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ReLeituras

ULISSES, de James Joyce (tentativa de resumo da Parte I ou dos capítulos 1,2 e 3)  (ReLeituras) escrito em sexta 23 março 2007 14:12

JAMES JOYCE

Foto de Ottocaro Weiss 

Resumo da Parte I ou dos episódios 1,2 e 3, isto é, da "Telemaquia" joyceana)

        
    Autoria:Prof. Dr. Sílvio Medeiros


                                    EPISÓDIO 1 (TELEMACHUS)


   “_ Introibo ad altare Dei.” (“_ Entrarei no altar de Deus”): trata-se de uma expressão contida no prólogo do romance “Ulisses”, de James Joyce. Consiste na expressão pronunciada pelo personagem Buck Mulligan. Tal expressão dá origem a uma longa discussão entre os três protoganistas desse primeiro episódio. São eles: Buck Mulligan - médico pagão, adorador do mar - “Thalatta! Thalatta!” é uma palavra grega utilizada para saldar o mar... ela é, também, pronunciada por Mulligan; Kinch Haines, um amigo inglês de Mulligan e de Stephen Dedalus, jovem-artista-poeta irlandês. Os diálogos desenvolvem-se num local chamado “Torre do Martelo”, na cidade de Dublin - Irlanda. São 8 h. da manhã do dia 16 de junho de 1904. Stephen Dedalus é humilhado pelos companheiros. Dedalus - um bardo execrável, segundo Mulligan - é julgado dupla e severamente pelos companheiros, sobretudo devido à sua formação jesuítica e pelos sentimentos de culpa que carrega consigo, por ter se ausentado do leito da mãe moribunda,  negando-lhe, desse modo, a última oração : “_Você não conseguiu ajoelhar-se para rezar por sua mãe no seu leito de morte, quando ela lhe pediu. Porquê ? Porque você tem esse amaldiçoado sangue jesuíta em suas veias...” (“_ You wouldn’t kneel down to pray for your mother on her deathbed when she asked you. Why? Because you have the cursed jesuit strain in you...”), vocifera Mulligan.
   Mulligan e Haines deploram a crença de Stephen Dedalus na consubstanciação de Deus-Pai-Filho, mediante a teoria do jovem poeta de que “o neto de Hamlet é o avô de Shakespeare e que ele mesmo é o espírito do próprio pai...” (“... that Hamlet’s grandson is Shakespeare’s grandfather and that he himself is the ghost of his own father”). Assim, Mulligan e Haines insistem em chamá-lo de bardo execrável, além dos freqüentes ataques que ambos dirigem à Irlanda católica.
   É importante notar como a presença da figura do pai - entrelaçada com a literatura shakesperiana -, além de alucinações messiânicas, são elementos em permanente conflito na mente de Stephen Dedalus. Nesse sentido, tais elementos já começam a moldar a personalidade do jovem artista neste primeiro episódio. Destacamos este ponto porque a figura do pai espiritual de Stephen Dedalus receberá tratamento especial ao longo do romance, noutras palavras, é este um dos motes centrais durante o desenvolvimento do enredo do romance.



 EPISÓDIO 2 (NESTOR)
   Este episódio tem lugar na escola onde Stephen Dedalus leciona – Dedalus está preste a solicitar demissão. Stephen ministra aulas de história: “Efabulada pelas filhas da memória” (“Fabled by the daugthers of memory”) ... o tema da aula é enfadonho e pesado, versando sobre fatos e heróis da história geral e, em específico, da história romana. A aula é entremeada por freqüentes interrupções feitas pelos alunos. Todos insistem para que o professor Stephen conte uma história imaginária. Stephen se rende às solicitações dos alunos. Porém, contrariando a expectativa lançada ao grupo de alunos, Stephen propõe-lhe a seguinte adivinha:

“O galo cucuricou
No céu o azul se espraiou:
Celestes sinos de bronze
Bimbalalaram as onze.
Tempo para esta pobre alma
Ter do paraíso a calma.”  (p.25)

(“The cock crew,
The sky was blue:
The bells in heaven
Were striking eleven.
‘Tis time for this poor soul
To go to heaven.”)      (p.22)

   Que é que é?
    “_ A raposa enterrando a avó debaixo de um azevinho.” (“_ The fox burying his grandmother under a hollybush.”), responde o próprio Stephen, pois, naquele momento, tem início a hora do intervalo. A presença do professor Stephen é solicitada na sala do diretor da escola, o sr. Deasy.
   Stephen comparece (e visita) na sala do sr. Deasy. O escritório é decorado com moedas antigas, além de conchas e retratos de cavalos. A personalidade do sr. Deasy começa a se configurar por meio do diálogo que estabelece junto a Stephen: “..._ Ainda não sabe o que é o dinheiro. Dinheiro é poder, quando tiver vivido como já vivi.” (“_ Because you don’t save, Mr Deasy said pointing his finger. You don’t know yet what money is. Money is power. When you have lived as long as I have”), enfatiza o sr. Deasy. “_ Não uso de rodeios, uso?” (“_ I don’t mince words, do I? “), pergunta o sr. Deasy a Stephen Dedalus.   
   O diálogo entre ambos ruma em direção às concepções que cada um possui sobre a história. Enquanto o jovem professor Stephen afirma que, do seu ponto de vista, a história é um pesadelo do qual ele sempre tenta despertar; ao contrário, o Sr. Deasy a concebe como manifestação de Deus. O diretor ressalta, ainda, que as mulheres e o povo judeu foram dois elementos históricos que perturbaram o desenrolar teológico da história. Do ponto de vista do sr. Deasy foi “_ ... uma mulher que trouxe o pecado para o mundo (...) Helena, a esposa fujona de Menelau.” (“ _ A woman brought sin into the world (...) Helen, the runaway wife of Menelaus...”) . O sr. Deasy insiste, também, em afirmar que a Inglaterra nas mãos dos judeus encontra-se em franca decadência: “_ A Inglaterra está nas mãos dos Judeus (...) E são o sinal da decadência de uma nação.” (“_ England is in the hands of the jews (...) And they are the signs of a nation’s decay”).
   Depois de ouvir, contrariado, o diretor da escola, Stephen Dedalus procura atender a uma solicitação feita pelo sr. Deasy: dirige-se, então, até o jornal “The Evening Telegraph”, levando consigo um artigo - de autoria do diretor, o sr.Deasy - sobre a febre aftosa. No referido artigo, o argumento central do Sr.Deasy é que não pode haver duas opiniões sobre esta questão.
   Stephen deixa a escola e parte pelas ruas de Dublin, em direção ao jornal.


EPISÓDIO 3 (PROTEUS)
   Após deixar a escola do sr. Deasy, Stephen segue rumo ao jornal. Põe-se, então, a confabular em prolongadas meditações psicológicas contrastadas com um abstrato e indefinido fluxo da consciência: “Vê agora. Aí todo o tempo sem ti: e sempre o será, mundo sem fim...” (“See now. There all the time without you: and ever shall be, world without end...”). Trata-se do fluxo do pensamento de Stephen, repleto de recordações pessoais, induzindo-o a refletir sobre o mundo em constante transformação: “Seu passo afrouxou. Aqui. Vou ou não vou à tia Sara? A voz do meu pai consubstancial (...) E e e e diga-nos Stephen, como vai tio Si? Oh, sangue de Deus, as coisas em que estou afundando” (“His pace slackened. Here. Am I going to aunt Sara’sor not? My consubstancial father’s voice (...) And and and and tell us, Stephen, how is uncle Si? O, weeping God, the things I married into”).
   A tendência do pensamento do jovem poeta Stephen é ligar-se a conceitos abstratos e a conflitos religiosos, numa meditação prolongada, com um desfecho à beira-mar:

“Primo Stephen, não serás nunca um santo. Ilha de santos. Eras terrivelmente piedoso, não eras? Rezavas à virgem Bendita para que não tivesses vermelho o naria. rezavas ao diabo na Avenida Serpentine para que a viúva fornidinha na frente levantasse da rua molhada um pouco mais as saias.”(p.34) (...) “Sob a inflante maré ele via as ervas recurvas levantar-se languescentes e oscilar indecisos braços, erguendo anáguas, em sussurrantes águas oscilando e revirando argênteas frondes recatadas.” (p.41)

(“Cousin Stephen, you will never be a saint. Isle of sants. You were awfully holy, weren’t you? You prayed to the Blessed Virgin that you might not have a red rose. You prayed to the devil in Serpentine avenue that yhe fubsy widow in front might lift her clothes still more from the wet street. (...) Under the upswelling tide he saw the wrinthing weeds lift languidly and sway reluctant arms, hising up theirs petticoats, in whispering water swaying and upturning coy silver fronds.”) (p.34-41)
BIBLIOGRAFIA

JOYCE, James. Dublinenses. 4 ed. Tradução Hamilton Trevisan. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.

_____. Ulisses. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

_____. Ulysses. New York : Vintage Books, 1986.


NOTA DO AUTOR:

Caro leitor: em breve apresentarei a continuação dos episódios do “Ulisses” de James Joyce.
Para o momento, sugiro a leitura da minha tentativa de resumo da “Odisséia” homérica (disponibilizada - ainda inconclusa - neste site, isto é, no “Recanto das Letras”), no sentido – a quem interessar possa – do leitor apreciar o jogo de efeitos intertextuais da arcaica poética de Homero na moderna poética de James Joyce. Vale, ainda, ressaltar que os três primeiros episódios de “Ulisses”, comumente nomeados de “Telemaquia joyceana”, correspondem, em se tratando de intertextualidade, aos quatro primeiros Cantos da “Odisséia” homérica, comumente conhecida como “Telemaquia”. 


