Telêmaco e
Penélope
"ODISSÉIA", DE
HOMERO
(RESUMO: Cantos XIII, XIV, XV, XVI e
XVII)
Autoria: PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
CANTO
XIII
Toda corte dos
Feácios ficou maravilhada com a narrativa de Odisseu. O rei
Alcínoo ofereceu vários presentes ao herói
grego, prometendo, logo em seguida, que o levaria de volta a
Ítaca. Odisseu agradece e se despede de toda corte. Antes da
partida, Odisseu endereça um agradecimento especial à
rainha Arete, mulher do rei Alcínoo.
Odisseu - junto a um arauto e de alguns Feácios
- chega à nau e finalmente embarca, deixando ao longe a ilha
dos Feácios.
Aos poucos, um sono delicioso se apossa de Odisseu...
Então, quando o sol já era nascente, a nau se
aproxima da ilha de Ítaca! Os Feácios retiram Odisseu
da nau, deixando-o próximo a um bosque de ninfas existente
no porto de Ítaca.
O deus Posido - que a terra sacode -, furioso,
procurou vingar-se dos Feácios, que haviam auxiliado Odisseu
em seu retorno a Ítaca. Quando a poderosa nau - que
transportara o herói grego de regresso a Ítaca -
já se encontrava próxima das praias da ilha dos
Feácios, Posido transformou-a numa imensa rocha.
Enquanto isso, em Ítaca, Odisseu despertou de
um reconfortante sono, contudo, não reconheceu a terra
natal. A princípio, o herói amaldiçoou os
Feácios, pois supôs tratar-se de mais uma armadilha.
Depois, amparado pela deusa Palas Atena, veio a reconhecer
Ítaca. A deusa, fazendo uso de um disfarce, apresenta-se a
Odisseu. O ardiloso herói roga, desse modo, ao
desconhecido:
"_ Ami, puisqu'en ces lieux, c'est toi que , le premier, je
rencontre, salut! Accueille-moi sans haine! et sauve-moi ces
biens... et me sauve moi-même! Comme un dieu, je
t'implore et suis à tes genoux. Dis-moi tout net encor; j'ai
besoin de savoir: quel est donc ce pays? et quel en est le peuple?
et quelle en est la race ? ..." (p.154)
"_Caro, por seres da terra a primeira pessoa que encontro,
eu te saúdo. Oxalá não me venhas com
ânimo adverso,
mas salva-me estas riquezas e a mim juntamente. Aproximo-me
súplice e abraço-te os joelhos, tal como a um dos
deuses faria.
Para que o saiba, responde-me certo ao que vou perguntar-te:
Qual é esta terra? este povo? que espécie de gente
aqui mora?..." (p.230)
Irreconhecível, em virtude de seus disfarces, a
deusa Atena pergunta, então, a Odisseu qual era seu
país de origem. O astucioso Odisseu inventa uma longa e
ardilosa história para a deusa, apresentando-se como um
cretense. Diante de todas aquelas mentiras, a deusa, em resposta,
replica:
"_ Quel fourbe, quel larron, quand ce serait un dieu, pourrait te
surpasser en ruses de toute genre!... Pauvre éternel
brodeur! n'avoir faim que de ruses!... Tu rentres au pays et ne
penses encore qu'aux contes de brigands, aux mensonges chers
à ton coeur depuis l'enfance... Trêve de ces
histoires!" (p.156)
"_ Simulador sem defeitos seria quem te superasse
em qualquer sorte de astúcia, ainda mesmo que fosse um dos
deuses.
Ó astucioso e matreiro incansável, nem mesmo na
pátria
resolverás pôr à margem, de vez, esta sorte de
embustes
e de artimanhas falazes, que tanto condizem com tua alma?
Bem; mas deixemos de lado essas coisas, porque ambos na
astúcia
somos peritos..." (p.232)
Assim, uma vez reveladas ambas as identidades, Odisseu
pergunta à deusa se realmente aquele local era o seu
torrão natal, isto é, Ítaca. Diante de tanta
insistência, Atenas, a deusa de olhos glaucos, passa,
então, a apontar para alguns pontos da paisagem do lugar: o
porto de Fórcis; o Monte Nérito; a sombria e
amável gruta das ninfas - também conhecidas por
Náiades -, além d'outros detalhes. Finalmente a deusa
dissipa o forte nevoeiro que recobria quase toda a paisagem, e
Ítaca ressurgiu inteira aos olhos do herói
grego.
