Cenas do filme Blade Runner
DIVINA COMUNHÃO
Ele chegou sem fome de palavras, tampouco trazia nos olhos a
sede da expectativa, a surpresa de enfim, de encontrar a alma mais
querida coberta com o véu da elegante simplicidade, desnuda
e acolhedora a tudo que ele escondeu por precaução e
medo de quem, um dia, tudo deu e perdeu. O garçon
trouxe a carta de vinhos, mas os pensamentos dele estavam imersos
em desejos tintos, encorpados numa estranha
transubstanciação. Um cacho loiro insistia em cair
naquele rosto de fulgor lunar. Ela então, delicadamente, o
colocou atrás da orelha e sorriu. Um simples gesto que
provocou nele um frêmito: seu corpo nu...como seria? mas o
pensamento fugiu. A visão dela jazia em
consagração, pregada em algo que há muito ele
conhecia, carecia apenas da concretização no
espaço daquela mesa que os unia e os separava. À
luz de velas, os dois ardiam – um frente ao outro. O
garçon voltou com o pão, depositou dois
cálices, e em silêncio retirou-se. Os olhos dele ainda
permaneceram ali, por um tempo, até vislumbrarem a doce
redenção que prescinde de confissões e
então, em profunda volúpia, eles comungaram
lascivamente com os dela:
Senhora, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e minha alma...assim como meu corpo, serão salvos.
ANA VALÉRIA SESSA
São Paulo, é inverno de 2008.