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2005.

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 27/12/2005
Código do texto: T91031

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ODISSÉIA, de Homero (tentativa de resumo: Cantos XXI a XXIV)  (ReLeituras) escrito em segunda 19 março 2007 12:56

Palas Atena

Deusa da Sabedoria 

 

 

 

"ODISSÉIA", DE HOMERO

(RESUMO DE LEITURA: Cantos XXI, XXII, XXIII e XXIV)
                  
                  

Autoria: PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
             

                                                                   

 

                                                                    À gentil leitora DIANA GONÇALVES,
                                                                                         escritora e educadora,
                                                                                                                     com
                                                                                                           um abraço
                                                                                                                        do
                                                                                              SÍLVIO MEDEIROS.


                      

CANTO XXI

     Telêmaco ordena a Euricléia que feche todas as portas do palácio. A deusa Palas Atena, a de olhos glaucos, inspira Penélope quanto ao plano de celebrar, entre os pretendentes, um concurso de arco e flecha - cujo arco pertencera ao divo Odisseu. O vitorioso do certame seria o futuro marido de Penélope. A fiel mulher de Odisseu anuncia, então, a todos, as regras da prova: retesar um arco e disparar um dardo junto a uma flecha em meio a um orifício formado por uma série completa de doze machados. O porqueiro Eumeu foi designado por Penélope a apresentar as armas aos invasores. O audacioso pretendente Antínoo interpela, em termos ásperos, o divino porqueiro.
   Após este violento fato, o jovem valente Telêmaco propõe-se, também, a enfrentar a prova, na tentativa de resgatar a mãe das mãos dos algozes. Em seguida, o próprio filho passa, em nome do sacro poder, a louvar Penélope, dizendo que nunca houvera em todo o mundo mulher tão virtuosa: "_ Ah! misère! c'est Zeus , c'est le fils de Cronos qui me trouble l'esprit. Ma mère, cette femme à l'esprit de sagesse ..."; ("_ Pobre de mim! Por sem dúvida Zeus me privou do bom senso. Diz minha mãe mui prezada, conquanto bastante prudente (...) uma mulher como em terra da Acaia outra igual não se encontra, nem mesmo em Pilo sagrada, tampouco em Micenas, na Argólida, na terra firme anegrada, ou nesta ilha, visível ao longe...") (p.354).  
   Depois de pronunciado o louvor, de tal força as palavras, Telêmaco habilita-se a manipular o arco e a flecha. Entretanto, mal consegue sustentar as armas em suas mãos: passa, então, a lamentar o próprio infortúnio da ausência de força física.
   Primeiramente, o arrogante pretendente Antínoo propõe que a prova comece com Liodes. Contudo, Liodes foi incapaz de até mesmo vergar o arco.
   Enquanto isso, o vaqueiro, o porqueiro Eumeu e o divo Odisseu encontram-se a dialogar. Odisseu, ainda pretendendo testar a fidelidade de ambos, pergunta se eles estariam dispostos a lutar pelo patrão, até que o último retornasse a Ítaca, guiado pelos deuses. Os dois prontamente disseram que sempre estariam ao lado dos desígnios de Zeus e dos deuses propícios, portanto, ao lado do amado patrão. Nesse momento, Odisseu comprova a sinceridade de ambos, revelando-lhes a verdadeira identidade: "... écartant ses haillons, il montra la grande cicatrice." ("_ Vedê-me aqui! Vou mostrar-vos, agora, um sinal evidente, porque possais conhecer-me, de fato, e ter plena confiança: a cicatriz que ficou dos colmilhos de um grande javardo..." quando caçava, em criança, no monte Parnaso, junto aos filhos de Autólico. O boieiro e o porqueiro põem-se a chorar de emoção diante da revelação tão aguardada. Exultantes de felicidades, os dois homens beijavam-lhe os ombros e a testa; Odisseu beijava a cabeça e as mãos de ambos. Todavia, contido, o divino Odisseu pede, então, que cessem com as lágrimas e as tristezas, pois, naquele momento, o mais importante era transferir aos dois fiéis aliados os detalhes sobre o plano atinente à matança de todos os usurpadores do palácio itacense.
   Assim, Odisseu dá ordens imediatas a Eumeu: fechar todas as portas do palácio e também ajuntar as mulheres, distanciando-as do aposento no qual deveria ocorrer a sangrenta matança.
   Enquanto isso, os pretendentes Eurímaco e Antínoo, temerosos em não conseguir vencer o certame, começam a planejar o adiamento da participação de ambos na aludida prova. Desse modo, prometeram que, no dia seguinte, fariam um sacrifício dirigido a Apolo, visando alcançarem pleno sucesso no certame. Entretanto, o divino Odisseu insiste, junto aos dois pretendentes, que lhe entregue o arco e a flecha, pois pretendia manipular os instrumentos de guerra e participar, também, da prova. Causou repulsa a Antínoo o desejo do "mendigo". No entanto, a astuciosa Penélope imediatamente coloca em dúvida a força do estrangeiro. O provocador Eurímaco pede, então, que Penélope ceda ao ancião aqueles instrumentos, a intencionar, com isso, mais tarde, humilhar novamente o ancião pelo provável fracasso no empreendimento.
   Finalmente as armas são depositadas nas mãos do divino Odisseu: manejando o arco, Odisseu dispara a flecha, tornando-se o vitorioso do certame!!
   Entrementes, a vingança está preste a se concretizar.



CANTO XXII

     Logo, Odisseu se despiu das roupas imundas e, primeiramente, fere Antínoo. Em seguida, os coléricos pretendentes investem em conjunto contra Odisseu. O herói itacense, num instante da luta sangrenta, brada:

"_ Ah! chiens, vous pensiez donc que, du pays de Troie, jamais je ne devais rentrer en ce logis! vous pilliez ma maison! vous entriez de force au lit de mes servantes! et vous faisiez la cour, moi vivant, à ma femme!... sans redouter les dieux, maîtres des champs du ciel!... sans penser qu'un vengeur humain pouvait surgir!... Vous voilà maintenant dans les noeuds da la mort!. " (p.130)

" _ Cães, não pensáveis, decerto, que um dia voltar eu pudesse
lá da planície de Tróia, e por isso meus bens arruináveis,
às minhas servas fazíeis violências sem conta, aqui dentro,
e pretendíeis-me a esposa, apesar de que eu vivo estivesse,
sem terdes medo dos deuses eternos que moram no Olimpo
nem da vingança dos homens, que um dia pudesse alcançar-vos.
Sobre vós todos, agora, já impendem as malhas da Morte." (p.366)
     
   A força descomunal de Odisseu - dádiva dos deuses, sobretudo da deusa de olhos glaucos, Palas Atena - vai atirando ao chão um a um, todos os pretendentes!
   Odisseu pede, então, ao amado filho Telêmaco que cuide da sala das armas; mas Melântio havia aberto a porta da sala das armas!! Odisseu então mata Melântio.
   Em meio à cruel matança Odisseu roga à deusa Atena, que se encontrava no recinto, que o salvasse da morte. Palas Atena, logo em seguida, metamorfoseou-se de andorinha, pondo-se, apenas, a apreciar a batalha sangrenta.
   Os pretendentes, imaginando que a deusa havia abandonado o filho predileto, Odisseu, investiram armados de dardos contra o divino herói. Porém, a deusa, a de olhos glaucos, desvia todos os dardos lançados contra Odisseu. A partir desse momento, a matança ganhou um ritmo bastante acelerado, com Odisseu, finalmente, dando cabo a todos os pretendentes.
   Entretanto, resta um aedo no salão. Suplicante, o aedo (poeta-cantor) Fêmeo, que à força cantava em meios aos pretendentes, assim se dirige ao divo Odisseu Laercíada:

" _ Je suis à tes genoux, Ulysse, épargne-moi!... ne sois pas sans pitié!... Le remords te prendrait un jour d'avoir tué l'aède, le chanteur des hommes et des dieux! Je n'ai pas eu de maître! en toutes poésies, c'est un dieu qui m'inspire! je saurai désormais te chanter comme un dieu! donc résiste à l'envie de me couper la gorge!..." (p.143)

"Os teus joelhos abraço, Odisseu; tem piedade e respeito!
Arrependido virás a ficar se matares a um vate,
cujas canções sempre foram dedicadas aos deuses e aos homens.
Fiz-me por mim, tão-somente, que um deus em minha alma ditou-me
muitas canções. Dá que possa cantar junto à tua pessoa
como ante um deus; não procures, portanto, privar-me da vida." (p.375)

   Diante de tais palavras, e por recomendação do prudente filho Telêmaco, Odisseu poupa o aedo da morte certa.
   Após constatar que todos os pretendentes estavam mortos, o herói Odisseu chama a escrava Euricléia e ordena-lhe que limpe todo o salão ensangüentado; depois, quis conhecer o número de mulheres escravas traidoras. Todas são mortas, enforcadas, de uma só vez, por Telêmaco, numa emboscada.



CANTO XXIII

     Euricléia corre aos aposentos de Penélope e dá a notícia que Odisseu está no palácio! e acabara de matar todos os pretendentes!!
   Penélope supõe, aturdida, que os deuses haviam enlouquecido a fiel criada Euricléia. Entretanto, Euricléia insistia, em narrar a Penélope, todos os detalhes daquilo que somente ouvira e outros (pois as escravas encontravam-se encerradas numa sala próxima ao local da matança, por ordem de Odisseu) contaram, com respeito à matança dos pretendentes. A ardilosa Penélope até finge naquilo tudo acreditar, mas, por fim, resolve, então, deixar os seus aposentos, no intuito de confirmar, junto ao filho, os fatos revelados e relatados por Euricléia. Entretanto, Penélope foi duramente interpelada pelo indignado Telêmaco, pois a mãe continuava a duvidar da presença de Odisseu no palácio.

