Vue de mer
de Vincent Van Gogh
EPISÓDIO 16 -
EUMAEUS
O local é o abrigo de cocheiros de aluguel
da cidade de Dublin. É o lugar onde se encontram Bloom e
Stephen, após deixarem o prostíbulo (o primeiro
encontro entre Stephen Dedalus – o Telêmaco moderno - e
Leolpold Bloom – o Odisseu moderno - ocorrera em meio
às discussões sobre a natalidade, na Maternidade =
episódio 14). Ambos pretendem tomar um cafezinho acompanhado
com pão.
O restaurante é humilde e a atmosfera é
fétida. No abrigo dos cocheiros encontra-se, dentre outros
marinheiros, Murphy - uma espécie de marinheiro-narrador; na
verdade, um contador de mentiras, que não vê a esposa
há sete anos:
“_ Murphy é o meu nome - continuou o marinheiro, W. B.
Murphy, de Carrigaloe. Sabe onde é?
_ Porto de Queenstown - replicou Stephen.
_É isso - disse o marinheiro. _ Fort Camden e Fort Carlisle.
É de lá que velejo. Minha mulherzinha lá
está. Está esperando por mim, que eu sei. Pela
Inglaterra, o lar e a beleza. É a muito minha leal mulher
que já não vejo por sete anos, navegando por
aí.” (p.431)
(“Murphy’s my name, the sailor continued. D. B. Murphy
of Carrigaloe. Know where that is?
_ Queenstown haobour, Stephen replied.
_ That’s right, the sailor said. Fort Camden and Fort
Carlisle. That’s where I hails from. I belongs there.
That’s where I hails from. My little woman’s dow
there. She’s waitin for me, I know. For England, home and
beauty. She’s my own true wife I haven’t seen for seven
years now, sailing about.” ) ( p.510).
Bloom põe-se a apreciar o cenário
inscrito num cartão postal apresentado a ambos pelo
marinheiro. Leopold Bloom sente desejo de viajar:
“... ele tencionava um dia realizar numa quarta-feira ou
sábado de viajar para Londres via alto mar para não
dizer que jamais houvera viajado extensamente nenhuma grande
extensão pois que ele era de coração
aventureiro nato....” (p.433)
(... “he meant to one day realise some Wednesday or
Saturday fo travelling to London via long sea not to say that he
had ever travelled extensively to any great extent but he was
at heart a born adventurer...”) (p.512)
O marinheiro começa, então, a descrever
para ambos, Stephen e Bloom, os rochedos que tivera a oportunidade
de conhecer durante as suas viagens. Leopold Bloom, cansado de
ouvir todas aquelas histórias, passa a contemplar um mapa
dependurado numa das paredes do abrigo dos cocheiros:
“Suficiente era dizer que, como um olhar fortuito ao mapa o
revelava, cobria amplamente três quartos dele e compreendia
amplamente nessa conformidade o que isso significava, dominar os
mares.”
(“... suffice it to say that, as a casual glance at the map
revealed, it covered fully three fourths of it and he fully
realised accordingly what it menat to rule the
waves.”)
Subitamente, o marinheiro-narrador notou que todos
observavam seu peito:
“_ Tatuagem - explicou o exibidor. _ Foi feita quando
tivemos uma calmaria ao largo de Odessa no mar Negro no
comando do Capitão Dalton. Um gajo de nome António
fez. Este é ele mesmo, um grego.”
(“Tattoo, the exibitor explained. That was done when we were
lying becalmed off Odessa in the Black Sea under Captain Dalton.
Fellow, the name of Antonio, done that. There he is himself, a
Greek.”)
Leopold Bloom e Stephen Dedalus deixam o abrigo dos
cocheiros.
EPISÓDIO 17 -
ITHACA
O duunvirato formado por Leopold Bloom e Stephen
Dedalus segue rumo ao endereço da Rua Eccles, n.7, isto
é, o lar de Leopold Bloom e de Molly Bloom (a
Penélope moderna).