A deusa se dirige a Odisseu e, com palavras aladas,
procura expor, de forma sucinta, tudo aquilo que o herói
vivenciaria a partir daquele momento, para que um dia, finalmente,
ali, em Ítaca, ele pudesse viver em paz. A deusa Palas Atena
pede ânimo ao herói; diz, também, a ele, que
já antevê o massacre dos pretendentes de
Penélope. Contudo, de imediato, solicita a Odisseu que
busque abrigo na cabana do divino porqueiro Eumeu (1). Depois de
tudo combinado, a deusa Palas Atena parte rumo a Lacedemônia,
onde Telêmaco, o filho do herói Odisseu, se
encontrava.
CANTO XIV
Odisseu chega à cabana do divino porqueiro
Eumeu. Os cães do porqueiro correm, aos uivos, em
perseguição a Odisseu, disfarçado de
ancião, além de mendigo - consoante o combinado junto
à deusa Atena. Eumeu espanta os cães que se
encontravam próximos - sobretudo em defesa do porqueiro -,
bem recepcionando, em seguida, o estrangeiro, que, na verdade, era
o próprio patrão, irreconhecível devido ao
disfarce.
Odisseu, visando logo ganhar a simpatia do porqueiro
Eumeu, diz, ardilosamente, que estrangeiros e mendigos são
enviados de Zeus. Eumeu convida, então, o faminto Odisseu a
entrar na cabana. Em seguida, Odisseu, junto a Eumeu, alimenta-se
na cabana do divino porqueiro.
Eumeu passa a se recordar do patrão - Odisseu -
junto ao recém-chegado hóspede, demonstrando
incredulidade quanto a um possível retorno do herói a
Ítaca. O mendigo-ancião insiste que o herói
voltará. Eumeu pede, então, que o mendigo narre a sua
própria história. O ardiloso Odisseu começa,
então, a contar a sua história para o divino
porqueiro. Na verdade, o astuto Odisseu inventa uma
história, dizendo, ao seu fiel porqueiro Eumeu, ter nascido
na vastíssima Creta. E prossegue, narrando uma série
de infortúnios por ele enfrentada. Por isso abandonou Creta
e foi para o Egito. Porém, quando se encontrava no Egito, um
forasteiro fenício o logrou com astúcia,
convencendo-o a levá-lo para a Líbia. Durante a
viagem, a embarcação naufragou, aportando na terra
dos homens Tesprotos, onde reinava Fidão valoroso.
Fidão informou ao ancião que, ali, Odisseu acumulava
imensa fortuna e que, justamente naquele exato momento, Odisseu
havia partido para Dodona, a fim de consultar o oráculo de
Zeus, deus do Olimpo, sobre a maneira melhor para Ítaca
retornar.
Entretanto, o astuto porqueiro não acredita na
história narrada pelo ancião; passa, então, a
lamentar a ausência do patrão Odisseu e se refere,
entristecido, quanto aos infindáveis infortúnios
reservados tanto a Penélope quanto ao filho do herói,
Telêmaco.
Em seguida, o prudente ancião recrimina o
porqueiro Eumeu por não acreditar no retorno de Odisseu...
depois, ambos fizeram uma refeição.
Os céus reservavam uma terrível
tempestade, pronta a desabar. Logo a seguir, passou a chover
fortemente, e um terrível frio enviado pelo vento
Bóreas invadiu a choupana.
A essa altura dos acontecimentos, o ancião -
sempre garantindo falar somente a verdade -, aproveitando-se da
ocasião propícia, volta a narrar, dizendo como
vivenciou, na condição de guerreiro, a sua
participação na Guerra de Tróia, além
do contato que lá fizera com Odisseu. O manhoso Odisseu, ou
melhor, o "ancião-mendigo" conta a Eumeu que, durante a
guerra, o astucioso Odisseu oferecera-lhe mantos para que se
protegesse do frio.
Finda a narrativa, o porqueiro Eumeu agradeceu ao
ancião pela narrativa da bela história, oferecendo,
em seguida, ao hóspede, mantos, no intuito de proteger o
"ancião" do frio que invadira, há pouco, a choupana.