"_ Ton coeur est trop cruel, mère! ô méchante mère! de mon père, pourquoi t'écarter de la sorte? ... auprès de lui, pourquoi ne vas-tu pas t'asseoir, lui parler, t'énquerir?... fut-il jamais un coeur de femme aussi fermé?... s'éloigner d'un époux quand, après vingt années de long maux et d'épreuves , il revient au pays!... Ah! ton coeur est toujours plus dur que le rocher!" (p.154)

"_ Sem coração! Não és mãe! Sentimento cruel tens no peito.
Por que motivo te afastas, assim, de meu pai e ao seu lado
não vens sentar-te, fazendo perguntas e ouvindo-lhe a fala?
Nenhuma esposa ficaria insensível desta arte, sentada,
longe do caro marido, que, após vinte anos de ausência
e de trabalhos, voltasse, afinal, para a terra nativa.
Tens coração no imo peito, em verdade, mais duro que a pedra." (p.384) 
    
   Com efeito, a prudente Penélope, em segredo, nutre um plano: somente Odisseu seria capaz de reconhecer certos sinais relativos à intimidade conjugal do casal. E Odisseu descreve os detalhes sobre a construção do leito conjugal:

"... La façon de ce lit, c'était mon grand secret! C'est moi seul, qui l'avais fabriqué sans un aide. Au milieu de l'enceinte, un rejet d'olivier éployait son feuillage; il était vigoureux et son gros fût avait l'épaisseur d'un pilier: je construisis, autour, [ en blocs appareillés,] les murs de notre chambre [ ; je la couvris d'un toit] et, quand je l'eus munie d'une porte aux panneaux de bois plein, sans fissure ..." (p.158)

" ... ; _ um sinal tinha outrora,
particular, esse leito bem-feito, que eu próprio construíra.
Uma oliveira de espessa folhagem no pátio crescera;
como coluna era o tronco maciço depois de florido.
à volta dele elevei minha câmara, até vê-la pronta,
toda de filas de pedras e um teto bem-feito por cima.
Sólidas portas lhe pus, trabalhadas com muito carinho.
Só depois disso cortei a folhagem da grande oliveira
e o tronco todo lavrei, desde baixo, alisando-o com bronze,
para em um pé transformá-lo, da cama, furando-o com trado... (p.387)

   A descrição narrada por Odisseu era verdadeira, e Penélope constata, finalmente, estar, frente a frente, junto ao marido, desaparecido há vinte anos! Lacrimosa, Penélope abraça o tão querido marido. Odisseu diz, então, para Penélope, a predição do adivinho - residente no Hades - Tirésias:

"_ O femme, ne crois pas être au bout des épreuves! il me reste à mener jusqu'au bout,quelque jour, un travail compliqué, malaisé, sans mesure: c'est le devin Tirésias qui me l'a dit, le jour que, débarqué à la maison d'Hades, je consultai son ombre la voie du retour pour mes gens et pour moi... Mais gagnons notre lit, ô femme! il est grand temps de dormir, de goûter le plus doux des sommeils!" (pp.160-161)
    
"_ Ainda, mulher, não chegamos à meta das nossas desditas,
sim me reserva o futuro acabar uma empresa indizível,
longa e difícil, que a mim, só, compete levar a bom termo.
A alma do vate Tirésias desta arte me fez vaticínios
quando no de Hades palácio a pisar eu me vi obrigado,
para que dele instruções obtivesse a respeito da volta.
Mas para o leito subamos, mulher, finalmente, que juntos
no doce sono possamos fruir agradável repouso." (p.388)

   Ambos se aconchegam no leito nupcial e aos prazeres do amor se entregam. Uma vez saciados os desejos, Odisseu narra, então, a Penélope, todas as aventuras e desventuras vividas durante o seu longo exílio de Ítaca. A última história foi sobre os cordiais Feácios... e, por fim, a ambos o sono agradável e relaxante lhes sobreveio.
   A Aurora, de dedos de rosa, sai do Oceano, para que aos homens a luz conduzisse. Odisseu desperta e demonstra o desejo de rever o pai, o velho herói itacense Laertes.

 

 

CANTO XXIV

O deus mensageiro do Olimpo, Hermes, conclamava pelas almas dos pretendentes, "convidando-as", desse modo, a entrar no Hades. O deus mensageiro guiava uma grande chusma de almas uivantes, todas em direção ao interior do Reino dos Mortos. Lá se encontravam as almas dos guerreiros Argivos a dialogar e a se perguntarem de quem afinal se tratava tão grande número de almas que entrava pelo Hades a um só tempo.
   Então, a alma do pretendente Anfímedonte narra, a todos, os acontecimentos que dera origem à história do reencontro entre o herói Odisseu e sua fiel Penélope. Anfímedonte resume, às sombras ouvintes, o "Nostos" (o "Retorno" do herói a Ítaca) do divino Odisseu. Um início de revolta se alastra entre as sombras dos heróis gregos já mortos, porém, logo aplacada pela interferência e sensatez de Palas Atena.
   Enquanto tais desdobramentos tinham lugar nas profundezas do Hades, Odisseu sai em busca do pai, Laertes, que, desgostoso pela ausência do filho, se encontrava em profundo estado de melancolia, em auto-exílio numa fazenda distante de Ítaca.
   Chegando ao local, Odisseu se apresenta a Laertes; porém, o pai não reconhece o amado filho. Então, em primeiro lugar, Odisseu diz ao pai chamar-se Epérito; narra, então, uma breve história, dizendo ao infeliz Laertes que Odisseu estivera em suas terras num período de quatro anos. Laertes põe-se a chorar convulsivamente. O filho, penalizado com a angústia do pai, apresenta-se, finalmente, como Odisseu. Laertes ainda duvida da veracidade daquelas palavras, pedindo provas ao herói. Odisseu então passa a apresentar uma série de sinais: dentre eles, pede para Laertes examinar a cicatriz que trazia numa das pernas. Em seguida, rememora como se dera a disposição das árvores frutíferas durante a formação do pomar de Laertes. Diante de tais sinais, Laertes convence-se, finalmente, tratar-se realmente do seu filho Odisseu. Ambos se abraçam e choram. Em seguida, vão saborear uma refeição a fim de festejar o tão aguardado reencontro.
   Enquanto isso, a "Fama" - a rápida mensageira - espalha as recentes notícias por toda Ítaca.
   Eupites, pai de Antínoo, corre até a Ágora, conclamando todos os cidadãos itacenses a erguerem-se contra o herói Odisseu, responsável por todas as desgraças advindas à pátria.
   Contudo, do alto do Olimpo, Palas Atena implora a Zeus que cesse a guerra:

" _ Fils de Cronos, mon père, suprême Majesté! réponds à ma demande! n'as -tu pas en ton coeur quelque dessein caché? vas-tu faire durer cette guerre funeste et sa mêlée terrible? ... ou veux-tu rétablir l'accord des deux partis?

"_ Crônida, pai de nós todos, senhor poderoso e supremo!
Dize-me, que ora te peço: o que tens no imo peito guardado!
O prélio horrível desejas e a fera batalha, que sejam
efetuados, ou queres que a paz entre os grupos se firmem?" (p.407)

   Assim, do Olimpo, por Zeus, Palas Atena, a deusa de olhos glaucos, é autorizada a atirar sua lança mortal contra Eupites: o infeliz tomba vencido. E o pacto de paz permanente a donzela de Zeus poderoso, a de olhos glaucos, Palas Atena, firmou entre os grupos inimigos.

                                                        

                                                         FIM

BIBLIOGRAFIA

HOMÈRE. "L'Odyssée". Texte établi et traduit par Victor Bérard. Tomes I ( huiteme tirage ) , II ( neuvieme tirage) et III (huiteme tirage). Paris: Les Belles Lettres, 1972 - 1974 - 1987.

