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DO MAR E DAS GRAÇAS  (Poesias de Ana Valeria Sessa) escrito em quinta 24 julho 2008 23:57

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O ator Rutger Hauer em cena antológica

do filme BLADE RUNNER de Ridley Scott

DO MAR E DAS GRAÇAS 

 
Imensidão azul em mim,

é tanto sonho sem fim,

e a vida que não era circular

pedia uma rota como uma via Ápia

romana e reta rumo à conquista.

 

Com olhos seculares e atônitos segui.

Flertei com os prodigiosos, deitei flores aos falecidos.

Sonhei com os mais amados, os não nascidos,

e a mesma angústia do que tardava em ser
 deu-me o frêmito de um outro amanhecer.


Filhos, fiz muitos,
que se espalharam em tempos idos.
Quando os pus no colo, já tinham crescido e partido,
e assim, sem fontes nem norte,
a vida deu-me a sorte de gerar poemas.

 

Topei com toda gente que abarca a poesia,

o beijo, o choque e tudo é tão pouco... 

e contudo, vi bênçãos, graças infindas de Marias.

A mim, não me faltou renúncia. Despojei-me,

mas fui cega de amor por um sempre ainda.

 

...e de tudo que vem e passa

ficou uma criança chamada Devir.

Através dos olhos dela

toda beleza desse mundo e de outros, eu vi.

Minha nau leme e lume luzindo ladina.

 

Vejo-a em versos benditos, rasgados, silenciados.

Vejo-a em mim, em ti e o passado agiganta-se.

Nós dois meninos caminhando no cais.

Ouço tua voz:

“Vamos ganhar o mundo. Agora, somos nós.” 


Nós, nós...ecoa na praia noturna.
Nós que por fim desatam- se

e resta uma nostalgia de partida,

o olho pregado no horizonte em despedida

e declamamos “Farewell e os Soluços”.



Resta um sonho suspenso... guindado no ar.

Uma paisagem atlântica entre quilhas e guindastes,
um desvario romântico, um "não sei que" estrangeiro,

coisas de quem nasce nessas bandas

entre cargas, imigrantes e navios.

 


Da reta - ancestral passado -

à curva que se fecha na baía

desnudo-a e a mim decanto teus azuis

e sem velas sem mastro sem tempo

repatrio-me em minh'alma porto firmamento.

 

 

ANA VALÉRIA SESSA 

São Paulo, é inverno de 2008.

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