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ReLeituras

ULISSES de James Joyce (continuação da tentativa de resumo dos episódios 16, 17 e 18 - Parte III)  (ReLeituras) escrito em sexta 30 março 2007 17:16

  

Vue de mer  

de Vincent Van Gogh  

  


  

EPISÓDIO 16 - EUMAEUS

   O local é o abrigo de cocheiros de aluguel da cidade de Dublin. É o lugar onde se encontram Bloom e Stephen, após deixarem o prostíbulo (o primeiro encontro entre Stephen Dedalus – o Telêmaco moderno - e Leolpold Bloom – o Odisseu moderno - ocorrera em meio às discussões sobre a natalidade, na Maternidade = episódio 14). Ambos pretendem tomar um cafezinho acompanhado com pão.
   O restaurante é humilde e a atmosfera é fétida. No abrigo dos cocheiros encontra-se, dentre outros marinheiros, Murphy - uma espécie de marinheiro-narrador; na verdade, um contador de mentiras, que não vê a esposa há sete anos:

“_ Murphy é o meu nome - continuou o marinheiro, W. B. Murphy, de Carrigaloe. Sabe onde é?
_ Porto de Queenstown - replicou Stephen.
_É isso - disse o marinheiro. _ Fort Camden e Fort Carlisle. É de lá que velejo. Minha mulherzinha lá está. Está esperando por mim, que eu sei. Pela Inglaterra, o lar e a beleza. É a muito minha leal mulher que já não vejo por sete anos, navegando por aí.” (p.431)

(“Murphy’s my name, the sailor continued. D. B. Murphy of Carrigaloe. Know where that is?
_ Queenstown haobour, Stephen replied.
_ That’s right, the sailor said. Fort Camden and Fort Carlisle. That’s where I hails from. I belongs there. That’s where I hails from. My little woman’s dow there. She’s waitin for me, I know. For England, home and beauty. She’s my own true wife I haven’t seen for seven years now, sailing about.” ) ( p.510).

   Bloom põe-se a apreciar o cenário inscrito num cartão postal apresentado a ambos pelo marinheiro. Leopold Bloom sente desejo de viajar:

“... ele tencionava um dia realizar numa quarta-feira ou sábado de viajar para Londres via alto mar para não dizer que jamais houvera viajado extensamente nenhuma grande extensão pois que ele era de coração aventureiro nato....” (p.433)

(... “he meant to one day realise some Wednesday or Saturday fo travelling to London via long sea not to say that he had ever travelled extensively to any great extent but he was at heart a born adventurer...”)  (p.512)

  O marinheiro começa, então, a descrever para ambos, Stephen e Bloom, os rochedos que tivera a oportunidade de conhecer durante as suas viagens. Leopold Bloom, cansado de ouvir todas aquelas histórias, passa a contemplar um mapa dependurado numa das paredes do abrigo dos cocheiros:

“Suficiente era dizer que, como um olhar fortuito ao mapa o revelava, cobria amplamente três quartos dele e compreendia amplamente nessa conformidade o que isso significava, dominar os mares.”

(“... suffice it to say that, as a casual glance at the map revealed, it covered fully three fourths of it and he fully realised accordingly what it menat to rule the waves.”) 

   Subitamente, o marinheiro-narrador notou que todos observavam seu peito:

“_ Tatuagem - explicou o exibidor. _ Foi feita quando tivemos uma calmaria ao largo de Odessa no mar Negro no comando do Capitão Dalton. Um gajo de nome António fez. Este é ele mesmo, um grego.” 

(“Tattoo, the exibitor explained. That was done when we were lying becalmed off Odessa in the Black Sea under Captain Dalton. Fellow, the name of Antonio, done that. There he is himself, a Greek.”) 

   Leopold Bloom e Stephen Dedalus deixam o abrigo dos cocheiros.


                    

EPISÓDIO 17 - ITHACA

   O duunvirato formado por Leopold Bloom e Stephen Dedalus segue rumo ao endereço da Rua Eccles, n.7, isto é, o lar de Leopold Bloom e de Molly Bloom (a Penélope moderna).
   Ao lar chegando, ambos rumam à cozinha, e uma seqüência de perguntas e respostas - banhadas por temas recorrentes – desnuda, pouco a pouco, as personalidades de Bloom e Dedalus. Primeira pergunta seguida de resposta:

“De que deliberou o duunvirato durante o itinerário?”

Música, literatura, Irlanda, Dublin, Paris, amizade, mulher, prostituição, dieta...”

(“Of what did the duumvirate deliberate during their itinerary?

Music, literature, Ireland, Dublin, Paris, friendship, woman, prostitution, diet...” )

  Um longo elenco de perguntas e respostas sucede-se, ocupando todo o episódio. Outras perguntas:

“Que reflexões concernentes à irregular seqüência de datas de 1884, 1885, 1886, 1888, 1892, 1893, 1904 fez Bloom antes de sua chegada a seu destino? (...)
“Que razão deu Stephen para declinar do oferecimento de Bloom? (...)
“Quem bebeu mais depressa? (...)
“Que relações existiam entre suas idades? (...)
“Acharam eles similares suas formações educacionais? (...)”(pp.466-474)

(“What reflection concerning the irregular sequence of dates 1884, 1885, 1886, 1888, 1892, 1893, 1904 did Bloom make before their arrival at their destination?(...)”
“What reason did Stephen give for declining Bloom’s offer?(...)”
“Who drank more quickly? (...) “
“What relation existed between their ages? (...) “
“Did they find their educational careers similar? (...)” (pp. 545-558)

  Diretamente ou não, junto a uma grande diversidade de temas, algumas vezes, outras não, ligada a ambos, o catálogo de perguntas e respostas, em seu conjunto, começa a configurar um quadro contrastante entre Leopold Bloom e Stephen Dedalus. Contudo, esse complexo painel de diferenças ou semelhanças, entremeando as figuras de ambos, não é estático, porque ele se metamorfoseia, progressiva e dialeticamente, até atingir uma imagem unitária, ao fundir os nomes Stephen Dedalus e Leopold Bloom num só. Retomemos uma das perguntas seguida de resposta:

“Acharam eles similares suas formações educacionais?

Substituindo Stephen por Bloom Stoom teria passado sucessivamente por uma escola infantil e colégio secundário. Substituindo Bloom por Stephen Blephen teria passado sucessivamente através do preparatório ...” (p.474)

(“Did they find their educational careers similar?

Substituting Stephen for Bloom Stoom would have passed successively through a dame’s school and the high school. Substituting Bloom for Stephen Blephen would have passed successively throught the preparatory ...”) (p.558)

   Sigamos em frente. Mais uma pergunta, e agora as dessemelhanças:

“Que dois temperamentos representavam eles individualmente?”
(“What two temperaments did they individually represent?”)
   
   Resposta:

“ ... o científico. O artístico.”
( “... the scientific. The artistic.”)
    
   O catálogo de perguntas e respostas atinge o final somente quando Stephen resolve ir embora. Bloom insiste para que Stephen passe a noite em sua casa. Stephen Dedalus nega-se a atender a solicitação de Leopold Bloom; despede-se, e parte não se sabe para onde...
   Por fim, Leopold Bloom vai para o seu leito, deitando-se ao lado da infiel Molly Bloom.