HOMERO. "Odisséia". Tradução Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, verão de 2006

SÍLVIO MEDEIROS Publicado no Recanto das Letras em 11/01/2006
Código do texto: T97115

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"ODISSÉIA", DE HOMERO (continuação da tentativa de resumo dos Cantos finais: XXI, XXII, XXIII, XXIV)2006Recanto das LetrasSÍLVIO MEDEIROSSÍLVIO MEDEIROStext/plain -->
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ODISSÉIA, de Homero (continuação da tentativa de resumo: Cantos XVIII a XX)  (ReLeituras) escrito em segunda 19 março 2007 12:14

 

Penélope a tecer

 

 

 

“ODISSÉIA”, DE HOMERO (RESUMO DE LEITURA/ Cantos XVIII, XIX e XX)

 

Autoria: PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS

 

 

CANTO XVIII

     Existia, sempre a vagar em Ítaca, um mendigo corpulento, de bela aparência, contudo não dotado de coragem. O nome dele era Iro e, por esta ocasião, tornara-se o mensageiro exclusivo dos pretendentes. Iro era muito famoso na cidade, pois era o portador de todos os recados. Iro entrou no palácio e tentou expulsar Odisseu da própria morada. Amaldiçoando-o, Odisseu pergunta ao mendigo que mal afinal lhe fizera. Entretanto, atento à discussão, Antínoo formula uma maldosa proposta aos dois mendigos: lutariam entre si, e o vencedor da peleja teria um lugar assegurado junto aos pretendentes. Os dois mendigos preparam-se para a luta. Entretanto, a platéia que se formou para acompanhar a peleja - notando o forte busto desnudo de Odisseu, que se preparava para a luta – contemplou o mendigo bastante admirada, ficando intrigada com o vigor físico daquele (falso) ancião. Os dois adversários lutam e, finalmente, Odisseu é o vencedor. Pouco a pouco, Odisseu - disfarçado de mendigo - passa a ganhar a antipatia dos pretendentes; Anfínomo e Antínoo, ambos passam a dirigir palavras insultuosas ao mendigo vencedor da peleja. Então, o herói disfarçado de mendigo toma a palavra, dizendo, em tom de advertência, que Odisseu em breve voltará: “_ Je vois ces prétendants machiner des folies! Ils outragent l’épouse et dévorent les biens d’un héros qui n’est plus éloigné pour longtemps, c’est moi qui te le dis, de sa terre et de siens; ...” (“..._ os pretendentes, agora, aqui vejo mostrarem-se iníquos, a consumirem sem regra a fazenda, e insultando a consorte do homem que julgo, não mais do país de nascença há de achar-se por muito tempo afastado. Está perto...”). Enquanto isso, Penélope, fingindo alegria, pede às criadas que a preparem, pois intencionada está a se apresentar aos pretendentes. Os deuses devolvem a Penélope a sua antiga beleza, sem qualquer marca de sofrimento. Penélope desce até o salão onde se encontravam os pretendentes, além do (falso) mendigo. Dirige palavras de indignação a Telêmaco, por ter permitido que o mendigo fosse injuriado em seu próprio palácio. Telêmaco responde à mãe que agiu com prudência, afinal de contas o vencedor agora era um hóspede-pretendente. O momento torna-se propício para que Penélope ouça, por parte dos pretendentes, maliciosos elogios sobre a sua beleza. Penélope, em resposta, a todos diz: “_ ...ma valeur, ma beauté, mes grands airs (...) les dieux m’ont tout ravi, lorsque, vers Ilion, les Achéens partirent, emmenant avec eux Ulysse, mon époux! Ah! s’il me revenait pour veiller sur ma vie, que mon renom serait et plus grand et plus beau! Je n’ai plus que chagrins, tant le ciel me torment!...” (p.60) “_ ...a forma do corpo e a beleza, mas desfizeram os deuses no instante em que os homens de Aquivos com meu esposo Odisseu para Tróia, em navio, partiram. Mas, se ele viesse de novo e pudesse amparar-me cuidoso, muito melhor me seria e mais fama, também, me coubera. Ora aflições me acabrunham; demônio funesto me oprime.” (pp.312-3) Em seguida, os pretendentes passam a oferecer presentes à Penélope. Após o recolhimento de Penélope aos seus aposentos, Melanto - escrava de Penélope (criada pela última como se filha fosse, além de amante do pretendente Eurímaco) - continua no salão junto aos pretendentes, e começa a insultar Odisseu - disfarçado de mendigo. Odisseu retribui os insultos recebidos de Melanto. O amante de Melanto – Eurímaco -, irritado com tudo aquilo, toma um escabelo e lança contra o mendigo, atingindo-o no ombro direito. O jovem Telêmaco, indignado por Eurímaco ter ferido o próprio pai, insulta os pretendentes com muitas palavras, propondo, em seguida, de forma convincente e sensata, que todos fossem dormir, pois o vinho, naquele momento, fervia-lhes na cabeça. Todos aprovaram o discurso de Telêmaco.

 

 

CANTO XIX

 

Odisseu, sempre a premeditar a matança de todos pretendentes, pede mais uma vez a Telêmaco que procure guardar em lugar seguro as armas de guerra. Odisseu continua, ainda, a ser insultado pela escrava Melanto. Indignado, Odisseu dirige a ela as seguintes palavras: “_ Malheureuse, pourquoi me harceler ainsi d’un couer plein de colère? Je suis sale, il est vrai, et n’ai que des haillons, et je vais mendiant par la ville: que faire, quand le besoin nous tient?... c’est le destin de tous les gueux et vagabonds...” (p.71) “ _ Por que motivo, demônia, embirraste comigo e me ofendes? Por estar sujo, talvez e vestir estes trapos imundos, e pechinchar entre o povo? O Destino me força a fazê-lo, os vagabundos e os pobres têm todos a mesma aparência...” (p.321) Neste instante, Penélope estabelece um diálogo junto ao mendigo. Pergunta ao estrangeiro sobre a sua procedência. Odisseu diz algumas palavras (narra uma curta história), fazendo prevalecer, em sua narrativa, que se tratava de uma pessoa bastante infeliz. Penélope então narra a sua história para Odisseu. Diz, em tons melancólicos, que, no presente, tudo é diferente do passado. Em seguida, narra para Odisseu a trama que articulara para enganar os pretendentes: “ _ ... Le seul regret d’Ulysse me fait fondre le coeur. Ils pressent cet hymen. Moi, j’entasse les ruses. Un dieu m’avait d’abord inspiré ce moyen. Dressant mon grand métier, je tissais au manoir un immense linon et leur disais parfois: ‘Mes jeunes prétendants, je sais bien qu’il n’est plus, cet Ulysse divin! mais, malgré vos désirs de hâter cet hymen, permettez que j’achève ! tout ce fil resterait inutile et perdu. C’est pour ensevelir notre seigneur Laerte: quand la Parque de mort viendra.... (...) Sur cette immense toile, je tissais tout le jour; mais, la nuit, je venais, aux torches, la défaire. Trois années, mon secret dupa les Achéens...” (pp.73-74) “ ... _ O casamento eles todos [os pretendentes] exigem; com dolo me escuso. Primeiramente, um tear construir inspirou-me um dos deuses. Tendo estendido no quarto uma tela sutil e assaz grande, pus-me a tecer, enganando-os, depois, com fingidas palavras: ‘_ Jovens, porque já não vive Odisseu, me quereis como esposa. mas não instei sobre as núpcias, conquanto vos veja impacientes, té que termine este pano, não vá tanto fio estragar-se, para a mortalha de Laertes herói, quando a Moira funesta da morte assaz dolorosa o colher e fizer extinguir-se.’ Dessa maneira falei, convencendo-lhes o ânimo altivo. Passo, depois, a tecer nova tela mui grande, de dia; à luz dos fachos, porém, pela noite desteço o trabalho. Três anos isso; como dolo consigo embair os Acaios...” (p.323) Em seguida, Odisseu retoma sua falsa narrativa, acrescentando novos detalhes. O ancião narra, para Penélope, uma longa história e, no final, diz que havia tido um encontro com o ardiloso herói Odisseu. O mendigo descreve em sua história detalhes das vestes de Odisseu; eles coincidiam com aqueles também conhecidos por Penélope. Tratava-se de sinais evidentes de que aquele mendigo estivera com o seu saudoso marido. Penélope então pede, imediatamente, aos escravos, que levem o mendigo dali, e dele cuidem com préstimos. Chama a prudente Euricléia, a sua mais fiel escrava, para dar um banho no infeliz hóspede. Contudo, ao banhar o infeliz mendigo, a fiel criada Euricléia reconheceu na perna do ancião a cicatriz que Odisseu adquirira quando criança, devido ao ataque de um feroz javali que o ferira durante uma caçada. Euricléia exclama: “_ Ulysse ! mon enfant! pour toi je n’ai rien pu! toi que Zeus exécra entre tous les humains, alors que tu servais les dieux d’un coeur fidèle!” (“ _ És Odisseu, caro filho, não tenho mais dúvida: nunca fora possível sabê-lo, sem que em meu senhor eu tocasse...). Após tal revelação, Odisseu pede, então, que Euricléia mantivesse tudo em segredo, a ninguém revelando o seu disfarce, inclusive a Penélope. Penélope, um pouco à distância e também desatenta aos murmúrios ocorridos entre o mendigo e a fiel criada, narra ao estrangeiro alguns detalhes do sonho que recentemente tivera: era um presságio do retorno de Odisseu. Penélope diz ao “mendigo” os planos que formulara: promoveria um concurso para medir a força dos pretendentes, e o vencedor seria o seu novo esposo.