Ao lar chegando, ambos rumam à cozinha, e uma
seqüência de perguntas e respostas - banhadas por temas
recorrentes – desnuda, pouco a pouco, as personalidades de
Bloom e Dedalus. Primeira pergunta seguida de resposta:
“De que deliberou o duunvirato durante o
itinerário?”
Música, literatura, Irlanda, Dublin, Paris, amizade, mulher,
prostituição, dieta...”
(“Of what did the duumvirate deliberate during their
itinerary?
Music, literature, Ireland, Dublin, Paris, friendship, woman,
prostitution, diet...” )
Um longo elenco de perguntas e respostas sucede-se,
ocupando todo o episódio. Outras perguntas:
“Que reflexões concernentes à irregular
seqüência de datas de 1884, 1885, 1886, 1888, 1892,
1893, 1904 fez Bloom antes de sua chegada a seu destino?
(...)
“Que razão deu Stephen para declinar do oferecimento
de Bloom? (...)
“Quem bebeu mais depressa? (...)
“Que relações existiam entre suas idades?
(...)
“Acharam eles similares suas formações
educacionais? (...)”(pp.466-474)
(“What reflection concerning the irregular sequence of dates
1884, 1885, 1886, 1888, 1892, 1893, 1904 did Bloom make before
their arrival at their destination?(...)”
“What reason did Stephen give for declining Bloom’s
offer?(...)”
“Who drank more quickly? (...) “
“What relation existed between their ages? (...)
“
“Did they find their educational careers
similar? (...)” (pp. 545-558)
Diretamente ou não, junto a uma grande
diversidade de temas, algumas vezes, outras não, ligada a
ambos, o catálogo de perguntas e respostas, em seu conjunto,
começa a configurar um quadro contrastante entre Leopold
Bloom e Stephen Dedalus. Contudo, esse complexo painel de
diferenças ou semelhanças, entremeando as figuras de
ambos, não é estático, porque ele se
metamorfoseia, progressiva e dialeticamente, até atingir uma
imagem unitária, ao fundir os nomes Stephen Dedalus e
Leopold Bloom num só. Retomemos uma das perguntas seguida de
resposta:
“Acharam eles similares suas formações
educacionais?
Substituindo Stephen por Bloom Stoom teria passado sucessivamente
por uma escola infantil e colégio secundário.
Substituindo Bloom por Stephen Blephen teria passado sucessivamente
através do preparatório ...” (p.474)
(“Did they find their educational careers similar?
Substituting Stephen for Bloom Stoom would have passed successively
through a dame’s school and the high school. Substituting
Bloom for Stephen Blephen would have passed successively throught
the preparatory ...”) (p.558)
Sigamos em frente. Mais uma pergunta, e agora as
dessemelhanças:
“Que dois temperamentos representavam eles
individualmente?”
(“What two temperaments did they individually
represent?”)
Resposta:
“ ... o científico. O artístico.”
( “... the scientific. The artistic.”)
O catálogo de perguntas e respostas atinge o
final somente quando Stephen resolve ir embora. Bloom insiste para
que Stephen passe a noite em sua casa. Stephen Dedalus nega-se a
atender a solicitação de Leopold Bloom; despede-se, e
parte não se sabe para onde...
Por fim, Leopold Bloom vai para o seu leito,
deitando-se ao lado da infiel Molly Bloom.
EPISÓDIO 18
- PENELOPE
Retomando o final do capítulo 17, Leopold Bloom
ruma ao quarto de Molly Bloom. O herói moderno deita-se ao
lado da mulher, e dorme.
