico -, o indivíduo contemporâneo, na nossa modernidade, transita mergulhado em meio a uma sociedade da produção em série e do consumo de massas.
     Com bem enfatiza Hannah Arendt (1979), desde o advento da ciência moderna ou da supremacia do Eu, que tudo pode conhecer (“Penso, logo existo!” /Descartes), a noção de teoria deixou de significar um sistema de verdades, tornando, desse modo, a teoria científica em hipótese de trabalho. Assim, o agir instrumental passou a exercer forte hegemonia sobre o conjunto da sociedade moderna (Weber, 1982), abalando, definitivamente, os alicerces que asseguravam os comportamentos baseados em normas não instrumentais. Tal tipo de racionalização a estabelecer que a razão instrumental tudo pode (sem limites e reservas!) foi a responsável pela dissolução da “paidéia ocidental”. O desregrado culto da razão instrumental, desafortunadamente, tornou-se o único meio perfeito de pensar (Adorno e Horkheimer, 1986).
     Estas são algumas das perspectivas teóricas comprometidas em analisar aquilo que é mais característico e crítico no quadro da nossa modernidade, e que ainda a define num outro aspecto, isto é, mediante a luta que se verifica entre história e modernidade, em que a modernidade busca suspender a história continuamente. É nesse ponto que os textos do passado (os clássicos) devem comparecer para nos oferecer novas perspectivas. Como ressalta o poeta e crítico literário Octávio Paz (1996), “desenvolvimento, progresso, modernidade (...) Entre todas as maneiras de ler os grandes livros do passado há uma que prefiro: a que busca, neles, não o que somos, mas justamente aquilo que nega o que somos”.  
     De outra parte, tendo como fio condutor a dupla concepção de Walter Benjamin concernente à modernidade, em primeiro lugar, ela se revela hostil ao homem, pois, consoante a reflexão benjaminiana, a modernidade realizada pelo capitalismo, cuja técnica que lhe é adscrita, é instrumento de opressão, visto que deixa intactos os mitos modernos, não os questionando, como por exemplo: os mitos modernos do progresso, da ciência, do consumismo etc., esvaziando, dessa maneira, os potenciais utópicos da tradição, além de impedir o caminho para a emancipação humana, na medida em que contempla a vida inteira da humanidade como um processo de realização infinito, e não como um simples processo do mero devir.
     Em segundo lugar, do ponto de vista do filósofo Benjamin, a tradição é totalidade, mas é, também, uma incessante destotalização da história triunfante. Nesse sentido, a tradição deve ser entendida, também, como uma força desconstrutiva no seio das ideologias hegemônicas das historiografias. Assim, a obra poética serve, sobretudo, para construir uma temporalidade que supere o real ou que supere a história, concebida como idéia de progresso e regulada pela razão triunfante. Trata-se do imaginário poético a promover a síntese entre o sonho e a vigília por meio da obra poética, apresentando-nos uma outra dimensão no interior do “sempre igual” ou da nossa modernidade.
     Para Benjamin, a tarefa do historiador é libertar o passado de sua forma presente, desfigurado, mediante um ato do conhecimento, recolhendo no fluxo dos fenômenos aquilo que é fragmento, para libertar o objeto singular do fluxo e transformá-lo em mônada, salvando, assim, o objeto que, de outra forma, se perderia. Semelhante deve ser o nosso posicionamento diante das obras literárias, pois, nesse caso, assumimos, em grande medida, aquilo que Benjamin (na qualidade de crítico literário, foi estudioso das poéticas de Goethe, Proust, Brecht e outros) entendeu como a autêntica tarefa do crítico literário, isto é, aceitar a obra como fragmento, para fazer cintilar o seu conteúdo de verdade. Não sem razão, o materialista histórico (o historiador), na concepção de Benjamin, deve contemplar os bens culturais com distanciamento, pois, no processo de transmissão da cultura (tradição) as obras arrastadas no cortejo triunfal dos vencedores tendem a transformarem-se em documentos de barbárie (2). Nesse sentido, para poder ler os clássicos no contemporâneo, é preciso definir de onde eles estão sendo lidos, caso contrário, consoante Benjamin, tanto o livro quanto o leitor correm perigo.