 

 

CANTO XX

Odisseu, demonstrando impaciência e preocupação quanto ao futuro, roga por presságios ao deus do Olimpo, Zeus. Zeus sábio acatou-lhe o pedido e fez trovejar na mesma hora, escapando do Olimpo um raio brilhante, que pousa sobre o alto das nuvens. Enquanto isso, Penélope encontra-se bastante angustiada em seus aposentos, a ponto de rogar aos deuses que lhe tirem a vida. Contudo, dominada pelo sono, adormece. O rogo de Odisseu a Zeus foi, então, atendido (como acima já mencionamos, e acrescentamos): primeiro Zeus fez ouvir um forte trovão; em seguida Odisseu, acompanhando o serviço de algumas escravas, ouve as palavras de uma delas que rogava pelo retorno de Odisseu e pela vingança contra os pretendentes que tanto a humilhavam. De outra parte, Euricléia, a fiel criada, transmitia ordens às companheiras para que limpassem a casa. Filécio, o guardador de bois e amigo de Eumeu, ao se deparar com o novo hóspede pressente tratar-se de um nobre; pergunta, então, se o ancião era um rei, dando boas vindas ao estrangeiro. Diante disso, Odisseu convida o boieiro e o porqueiro a juntos assistirem a matança dos pretendentes. Enquanto isso, os pretendentes tramam o fim de Telêmaco, embora o pretendente Anfínomo declare, publicamente, a descrença em relação ao êxito deste traiçoeiro plano. Festas nos bosques de Apolo eram organizadas pelos pretendentes. Encontrando-se reunidos na sala principal do palácio, Antínoo provoca Telêmaco. Ctesipo, o pretendente que mais assediava Penélope, aproveita o momento para oferecer um presente ao novo hóspede: lança, repentinamente, uma pata de boi sobre o ancião, sem, contudo, atingi-lo. Telêmaco interpela o ousado pretendente, dizendo que caso Ctesipo tivesse atingido o ancião de forma tão covarde, ele próprio, Telêmaco, poria fim na vida do atrevido agressor. Telêmaco tira, então, proveito da oportunidade, para dizer a todos que, após tão longos sofrimentos experimentados no próprio lar, havia adquirido a maturidade suficiente para tudo compreender, distinguindo, desse modo, o bem e o mal. Agelau, pretendente nascido do herói Adamastor, toma a palavra, procurando convencer o divino Telêmaco que o pai não mais regressaria ao lar. Entretanto, a deusa Palas Atena - a de olhos glaucos -, que tudo assistia, passa a perturbar a razão dos pretendentes, colocando-os a rir em conjunto, sem qualquer motivo aparente. Os pretendentes riem de forma exagerada; vão às gargalhadas, até atingirem as lágrimas. Então, o divino Teoclímeno profetiza o retorno de Odisseu. Os pretendentes ainda induzidos por um falso e incontrolável riso põem-se a banquetear, pois a matança já estava maquinada. Eles usufruiriam os prazeres do último encontro. BIBLIOGRAFIA HOMÈRE. “L’Odyssée”. Texte établi et traduit par Victor Bérard. Tomes I ( huiteme tirage ) , II ( neuvieme tirage) et III (huiteme tirage). Paris: Les Belles Lettres, 1972 - 1974 - 1987. HOMERO. “Odisséia”. Tradução Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

 

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS

Campinas, é verão de 2006

 

 

SÍLVIO MEDEIROS Publicado no Recanto das Letras em 09/01/2006 Código do texto: T96260 Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

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ODISSÉIA, de Homero (continuação da tentativa de resumo: Cantos XIII a XVII)  (ReLeituras) escrito em segunda 19 março 2007 02:26

 

Telêmaco e Penélope

 

 

 

"ODISSÉIA", DE HOMERO



    (RESUMO: Cantos XIII, XIV, XV, XVI e XVII)
                                    

                        
             Autoria: PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS



           

CANTO XIII

     Toda corte dos Feácios ficou maravilhada com a narrativa de Odisseu. O rei Alcínoo ofereceu vários presentes ao herói grego, prometendo, logo em seguida, que o levaria de volta a Ítaca. Odisseu agradece e se despede de toda corte. Antes da partida, Odisseu endereça um agradecimento especial à rainha Arete, mulher do rei Alcínoo.
   Odisseu - junto a um arauto e de alguns Feácios - chega à nau e finalmente embarca, deixando ao longe a ilha dos Feácios.
   Aos poucos, um sono delicioso se apossa de Odisseu... Então, quando o sol já era nascente, a nau se aproxima da ilha de Ítaca! Os Feácios retiram Odisseu da nau, deixando-o próximo a um bosque de ninfas existente no porto de Ítaca.
   O deus Posido - que a terra sacode -, furioso, procurou vingar-se dos Feácios, que haviam auxiliado Odisseu em seu retorno a Ítaca. Quando a poderosa nau - que transportara o herói grego de regresso a Ítaca - já se encontrava próxima das praias da ilha dos Feácios, Posido transformou-a numa imensa rocha. 
   Enquanto isso, em Ítaca, Odisseu despertou de um reconfortante sono, contudo, não reconheceu a terra natal. A princípio, o herói amaldiçoou os Feácios, pois supôs tratar-se de mais uma armadilha. Depois, amparado pela deusa Palas Atena, veio a reconhecer Ítaca. A deusa, fazendo uso de um disfarce, apresenta-se a Odisseu. O ardiloso herói roga, desse modo, ao desconhecido:

"_ Ami, puisqu'en ces lieux, c'est toi que , le premier, je rencontre, salut! Accueille-moi sans haine! et sauve-moi ces biens... et me sauve moi-même! Comme un dieu, je t'implore et suis à tes genoux. Dis-moi tout net encor; j'ai besoin de savoir: quel est donc ce pays? et quel en est le peuple? et quelle en est la race ? ..." (p.154)

"_Caro, por seres da terra a primeira pessoa que encontro,
eu te saúdo. Oxalá não me venhas com ânimo adverso,
mas salva-me estas riquezas e a mim juntamente. Aproximo-me
súplice e abraço-te os joelhos, tal como a um dos deuses faria.
Para que o saiba, responde-me certo ao que vou perguntar-te:
Qual é esta terra? este povo? que espécie de gente aqui mora?..." (p.230)   

   Irreconhecível, em virtude de seus disfarces, a deusa Atena pergunta, então, a Odisseu qual era seu país de origem. O astucioso Odisseu inventa uma longa e ardilosa história para a deusa, apresentando-se como um cretense. Diante de todas aquelas mentiras, a deusa, em resposta, replica:

"_ Quel fourbe, quel larron, quand ce serait un dieu, pourrait te surpasser en ruses de toute genre!... Pauvre éternel brodeur! n'avoir faim que de ruses!... Tu rentres au pays et ne penses encore qu'aux contes de brigands, aux mensonges chers à ton coeur depuis l'enfance... Trêve de ces histoires!" (p.156)

"_ Simulador sem defeitos seria quem te superasse
em qualquer sorte de astúcia, ainda mesmo que fosse um dos deuses.
Ó astucioso e matreiro incansável, nem mesmo na pátria
resolverás pôr à margem, de vez, esta sorte de embustes
e de artimanhas falazes, que tanto condizem com tua alma?
Bem; mas deixemos de lado essas coisas, porque ambos na astúcia
somos peritos..." (p.232)

   Assim, uma vez reveladas ambas as identidades, Odisseu pergunta à deusa se realmente aquele local era o seu torrão natal, isto é, Ítaca. Diante de tanta insistência, Atenas, a deusa de olhos glaucos, passa, então, a apontar para alguns pontos da paisagem do lugar: o porto de Fórcis; o Monte Nérito; a sombria e amável gruta das ninfas - também conhecidas por Náiades -, além d'outros detalhes. Finalmente a deusa dissipa o forte nevoeiro que recobria quase toda a paisagem, e Ítaca ressurgiu inteira aos olhos do herói grego.
   A deusa se dirige a Odisseu e, com palavras aladas, procura expor, de forma sucinta, tudo aquilo que o herói vivenciaria a partir daquele momento, para que um dia, finalmente, ali, em Ítaca, ele pudesse viver em paz. A deusa Palas Atena pede ânimo ao herói; diz, também, a ele, que já antevê o massacre dos pretendentes de Penélope. Contudo, de imediato, solicita a Odisseu que busque abrigo na cabana do divino porqueiro Eumeu (1). Depois de tudo combinado, a deusa Palas Atena parte rumo a Lacedemônia, onde Telêmaco, o filho do herói Odisseu, se encontrava.


     
CANTO XIV

   Odisseu chega à cabana do divino porqueiro Eumeu. Os cães do porqueiro correm, aos uivos, em perseguição a Odisseu, disfarçado de ancião, além de mendigo - consoante o combinado junto à deusa Atena. Eumeu espanta os cães que se encontravam próximos - sobretudo em defesa do porqueiro -, bem recepcionando, em seguida, o estrangeiro, que, na verdade, era o próprio patrão, irreconhecível devido ao disfarce.
   Odisseu, visando logo ganhar a simpatia do porqueiro Eumeu, diz, ardilosamente, que estrangeiros e mendigos são enviados de Zeus. Eumeu convida, então, o faminto Odisseu a entrar na cabana. Em seguida, Odisseu, junto a Eumeu, alimenta-se na cabana do divino porqueiro.
   Eumeu passa a se recordar do patrão - Odisseu - junto ao recém-chegado hóspede, demonstrando incredulidade quanto a um possível retorno do herói a Ítaca. O mendigo-ancião insiste que o herói voltará. Eumeu pede, então, que o mendigo narre a sua própria história. O ardiloso Odisseu começa, então, a contar a sua história para o divino porqueiro. Na verdade, o astuto Odisseu inventa uma história, dizendo, ao seu fiel porqueiro Eumeu, ter nascido na vastíssima Creta. E prossegue, narrando uma série de infortúnios por ele enfrentada. Por isso abandonou Creta e foi para o Egito. Porém, quando se encontrava no Egito, um forasteiro fenício o logrou com astúcia, convencendo-o a levá-lo para a Líbia. Durante a viagem, a embarcação naufragou, aportando na terra dos homens Tesprotos, onde reinava Fidão valoroso. Fidão informou ao ancião que, ali, Odisseu acumulava imensa fortuna e que, justamente naquele exato momento, Odisseu havia partido para Dodona, a fim de consultar o oráculo de Zeus, deus do Olimpo, sobre a maneira melhor para Ítaca retornar.
   Entretanto, o astuto porqueiro não acredita na história narrada pelo ancião; passa, então, a lamentar a ausência do patrão Odisseu e se refere, entristecido, quanto aos infindáveis infortúnios reservados tanto a Penélope quanto ao filho do herói, Telêmaco.
   Em seguida, o prudente ancião recrimina o porqueiro Eumeu por não acreditar no retorno de Odisseu... depois, ambos fizeram uma refeição.
   Os céus reservavam uma terrível tempestade, pronta a desabar. Logo a seguir, passou a chover fortemente, e um terrível frio enviado pelo vento Bóreas invadiu a choupana.
   A essa altura dos acontecimentos, o ancião - sempre garantindo falar somente a verdade -, aproveitando-se da ocasião propícia, volta a narrar, dizendo como vivenciou, na condição de guerreiro, a sua participação na Guerra de Tróia, além do contato que lá fizera com Odisseu. O manhoso Odisseu, ou melhor, o "ancião-mendigo" conta a Eumeu que, durante a guerra, o astucioso Odisseu oferecera-lhe mantos para que se protegesse do frio.
   Finda a narrativa, o porqueiro Eumeu agradeceu ao ancião pela narrativa da bela história, oferecendo, em seguida, ao hóspede, mantos, no intuito de proteger o "ancião" do frio que invadira, há pouco, a choupana. Ambos então caíram em sono profundo. Eumeu deixou a humilde cabana, indo deitar-se, segundo o hábito, junto aos porcos, debaixo de uma côncova pedra, ao abrigo do vento Bóreas. 