        

EPISÓDIO 18 - PENELOPE

   Retomando o final do capítulo 17, Leopold Bloom ruma ao quarto de Molly Bloom. O herói moderno deita-se ao lado da mulher, e dorme.
   O episódio 18 é, então, inaugurado com o romper-rompimento do fluxo de consciência de Molly Bloom:

“SIM porque ele nunca fez uma coisa como essa antes como pedir pra ter seu desjejum na cama com um par de ovos desde o Hotel City Arms quando ele costumava fingir que estava de cama com voz doente fazendo fita para se fazer interessante para aquela velha bisca da senhora Riordan  que ele pensava que tinha ela no bolso...”  (p.518)

(“Yes because he never did a thing like that before as ask to get his breakfast in bed with a couple of eggs since the City Arms hotel when he used to be pretending to be laid up with a sick voice doing his highness to make himself interesting for that old faggot Mrs Riordan that he thought he had a great leg of and she...”)   (p.608)

   Segue, desse modo, a acelerada narrativa do fluxo da consciência de Molly Bloom, composta por milhares de palavras errantes - sem qualquer pontuação -; tais palavras nos levam a penetrar no labiríntico universo do pensamento feminino:

“... meter isso nele sim e então a gente ia ter uma enfermeira do hospital como próxima história pegando ele lá até terem de jogar ele pra fora ou talvez uma freira como aquela da foto suja que ele tem que é tão freira como eu não sou sim porque eles são tão fraquinhos e choramingas (...) lembra o Menton e quem mais deixa eu pensar aquele cara de bebê que eu vi ele não fazia muito de casado namorando aquela mocinha no Miriorama Pooles e eu virei as costas (...) e na última vez que ele foi no meu traseiro quando é que foi na noite que Boylan deu aquele apertão na minha mão (...) peuuuuuuuuupuoruuuuuur un train quelque part qui siflle la force qu’elles ont dans le corps ces locomotives comme de grosses géantes et l’eau qui bout partout et qui sort le tous les cotes ça fait comme lê fin de Pour um peau d’amououour les pauvres hommes qui sont dehors toute la nuit loin de leurs femmes et de leurs enfants dans ce rôtissoires c’était étouffant aujord’hui je suis contente d’avoir brûle lá moitié de ces vieux Hommes Libres et Froufrou (...) this vale of tears God knows its not much doesnt everybody only they hide it I suppose thats what a woman is supposed to be there for or He wouldnt have made us the way He didi so attractive to men then if he wants to kiss my bottom Ill drag open my drawers and bulge it right out in his face a large as life he can stick his tongue 7 miles up my hole as the my brown (...) O et la mer écarlate quelquefois comme du feu et les glorieux couchers de soleil et les figuiers dans les jardins de l’Alameda et toutes les ruelles bizarres et les maisons roses et bleues et jaunes et les roseraies et les jamins et les géraniums et les cactus de Gilbratar (...) as a girl where I was a Flower of the mountain yes when I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wal and I thougt well as well him as (...) ele tentando fazer de mim uma puta o que ele nunca fará de mim (...) e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim eu puxei ele pra baixo de mim para ele poder sentir meus peitos ... tout parfumés oui et son coeur battait comme fou AND YES I SAID YES I WILL YES.”

Trieste-Zurich-Paris
1914-1921.


NOTAS

1. O episódio 18 do romance “Ulisses”, de James Joyce, na edição inglesa, tem início na página 608 e término na página 644;
2. na tradução para o idioma português: página 518 a 551;
3. e francês: página 1057 a 1135. 


BIBLIOGRAFIA

JOYCE, James. Ulysse. Traduction Auguste Morel, Valery Larbaud, Stuart Gilbert et l’auter. Paris: Éditions Gallimard, 1997.

_____. Ulisses. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

_____. Ulysses. Edited by Hans Walter Gabler. New York : Vintage Books, 1986.


       PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
         Campinas, verão de 2006




SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 12/01/2006
Código do texto: T97687

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
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ULISSES de James Joyce (continuação da tentativa de resumo dos episódios 14 e 15 - Parte II)  (ReLeituras) escrito em quinta 29 março 2007 13:42

Saint Patrick's Church

em Dublin  



 

EPISÓDIO 14 – OXEN OF THE SUN


“DESHIL Holles Eamus, Deshil Holles Eamus, Deshil Holles Eamus.
Envia-nos, ó brilhante, ó iluminado, Hornhorn, vivificamento e uterifruto. Envia-nos, ó brilhante, ó iluminado, Hornhorn, vivificamento e uterifruto. Envia-nos, ó brilhante, ó iluminado, Hornhorn, vivificamento e uterifruto...”  (p.284)

(“Deshil Holles Eamus. Deshil Holles Eamus. Deshil Holles Eamus.
Send us bright one, light one, Horhorn, quickening and wombfruit. Send us bright one, light one, Horhorn, quickening amd wombfruit. Send us bright one, light one, Horhorn, quickening and wombfruit...”)   (p.314)

  Este episódio é inaugurado com a estranha invocação acima, a qual aparentemente deita raízes em elementos quiçá mitológicos. Em seguida, explode uma longa sucessão de temas, mais precisamente sobre a procriação, banhada por múltiplos elementos teológicos.
   O episódio também é portador de um extenso conjunto de paródias e de sátiras: “O Papa Pedro não é mais que um mijão. Um homem é um homem é um homem senão não.” (“_ Pope Peter’s but a pissabed. A man’s a man for a’that.”). 
   Os fatos, do referido capítulo, têm lugar no hospital onde a sra. Mina Purefoy sofre as dores do parto. Elementos das mitologias celta, romana, hebraica, grega, da filosofia ocidental etc., todos se mesclam junto a passagens que trazem a lume dados sobre o controle de natalidade na Irlanda. “Mais ainda, não tivera o vasculhão da ajeitadeira sido seu anjo tutelar tudo teria sido para ela tão duro quando o fora para Agar, a egípcia!...” (“Nay, had the hussy’s scouringbrush not been her tutelary angel, it had gone with her as hard as with Hagar, the Egyptian!”); “O outro problema suscitado pelo mesmo inquiridor é apenasmente menos vital: a mortalidade infantil.” (“The other problem raised by the same inquirer is scarcely less vital: infant mortality.”) 
   Em meio a ladainhas latinas, de cunho profano-religioso, o parto da sra. Purefoy torna-se cada vez mais sofrível e difícil. Por fim, o nascimento do vigoroso varãozinho da sra. Purefoy é anunciado pelo deus Thor. Assim, após um estrondoso trovão, nasce o nono pimpolho da sra. Purefoy.
   O episódio encerra-se mediante uma convocação: “_ Todos rumo à farra, ombro à frente, escoando rua abaixo.” (“All off for a buster, armstrong, hollering down street.”); seguido de temas recorrentes: “diacho, que droga disso daquilo é o gajo do impermeável?” (“Golly, whatten tunket’s yon guy in the mackintosh?”), além de uma notória constatação: “Tudo tá fora dos eixos” (“Live axle drives are souped”).

EPISÓDIO 15 - CIRCE

     “Outras formas pairavam ali. Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos. Pressentia, mas não podia apreender suas existências vacilantes e incertas. Ele próprio dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se.” (Dublinenses, pp.194,195)