NOTAS

1.Cf. BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito de história”, in Obras Escolhidas I. Tradução Sérgio P. Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985, pp.222-234.
2.Referimo-nos à tese 7 do texto “Sobre o conceito de história”, de Walter Benjamin.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor, HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução Guido A. de Almeida. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.
AUGÉ, Marc. Por uma antropologia dos mundos contemporâneos. Tradução Clarisse Meireles, Nereide Duarte. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução Mauro W.B. de Almeida. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1979.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio P. Rouanet. In “Obras Escolhidas I”, v.1, São Paulo: Brasiliense, 1985.
BERMAN. Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. Tradução Carlos F. Moisés, Ana M.L.Ioriatti. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.
CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. Tradução Nilson Moulin. São Paulo: Cia. das Letras, 1993.
HEGEL, G.W.F. A razão na história: introdução à filosofia da história universal. Tradução Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1995.
KANT, Immanuel. A religião nos limites da simples razão. Tradução Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1992.
PAZ, Octávio. Signos em rotação. 3 ed. Tradução Sebastião U. Leite. São Paulo: Editora Perspectiva, 1996.
PESSOA, Fernando. Poemas de Álvaro de Campos. v. II. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,1990.
VEYNE, Paul. Acreditavam os gregos em seus mitos: ensaio sobre a imaginação constituinte. Tradução Horácio González, Milton M. Nascimento. São Paulo: Brasiliense, 1984.
WEBER, Max. Ensaios de sociologia. 5 ed. Tradução Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1982.


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Doutor em História e Filosofia da Educação pela UNICAMP.


NOTA DO AUTOR: para um contato relativamente amplo com clássicos internacionais e nacionais, recomendo ao leitor uma consulta ao endereço: http://www.uol.com.br/cultivox ; link: e-livros grátis.
  
            
    
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 25/11/2005
Código do texto: T76125

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SOBRE A LÍRICA DE SAFO DE LESBOS: breve ensaio  (Ensaios) escrito em domingo 08 abril 2007 04:33

SAFO DE LESBOS

de Julio Argüelles  

 

 

 

 

 

    UMA IMAGEM VELOZ - QUAL RELÂMPAGO! - DA ANTIGA GRÉCIA



A LÍRICA DE SAFO* CANTA O AMOR

    
     Safo [? 617 a 560 a.C.?] de Lesbos, a poetisa da antiga Grécia como a própria essência da poesia lírica?!    
    Ah, o eterno drama do tradutor!
    A tradução rigorosa, com vigor e com paixão, bem tecida, inigualável.... Por fim, a compreensão em si mesmo do belo tecido, um tecido belamente bordado e, agora, rebordado, os fios da trama sobrepostos, 'palin'... palimpsesto:
    Eis, então, a bela tradução! (1).
    
   “A comparação com Homero mostra que Safo confere à paixão amorosa virtudes da poesia guerreira (...) Pensador, guerreiro e apaixonado não se excluem. No eu, toca-se a totalidade.” (2).
    Em papiros milenares, o amor sáfico canta a beleza dos rostos das lindas meninas:


“...eu amo a doçura do mundo ]    
[         ] o amor
    me concedeu ]  
[ a luz resplandecente e a beleza
                                                 do sol ]  [                                                    
                                                                                                                     ]”

(Safo. “Variações sobre a lírica de Safo: Ruínas”)


RUÍNAS (3)

“Nenhuma compreensão do passado pode ser total ou fazer sentido senão em virtude de sua própria fragmentariedade, pois nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história: (...) somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. Cada momento vivido transforma-se numa ‘citation à l’ordre du jour’ ...” (Benjamin 1985 , p.223)


