HINO À BELEZA
Vens do fundo do céu ou do abismo, ó sublime
Beleza? Teu olhar, que é divino e infernal,
Verte confusamente o benefício e o crime,
E por isso se diz que do vinho és rival.
Em teus olhos reténs uma aurora e um ocaso;
Tens mais perfumes que uma noite tempestuosa;
Teus beijos são um filtro e tua boca um vaso
Que tornam fraco o herói e a criança corajosa.
Sobes do abismo negro ou despencas de um astro?
O Destino servil te segue como um cão;
Semeias a desgraça e o prazer no teu rastro;
Governas tudo e vais sem dar satisfação.
Calcando mortos vais, Beleza, entre remoques;
No teu tesoiro o Horror é uma jóia atraente,
E o Assassínio, entre os teus mais preciosos berloques,
Sobre o teu ventre real dança amorosamente.
(BAUDELAIRE, Charles. "Flores do Mal". Tradução Guilherme de Almeida. Editora Ediouro [s.d.])
Vídeo e texto
recomendados pelo
Prof. Dr. Sílvio Medeiros.
Campinas, é primavera de 2008.
Qua 15 Out 2008 20:08