CANTO XV

   Telêmaco ainda se encontra em Esparta (2), junto ao claro filho do herói Nestor, Pisístrato, no átrio da bela e luxuosa casa do rei Menelau glorioso - o louro Átrida.
   Durante a visita que fizera a Esparta, além dos conselhos que recebera tanto de Menelau quanto de Helena, Telêmaco recebera, também, do divino casal, valiosos presentes. Porém, antes da partida do ajuizado jovem Telêmaco (antecipada e tramada pela deusa Palas Atena) da cidade espartana, Helena teve um presságio: avistou uma águia, levando consigo um ganso capturado e indefeso. Helena decifrou o presságio a Telêmaco, isto é, confirmou o retorno de Odisseu a Ítaca, seguido da matança, pelo herói grego, de todos os pretendentes do reino de Ítaca.
   Telêmaco embarcou em sua nau... No entanto, surge um contratempo: um estrangeiro de nome Teoclímeno se aproxima da nau, narrando a Telêmaco a sua infeliz história como fugitivo da própria pátria, por ter assassinado um outro homem. Após ter ouvido a história do divo Teoclímeno, Telêmaco o convida a sentar-se junto de si no bojo da nau.
   Enquanto isso, na cabana do porqueiro, o solerte Odisseu desejava comprovar, ou melhor, desafiar a confiança depositada pelo divino porqueiro no divo Odisseu e familiares. Apresentando como pretexto o desejo de ir até a cidade, o "mendigo-ancião" conseguira, ardilosamente, atingir o seu objetivo: ouvir a história do divino porqueiro Eumeu.
   Assim, Eumeu passa a narrar ao falso ancião todo o carinho que havia recebido de Anticléia - mãe de Odisseu -, da infância até a adolescência. Porém, numa determinada ocasião, vivendo no palácio de Laertes - na qualidade de escravo privilegiado -, abruptamente, seu destino sofreu uma profunda mudança, pois fôra determinado, pelos patrões, a deixar o palácio de Ítaca, para trabalhar no campo. Nesse momento, Odisseu solicitou ao porqueiro maiores detalhes sobre aquela história. Eumeu passou, então, a narrar uma longa história: nascido na Síria, na cidade de Sidão - rica em bronze-, era filho de Aribante, mulher possuidora de incalculáveis fortunas, porém infiel ao marido junto aos astutos homens fenícios. Devido às sucessivas desventuras da mãe, Eumeu foi encontrado abandonado nas praias de Ítaca, e recolhido no palácio de Laertes, na condição de escravo.
   Enquanto ambos dialogavam, com o auxílio da deusa Atena, Telêmaco regressa a Ítaca, dirigindo-se - no intuito de se esquivar dos ataques dos pretendentes e da emboscada mortal que lhe prepararam - diretamente para a cabana do divino porqueiro Eumeu, conforme aconselhara a deusa Palas Atena. Telêmaco não tardou em chegar ao estábulo onde se encontravam o pai - disfarçado de ancião - e o divino porqueiro.



CANTO XVI 

     Telêmaco é recepcionado com grande alegria pelos cães do porqueiro Eumeu, que logo o reconheceram, pois não ladraram um só instante. O porqueiro Eumeu, avistando Telêmaco, corre a abraçá-lo, com carinho, cheio de afeto para com o amo, saudando-o, tal como um amoroso pai, com doces palavras: "_Te voilà, Télémaque, ô ma douce lumière!" ("_ Luz de meus olhos, voltaste, Telêmaco?").
   O ajuizado Telêmaco, uma vez acomodado na cabana, pergunta, então, a Eumeu, quem era, afinal, aquele ancião estrangeiro que se encontrava em sua companhia. Eumeu em resposta diz, referindo-se ao "ancião", tratar-se de um infeliz cretense. Telêmaco, indignado, não se conforma com a presença do "mendigo-ancião" na cabana, e passa a repreender o porqueiro por ter permitido a permanência daquele desconhecido no local.
   Imediatamente, o solerte "ancião" tece, então, um louvor ao herói Odisseu. Após ouvir o elogio dirigido ao pai desaparecido, o prudente Telêmaco replica, narrando ao "ancião" os tristes acontecimentos que têm como palco o seu reino, atingindo diretamente a ele e à própria mãe - a fiel Penélope.
   Telêmaco pede (temendo as represálias preparadas pelos pretendentes), então, para que o fiel Eumeu se dirigisse até o palácio de Penélope, a fim de comunicar à mãe (que aflita aguardava o retorno do filho!, pois tudo sabia das piores intenções dos usurpadores do reino de Ítaca em relação ao filho) quanto a sua chegada - a salvo das emboscadas dos pretendentes - à ilha de Ítaca.
   Repentinamente, surge a deusa Atena e diz a Odisseu que chegara a hora de revelar toda a verdade ao filho Telêmaco. A deusa promove uma metamorfose no herói, destituindo-o, dessa maneira, da aparência de ancião e de mendigo e, ao mesmo tempo, restituindo-lhe a antiga aparência de autêntico guerreiro.
   Telêmaco, ainda surpreso com a repentina mudança, pergunta a Odisseu se ele era um deus. Odisseu responde que era seu pai. Telêmaco nega-se a acreditar. Então Odisseu diz ao amado filho:

"Je ne suis pas un dieu! pourquoi me comparer à l'un des Immortels? ... crois-moi: je suis ton père, celui qui t'a coûte tant de pleurs et d'angoisses et pour qui tu subis les assauts de ces gens!" (...) il est facile aux dieux, maîtres des champs du ciel, de couvrir un mortel ou d'éclat ou d'opprobre! " (pp.8-9-10)

"_ Nenhum dos deuses eu sou; por que a um deus imortal me comparas?
Sou, sim, teu pai, por quem hás suspirado, saudoso, já tanto
e tantas dores sofrido, agüentando a violência de estranhos (...)
[ante as dúvidas que Telêmaco lança contra a verdadeira identidade do ‘ancião', Odisseu retruca:](...)
Sou, sim, eu mesmo, que após sofrimentos e viagens inúmeras,
vinte anos já decorridos, ao solo da pátria retorno.
Essas mudanças, que vês, são trabalhos de Atena guerreira (...)
É muito fácil aos deuses, que moram no Olimpo muito amplo,
os homens todos mortais exaltar, ou disformes deixá-los." (p.277)

   Uma vez proferidas tais palavras, em prantos, pai e filho se abraçam.
   Telêmaco diz, então, ao pai, que os pretendentes ao trono de Ítaca são numerosos, citando alguns nomes. Odisseu pede a Telêmaco que acredite nos deuses.
   Assim, a matança dos pretendentes começa a ser tramada.
   A primeira providência de ordem tática de Odisseu endereçada ao filho é que Telêmaco zele pelas armas do deus Ares (deus das guerras, das armas) - escondidas no palácio de Ítaca. Adverte, também, Telêmaco, que ninguém pode saber de sua presença em Ítaca, nem mesmo aqueles que mais desejam o seu retorno, isto é, o estimado pai, Laertes, a fiel esposa, Penélope, e o divino porqueiro Eumeu.

"_ Si c'est bien de mon sang, de moi, que tu naquis, personne s'entendra parler de ma présence: que Laerte l ‘ignore [et le porcher aussi, et tous nos serviteurs,] et même Pénélope. A nous seuls, toi et moi, nous devrons éprouver la droiture des femmes et nous devrons aussi, parmi nos domestiques, chercher qui nous respecte et nous craint en son âme ou qui, sans plus d'égards, mèprisa ta détresse." (pp.13-14)

"_ Se és do meu sangue e meu filho te orgulhas de ser, em verdade,
não venha nunca ninguém a saber que Odisseu está em casa.
Que o não perceba Laertes, nem mesmo o divino porqueiro,
nem um qualquer dos criados da casa, nem mesmo Penélope.
Os sentimentos das servas somente nós dois sondaremos.
Sim, poderemos, também por à prova o sentir de alguns servos,
a fim de vermos qual nutre por nós amizade e respeito,
e os que de nós não se importam, mostrando por ti só desprezo." (p.280)

   Enquanto isso, os insolentes pretendentes encontravam-se reunidos na Ágora, para deliberar sobre o destino do jovem Telêmaco. A astuciosa Penélope, sabendo de tal acontecimento, interpela o pretendente Antínoo - o mais audacioso dos pretendentes -, pedindo que cessasse de tramar tamanhas covardias contra seu filho; bastavam os infortúnios que desabavam sobre o palácio durante a longa ausência do marido.
   Por seu lado, Eurímaco - outro pretendente - dirigi um falso discurso à Penélope, prometendo colocar a salvo Telêmaco contra a insolência de todos os pretendentes.
   Por seu turno, o porqueiro Eumeu retorna à cabana, dizendo a Telêmaco que comunicara a mãe sobre o seu retorno.