PAPYRUS D’OXYRHYNCHUS

“O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer?” (Benjamin 1985, p. 223)

     Aqui, é a escritura poética de Marcel Proust, em busca de um tempo perdido...  que emerge acordada ao fragmentado pensamento benjaminiano:

“ ... a recordação faz-nos respirar de repente um ar novo, precisamente por ser um ar outrora respirado, o ar mais puro que os poetas tentaram em vão fazer reinar no Paraíso, e que não determinaria essa sensação profunda de renovação se já não houvesse sido respirado, pois os verdadeiros paraísos são os que perdemos.”  (Proust 1994, p.152)


HOYTOS EKEINOS!

     “Um minuto livre da ordem do tempo...” (Proust: 1994), e “a verdadeira imagem do passado perpassa veloz...” (Benjamin: 1985):
     _“? Como hablan Safo y sus amigas? Cómo es que hablan las mujeres?” (Benjamin: 1993). De toda a lírica sáfica – apaixonada e atordoada por meninas de faces rosadas – restam-nos, dolorosa e inexoravelmente, somente alguns fragmentos.
     _“? Como hablan Safo y sus amigas?”
     O passado traz um índice secreto que o impele à redenção. Existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa...


Pléres mèn...

“?Cómo hablan, pues , Safo y sus amigas?(...)El amor de sus cuerpos no procrea, pero resulta muy bello ver su amor. Se miran unas a otras. Su mirada lo inspira todo mientras las palabras se extinguen en el espacio. El silencio y el placer (eternamente separados en la conversación) vuelven a fundirse en una sola cosa ...”  (Benjamin 1993, p.106)


PHAINÓLES

     Um dos mais belos versos da lírica sáfico-amorosa:
     “Eu amo a doçura do mundo...”
     Assim é Safo. A desconhecida famosa poetisa da Grécia antiga mais próxima de nós:

“o doce feitiço destes cantos
eu vou tecer para as amigas ...      

às amigas adoráveis:
meu pensamento,
fiel para sempre...”      

  
“ ] a Lua já se pôs,
    e as Plêiades; é meia-
    noite; a hora passa
                               e eu
    deitada estou
                                sozinha[... "                

(Safo. “Poemas e fragmentos”)


VARIAÇÕES

     Aproximadamente 3.000 anos depois, o tradutor, refletindo sobre a obra poética de Safo, “reconhece a sua 'outridade', em função do horizonte de uma época longínqua que se opõe ao da nossa.” (4)


ABISMOS

“Mas ... o que trazemos nas mãos, ao atravessar a Porta de Marfim? (...) Por que jogamos com tanta melancolia?
Leitor e Tradutor atravessam a Porta de Marfim, trazendo nas mãos ‘nenhum ptyx, abolido bibelô de vazio sonoro’ (...):

[                   ]...

     L’ABSENTE”        
                                                             (Fontes 1992, pp.20-21)(5)

    
     A presença pensada do fragmento na lírica moderna:


[HOYTOS EKEINOS! LE VOILÁ: NUL PTYX!]

“ Ses purs ongles très haut dédiant leur onyx,
   L’Angoisse, ce minuit, soutient, lampadophore,
   Maint rêve vespéral brûle par le Phénix
   Que ne recueille pas de cinéraire  
                            amphore...”                      
                    (Mallarmé, “Petit Air”)



NOTAS

1. Cf. FONTES, Joaquim Brasil. “Eros, tecelão de mitos: a poesia de Safo de Lesbos”. 2ed. São Paulo: Iluminuras, 2003.
2. Cf. Idem, ibidem, prefácio de Donald Schüler.
3. Quanto aos subtítulos, que registraremos nos desdobramentos dos próximos tópicos, foram extraídos dos estudos filológicos de Joaquim Brasil Fontes em “Variações sobre a Lírica de Safo: texto grego e variações livres”. São Paulo: Estaç&ati