O ator Rutger Hauer em cena antológica
do filme BLADE RUNNER de Ridley Scott
DO MAR E DAS GRAÇAS
Imensidão
azul em mim,
é tanto sonho sem fim,
e a vida que não era circular
pedia uma rota como uma via Ápia
romana e reta rumo à conquista.
Com olhos seculares e atônitos segui.
Flertei com os prodigiosos, deitei flores aos falecidos.
Sonhei com os mais amados, os não nascidos,
e a mesma angústia do que tardava em ser
deu-me o frêmito de um outro amanhecer.
Filhos, fiz muitos,
que se espalharam em tempos idos.
Quando os pus no colo, já tinham crescido e partido,
e assim, sem fontes nem norte,
a vida deu-me a sorte de gerar poemas.
Topei com toda gente que abarca a poesia,
o beijo, o choque e tudo é tão pouco...
e contudo, vi bênçãos, graças infindas de Marias.
A mim, não me faltou renúncia. Despojei-me,
mas fui cega de amor por um sempre ainda.
...e de tudo que vem e passa
ficou uma criança chamada Devir.
Através dos olhos dela
toda beleza desse mundo e de outros, eu vi.
Minha nau leme e lume luzindo ladina.
Vejo-a em versos benditos, rasgados, silenciados.
Vejo-a em mim, em ti e o passado agiganta-se.
Nós dois meninos caminhando no cais.
Ouço tua voz:
“Vamos ganhar o mundo. Agora, somos nós.”
Nós, nós...ecoa na praia noturna.
Nós que por fim desatam- se
e resta uma nostalgia de partida,
o olho pregado no horizonte em despedida
e declamamos “Farewell e os Soluços”.
Resta um sonho suspenso... guindado no ar.
Uma paisagem atlântica entre quilhas e guindastes,
um desvario romântico, um "não sei
que" estrangeiro,
coisas de quem nasce nessas bandas
entre cargas, imigrantes e navios.
Da reta - ancestral passado -
à curva que se fecha na baía
desnudo-a e a mim decanto teus azuis
e sem velas sem mastro sem tempo
repatrio-me em minh'alma porto firmamento.
ANA VALÉRIA SESSA
São Paulo, é inverno de 2008.