     Recorremos aos momentos finais do conto “Os Mortos”, de James Joyce, pois, nesta passagem, à maneira de um historiador, a escritura do romancista parece trabalhar com a memória de todos, ou seja, com a memória dos vivos e dos mortos. É, portanto, com essa trajetória de interpenetração de camadas entre os vivos e os mortos (a exemplo daquilo que ocorre no conto que integra “Os Dublinenses”), além de sucessivas metamorfoses, que este episódio ganha força, progressivamente. Os acontecimentos têm como cenário a zona de meretrício da cidade de Dublin, mais especificamente, o bordel da Rua Mabbot, cuja proprietária é Bella Cohen. Leopold Bloom sente-se no dever de acompanhar o seu filho espiritual - Stephen Dedalus - até o prostíbulo. O episódio é constituído por um amplo conjunto de múltiplos diálogos e serve de ponto de partida para inúmeras metamorfoses. No prostíbulo, Stephen sofre ameaças físicas por parte dos freqüentadores, porém, Bloom, a exemplo de um pai, procura defendê-lo. Um volumoso conjunto de imagens alucinantes – por esta razão, constitui o capítulo mais longo do romance – ora transforma Leopold Bloom em prefeito da cidade de Dublin. Contudo, a impressão que se tem é que Bloom, aqui, é tornado o herói fundador de uma nova civilização. Num dado momento, Bloom cala o Impermeato: “_ Fuzilem-no! Cachorro de cristão! Chega de Impermeato! (Um canhonaço. O homem de impermeável desaparece (...)”; ( _ “Shoot him! Dog of a christian! So much for M’Intosh!”).
   Temas recorrentes preenchem todo o episódio, com grande intensidade: o sabonete; a batata; a jovem Gerty MacDowel; jornalismo; o cornudo de Dublin (Bloom); meias transparentes, ligas e lindas anáguas; o parto; Agendath Netaim; ninfas; as nove musas; dias alciónicos; Stephen e a mãe moribunda; o Impermeato; o rapazinho cego: “(Apertando a mão com um rapazinho cego) Meu mais que Irmão!” ( “(Shaking hands with a blind stripling). My more than Brother!”).
   Um longo catálogo de gerações apresenta a ascendência de Leopold Bloom: “Moisés gerou Noé e Noé gerou Eunuco (...) Virag gerou Bloom ...”; (“Moses begat Noah and Noah begat Eunuch (...) Viragt begat Bloom...”).
   Traçando e trançando vínculos progressivos entre elementos do mundo moderno e elementos inscritos nas tradições culturais em geral, este episódio apresenta novos e inúmeros sentidos tanto para o antigo quanto para o novo:

“Bloom explana aos mais perto seu projecto de regeneração social. Todos concordam com ele. O zelador do Museu da Rua Kildare aparece puxando um camião em que tremelicam estátuas de várias deusas nuas, Vénus Calipígia, Vénus Pandemos, Vénus Metempsicose, e figuras de gesso, também nuas, representando as nove musas, Comércio, Música Operática, Amor, Publicidade, Manufactura, Liberdade de Palavra, Voto Plural, Gastronomia, Higiene Privada, Recreações de Concerto à Beira-Mar, Obstétrica Indolor e Astronomia para o Público.” (p.351)

(“Bloom explains to those near him his shemes for social regeneration. All agree with him. The keeper of the Kildare street museum appears, dragging a lorry on wich are the shaking statues of several naked goddesses, Venus Callipyge, Venus Pandemos, Venus Metempsychosis, and plaster figures, also naked, representing the new nine muses, Commerce, Operatic Music, Amor, Publicity, Manufacture, Liberty of Speech, Plural Voting, Gastronomy, Private Hygiene, Seaside Concert Entertainments, Painless Obstetrics and astronomy for the People.”) (p.400)

  Mulheres procuram humilhar homens, referindo-se aos últimos como se fossem porcos. Além disso, Leopold Bloom é, por fim, considerado o cornudo notório de Dublin:

“A HONORÁVEL SENHORA MERVYN TALBOYS: (Desabotoando as luvas violentamente) Não o farei. Porco de cão que sempre o foi desde cachorrinho! Ousar dirigir-se a mim! Vou flagelá-lo pelas ruas públicas até que fique negro de roxo. Vou enterrar minhas esporas nele rosetas adentro. É um cornudo notório. (Zurze sua chibata de caça selvagemente no ar). Tirem-lhe as calças sem perda de tempo. Venha para cá, cavalheiro!Rápido!Pronto?” (P.339)

(“THE HONOURABLE MRS MERVYN TALBOYS: (unbuttoning her gauntlet violently) I’ll do no such thing. Pigdog and always was ever since he was pupped! To dare address me! I’ll flog him black and blue in the public streets. I’ll dig my spurs in him up to the rowel. He is a wellknown cuckold. (she swishes her humtingcrop savagely in the air) Take down his trousers without loss of time. Come here, sir! Quick! Ready!”) (p.382)

   A honra de Leopold Bloom declina, progressivamente, dentre os personagens ali presentes. A isso, somam-se sucessivas metamorfoses, em escala gigantesca! E tudo acontece num só espaço. Bloom sente o desejo de ser mãe: o corpo de Bloom é o de uma mulher. Bloom-Messias: Bloom veste a túnica Inconsútil.

“CORNUSSOPRA: (De éfode e casquete-de-caça, anuncia) E ele deverá levar os pecados do povo para Azazel, o espírito que está no ermo, e para Lilith, a noctifúria. E eles o lapidarão e o conspurcarão, de feito, todos os de Agendath Netaim e de Mizriam, a terra de Ham.” (p355)

(“HORNBLOWER: (in ephod and huntingcap, announces) And he shall carry the sins of the people to Azazel, the spirit which is in the wilderness, and to Lilith, the nighthag. And they shall stone him and desfile him, yea, all from Agendath Netaim and from Mizraim, the land of Ham.”) (p.405)

  Surgem menções à Lilith, a primeira mulher de Adão, que o abandonou no Paraíso – figura de mulher inscrita nos evangelhos e na mitologia como a destruidora de bebês recém-nascidos.

“O GRAMOFONE:
Jerusalém!
Abre tuas portas e canta
Hosana...”

( “THE GRAMOPHONE :
Jerusalem!
Open your gates and sing
Hosanna...”)

   Os motivos bíblicos se multiplicam:

“ELIAS: Nada de parlapatices, se me fazem o favor, nesta tenda (...) Juntem-se logo e aqui! Reservas para a junção com a eternidade, viagem directa. Só uma palavra mais. És um deus ou sois uns malditos ateus? Se o segundo advento chegar a Coney Island estaremos juntos? Florry Cristo, Stephen Cristo, Zoe Cristo, Bloom Cristo, Kitty Cristo, Lynch risto, depende de vocês sentir essa força cósmica. Temos tremedeira de medo dos cosmos? Não, fiquem do lado dos anjos.” (p.361)

(“ELIJAH: No yapping, if you please, in this booth. (...) Join on right here. Book throught to eternity junction, the nonstop run. Just one word more. Are you a god or a doggone clod? If the second advent came to Coney Island are we ready? Florry Christ, Stephen Christ, Zoe Christ, Bloom Christ, Kitty Christ, Lynch Christ, it’s up to you to sense that cosmic force. Hve you cold feet about the cosmos? No. Be on the side of the angels.” ) (p.414)

   Neste episódio, o passado, o mítico, o religioso aparentam não ser inacessíveis. Parece tratar-se de um tipo de apreensão do tempo passado; de um sentimento da sua distância em relação ao presente - não no seu aspecto inaugural, porque este está irremediavelmente perdido.
   E prosseguem novas metamorfoses: Bella Cohen é metamorfoseada em Bello. As metamorfoses alternam-se e sucedem-se... A mistura do bíblico, do cabalístico, do mitológico e de outros elementos transcendentes apresenta, neste episódio, uma escritura poética incomparavelmente bela! Potências poéticas seculares misturam-se de um modo metafórico para ressignificar uma vida arruinada e martirizada; para Leopold Bloom, a ausência e a imagem do filho morto - no encerramento do episódio:

“... Contra o muro escuro uma figura aparece lentamente, um menino louro de onze anos, um trocado, raptado, vestido à Eton com sapatos de cristal e pequeno elmo de bronze, sustendo um livro na mão. Lê da direita para a esquerda inaudivelmente, sorridentemente, beijando a página.)

BLOOM: (Maravilhado, chama inaudivelmente) Rudy!

RUDY: (Mira sem ver nos olhos de Bloom e segue a ler, beijar, sorrir. Tem uma delicada cara malva. No traje traz os botões de diamantes e rubis. Na mão esquerda livre sustém uma fina bengala de marfim com um laço violeta. Um anhozinho branco espia do bolso do seu colete.” (p.419)

(“ (...Against the dark wall a figure appears slowly, a fairy boy of eleven, a changeling, kidnapped, dressed in an Eton suit with glass shoes and a little bronze helmet , holding a book in his hand. He reads from right to left inaudibly, smiling, kissing the page.)

BLOOM : (wondertruck, calls inaudibly) Rudy!

