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Poesias de Fernando Medeiros

TEMPERO E TEMPO  (Poesias de Fernando Medeiros) escrito em quinta 18 setembro 2008 15:55

"O Pastor" e "Cuidado"

MADREDEUS

TEMPERO E TEMPO


Retemperado,
Representado,
Obrigação dos caldos
Que se prefiguram em condados,
Caldo derretido do silêncio
Representado,
Satisfação aos farelos,
Às migalhas,
Uma encubação de castelos,
De areia movediça.
Todo dia pervago por flagelos,
Retemperado de gelos,
Dentro dos sóis escaldantes
Dos apelos.
Retemperado de mofa,
Cáustico mofo.
Um cobertor de mim
Reconduzido em estufa,
O triunfo da ferrugem
Na encoberta culpa dos jogadores.
Recambiado a cada escambo,
Atrofiado a cada câmbio,
Acasalando a caverna e
Acumulando sobras
Na taverna reaquecida
Pela tortura de cada tiro,
Pela ressurreição de cada dia,
A ressuscitação de cada verme.
Década inerme.


Fernando Medeiros
Campinas, é inverno de 2008.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 18/09/2008
Código do texto: T1184170

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor Fernando Medeiros e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/fernandomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
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INGRESSO  (Poesias de Fernando Medeiros) escrito em domingo 24 agosto 2008 04:13

Cidade de Praga, 1968

INGRESSO

Quem já entrou?
Não, isto não se faz,
Não entrarei nesta câmara de gás,
Nem atirarei adjetivos para
Quantas vaidades existirem.
Talvez até possa
Metralhar a paz,
Arquitetando uma cilada para a guerra.
Onde está a sua entrada?
Quantos já não perguntaram
Apontando a sua discórdia
Para qualquer um
E discordando de qualquer confiança
Que se apresenta.
Quem entrou
Está botando sangue pelas ventas.


Fernando Medeiros
Campinas, é inverno de 2008.

FERNANDO MEDEIROS

Publicado no Recanto das Letras em 23/08/2008
Código do texto: T1142929

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TREVAS  (Poesias de Fernando Medeiros) escrito em sexta 22 agosto 2008 16:50

Hamlet e Horácio no cemitério

por Eugène Delacroix

TREVAS


Isto foi o que você ganhou,
As trevas...
Depois de tanta ambição,
Tanto ódio, tanta violência,
Isto apenas,
Trevas... imensas trevas,
Sem gosto, sem vida...
De que adiantou a vontade de ser maior,
As vaidades de um peito inútil,
Hoje o que resta?
Trevas... perdidas pelas mortes,
Pelos fins de uma carne fraca.
Diga adeus! E parte,
Sem qualquer arte,
Frio e acabado como um escravo.
Isto porque sua alma vã,
Porque jamais seu peito
Procurou saber o que é a vida.
Suas mãos preocupadas apenas em ajuntar,
Apenas em humilhar
Os seus subordinados.
E hoje o que restou de tudo?
Do dinheiro, do banco,
Do carro novo,
Da antipatia do seu viver?
Restam trevas.
Resta esta amargura
De se sentir velho,
De ter uma sepultura,
Como um mendigo,
Que muitas vezes chorou aos seus pés.
Como seu inimigo,
Que, na maioria das vezes,
Morreu por suas palavras.
Morra, ao menos, dignamente,
Não chore para emocionar o seu fim,
Pois, o seu começo foi um erro.
Diga adeus! Enfim veja a verdade,
Veja agora o quanto vale ser homem.
Onde está sua alienada felicidade?
Está nos restaurantes de luxo?
Nos prostíbulos?
No suor dos seus empregados,
Que você sempre explorou?
Não... a sua felicidade jamais existiu,
Existiu, sim! No gosto de ser injusto,
No prazer de ver sofrer.
Mas agora terá o seu preço,
Nas trevas...
O desespero terrível da solidão,
A cruz amarga da escuridão!


Fernando Medeiros
Campinas, é inverno de 2008.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 22/08/2008
Código do texto: T1140511

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PONTO GEOGRÁFICO  (Poesias de Fernando Medeiros) escrito em sexta 15 agosto 2008 19:24

Grupo Ecos da Poesia

pela artista Analua ZOÉ

www.ecosdapoesia.net

PONTO GEOGRÁFICO

Brasil, país da solidão,
Um não à discórdia,
Mas algo maior me espanta,
Não adianta,
Migalhas de tristeza já foram consumidas.
Brasil, milhões de vidas
E o que restou de mim.
Esquecido entre árvores
Existe algo que ainda canta.
Não adianta,
Milhões de vidas já foram consumidas.
Brasil, país da solidão,
Uma mão para a discórdia,
O beijo falso e inflacionário
Dos altos interesses do capitalismo.
A flor libertária do meu coração
Ainda está viva.
Alguém por aqui canta
Em vão a concórdia de um carnaval.
Brasil, eu quero a proteção de sua Santa.
Um assassinato no Cruzeiro do Sul,
Milhares de presídios,
O orfanato de nossa condição,
Sangue fervendo ao céu azul.
Sem beijo, sem mulher,
Serenatas distantes,
Brasil, agora é solidão.
Fui ingênuo, não cresci,
Mas estou velho.
Todos perdidos e um mendigo canta,
Brasil, tudo o que me espanta.
Um gesto inflacionário,
Um monstro se agiganta.
Estamos adormecidos?


FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é inverno de 2008.

FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 15/08/2008
Código do texto: T1129625

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RITO  (Poesias de Fernando Medeiros) escrito em quarta 23 julho 2008 22:32

"Etude pour le rideau du ballet Les Patineurs"

por Fernand Léger

RITO


Rito eu não faço,
Mas no ritmo eu me desfaço.
Aliás, meu rito
É só a realidade do ritmo.
Pois o que busco mais
A não ser ritmos?
Ritmos demais onde quer
Que eu esteja.
O ritmo me beija
Ou apenas o seu sonho me beija?
Rito eu estabeleço,
Mas é no ritmo
Que eu ofereço
O risco da minha escrita,
O pátio da minha desdita.
A fraqueza e aqueles sentimentos de sempre.
Minha lembrança abraçada aos mármores frios.
O que devo fazer senão cultuar o rito do ritmo.
O crivo em minha pele,
O crivo daquelas ofensivas de sempre.
Como assim em discórdia procurarei ritmos?
Interrogações,
Interrogações harmonizadas,
Letras que se fartam de rimas.
Letras que se misturam,
A história da minha vida.
O pleito em meus arquivos,
No pátio dementes esquivos.
Minha lembrança cultuando sabe-se o quê.
Resta meu ritmo, meu fundamento,
Rima no próximo estamento.
Ritmo, personalidade
De vegetação revolta.
Ritmo que pelo meu preço
Eu estabeleço.
Discórdia que nos encobre,
Harmonia, lembrança que nos consome...


FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é inverno de 2008.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 23/07/2008
Código do texto: T1094181

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