Ambos então caíram em sono profundo. Eumeu deixou a
humilde cabana, indo deitar-se, segundo o hábito, junto aos
porcos, debaixo de uma côncova pedra, ao abrigo do vento
Bóreas.
CANTO XV
Telêmaco ainda se encontra em Esparta (2), junto
ao claro filho do herói Nestor, Pisístrato, no
átrio da bela e luxuosa casa do rei Menelau glorioso - o
louro Átrida.
Durante a visita que fizera a Esparta, além dos
conselhos que recebera tanto de Menelau quanto de Helena,
Telêmaco recebera, também, do divino casal, valiosos
presentes. Porém, antes da partida do ajuizado jovem
Telêmaco (antecipada e tramada pela deusa Palas Atena) da
cidade espartana, Helena teve um presságio: avistou uma
águia, levando consigo um ganso capturado e indefeso. Helena
decifrou o presságio a Telêmaco, isto é,
confirmou o retorno de Odisseu a Ítaca, seguido da
matança, pelo herói grego, de todos os pretendentes
do reino de Ítaca.
Telêmaco embarcou em sua nau... No entanto,
surge um contratempo: um estrangeiro de nome Teoclímeno se
aproxima da nau, narrando a Telêmaco a sua infeliz
história como fugitivo da própria pátria, por
ter assassinado um outro homem. Após ter ouvido a
história do divo Teoclímeno, Telêmaco o convida
a sentar-se junto de si no bojo da nau.
Enquanto isso, na cabana do porqueiro, o solerte
Odisseu desejava comprovar, ou melhor, desafiar a confiança
depositada pelo divino porqueiro no divo Odisseu e familiares.
Apresentando como pretexto o desejo de ir até a cidade, o
"mendigo-ancião" conseguira, ardilosamente, atingir o seu
objetivo: ouvir a história do divino porqueiro Eumeu.
Assim, Eumeu passa a narrar ao falso ancião
todo o carinho que havia recebido de Anticléia - mãe
de Odisseu -, da infância até a adolescência.
Porém, numa determinada ocasião, vivendo no
palácio de Laertes - na qualidade de escravo privilegiado -,
abruptamente, seu destino sofreu uma profunda mudança, pois
fôra determinado, pelos patrões, a deixar o
palácio de Ítaca, para trabalhar no campo. Nesse
momento, Odisseu solicitou ao porqueiro maiores detalhes sobre
aquela história. Eumeu passou, então, a narrar uma
longa história: nascido na Síria, na cidade de
Sidão - rica em bronze-, era filho de Aribante, mulher
possuidora de incalculáveis fortunas, porém infiel ao
marido junto aos astutos homens fenícios. Devido às
sucessivas desventuras da mãe, Eumeu foi encontrado
abandonado nas praias de Ítaca, e recolhido no
palácio de Laertes, na condição de
escravo.
Enquanto ambos dialogavam, com o auxílio da
deusa Atena, Telêmaco regressa a Ítaca, dirigindo-se -
no intuito de se esquivar dos ataques dos pretendentes e da
emboscada mortal que lhe prepararam - diretamente para a cabana do
divino porqueiro Eumeu, conforme aconselhara a deusa Palas Atena.
Telêmaco não tardou em chegar ao estábulo onde
se encontravam o pai - disfarçado de ancião - e o
divino porqueiro.
CANTO XVI
Telêmaco é recepcionado com
grande alegria pelos cães do porqueiro Eumeu, que logo o
reconheceram, pois não ladraram um só
instante. O porqueiro Eumeu, avistando Telêmaco, corre a
abraçá-lo, com carinho, cheio de afeto para com o
amo, saudando-o, tal como um amoroso pai, com doces palavras: "_Te
voilà, Télémaque, ô ma douce
lumière!" ("_ Luz de meus olhos, voltaste,
Telêmaco?").
O ajuizado Telêmaco, uma vez acomodado na
cabana, pergunta, então, a Eumeu, quem era, afinal, aquele
ancião estrangeiro que se encontrava em sua companhia. Eumeu
em resposta diz, referindo-se ao "ancião", tratar-se de um
infeliz cretense. Telêmaco, indignado, não se conforma
com a presença do "mendigo-ancião" na cabana, e passa
a repreender o porqueiro por ter permitido a permanência
daquele desconhecido no local.