RUDY : ( gazes, unseeing, into Bloom’s eyes and goes on reading, kissing, smiling. He has a delicate mauve face. On his suit he has diamond and ruby buttons. In his free left hand he holds a slim ivory cane with a violet bowknot. A white lambkin peeps out of his waistcoat pocket.”)  (p.497)


BIBLIOGRAFIA

JOYCE, James. “Dublinenses”. 4 ed. Tradução Hamilton Trevisan. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.

_____. “Ulisses”. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

_____. “Ulysses”. New York : Vintage Books, 1986.
 

PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006.





SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 10/01/2006
Código do texto: T96637

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ULISSES de James Joyce (continuação da tentativa de resumo dos episódios 11,12 e 13 - Parte II)  (ReLeituras) escrito em quarta 28 março 2007 16:05

The Irish Jewish

Museum in Dublin


                      

EPISÓDIO 11 : SIRENS

    
   Este episódio tem lugar no interior do “Bar Ormond”, às 4 horas, da tarde. O capítulo é essencialmente musical. “Impertxnentx txnentxnentx”; “Bloomquem” ou ainda “Bloomcujo” flanava pelo interior do bar. O sr.Dedalus também ali flanava, acompanhado do filho, o jovem bardo Stephen Dedalus.
   Um diálogo se estabelece entre Miss Douce e Miss Kennedy sobre um clássico pianista: 

“_ Pois não era, Miss Kennedy ? O verdadeiro clássico, o senhor sabe. E ademais cego, o pobrezinho.” (...) (“_ Didn’t he, Miss Kennedy? the real classical, you know. And blind too, poor fellow...”) Fume sereias, a mais fresca baforada de todas ” (“Smoke mermaids, coolest whiff of all”).
    
   No interior do bar, todos, na verdade, flanavam, ao som de notas musicais, árias, harpas, sereias, canções oceânicas... Sereias fumando. O relógio chilrou, e a sereia fumando e baforando, diz:

“ _ Do rochedo de Gibraltar... de todos os modos.
Elas enganchavam-se na profundura da sombra oceânica, ouro perto da bica de cerveja, bronze perto do marasquino, pensavitas as duas, Mina Kennedy, 4, terraço Lismore, Drumcondra, com udolores, uma rainha, Dolores, silenciosa.” (...) Ante o rochedo de ananás de Graham Lemon”. (p.203-205)

(“_ From the rock of Gibraltar ... all the way.
They pined in depth of ocean shadow, gold by the berrpull, bronze by maraschino, thoughtful all two. Mina Kennedy, 4 Lismore terrace. Drumcondra with Idolores, a queen, Dolores, silent. (...) By Graham Lemon’s pineapple rock...”)  (p. 222-223)

   Leopold Bloom, enquanto aprecia uma refeição, ouve uma ária - o concerto do sr. Dedalus - e pergunta:

“ _ Que ária é essa? perguntou Leopold Bloom.
 _ Tudo está perdido agora. (...) Tudo é perdido agora. Plangente ele assoviava. Queda, entrega, perda. (...) 
 “ _ Uma bela melodia _ disse Bloom perdido Leopold.” ( p.206)

(“_ Which air is that? asked Leopold Bloom.
  _ All is lot now.” (...) All lost now. Mournful he whistled. Fall, surrender, lost. (...)
  _ A beautiful air, said Bloom lost Leopold.”)  (p.224)

   Finda a ária, todos os presentes aplaudem: “Bravo! Plaqueplaque. Óptimo, Simon. Plaquepalcplac. Bis! Placpliqueplac. Soa como um sino ...” (“Bravo! Clapclap. Good man, Simon. Clappyclapclap. Sound as a bell.”)
   Um rapaz cego é um dos freqüentadores do Bar Ormond:

“Tape. Tape. Um rapazola, cego, com uma vareta tapetante, vinha tapetapetapitando perto da vitrina do Daly onde uma sereia, cabeleira toda cascateante (mas ele não podia ver), soprava baforadas de uma sereia (cego não podia), uma sereia da mais fresca baforada dentro todos.
Instrumentos.”(p.218)

( “Tap.Tap. A stripling, blind, with a tapping cane come taptaptapping by Daly’s window where a mermaid hair all streaming ( but he couldn’t see) blew whiffs of a mermaid ( blind coudn’t), mermaid, coolest whiff of all.
Instruments.”)  (p.237)

   Neste trecho do romance, pontua um tema recorrente: o do “Impermeato”: “Quem seria aquele sujeito à beira da cova a parda impermeá. Oh, a puta do beco!” ( “Wonder who was that chap at the grave in the brown macin. O, the whore of the lane!”)



EPISÓDIO 12: CYCLOPS

    Um diálogo entre dois policiais da Dublin Metropolitan Police inaugura o intróito deste episódio: 

“_ EU estava apenas matando o tempo do dia com os velho Troy da P. M.D. lá na esquina de Arbour Hill quando um sacana de um limpa-chaminé veio por ali e quase meteu sua brocha pelo meu olho adentro ”.

(“I was just passing the time of day with old troy of the D.M.P. at the corner of Arbour hill there and he dammed but a bloody sweep came along and he near drove his gear into my eye.”)

   Um vira-latas, Garryowen, e o bandoleiro Geragghty, ambos investem contra os cidadãos que transitam pelo local: “_ Eu desafio ele - fala ele _ e redesafio ele. Vem pra cá, Geraghty, seu sacana de bandoleiro conhecido em montes e vales!” ; “ (...) e aquele safado de vira-lata sarnento, o Garryowen (... ) comeu os fundilhos das bragas de um homem da polícia de Santry...” (“I dare him, says he, and I doubledare him. Come out here, Geraghty, you notorious bloody hill and dale robber!”) (“I’m told for a fact he ate a good part of the breeches off a constabulary man in Santry”).
   Em seguida, é feita a descrição de um velho sacaneador gigantesco, concomitante à descrição de um catálogo com nomes de heróis e de heroínas irlandeses, ingleses, além d’ outras nacionalidades.
   Então o velho Garryowen começa a rosnar para Leopold Bloom, que continuava a rondar a porta do bar: “_ Vamos, entre, ele não vai comê-lo - fala o cidadão.” (“Come in, come on, says the citizen. He won’t eat you”). O feroz cão farejava o judeu Leopold Bloom: “...esses judeus tem mesmo um tipo de cheiro estranho...” (“those jewies does have a sort of a queer odour...”).
   Em seguida, no bar de Barney Kiernan eclode um conjunto de referências desarticuladas e menções são tecidas - pelos freqüentadores do bar - ao Sinn Fein, aos patriotismos, aos nacionalismos, às competições esportivas e desportos irlandeses, aos jogos de tênis e arremessos de pedra, aos desportos gaélicos associados a elementos da cultura esportista da antiga Grécia. Tem lugar, então, uma sucessão de imagens, na qual surgem lutas, apostas, gladiadores irlandeses, lutadores e nocautes, dentre outras coisas do gênero.
   No bar de Barney Kiernan, um violento nacionalista expulsa Leopold Bloom do local: e um feroz cão sai em seu encalço.
   O tema recorrente sobre religiões reaparecerá no final deste episódio. A seguir, uma bela imagem poético-religiosa é apresentada, colocando a salvo Leopold Bloom das sucessivas e perigosas perseguições enfrentadas pelo referido personagem no bar de Barney:

“Eis que então desceu sobre eles todos um grande clarão e eles viram o carro em que Ele estava a subir aos céus. E eles o viram no carro revestido na glória desse clarão com vestidura como se do sol, belo como a lua e tão terrível que de medo não ousaram olhar para Ele. E veio uma voz dos céus, que clamou: Elias! Elias! E Ele respondeu num grande grito: Abba! Adonai! E eles O viram bem a Ele bem Bloom Elias, em meio a nuvens de anjos subir para a glória do clarão, num ângulo de quarenta e cinco graus sobre o Donohoe da Ruela Verde, como um jacto de uma pazada.” (p.258)

