Moinho de Cana de Açúcar
AULA DE HISTÓRIA II:
Caráter Inicial e Geral da Formação
Econômica Brasileira (resumo do capítulo
2*)
O
assunto tratado neste capítulo (vide bibliografia abaixo)
busca apresentar os primórdios e o conseqüente
desenvolvimento da formação econômica
brasileira. Para tanto, Caio Prado Júnior, mediante uma
retomada do processo histórico, encontra subsídios
nos fatos históricos registrados na Europa entre os
séculos XIV e XV. Por esta ocasião, o comércio
no continente europeu encontrava-se restrito às rotas
terrestres. Devido à ascensão que o referido
comércio alcança, tão-somente a
circulação de mercadorias pelo interior do continente
já não bastava. Assim, as rotas terrestres pelas
quais escoavam as mercadorias começam a perder a hegemonia
frente às rotas marítimas, visto que os
empreendimentos marítimos, neste período,
começam a ganhar significativo impulso. Em se tratando de
domínios territoriais dos mares, aos países
geograficamente bem localizados foi concedida a primazia de se
lançarem pioneiramente ao empreendimento
marítimo.
Desse modo, as novas rotas estabelecidas para o
comércio por meio dos mares envolvem os países
pertencentes à Europa Ocidental, do litoral que se estende
da Holanda até a Península Ibérica. Tal fato
modifica todo o quadro comercial interno da Europa.
Vários povos passam a se dedicar a esta
nova atividade, como por exemplo, Inglaterra, Itália,
Holanda, França etc. Contudo, coube aos portugueses a
iniciativa de ampliar ainda mais o domínio sobre a
navegação comercial. Privilegiados pela
posição geográfico-litorânea, os
portugueses buscam a expansão ultramar com vistas a
estabelecer novas empresas comerciais na África; além
disso, procuram contornar o continente africano chegando, dessa
forma, às Índias Orientais - mercado ambicionado
naquela ocasião -, tendo em vista a retomada do
comércio das especiarias, o qual fôra interrompido
mediante bloqueio do Mar Mediterrâneo pelos
muçulmanos.
Neste mesmo período, os espanhóis
optam por um novo caminho rumo às Índias Orientais.
Navegam pelo Oceano Atlântico, encontrando, desse modo, o
continente americano. Os portugueses têm
participação simultânea neste empreendimento,
além d’outros povos europeus – porém, a
princípio, com menor intensidade, caso comparados com
portugueses e espanhóis.
Com efeito, tem início, então, a
grande exploração marítima – um reflexo
da expansão comercial que se verifica na Europa do
século XV - crepúsculo da Idade Média
ocidental.
Num primeiro momento, aos navegadores, o
continente americano constitui-se um obstáculo, no que se
refere a encontrar a tão ambicionada passagem para o Oceano
Pacífico em busca das Índias Orientais. Dessa forma,
os povos envolvidos no referido empreendimento, isto é,
portugueses, espanhóis, ingleses etc., começam a
tomar conhecimento do Novo Mundo e a firmar suas novas posses por
meio da construção de feitorias.
A idéia de iniciar o povoamento do novo
continente surgiu tão-somente quando da necessidade de
conservação das feitorias, pois elas ficavam
relegadas ao abandono, sem gerar lucro algum, algo que vinha de
encontro às reais funções a elas delegadas. O
pioneiro na referida iniciativa foi, mais uma vez, o reino de
Portugal. Assim, os portugueses, a princípio, povoam e
organizam as Ilhas do Atlântico, rumando, em seguida, com o
mesmo intuito, para as Américas. Seguem os portugueses,
nesta iniciativa, outros povos europeus.
Desse modo, o extremo-norte da América
fica em poder dos ingleses, que exploram as peles de animais e a
pesca. A América Latina é dividida entre portugueses
e espanhóis. A porção do território
oriental da América do Sul fica sob o poder dos portugueses,
na qual exploram, a princípio, a extração do
pau-brasil. A América Central e o ocidente da América
do Sul ficam submetidos ao poder da Coroa Espanhola; num quadro
comparativo com outros povos, os espanhóis tiveram maior
sorte no empreendimento, pois logo encontraram metais preciosos
junto à população autóctone, isto
é, os Incas, os Maias e os Astecas. Todavia, a euforia dos
espanhóis foi passageira devido à pouca
abundância da mencionada riqueza.
Durante esta ocasião, verificam-se,
apenas, os efeitos de um empreendimento voltado exclusivamente
às feitorias, de caráter puramente comercial, em
virtude da referida exploração centralizar-se
em produtos espontâneos e extrativos conforme a
particularidade de cada região.