Imediatamente, o solerte "ancião" tece,
então, um louvor ao herói Odisseu. Após ouvir
o elogio dirigido ao pai desaparecido, o prudente Telêmaco
replica, narrando ao "ancião" os tristes acontecimentos que
têm como palco o seu reino, atingindo diretamente a ele e
à própria mãe - a fiel Penélope.
Telêmaco pede (temendo as represálias
preparadas pelos pretendentes), então, para que o fiel Eumeu
se dirigisse até o palácio de Penélope, a fim
de comunicar à mãe (que aflita aguardava o retorno do
filho!, pois tudo sabia das piores intenções dos
usurpadores do reino de Ítaca em relação ao
filho) quanto a sua chegada - a salvo das emboscadas dos
pretendentes - à ilha de Ítaca.
Repentinamente, surge a deusa Atena e diz a Odisseu
que chegara a hora de revelar toda a verdade ao filho
Telêmaco. A deusa promove uma metamorfose no herói,
destituindo-o, dessa maneira, da aparência de ancião e
de mendigo e, ao mesmo tempo, restituindo-lhe a antiga
aparência de autêntico guerreiro.
Telêmaco, ainda surpreso com a repentina
mudança, pergunta a Odisseu se ele era um deus. Odisseu
responde que era seu pai. Telêmaco nega-se a acreditar.
Então Odisseu diz ao amado filho:
"Je ne suis pas un dieu! pourquoi me comparer à l'un des
Immortels? ... crois-moi: je suis ton père, celui qui t'a
coûte tant de pleurs et d'angoisses et pour qui tu subis les
assauts de ces gens!" (...) il est facile aux dieux, maîtres
des champs du ciel, de couvrir un mortel ou d'éclat ou
d'opprobre! " (pp.8-9-10)
"_ Nenhum dos deuses eu sou; por que a um deus imortal me
comparas?
Sou, sim, teu pai, por quem hás suspirado, saudoso,
já tanto
e tantas dores sofrido, agüentando a violência de
estranhos (...)
[ante as dúvidas que Telêmaco lança contra a
verdadeira identidade do ‘ancião', Odisseu
retruca:](...)
Sou, sim, eu mesmo, que após sofrimentos e viagens
inúmeras,
vinte anos já decorridos, ao solo da pátria
retorno.
Essas mudanças, que vês, são trabalhos de Atena
guerreira (...)
É muito fácil aos deuses, que moram no Olimpo muito
amplo,
os homens todos mortais exaltar, ou disformes deixá-los."
(p.277)
Uma vez proferidas tais palavras, em prantos, pai e
filho se abraçam.
Telêmaco diz, então, ao pai, que os
pretendentes ao trono de Ítaca são numerosos, citando
alguns nomes. Odisseu pede a Telêmaco que acredite nos
deuses.
Assim, a matança dos pretendentes começa
a ser tramada.
A primeira providência de ordem tática de
Odisseu endereçada ao filho é que Telêmaco zele
pelas armas do deus Ares (deus das guerras, das armas) - escondidas
no palácio de Ítaca. Adverte, também,
Telêmaco, que ninguém pode saber de sua
presença em Ítaca, nem mesmo aqueles que mais desejam
o seu retorno, isto é, o estimado pai, Laertes, a fiel
esposa, Penélope, e o divino porqueiro Eumeu.
"_ Si c'est bien de mon sang, de moi, que tu naquis, personne
s'entendra parler de ma présence: que Laerte l ‘ignore
[et le porcher aussi, et tous nos serviteurs,] et même
Pénélope. A nous seuls, toi et moi, nous devrons
éprouver la droiture des femmes et nous devrons aussi, parmi
nos domestiques, chercher qui nous respecte et nous craint en son
âme ou qui, sans plus d'égards, mèprisa ta
détresse." (pp.13-14)
"_ Se és do meu sangue e meu filho te orgulhas de ser, em
verdade,
não venha nunca ninguém a saber que Odisseu
está em casa.
Que o não perceba Laertes, nem mesmo o divino
porqueiro,
nem um qualquer dos criados da casa, nem mesmo
Penélope.
Os sentimentos das servas somente nós dois sondaremos.