( “ When, lo, there came about them all a great brightness and they beheld the chariot wherein He stood ascend to heaven. And they beheld Him in the chariot, clothed upon in the glory of the brightness, having raiment as of sun, fair as the moon and terrible that for awe they durst not look upon Him. And there came a voice aout of heaven, calling: Elijah! Elijah! And He answered with a main cry: Abba! Adonai! And they beheld Him even Him, ben Bloom Elijah, amid clouds of angels ascend to thr glory of thr brightness at an angle of fortyfive degrees over Donohoe’s in Little Green street like a shot off a shovel.”)  (pp.282-283)



EPISÓDIO 13 : NAUSICAA 

    Em seguida, Leopold Bloom busca um descanso na praia, na tarde de verão de 16 de junho de 1904. Lá chegando, Bloom sente-se atraído por uma bela adolescente.
   O intróito deste episódio é o seguinte: “A tarde de Verão começara a envolver o mundo em seu misterioso amplexo.” (“The summer evening had begun to fold the world in its mysterious embrace”).
   Três jovens e duas crianças encontram-se à beira-mar. São elas: Cissy Caffrey (a estouvada), Edy Boardman (a estrábica) e Gerty MacDowell (a virginal).
   Mas, quem é, afinal, Gerty? Trata-se de uma moça frágil, aparentando um profundo sentimento de cansaço. Apesar disso, Gerty é bela, não fosse o infortúnio de ter nascido na pobreza “... poderia facilmente ombrear lado a lado com qualquer grande dama da terra e ver-se requintadamente ataviada com jóias na fronte e requestadores patrícios a seus pés, rivalizando-se entre si por pagarem-lhe seus tributos.” (“... might easily have held her own beside any lady in the land and have seen herself exquisitely gowned with jewels on her brow and patrician suitors at her feet vying with one another to pay their devoirs to her.”).
   Com os olhos baixos e tristes, Gerty, perdida em pensamentos, imagina a felicidade num sonhado-imaginado futuro lar: uma sala de visitas decorada com quadros, gravuras, fotografias de amor e do cão Garryowen, cujo proprietário era o avô. Por outro lado, a imagem do seu homem ideal não é de nenhum príncipe, mas, de um homem viril. Contudo, as “cissicadas” da estouvada Cissy traz Gerty de volta à realidade. Gerty pensa, então, em sua triste existência: filha de um pai bêbado, que arruinara todos os seus sonhos de infância. Boa filha, Gerty é considerada a segunda mãe no lar; ela é o anjo de guarda da casa. Diariamente, ela fecha o gás no registro - toda noite. Além disso, dia após dia, ela nunca se esquece de controlar as folhas do tradicional calendário do senhor Tunney, que se encontra dependurado numa das paredes de sua casa. Contemplando as imagens do calendário, Gerty pergunta a si mesma:

“ ... o vendeiro, com um quadro dos dias alciónicos em que um jovem cavalheiro em trajes que costumavam usar então com um chapéu tricórnio oferecia um ramilhete de flores à sua bem-amada com o cavalheirismo de antanho através de uma janela gradeada. Podia-se ver que havia uma história por detrás daquilo (....) o que significava aquilo de dias alciónicos.” (p.265)

(“... the grocer’s christmas almanac, the picture of halcyon days where a young gentleman in the costume they used to ewar then with a threecornered hat was offering a bunch of flowers to his ladylove with oldtime chivalry through her lattice window. You could see there was story behind it (...) the halcyon days what they meant.”)  (p.291)

   Dias alciónicos: que é que é? Contudo, repentinamente, Gerty avista na praia o seu tipo ideal, ou melhor, o seu marido ideal. Gerty nota que se trata de um sujeito triste, de olhar melancólico. Ele deambulava pela praia e vinha em sua direção. Dentre outras coisas, Gerty imagina: “ ... fazê-lo esquecer a memória do passado.” (“... make him forget the memory of the past.”).
   Mas quem é, afinal, o sujeito enlutado que se aproxima da jovem Gerty?
   É Leopold Bloom! Todavia, um breve encontro, uma troca de olhares, e logo a separação. Gerty corre, então, pela praia junto às companheiras. Leopold Bloom acompanha os movimentos da jovem e tece uma mordaz observação: “... sapatos apertados? Não. Ela é coxa! Oh!” (“... tight boots? No. She’s lame! O!”).
   O encerramento do episódio principia mediante um resumo do dia experienciado por Bloom:

“Que dia longo que tive. Martha, o banho, o enterro, casa das chaves, museu com aquelas deusas, canção de Dedalus. Depois aquele berrador no Barney Kiernan. Me pegou desprevinido. Matraqueadores beberrões. O que eu disse do Deus dele deixou ele acuado. Bobagem dar o troco. (...) Vejamos a coisa do ponto de vista dele. (...) Três vivas por Israel. (...) Anáguas de Molly. Tem o que pôr nelas. Que é isso? Pode ser dinheiro? ...” (pp.282-283)

(“ Long day I’ve had. Martha, the bath, funeral, house of Keyes, museum with those goddesses, Dedalus’s song. Then that bawler in Barney Kiernan’s. Got my own back there. Drunken ranters what I said about his God made him wince. Mistake to hit back. (...) Look at it other way round. (...) Three cheers for Israel. (...) Petticoats for Molly. She has something to put him. What’s that? Might be money?...”) (pp.311-312).



BIBLIOGRAFIA

JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

______. “Ulysses”. New York : Vintage Books, 1986.



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006




SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 07/01/2006
Código do texto: T95634

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
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ULISSES de James Joyce (continuação da tentativa de resumo dos episódios 8,9 e 10 - Parte II)  (ReLeituras) escrito em terça 27 março 2007 21:06


Roteiro de Leopold Bloom, o navegante da modernidade metropolitana, pelas ruas de Dublin.

EPISÓDIO 8 (LESTRYGONIANS)

     Leopold Bloom deixa a redação do jornal e parte rumo ao centro da cidade de Dublin. É hora do almoço. O intróito do presente episódio é um prenúncio das imagens canibalescas que povoarão todo este capítulo do romance:

“ROCHEDO com abacaxi, limão cristalizado, amanteigado escocês. Uma garota açucarbesuntada padejando conchadas de creme para um irmão leigo.” (“Pineapple rock, lemon platt, butter scotch. A sugarsticky girl shovelling scoopfuls of creams for a christian brother.”)

   Em seguida:
     
“Batatas e margarina, margarina e batatas ... Mas aí Shakespeare não tem rimas: verso branco. O escorrer da língua é que conta.” (“Potatoes and marge, marge and potatoes ... But then Shakespeare has no rhymes: blank verse. The flow of the language it is.”)
     
   Shakespeare + batatas + Robson Crusoe + margarina + ... Bloom então exclama:

“_ Não há limites para o gosto... Um apetite de albatroz... Me dá uma tristeza comer torresmo...” (“No accounting for tastes... Appetite like an albatross... My heart’s broke eating dripping...”)
   
