Amós Oz presenta "Non dire notte"
“Levanto. Dou uma voltinha pelo escritório. Retorno à mesa de trabalho. Examino por alguns minutos, ou mais, o que já foi feito, apago toda a sentença, ou arranco de uma vez a folha do caderno, amasso e rasgo em pedacinhos. Desespero-me. Amaldiçôo a mim mesmo em voz alta, e aproveito para amaldiçoar também o ofício de escritor e a língua inteira, qualquer que seja ela, mas não obstante recomeço, e me ponho a combinar tudo de novo.
Escrever um romance, eu disse uma vez, é mais ou menos como montar toda a cordilheira dos montes Edom com pecinhas de Lego. Ou como construir uma Paris inteira, edifícios, praças, avenidas, torres, subúrbios, até o último banco de jardim, usando apenas palitos e meios palitos de fósforos colados.
Para escrever um romance de oitenta mil palavras é preciso tomar no decurso do processo algo como um quarto de milhão de decisões. Não só decisões sobre o enredo, quem vai viver ou morrer, quem vai amar o trair, quem vai ficar rico ou sobrar por aí, quais vão ser os nomes e as caras dos personagens, seus hábitos e ocupações, qual vai ser a divisão em capítulos e o título do livro (essas são as decisões mais simples); não apenas o que narrar e o que ocultar, o que vem antes e o que vem depois, o que revelar em detalhes e o que apenas insinuar (essas também são decisões bem simples); mas é preciso ainda tomar milhares de minúsculas decisões, como por exemplo, na terceira sentença do começo do parágrafo deve escrever ‘azul’ ou ‘azulado’? Ou seria melhor ‘azul-celeste’? Ou ‘azulão’? Ou ‘azul-marinho’? Ou poderia ser ‘azul-cinzento’? Bem, que seja, ‘azul-cinzento’, mas onde colocá-lo? No começo da frase? Ou seria melhor aparecer só no final? Ou no meio? Ou deixá-lo como uma frase bem curta, com um ponto antes e ponto e parágrafo depois? Ou não, quem sabe seria melhor fazer esse ‘azul-cinzento’ aparecer no fluxo de uma frase longa, cheia de subordinações? Ou que sabe melhor seria simplesmente escrever as quatro palavrinhas ‘a luz da tarde’, sem tentar pintá-las seja de ‘azul-cinzento’, seja de ‘azul-celeste’ ou de qualquer outra cor?”
OZ, Amós. DE AMOR E TREVAS. Tradução Milton Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Inesquecível e belíssima leitura
recomendada pelo
Prof. Dr. Sílvio Medeiros.
Campinas, é inverno de 2008.