Sim, poderemos, também por à prova o sentir de alguns
servos,
a fim de vermos qual nutre por nós amizade e respeito,
e os que de nós não se importam, mostrando por ti
só desprezo." (p.280)
Enquanto isso, os insolentes pretendentes
encontravam-se reunidos na Ágora, para deliberar sobre o
destino do jovem Telêmaco. A astuciosa Penélope,
sabendo de tal acontecimento, interpela o pretendente
Antínoo - o mais audacioso dos pretendentes -, pedindo que
cessasse de tramar tamanhas covardias contra seu filho; bastavam os
infortúnios que desabavam sobre o palácio durante a
longa ausência do marido.
Por seu lado, Eurímaco - outro pretendente -
dirigi um falso discurso à Penélope, prometendo
colocar a salvo Telêmaco contra a insolência de todos
os pretendentes.
Por seu turno, o porqueiro Eumeu retorna à
cabana, dizendo a Telêmaco que comunicara a mãe sobre
o seu retorno.
CANTO XVII
Telêmaco exprime a Eumeu o seu
desejo de ir até a cidade, pois queria retornar ao
palácio e permanecer junto à mãe; diz,
também, ao divino porqueiro, para se desvencilhar do
"mendigo", pois a permanência desse tipo de indivíduo
tem lugar na cidade, e não no campo. O "ancião"
concorda prontamente com Telêmaco.
Chegando ao palácio, Penélope, chorosa e
carinhosamente, recepciona Telêmaco, dizendo: "_ Te
voilà, Télémaque! ô ma douce
lumière!..." ("_ Luz, doce luz, já voltaste,
Telêmaco?").
Telêmaco pede à mãe que se recolha
aos seus aposentos, pois não queria ser incomodado pelos
seus gemidos, pois eles o colocavam em sobressalto, após
tantos perigos vividos. Penélope concorda com o filho,
confessando que, naquele momento, sentia-se bastante angustiada com
tão longa ausência de Odisseu. Antes, contudo,
Telêmaco relata à mãe, em detalhes, a viagem
que fizera a Pilo e a Esparta. Não desejando nada ocultar da
própria mãe, Telêmaco disse o que soubera, por
intermédio da boca de Menelau, quanto ao relato do
ancião do mar (Proteu), o qual afirmara que Odisseu se
encontrava retido na ilha de Ogígia, junto à ninfa
Calipso. De repente, aos dois, o divino deiforme Teoclímeno
lança um vaticínio exato para Penélope, no que
se refere ao paradeiro do marido há muito desaparecido. O
deiforme Teoclímeno diz, então, à esposa
inconsolável, que Odisseu já havia retornado a
Ítaca.
"_ Digne épouse du fils de Laerte, d'Ulysse, tu vois que
Ménélas ne savait pas grand chose; mais retiens mon
avis; je prédis à coup sûr et ne te cache rien.
Sache qu'en sa patrie, Ulysse est revenu, qu'il y siège, y
circule et, connaissant déjà leurs vilaines besognes,
prépare un vilain sort à tous les
prétendants... Voilà ce qu'est venu me
révéler l'augure , ce que je révélai
moi-même à Télémaque sur les bancs du
vaisseau." (pp.27-8)
"_ Ó digna esposa do herói Odisseu, de Laertes
nascido!
Ele não sabe de tudo: ora presta atenção ao
meu dito,
que profecia farei verdadeira, sem nada ocultar-te (...)
Digo que o herói já se encontra no solo da terra
nativa,
nele sentado ou vagueando, o observar estes atos
iníquos
e a cogitar no mais íntimo como vingar-se de todos
(...)
esse augúrio
interpretei pelo vôo das aves, contando-o a Telêmaco."
(p.292)
Nesse entremeio, o fiel porqueiro Eumeu torna-se -
até a cidade - o guia do herói Odisseu. Ao chegarem
em Ítaca, antes de entrarem no palácio, Odisseu
(ainda disfarçado de mendigo) foi injuriado por
Melântio, que se encontrava próximo do bosque das
ninfas. Eumeu rogou vingança às ninfas contra
Melântio.
Após este episódio, Eumeu e Odisseu
rumaram ao palácio. Lá chegando, ambos ouviram o aedo
Fêmio a cantar. Um cão aproxima-se de Eumeu e de
Odisseu: era Argos, o fiel cão do herói grego.
Após longos vinte anos de ausência, deparando-se
repentinamente com o dono, o fiel cão morre.