O episódio 18 é, então,
inaugurado com o romper-rompimento do fluxo de consciência de
Molly Bloom:
“SIM porque ele nunca fez uma coisa como essa antes como
pedir pra ter seu desjejum na cama com um par de ovos desde o Hotel
City Arms quando ele costumava fingir que estava de cama com voz
doente fazendo fita para se fazer interessante para aquela velha
bisca da senhora Riordan que ele pensava que tinha ela no
bolso...” (p.518)
(“Yes because he never did a thing like that before as ask to
get his breakfast in bed with a couple of eggs since the City Arms
hotel when he used to be pretending to be laid up with a sick voice
doing his highness to make himself interesting for that old
faggot Mrs Riordan that he thought he had a great leg of and
she...”) (p.608)
Segue, desse modo, a acelerada narrativa do fluxo da
consciência de Molly Bloom, composta por milhares de palavras
errantes - sem qualquer pontuação -; tais palavras
nos levam a penetrar no labiríntico universo do pensamento
feminino:
“... meter isso nele sim e então a gente ia ter uma
enfermeira do hospital como próxima história pegando
ele lá até terem de jogar ele pra fora ou talvez uma
freira como aquela da foto suja que ele tem que é tão
freira como eu não sou sim porque eles são tão
fraquinhos e choramingas (...) lembra o Menton e quem mais deixa eu
pensar aquele cara de bebê que eu vi ele não fazia
muito de casado namorando aquela mocinha no Miriorama Pooles e eu
virei as costas (...) e na última vez que ele foi no meu
traseiro quando é que foi na noite que Boylan deu aquele
apertão na minha mão (...) peuuuuuuuuupuoruuuuuur un
train quelque part qui siflle la force qu’elles ont dans
le corps ces locomotives comme de grosses géantes et
l’eau qui bout partout et qui sort le tous les cotes
ça fait comme lê fin de Pour um peau d’amououour
les pauvres hommes qui sont dehors toute la nuit loin de leurs
femmes et de leurs enfants dans ce rôtissoires
c’était étouffant aujord’hui je suis
contente d’avoir brûle lá moitié de
ces vieux Hommes Libres et Froufrou (...) this vale of tears
God knows its not much doesnt everybody only they hide it I suppose
thats what a woman is supposed to be there for or He wouldnt have
made us the way He didi so attractive to men then if he wants to
kiss my bottom Ill drag open my drawers and bulge it right out in
his face a large as life he can stick his tongue 7 miles up my hole
as the my brown (...) O et la mer écarlate quelquefois
comme du feu et les glorieux couchers de soleil et les figuiers
dans les jardins de l’Alameda et toutes les ruelles bizarres
et les maisons roses et bleues et jaunes et les roseraies et les
jamins et les géraniums et les cactus de Gilbratar (...) as
a girl where I was a Flower of the mountain yes when I put the
rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a
red yes and how he kissed me under the Moorish wal and I thougt
well as well him as (...) ele tentando fazer de mim uma puta o que
ele nunca fará de mim (...) e como ele me beijou contra
a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e
então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim
e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da
montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim
eu puxei ele pra baixo de mim para ele poder sentir meus peitos ...
tout parfumés oui et son coeur battait comme fou AND YES I
SAID YES I WILL YES.”
Trieste-Zurich-Paris
1914-1921.
NOTAS
1. O episódio 18 do romance “Ulisses”, de James
Joyce, na edição inglesa, tem início na
página 608 e término na página 644;
2. na tradução para o idioma português:
página 518 a 551;
3. e francês: página 1057 a 1135.
BIBLIOGRAFIA
JOYCE, James. Ulysse. Traduction Auguste Morel, Valery Larbaud,
Stuart Gilbert et l’auter. Paris: Éditions Gallimard,
1997.
_____. Ulisses. 8 ed. Tradução de Antônio
Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização
Brasileira, 1993.
_____. Ulysses. Edited by Hans Walter Gabler. New York : Vintage
Books, 1986.
PROF. DR.
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas,
verão de 2006
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
12/01/2006
Código do texto: T97687
Código do texto: T97687
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/Creative Commons License--> "ULISSES", DE JAMES JOYCE
(continuação da tentativa de resumo dos
episódios finais: 16, 17 e 18 - PARTE III)2006Recanto das
LetrasSÍLVIO MEDEIROSSÍLVIO MEDEIROStext/plain
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