   Hora do almoço, portanto. Aos olhos de Bloom, a famélica Dublin promove um festival gastronômico sacrifical. Toda cidade parece banquetear-se num feroz festival gastronômico de caráter canibalesco:

“Esta é realmente a péssima hora do dia. Vitalidade. baça, lúgubre: odeio esta hora. Sinto como se tivesse engolido e vomitado. (...) Ver os animais comer.
Homens, homens, homens ... Cheiros de homens. O nojo lhe subia. (...)
Aquele sujeito empurrando dentro uma garfada de repolho como se sua vida dependesse disso. Bom golpe. Arrepia-me só de ver.”(...) Fora. Odeio gente porca comendo.” (pp.126-130)

(“This is the very worst hour of the day. Vitality. Dull, gloomy: hate this hour. Feel as if I had been eaten and spewed. (...) See the animals feed.
Men, men, men... Smells of men. Spaton sawdust, suweetish warmish cigarettesmoke, reek of plug, spilt beer, men’s beery piss, the stale of ferment.
That fellow ramming a kifeful of cabbage down as if his life dependend on it. Good stroke. Give me the fidgets to look. (...) Out.I hate dirty eaters.”) (pp.135-139)

   Alucinações antropofágicas inundam a mente de Bloom, misturando-se a uma sucessão de pavorosas imagens de recém-nascidos banhados em sangue. Além disso, o corpo recém sepultado do amigo Dignam adquire novas formas mediante as visões de Bloom. “A carne em conserva de Dignam. Os canibais o fariam com limão e arroz. Missionário branco muito salgado. Como porco em salmora...” (“Dignam’s potted meat. Cannibals would with lemon and rice. White missionary too salty. Like pickled pork...”).
   As imagens de uma pessoa conhecida - preste a dar à luz - invadem a mente de Bloom. Trata-se de Mina Purefoy. Mina Purefoy com a barriga inchada, num leito, ganindo, para ter um filho arrancado de dentro dela.
   Leopoldo Bloom - sentindo-se cada vez mais enojado com a variedade de comida oferecida por toda a área central da cidade de Dublin - decide comer, apenas, um sanduíche (pão com mostarda). Além disso, bebe, somente, vinho. Em seguida, Bloom auxilia um cego a atravessar a rua e, depois, parte rumo à Maternidade, a fim de render uma visita à parturiente, isto é, a sra. Mina Purefoy. 
   Contudo, antes da Maternidade, Bloom segue em direção à Biblioteca Pública, local onde Stephen Dedalus, naquele exato momento, expõe as próprias considerações sobre a obra de Shakespeare, com base em Platão e Aristóteles.
   Passa das 2h da tarde. O episódio encerra-se com temas recorrentes.

“... Agendath Netaim... Calças. Carteira. Batata... Sua mão procurando pelo onde foi que eu pus achou no bolso de trás um sabonete a loção tinha de ir buscar com tépido papel aderido. Ah , aí o sabonete! Sim. Portão.
Salvação.”(p.140)

(“ ... Agendath Netaim ... Trousers. Potato. Purse... His hand looking for the where did I put found i his pocker soap lotion have to call tepid paper stuck. Ah soap there I yes. Gate.
Safe!”) (p.150)


      
EPISÓDIO 9  (SCYLLA AND CHARYBDIS)

    Goethe, Milton, Blake, Mallarmé, Homero, Aristóteles... um autêntico panteão de renomados poetas, literatos, filósofos ou uma desatinada profusão de nomes e temas consagrados da literatura da cultura ocidental eclode, de forma simultânea, no pensamento de cada indivíduo que se encontra, naquele momento, na Biblioteca Pública de Dublin.
   O “Hamlet” de Shakespeare e a tese de Stephen Bloom de que o neto de Hamlet é o avó de Shakespeare: este é o tema central debatido no local. No entanto, dois representantes da filosofia ocidental marcam presença nos diálogos do grupo, com bastante freqüência. Trata-se de dois importantes filósofos da Antigüidade clássico-grega, isto é, Platão e Aristóteles. Num determinado momento, Stephen Dedalus põe a si mesmo a seguinte questão: “_ Qual dos dois _ perguntava Stephen _ me baniria de sua república?” ( “Which of the two, Stephen asked, would have banished me from his commonwealth?”).
   Com veemência, outras vozes manifestavam-se: “Nossa épica nacional ainda está por ser escrita, diz o Dr. Sigerson (...) James Stephens está fazendo alguns esboços inteligentes.”(“Our national epic has yet to be writen, Dr Sigerson says. (...) James Stephen is doing some clever sketches.”).
   Entretanto, num dado momento, os temas literários tendem a misturar-se com temas religiosos, até que o grupo de estudantes avista um novo personagem-visitante a circular pela Biblioteca:

“_ Um judeu! _ exclamou Buck Mulligan. (...)
_ Qual é o nome? Ikey Moses? Bloom. (...)
_ Jeová, colector de prepúcios, não é.”

(“_ The sheeny! buck Mulligan cried. (...)
_ What’s his name? Ikey Moses? Bloom. (...)
_ Jehovah, collector of prepuces, is no more.” )

   A presença de Leopold Bloom, na Biblioteca, foi bastante observada pelo grupo, exceto por Stephen Dedalus que, naquele momento, dissertava sobre Górgias e fatos sobre a guerra de Tróia.
   As discussões sobre Shakespeare e obra desdobram-se, culminando com a exclamação indômita de John Eglinton: “Depois de Deus, Shakespeare foi quem mais criou.” (“After God Shakespeare has created most”).
   Por fim, o presente episódio encerra-se com os seguintes versos:

“Louvemos nós os deuses
E subam às suas narinas os fumos espiralados
De altares nossos abençoados.” 

(“Laud we the gods
And let our crooked smokes clim to their nostrils
From our bless’d altars”)



EPISÓDIO 10 (WANDERING ROCKS)

   O presente episódio tem início procurando acentuar as perambulações do reverendo Conmee - conjuntamente ao fluxo de consciência do reverendo - pelas ruas de Dublin. Progressivamente outros personagens começam a surgir em cena, inclusive um bando de turistas italianos que também deambulavam pelos recantos da cidade. As múltiplas vozes de Dublin começam, então, a se confundir.
   Na Biblioteca, um livro sobre a mesa. A bibliotecária Miss Dunne, tamborilando no teclado, imprime: “Dezasseis de Junho de mil novecentos e quatro.” (“16 June 1904”).  
   Leopold Bloom está em busca de um livro solicitado por sua infiel mulher Molly Bloom. Alguns transeuntes, avistando Bloom, assim comentam:

“_ Leopoldo ou o Bloom está no palheiro _ disse Lenehan.
_ É louco varrido por liquidações _ disse M’Coy. _ Eu estava com ele certo dia e ele comprou um livro de um velho da rua Liffey por dois xelins.”

(“ _Leopoldo or the Bloom is on the Rye, Lenehan said.
_ He’s dead nuts on sales, M’Coy said. I was with him one day and the bought book from an old one in Liffey street for two bob.”)

   Outros transeuntes ainda comentam:

“_ Ele é um sujeito de cultura geral muito boa, o Bloom _ disse ele com seriedade. _ Não é um sujeito qualquer, você sabe... Há um quê de artista nesse velho Bloom.” 

(“_ He’s a cultured allroundman, Bloom is, he said seriously. He’s not one of your common or garden... you know... There’s a touch of the artist about old Bloom.”)

   Por fim, Bloom adquire um livro:

“O senhor Bloom atentava.
Dominando sua respiração perturbada, ele disse:
_ Levo este.
O lojista levantou os olhos nublados de velhas remelas.
_ Doçuras do Pecado _ disse ele, tamborilando-lhe em cima. _ Isto é bom.”(p.179)

(“Mr Bloom beheld it.
Mastering his troubled breath, he said:
_ I’ll take this one.
The shopman lifted eyes bleared with old rheum.
_ ‘Sweets of Sin’, he said, tapping on it. That’s a good one.”)  (p.194)
  
   O livro, como o título sugere, continha teor pornográfico. Enquanto Bloom permanecia na Livraria “tosses catarrentas abalavam a atmosfera da loja de livros, bombeando para fora a cortina encardida” (“Phlegmy coughs shook the air of the bookshop, bulging out the dingy curtains”).
   Stephen Dedalus, neste momento, também perambulava pelas ruas de Dublin, manipulando e adquirindo antigos livros.
   De outra parte, reverendos e outros tipos sociais da cidade colidiam-se pelas ruas centrais de Dublin, numa alucinada sucessão de encontros puramente mecânicos.