Depois desse lamentável infortúnio,
Odisseu e Eumeu entraram, finalmente, no palácio. Eumeu
instrui Odisseu a mendigar junto a todos pretendentes; Palas Atena
incita, também, o herói (ainda disfarçado) a
mendigar. Na verdade, tratava-se de um valioso estratagema
utilizado pela deusa, de olhos glaucos, permitindo, desse modo, que
Odisseu viesse a conhecer o comportamento de cada um dos
pretendentes.
Antínoo foi o mais soberbo e o mais arrogante
dentre os pretendentes, pois investiu com dura hostilidade contra a
presença do "ancião" no palácio.
Antínoo torna-se colérico diante de uma resposta
insolente que ouve da parte do "mendigo-ancião". Em
contrapartida, o "mendigo" profetiza, então, a morte de
Antínoo, fazendo uso das seguintes palavras: _ Antes do
casamento, encontrarás a morte, Antínoo!
Pressentindo algo, Penélope solicita a
presença imediata do "mendigo" em seus aposentos. Mas
é desaconselhada pelo porqueiro Eumeu a nutrir tal
decisão, tendo em vista as maldosas opiniões alheias
com relação a tal procedimento.
Num determinado momento, Telêmaco dá um
forte espirro. Penélope ri, profetizando o seguinte: o
espirro é sinal dos deuses, e queira, talvez, significar que
a morte atingirá a todos os meus pretendentes.
....................
NOTAS
Apontamentos ou sugestões a visar reflexões em torno
do que foi lido:
1. É interessante notarmos a sutileza empregada nos versos
homéricos quanto às relações
hierárquicas entre as classes sociais na Grécia
arcaica, no que se refere, sobretudo, às
aproximações entre indivíduos que ocupam
posições totalmente díspares dentro do
referido universo social. Trata-se, obviamente, de uma sociedade
escravocrata, contudo, há em Homero uma
preocupação em ressaltar as atitudes, muitas vezes
plenas de amorosidade, que permeiam, paradoxalmente, as
relações entre patrões e escravos. Dentre elas
se destacam, por exemplo, a fidelidade - e a recíproca
é verdadeira! - entre o escravo Eumeu e todo o clã de
Odisseu. De outra parte, nos próximos Cantos da
"Odisséia", tal fato se evidenciará igualmente, ou
até mesmo por meio de tintas mais fortes, no papel conferido
à escrava-ama Euricléia, cuja
participação na narrativa homérica é de
fundamental importância rumo ao desfecho da narrativa
homérica - a última personagem supera ou se iguala,
em se tratando de importância no desenvolvimento da trama, a
alguns dos protagonistas da "Odisséia"!
Em linhas gerais, parece palpitar, nas páginas da
"Odisséia", um certo "esforço" em promover os
indivíduos pertencentes às classes sociais
inferiores, arrancando-os, com isso, do anonimato da
história.
2. Os versos homéricos, em vários trechos da
"Telemaquia" (Cantos I a IV) e nos que aqui estudamos, parecem
sugerir que o jovem Telêmaco, provindo do pobre reino de
Ítaca, ao conhecer as riquezas existentes na cidade de Pilo
e, sobretudo, encantado com o luxo da cidade de Esparta, vacila,
isto é, tem-se a impressão que Telêmaco passa a
adiar (teria o jovenzinho se apaixonado por Helena?! a mais bela
mulher de toda Grécia!) o seu retorno a Ítaca;
aliás, a exemplo do pai, o herói Odisseu, que por
mais que lamentasse a ausência do lar em sua longa
errância após a guerra de Tróia, não
deixou de se enlevar pelos encantos de ninfas e de deusas: Calipso,
Nausícaa, Circe... e desse modo, sempre adiava sua partida
em busca da amada Ítaca.
BIBLIOGRAFIA
HOMÈRE. "L'Odyssée". Texte établi et traduit
par Victor Bérard. Tomes I ( huiteme tirage ) , II (
neuvieme tirage) et III (huiteme tirage). Paris: Les Belles
Lettres, 1972 - 1974 - 1987.
HOMERO. "Odisséia". 2 ed. Tradução Carlos
Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
PROF. DR. SÍLVIO
MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006
SÍLVIO MEDEIROS Publicado no Recanto das
Letras em 06/01/2006
Código do texto: T95097
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