Com efeito, até meados do século
XVIII, a ocupação do continente americano dependeu do
avanço e do recuo das atividades acima mencionadas.
Este quadro veio a se modificar somente por
intermédio de uma base econômica mais estável,
isto é, com a introdução da agricultura.
Em se tratando de colonização ou
de povoamento propriamente ditos, tais fatos vieram a ocorrer
somente a partir do século XVIII, período no qual,
por divergências político-religiosas, grande massa de
imigrantes europeus chega ao continente americano com a finalidade
de estabelecer moradia definitiva.
É por esta ocasião que a
população européia, no continente americano,
se divide conforme as condições climáticas.
Assim, as zonas temperadas do continente são as mais
procuradas pelos imigrantes europeus por se assemelharem tanto ao
clima quanto ao solo aos da Europa, em detrimento das zonas
tropicais e das sub-tropicais, em virtude da difícil
adaptação dos colonos às
condições naturais do novo meio-ambiente.
Devemos ter em mente que tal comportamento por
parte dos colonos deu-se apenas no princípio do processo de
colonização, evitando, com isso, desabarmos em
perspectivas históricas orientadas por determinismos
geográficos. Nesse caso, o importante é salientar que
mesmo nas zonas temperadas os colonos também passaram por um
processo seletivo, dando origem a um tipo social específico,
isto é, o ianque. Além disso, o estímulo aos
colonos nas zonas tropicais e sub-tropicais foi maior que o
experimentado pelos colonos estabelecidos nas zonas temperadas,
pelo fato dos primeiros encontrarem inumeráveis riquezas de
recursos naturais. Tal fato despertou a cobiça dos europeus
pelas zonas tropicais e sub-tropicais, além dos interesses
que possuíam nos gêneros de grande valor comercial na
época e que se encontravam em grande abundância,
sobretudo na América Latina, como por exemplo, o
açúcar, o tabaco, a pimenta, o anil, o algodão
etc. Tendo como princípio o interesse dos europeus na
produção e no consumo destes gêneros - naquela
ocasião, repetimos, de grande valor comercial –,
surge, então, a figura do empresário. Ele se
estabelece nestas zonas sem querer dispor-se fisicamente ao
trabalho manual. Para tanto, a mão de obra recrutada foi a
dos povos europeus. Cria-se uma certa instabilidade nos trabalhos
de plantação do sul do território
norte-americano, solucionada mediante a adoção da
mão de obra do escravo negro.
Até aqui enfatizamos mais os estudos
atinentes aos fatos do processo do desenvolvimento econômico
que se desenrolou nas zonas tropicais e sub-tropicais situadas na
América do Norte. Em se tratando das outras colônias
tropicais, sob o jugo dos reinos de Portugal e da Espanha, tais
fatos não chegaram a se operar.
Tanto no reino espanhol quanto no reino
lusitano não se encontrava grande número de
indivíduos dispostos a emigrar, nem tão-pouco
braços disponíveis para o trabalho na lavoura –
diferente dos ingleses que, desde o século XVI, sofreram um
processo de êxodo rural devido aos primórdios do
processo da industrialização. Portugal encontrava-se
com uma população pouco numerosa; além disso,
o reino português já dependia da mão de obra
escrava em território africano. Ademais, neste momento, tem
início o declínio do Império Lusitano,
sobretudo em função das constantes despesas que os
portugueses acumularam com as sucessivas expedições
rumo ao Oriente.
Desse modo, a princípio, os reinos de
Portugal e da Espanha empenham-se em explorar a mão de obra
indígena e, em seguida, da exploração da
mão de obra de escravos africanos.
Concluindo, Caio Prado Jr., no presente estudo,
constata que nas zonas temperadas teve origem as colônias de
povoamento, enquanto que nas zonas sub-tropicais e tropicais,
sobretudo no continente latino americano, verifica-se a
criação de colônias de exploração
tanto em recursos naturais quanto em mão de obra de
raças consideradas inferiores, isto é, os
índios e os negros; tornando, com o passar do tempo, tais
regiões uma empresa comercial em proveito do comércio
europeu. É dentro desse processo
político-econômico que se dá a
formação econômica do Brasil.
BIBLIOGRAFIA
PRADO JÚNIOR, Caio. História econômica do
Brasil. 30 ed. São Paulo: Brasiliense, 1984 (Cf.
capítulo 2*).
PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2006.
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
13/11/2006
Código do texto: T289963
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Qua 13 Ago 2008 16:04