BIBLIOGRAFIA

JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

_____. “Ulysses”. New York : Vintage Books, 1986.




PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006




SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 05/01/2006
Código do texto: T94648

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
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ULISSES de James Joyce (continuação da tentativa de resumo dos episódios 4,5,6,7 da Parte II)  (ReLeituras) escrito em terça 27 março 2007 01:31

        

    



EPISÓDIO 4 (CALYPSO)

   Uma vez concluída o que se convencionou nomear de “Telemaquíada Joyeana”, o intróito que apresenta a entrada do personagem Leopold Bloom é bem diferente daquele verificado no início do romance. O presente intróito guarda distância da esfera transcendente observada na “Telemaquíada”, pois, ao contrário, penetra, violentamente, na esfera imanente, carnal. Nesse sentido, o personagem Leopold Bloom [o Odisseu moderno] surge como um complemento à excessiva espiritualidade já demonstrada pelo jovem artista Stephen Dedalus. “Leopold Bloom comia com gosto os órgãos internos de quadrúpedes e aves.” (“Mr Leopold Bloom ate with relish the inner organs of beats and fowls”).
   Leopold Bloom - um agente de publicidade - encontra-se no cenário do seu lar, prestativo aos caprichos da esposa Molly Bloom [a Penélope moderna]- uma cantora lírica. Acompanhado por sua gatinha de estimação, Bloom prepara o desjejum para a mulher. Em seguida, deixa o lar para fazer algumas compras. Cruzando com inúmeros transeuntes pelas ruas de Dublin, Bloom reencontra velhos conhecidos: o assunto, entre eles, gira em torno da morte do amigo Dignam. Bloom compra, então, miúdos, junto a um porqueiro. Prosseguindo em sua caminhada, Leopold Bloom depara-se com um catálogo cujos caracteres propagandísticos anunciam o seguinte título: “Agendath Netaim”. O catálogo traz uma série de propagandas sobre terras distantes do Oriente - consideradas autênticos paraísos perdidos. Tais propagandas colocam-nas à venda:

“Retornava pela Rua Dorset, lendo atento. Agendath Netaim; companhia de plantadores. Para comprar extensos tractos arenosos do governo turco e plantá-los de eucaliptos. Excelentes para sombra, combustível e construção. Bosques de laranjais e imensas planícies de melonais ao norte de Jafa. Pagam-se oito marcos e planta-se-lhe uma dunam de eterra com oliveiras, laranjeiras, amendoeiras e limoeiros. (...) Seu nome fica registrado por toda a vida como proprietário nos livros da companhia (...) Assim na terra como no céu.” (p.49)

(“He walked back along Dorset street, reading gravely. Agendath Netaim: planter’s company. To purchase waste sandy tracts from Turkish government and plant with eucalyptus trees. Excellent for shade, fuel and construction. Orangegroves and immense melonfields north of Jaffa. You pay eighty marks and they plant a dunam of land for you with olives, oranges, almonds or citrons(...) Your name entered for life as owner in the book of the union(...) On earth as it is in heaven.” ) (pp.49-50)

   Agendath Netaim: “_Que é que é?”, interroga Bloom.
   Subitamente uma nuvem escura cobre o céu da cidade de Dublin. Bloom retorna, então, ao lar. Lá chegando, Leopold encontra as correspondências do correio na soleira da porta. A infiel Molly Bloom continua na cama; Leopold leva, para Molly, a correspondência do dia e, logo em seguida, põe-se a devorar rins contidos no desjejum da mulher.
   Repentinamente, Molly pergunta a Leopold sobre o significado de uma palavra que ela encontrara num livro: “metempsicose”. Bloom responde, dando-lhe o significado da palavra, isto é, para os antigos gregos tratava-se da transmigração da alma após a morte.
   Dentre as cartas recebidas pelo casal naquela manhã, havia uma endereçada a Leopold Bloom: era de sua filha Milly, agradecendo-o pelo presente de aniversário que Leopold havia lhe concedido, isto é, uma viagem. Então, de imediato, Leopold Bloom associa a distância temporária da filha à distância definitiva do filho morto - chamado Rudy. Leopold Bloom deixa-se abater por um estado temporário de melancolia. Entretanto, logo a seguir, Bloom localiza, no banheiro, um jornal, pondo-se a lê-lo já acomodado no assento do vaso sanitário:

“Calmamente ele lia, dominando-se, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio, uma última resistência cedendo, permitiu que os seus intestinos se aliviassem de todo enquanto lia, lendo ainda pacientemente , toda ida aquela ligeira prisão de ventre de ontem... Lia adiante sentado calmo sobre o próprio odor montante...” (p.55)

(“Quietly he read, restraining himself, the first column and, yielding but resisting, began the second. Midway, his last resistance yielding, he allowed his bowels to ease themselves quietly as he read, readind still patiently that slight constipation of yesterday quite gone ...He read on, seated calm above his own rising smell...”)  (p.56)

   Finalmente, Leopold “rasgou rápido o conto premiado e com isso se limpou” (“ he tore away half the prize story sharply and wiped himself with it.”).
   Os sinos da igreja bimbalam... Leopold Bloom prepara-se para acompanhar o enterro de um amigo: Dignam.



EPISÓDIO 5 (LOTUS EATERS)

    O dia está quente. A cidade de Dublin e os cidadãos encontram-se mergulhados em estado de letargia. Leopold Bloom, tendo a impressão de estar caminhando numa espécie de paraíso perdido, dirigi-se rumo ao enterro do amigo Dignam. “O senhor Bloom parou na esquina, seus olhos errando por sobre anúncios multicores” (“Mr Bloom stood at the corner, his eyes wandering over the multicoloured hoardings.”). Bloom, flanando, interroga-se, repentinamente, sobre a razão da morte da personagem Ofélia no “Hamlet” de Shakespeare. Novamente aparece a figura do pai - mais uma vez o tema recorrente -, remetendo Bloom a se recordar dos episódios que culminaram no suicídio do próprio pai.
   Bloom insiste em manter na memória a imagem do pai. Assim, temas bíblicos interferem em seu fluxo de consciência:

“_ A voz de Natan! A voz do seu filho! Ouça a voz de Natan que deixou seu pai morrer de mágoa e miséria nos meus braços, que abandonou a casa do seu pai e abandonou o Deus de seu pai.
Cada palavra é tão profunda, Leopold.
Pobre papai! Pobre homem! Estou contente de não ter entrado no quarto para ver seu rosto. Aquele dia! Meu Deus! Meu Deus! Uf! É, talvez tenha sido melhor para ele.” (p.60)

(“Nathan’s voice! His son’s voice! I hear the voice of Nathan who left his father to die of grief misery in my arms, who left the house of his father and left the God of his father.
Every word is so deep, Leopold.
Poor papa! Poor man! I’m glad I didn’t go into the room to look at his face. That day! O, dear! O, dear! Ffoo! Well, perhaps it was best for him.”) (p.62)

   A eclosão dos ruídos provindos dos movimentos da população dublinense pelas ruas da cidade - no romance joyceano - tende a se tornar cada vez mais intensa. Eis, então, Leopold Bloom contemplando o dia-a-dia das massas e dizendo para si mesmo: “_ Curiosa a vida dos cocheiros à deriva, por todos os tempos, todos os lugares, à hora por combinação, sem vontade própria” (“_Curious the life of drifting cabbies. All weathers, all places, time or setdown, no will of their own.”).
   As vozes de Dublin multiplicam-se junto ao fluxo da consciência de Bloom - agora associado a temas religiosos:

“Mesmo aviso à porta. Sermão do reverendíssimo John Conmee S.J. sobre São Pedro Claver e a missão africana. Salve os milhões da China. Pergunto-me como se explicam aos chinos pagãos. Preferem uma onca de ópio. Crua heresia para eles. Preces pela conversão de Gladstone fizeram também quando ele já estava quase inconsciente. Os protestantes a mesma coisa. (...) Ideia inteligente São Patrício o trevo. Comestipauzinhos?” (p.63)