    
CANTO XVII


     Telêmaco exprime a Eumeu o seu desejo de ir até a cidade, pois queria retornar ao palácio e permanecer junto à mãe; diz, também, ao divino porqueiro, para se desvencilhar do "mendigo", pois a permanência desse tipo de indivíduo tem lugar na cidade, e não no campo. O "ancião" concorda prontamente com Telêmaco.
   Chegando ao palácio, Penélope, chorosa e carinhosamente, recepciona Telêmaco, dizendo: "_ Te voilà, Télémaque! ô ma douce lumière!..." ("_ Luz, doce luz, já voltaste, Telêmaco?").
   Telêmaco pede à mãe que se recolha aos seus aposentos, pois não queria ser incomodado pelos seus gemidos, pois eles o colocavam em sobressalto, após tantos perigos vividos. Penélope concorda com o filho, confessando que, naquele momento, sentia-se bastante angustiada com tão longa ausência de Odisseu. Antes, contudo, Telêmaco relata à mãe, em detalhes, a viagem que fizera a Pilo e a Esparta. Não desejando nada ocultar da própria mãe, Telêmaco disse o que soubera, por intermédio da boca de Menelau, quanto ao relato do ancião do mar (Proteu), o qual afirmara que Odisseu se encontrava retido na ilha de Ogígia, junto à ninfa Calipso. De repente, aos dois, o divino deiforme Teoclímeno lança um vaticínio exato para Penélope, no que se refere ao paradeiro do marido há muito desaparecido. O deiforme Teoclímeno diz, então, à esposa inconsolável, que Odisseu já havia retornado a Ítaca.

"_ Digne épouse du fils de Laerte, d'Ulysse, tu vois que Ménélas ne savait pas grand chose; mais retiens mon avis; je prédis à coup sûr et ne te cache rien. Sache qu'en sa patrie, Ulysse est revenu, qu'il y siège, y circule et, connaissant déjà leurs vilaines besognes, prépare un vilain sort à tous les prétendants... Voilà ce qu'est venu me révéler l'augure , ce que je révélai moi-même à Télémaque sur les bancs du vaisseau." (pp.27-8)

"_ Ó digna esposa do herói Odisseu, de Laertes nascido!
Ele não sabe de tudo: ora presta atenção ao meu dito,
que profecia farei verdadeira, sem nada ocultar-te (...)
Digo que o herói já se encontra no solo da terra nativa,
nele sentado ou vagueando, o observar estes atos iníquos
e a cogitar no mais íntimo como vingar-se de todos (...)
esse augúrio
interpretei pelo vôo das aves, contando-o a Telêmaco." (p.292)

   Nesse entremeio, o fiel porqueiro Eumeu torna-se - até a cidade - o guia do herói Odisseu. Ao chegarem em Ítaca, antes de entrarem no palácio, Odisseu (ainda disfarçado de mendigo) foi injuriado por Melântio, que se encontrava próximo do bosque das ninfas. Eumeu rogou vingança às ninfas contra Melântio.
   Após este episódio, Eumeu e Odisseu rumaram ao palácio. Lá chegando, ambos ouviram o aedo Fêmio a cantar. Um cão aproxima-se de Eumeu e de Odisseu: era Argos, o fiel cão do herói grego. Após longos vinte anos de ausência, deparando-se repentinamente com o dono, o fiel cão morre.
   Depois desse lamentável infortúnio, Odisseu e Eumeu entraram, finalmente, no palácio. Eumeu instrui Odisseu a mendigar junto a todos pretendentes; Palas Atena incita, também, o herói (ainda disfarçado) a mendigar. Na verdade, tratava-se de um valioso estratagema utilizado pela deusa, de olhos glaucos, permitindo, desse modo, que Odisseu viesse a conhecer o comportamento de cada um dos pretendentes.
   Antínoo foi o mais soberbo e o mais arrogante dentre os pretendentes, pois investiu com dura hostilidade contra a presença do "ancião" no palácio. Antínoo torna-se colérico diante de uma resposta insolente que ouve da parte do "mendigo-ancião". Em contrapartida, o "mendigo" profetiza, então, a morte de Antínoo, fazendo uso das seguintes palavras: _ Antes do casamento, encontrarás a morte, Antínoo!
   Pressentindo algo, Penélope solicita a presença imediata do "mendigo" em seus aposentos. Mas é desaconselhada pelo porqueiro Eumeu a nutrir tal decisão, tendo em vista as maldosas opiniões alheias com relação a tal procedimento.
   Num determinado momento, Telêmaco dá um forte espirro. Penélope ri, profetizando o seguinte: o espirro é sinal dos deuses, e queira, talvez, significar que a morte atingirá a todos os meus pretendentes.

....................
NOTAS

Apontamentos ou sugestões a visar reflexões em torno do que foi lido:
1. É interessante notarmos a sutileza empregada nos versos homéricos quanto às relações hierárquicas entre as classes sociais na Grécia arcaica, no que se refere, sobretudo, às aproximações entre indivíduos que ocupam posições totalmente díspares dentro do referido universo social. Trata-se, obviamente, de uma sociedade escravocrata, contudo, há em Homero uma preocupação em ressaltar as atitudes, muitas vezes plenas de amorosidade, que permeiam, paradoxalmente, as relações entre patrões e escravos. Dentre elas se destacam, por exemplo, a fidelidade - e a recíproca é verdadeira! - entre o escravo Eumeu e todo o clã de Odisseu. De outra parte, nos próximos Cantos da "Odisséia", tal fato se evidenciará igualmente, ou até mesmo por meio de tintas mais fortes, no papel conferido à escrava-ama Euricléia, cuja participação na narrativa homérica é de fundamental importância rumo ao desfecho da narrativa homérica - a última personagem supera ou se iguala, em se tratando de importância no desenvolvimento da trama, a alguns dos protagonistas da "Odisséia"!
Em linhas gerais, parece palpitar, nas páginas da "Odisséia", um certo "esforço" em promover os indivíduos pertencentes às classes sociais inferiores, arrancando-os, com isso, do anonimato da história.  

2. Os versos homéricos, em vários trechos da "Telemaquia" (Cantos I a IV) e nos que aqui estudamos, parecem sugerir que o jovem Telêmaco, provindo do pobre reino de Ítaca, ao conhecer as riquezas existentes na cidade de Pilo e, sobretudo, encantado com o luxo da cidade de Esparta, vacila, isto é, tem-se a impressão que Telêmaco passa a adiar (teria o jovenzinho se apaixonado por Helena?! a mais bela mulher de toda Grécia!) o seu retorno a Ítaca; aliás, a exemplo do pai, o herói Odisseu, que por mais que lamentasse a ausência do lar em sua longa errância após a guerra de Tróia, não deixou de se enlevar pelos encantos de ninfas e de deusas: Calipso, Nausícaa, Circe... e desse modo, sempre adiava sua partida em busca da amada Ítaca.


BIBLIOGRAFIA

HOMÈRE. "L'Odyssée". Texte établi et traduit par Victor Bérard. Tomes I ( huiteme tirage ) , II ( neuvieme tirage) et III (huiteme tirage). Paris: Les Belles Lettres, 1972 - 1974 - 1987.

HOMERO. "Odisséia". 2 ed. Tradução Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

 

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006

SÍLVIO MEDEIROS Publicado no Recanto das Letras em 06/01/2006
Código do texto: T95097

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ODISSÉIA, de Homero (continuação da tentativa de resumo: Cantos XI e XII)  (ReLeituras) escrito em domingo 18 março 2007 23:17

CIRCE oferecendo a Taça para Ulisses

de John William Waterhouse   

 

        

 

"ODISSÉIA", DE HOMERO



                             (RESUMO: Cantos XI e XII)                        
                                    
           Autoria de: Prof. Dr. Sílvio Medeiros


                        
           

CANTO XI


   Odisseu e tripulação partiram, então, rumo ao Hades (1) [= inferno - em grego, NEKYIA], conforme indicara a deusa Circe. De lá se aproximando, sacrifícios foram realizados em honra dos mortos. Odisseu promete, então, que, para o adivinho Tirésias, um carneiro completamente negro seria sacrificado, tão logo regressassem a Ítaca. Consumado os sacrifícios, do fundo do Érebo as almas dos mortos começam a surgir. Odisseu carregava uma quantia de sangue que deveria ser oferecida, apenas, às almas com as quais desejasse dialogar.
   A primeira alma que apareceu foi a de Elpenor, o insepulto cadáver rogando por uma sepultura. Logo em seguida, surgiu a sombra de Anticléia (mãe de Odisseu, que, ainda com vida, deixara em Ítaca - quando o herói seguira para a Tróia sagrada). Contudo, Odisseu não consentiu que a sombra da mãe dele se aproximasse antes de consultar o adivinho Tirésias.
   Odisseu, por fim, encontrou a alma do tebano Tirésias. Tirésias (2) então falou sobre o retorno de Odisseu a Ítaca, destacando que evitasse sacrificar os touros e as vacas de Hélio, quando na ilha do referido deus estivessem o herói e toda tripulação, pois, só assim, toda a frota regressaria sem sofrimentos a Ítaca. Disse, ainda, que Odisseu morreria bastante idoso, em seu torrão natal, isto é, Ítaca.
   Odisseu ouviu, atento, as coisas que o adivinho Tirésias profetizara, mas demonstrou preocupação em relação à mãe Anticléia, pois queria com ela dialogar. Tirésias orientou-o a oferecer à sombra de Anticléia o sangue do sacrifício que o herói trazia nas mãos. A mãe bebe o sangue negro. Então diz ao filho que morrera de tristeza por sua ausência. Também deu notícias de Penélope, de Telêmaco e falou do infinito sofrimento do velho Laertes, aguardando o retorno do filho.
   Após o diálogo com a mãe, Odisseu viu uma longa série de almas: famosas mulheres e famosos guerreiros.
   Neste momento, Odisseu interrompe a narrativa e chora, na corte dos Feácios. Entretanto, o rei Alcínoo solicita que Odisseu continue a narrar todas aquelas gestas divinas nos seguintes termos:

"_ (...) Quel charme en tes discours! quel esprit de noblesse! L'aède le meilleur n'eût pas mieux raconté (...) Mais, voyons, réponds- moi sans feinte, point par point: as-tu vu quelques-uns des compagnons divins qui, pour t'avoir suivi sous les murs d ‘Ilion, y truvèrent la mort?'". (p.98)

"_(...) Tu, porém, sabes dar forma admirável aos teus pensamentos.
Como um cantor eloqüente disseste-nos a narrativa (...)
Vamos! Agora me fala e responde conforme a verdade,
se viste, acaso, qualquer dos excelsos amigos, que outrora
a Ílio viajaram contigo, onde acerbo destino encontraram? (p.200)

   Odisseu, atendendo o pedido do rei Alcínoo, dá continuidade à sua narrativa. Narra o reencontro com a alma do rei Agamémnone: o infeliz relata a Odisseu de que maneira fôra morto, por traição - junto a Egisto, o amante - pela própria mulher, a perniciosa Clitemnestra, tão logo regressara da Guerra de Tróia.
   Em seguida, o narrador Odisseu fala sobre encontro que teve com a sombra do corajoso Aquiles, o colérico herói da "Ilíada". As palavras do famoso guerreiro foram as seguintes:

"_ Oh! ne me farde pas la mort, mon noble Ulysse!... J'aimerais mieux, valet de bouefs, vivre en service chez un pauvre fermier, qui n'aurait pas grand'chère, que régner sur ces morts, sur tout de peuple éteint!"

"_ Ora não venhas, solerte Odisseu, consolar-me da Morte,
pois preferira viver empregado em trabalhos do campo
sob um senhor sem recursos, ou mesmo de parcos haveres,
a dominar deste modo nos mortos aqui consumidos." (p.203)

   Aquiles solicita a Odisseu notícias de seu ilustre filho Neoptólemo. Odisseu canta as glórias do corajoso filho de Aquiles no decorrer da Guerra de Tróia. Após ouvir tal relato, a sombra de Aquiles se afasta de Odisseu.
   Odisseu encontra, também, a alma de Ájax (ou: Ájaz). Contudo, o valente guerreiro não lhe perdoou, nem depois de morto (ambos, no decorrer da Guerra de Tróia, haviam se desentendido ao disputarem a posse de armas especiais).
   Odisseu prossegue a narrativa - na corte dos Feácios - sobre as almas de outros mortais que vira no Hades. Por fim, diz Odisseu, bandos de sombras começam a se aproximar, todas desejando beber do sangue que carregava consigo, pois todas almejavam permanecer na eternidade por meio do canto poético. O herói - apavorado! - abandona a morada de Hades, partindo, assim, do local, sem tardar.



CANTO XII


   A frota de Odisseu retorna à ilha de Circe. A primeira providência foi consumar o sepultamento do cadáver insepulto de Elpenor. Logo em seguida, Circe prediz todos os perigos que o herói Odisseu teria, ainda, de enfrentar até o seu retorno a Ítaca. A deusa aconselha o herói como enfrentá-los, ponto por ponto: "_ Vous voilà donc au bout de ce premier voyage! écoute maintenant ce que je vais te dire, et q'un dieu quelque jour t'en fasse souvenir." ("_ Logo já está realizado isso tudo; atenção ora presta ao que te passo a dizer; aliás há um deus recordar-to."). Atento, o astucioso Odissseu escuta os detalhes de todas as suas futuras aventuras relatadas pela boca da deusa-feiticeira. Circe o instrui e o previne sobre todos os perigos que teria de enfrentar na região das Sereias - só Odisseu deverá escutar o canto ou as vozes das maviosas Sereias!; e ainda, que Odisseu ficasse mais próximo de Cilas, tomando distância de Caribde, quando o herói fosse enfrentar as duas monstruosas rochas.
   Odisseu passa as instruções aos companheiros e, só então, o grupo retoma a viagem.
   Odisseu e a tripulação chegam, finalmente, à ilha das Sereias. Odisseu coloca cera no ouvido de cada companheiro, solicitando a eles que o amarrasse com fortes laços no mastro da nau. Passavam, velozmente, pela ilha, mas, subitamente, o herói ouve vozes:

"_ Viens ici! viens à nous! Ulysse tant vanté! l'honneur de l'Achaie!... Arrête ton croiseur: viens écouter nos voix! Jamais un noir vaisseau n'a doublé notre cap, sans ouir les doux airs qui sortent de nos lèvres;
puis on s'en va content et plus riche en savoir, car nous savons les maux, tous les maux que les dieux, dans les champs de Troade, ont infligés aux gens et d'Argos et de Troie, et nous savons aussi tou ce que voit passer la terre nourricière." (p.119)

"_ Vêm para perto, famoso Odisseu, dos Aquivos orgulho,
traz para cá teu navio, que possas o canto escutar-nos.
Em nenhum tempo ninguém por aqui navegou em nau negra,
sem nossa voz inefável ouvir, qual dos lábios nos soa.
Bem mais instruído prossegue, depois de haver deleitado.
Todas as coisas sabemos, que em Tróia de vastas campinas,
pela vontade dos deuses, Troianos e Argivos sofreram,
Como, também, quanto passa no dorso da terra fecunda.
‘Dessa maneira cantavam belíssima...'" (pp.214,5) 

   Contudo, mediante o novo ardil de Odisseu, a nau passa totalmente incólume pelas Sereias. Após tais fatos, os companheiros de Odisseu retiraram a cera que lhes tapava os ouvidos. Odisseu alertou-os, então, quanto aos próximos perigos a serem enfrentados, isto é, os monstros-rochosos Cilas e Caribde.
   A frota navegou ao longo do estreito habitado pelos dois monstros. De um lado, Cilas, e de outro: Caribde. Temerosos da morte iminente, a tripulação encarava Caribde, quando, repentinamente, Cilas arrebatou ao mar vários companheiros de Odisseu. Todavia, apesar de todo o perigo, a frota conseguiu transpor, sã e salva, ambos os rochedos monstruosos. Agora, a frota encontrava-se na ilha do deus Hélio. Odisseu, seguindo as orientações de deusa Circe, aconselha, mais uma vez, seus companheiros:

"_ Camarades, deux mots! vous avez beau souflir; il faut que vous sachiez ce que Tirésias m'a prédit (dans l ‘Hades): il m'a recommandé, et très fort, d'éviter cette Île du Soleil, le charmeur des mortels; il m'a dit qu'en ces lieux, nous aurions à subir le comble des malheurs... Doublons cette île! écartez-en le noir vaisseau!" (p.123)

"_ Ora me ouvi, companheiros, pesar dos trabalhos sofridos.
Vou revelar-vos orác'los do sábio adivinho Tirésias
e Circe Eéia, quando ambos disseram como muita insistência
porque evitássemos a ilha do deus que dos homens é amigo
a mais terrível desgraça disseram que aqui nos aguarda (...)
_ Caros amigos! Na nave ainda temos comida e bebida;
cumpre pouparmos as vacas, não vá suceder-nos desgraça.
De divindade terrível são todas, e as nédias ovelhas,
de Hélio, que tudo discerne e que todas as coisas escuta..."(pp.217-8)

   Entretanto, por insistência de Euríloco e com a concordância dos demais, Odisseu foi obrigado a aportar na ilha que ele tanto desejava evitar. Mas, antes, avisou a todos: no caso de encontrarem uma manada de vacas ou apenas uma ovelha, evitem matá-las!
   Contudo, Euríloco instila o veneno no pensamento dos companheiros de Odisseu. Euríloco convence os demais que Odisseu é o único responsável por todos os sofrimentos que enfrentam, e desafia a todos os companheiros a sacrificar os animais da ilha, oferecendo-os em sacrifício ao Olimpo, para que, em breve, pudessem regressar aos seus lares. A matança foi consumada. Além disso, os guerreiros banquetearam-se com as carnes dos animais sacrificados.
   Quando Odisseu descobriu que todos haviam desrespeitado suas palavras, repreendeu-os. Porém, o deus Hélio, furioso, convocou os fortes ventos e lançou-os contra as naus. Odisseu e a tripulação foram imediatamente obrigados a deixar a ilha, em debandada, tal a fúria do deus Hélio. Porém, a violência da tempestade era tanta, que tudo destruiu! matando, desse modo, toda a tripulação, exceto Odissseu. O ardiloso herói novamente teve de enfrentar Cilas e Caribde, entretanto conseguiu sair mais uma vez ileso do perigo de morte. Durante nove dias as ondas arrastaram Odisseu, at