(“Same notice on the door. Sermon by the very reverend John Conmee S. J. on saint Peter Claver S. J. and the African Mission. Prayers for the conversion of Gladstonethey had too when he was almost unconscious. The protestants are the same. (...) Clever idea Saint Patrick the shamrock. Chopsticks?”)  (p.65)

   Em seguida, Bloom comparece a uma missa:

“Viu o padre curvar-se e beijar o altar e então revirar-se e abençoar todo o mundo (...) O senhor Bloom observou ao redor e então se levantou (...) O padre desceu do altar, segurando bem na frente a coisa , e ele e o coroinha responderam um ao outro em latim. Então o padre se ajoelhou e começou a ler um cartão:
_ Ó Deus, nosso refúgio e nossa força...” (p.65)

(“He saw the priest bend down and kiss the altar and then face about and bless the people. (...) Mr Bloom glanced about him and then stood up (...) The priest came down from the altar, holding the thing out from him, and he and the massboy answered each other in Latin. Then the priest knelt down and began to read off a card:
_ O God, our refuge and our strength...”)  (p.67)

   Após o encerramento da missa, Bloom põe-se a caminho de uma farmácia. Lá, entre drogas e aromas, Bloom adquire um sabonete de cera limão-doce. A seguir, dependura o jornal no sovaco e dirige-se a uma casa de banho. “Goza de um banho agora (...) Este é o meu corpo. Antevia seu pálido corpo reclinado ali em cheio, nu, num ventre de quentura, ungido de odorante sabonete fundente, lavado suavemente ...” (“Enjoy a bath now ... This is my body. He foresaw his pale body reclined in it at full, naked, in a womb of warmth, oiled by scented melting soap, softly laved.”).
   Leopold Bloom é, portanto, adepto do rito de Onan.



EPISÓDIO 6 (HADES)

   Este episódio principia com um encontro entre Simon Dedalus (o pai de Stephen Dedalus) e Leopold Bloom, no interior de uma carruagem, que segue em direção ao cemitério da cidade. Eis, novamente, o tema recorrente do pai e do filho: o sr.Dedalus, em seus diálogos junto a Leopold Bloom [que não conhece, pessoalmente, Stephen Dedalus], faz menção às recentes e más companhias do filho Stephen Dedalus, notadamente a do jovem médico Buck Mulligan. “_ Ele anda com gente que é uma escória - rosnou o senhor Dedalus - Esse Mulligan é de cabo a rabo um imundo de danado de refião inveterado.” (“_ He ‘s in with a lowdown crowd, Mr Dedalus snarled. That Mulligan is a contaminatd bloody doubledyed ruffian by all accounts.”).
   A carruagem avança rumo ao cemitério de Dublin; no pensamento de Bloom paira uma outra lembrança do filho morto, Rudy: “Se o pequenino Rudy tivesse vivido. Vê-lo crescer. Ouvir sua voz em casa. Andando ao lado de Molly vestido à Eton. Meu filho. Eu nos seus olhos. Raro sentimento sentia. Oriundo de mim.” (“If little Rudy had lived. See him grow up. Hear his voice in the house. Walking beside Molly in a Eton suit. My son. Me in his eyes. Strange feeling it would be. From me.”).
   A carruagem percorre as ruas de Dublin. Dentre os elementos que fazem parte do fluxo da consciência de Bloom, retornam temas recorrentes, o do sabonete, por exemplo: “Ah, esse sabonete no meu bolso” (“Ah, that soap: in my hip pocket”); e os das meias: “... gostaria que a senhora Fleming tivesse cerzido melhor as meias” (“But I wish Mrs Fleming had darned these socks better”) [neste nosso resumo não apresentamos, anteriormente, tal detalhe, dentre mil outros, obviamente].  
   Carruagem e paisagens urbanas. Temas fúnebres procedentes, sobretudo, do campo da mitologia e os temas associados ao “Hamlet” de Shakespeare misturam-se numa estranha fusão na mente de Bloom. Os leitmotivs insistentes - nesta passagem do romance - estão relacionados à Moira, a Caronte, a uma Harpia desqueixada, ao coveiro de Hamlet, dentre outros que tais. Além disso, a atmosfera misteriosa propõe enigmas para o leitor do romance, alcançando outros espaços em momentos posteriores do desenvolvimento do romance: trata-se da figura enigmática do “Impermeato”, que ronda os túmulos do cemitério e passa a acompanhar o enterro de Dignam. Além disso, juntam-se outros enigmas, como por exemplo, Bloom lê as notas de falecimento e pergunta a si mesmo: “... Peake, que Peake é esse?” (“... Peake, what Peake is that?)

“_ E diga-me - dizia Hynes -, conhece aquele sujeito de, o sujeito que estava por lá de
Mirou à volta. (...)
_ Impermeável - disse Hynes, rabiscando - , não sei quem é. É esse seu nome?
Ele afastou-se, procurando-o.” (p.87)

(“_ And tell us, Hynes said, do you know that fellow in the , fellw was over there in...
He looked around.(...)
_ M’Intosh, Hynes said scribbling. I don’t know who he is. Is that his name?
He moved away, lookin about him.”)  (p.92)

   Novamente, o retorno do tema recorrente do pai e do filho perturba a mente de Leopold. E Bloom se põe a rememorar, lamentando o suicídio do pai:

“Pobre papai também. O amor que mata. E mesmo raspando a terra à noite com uma lanterna como no caso que li (...) Vou aparecer-te depois da morte. Verás meu espírito depois da morte. Meu espírito te perseguirá depois da morte. Há um outro mundo depois da morte chamado Inferno.” ( p.89)

(“Poor papa too. The love that kills. And even scraping up the earth at night with a lantern like that case I read... You will see my ghost after death. My ghost will haunt you after death. There is another world after death named hell.”)  (p.94)


EPISÓDIO 7 (AEOLUS)

  Após o enterro do amigo Dignam, Bloom dirige-se à redação do “Freeman’s Journal ” - um “local barulhento e ventoso”.
   Neste episódio ocorre um choque explosivo entre temas que giram em torno da literatura clássica e da literatura popular. Elementos da literatura clássica são postos em contraste junto às manchetes que povoam as páginas do jornal, cuja data é 16 de junho de 1904. O resultado é uma profusão de temas que entrelaçam acontecimentos - verídicos ou não - de várias épocas, notadamente aqueles relacionados aos mundos moderno e antigo. A técnica aforística da escrita constrói todo o episódio.
   Uma autêntica miscelânia, sobretudo, entre dados da literatura e da imprensa compõe um texto altamente intrigante. Além disso, temas recorrentes (nomes de personagens históricos, literatos, poetas, romancistas, fatos da história, dentre outros díspares elementos) misturam-se numa espantosa profusão ou numa orgia de títulos, sub-títulos, textos etc: necrológio de Dignam; charadas ortográficas (Bloom retira o sabonete do bolso); anúncio do Xaves; Império Romano; Gregos; Senhor Jesus; o latim; Egipto Antigo; Moisés; Judeus; Santo Agostinho; Tempestuosa Tróia; Górgias; Vergílio; Horácio; Deus Todo-Poderoso...
   Dentre os aforismos, que compõem o referido episódio, o tema recorrente do sabonete ganha espaço, a ponto de aparecer, em determinado momento, isoladamente: 

“SÓ UMA VEZ MAIS AQUELE SABONETE   

(...) Limão-cidra? Ah, o sabonete que pus aí. É perdê-lo nesse bolso. Guardando o lenço, retirou o sabonete e aconchegou-o fora, abotoado no bolso traseiro das calças.” (p.95)

(“ONLY ONCE MORE THAT SOAP

(...) Citronlemon? Ah, the soap I put there. Lose it out of that pocket. Putting back his handkerchief he took out the soap it away, buttoned, into the hip pocket of his trousers.”)  (p.101

 



BIBLIOGRAFIA

JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

_____. Ulysses. New York: First Vintage Books Edition, 1986.



PROF DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2005



SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 30/12/2005
Código do texto: T92337

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