Vênus mostrando suas armas a Enéias
de Nicolas Poussin
Olhando
Poussin, tem-se constantemente a impressão de que ele
reinventa a pintura ou, pelo menos, que, para aquém do
século XVI que o viu nascer, ele estende a mão para
os mestres do Quattrocento, em primeiro lugar Mantegna (quando no
liceu, na sixième - época em que meu pai me levava
freqüentemente ao Louvre -, tive como tema de
redação a descrição de meu quadro
preferido, escolhi o Parnasse).
E ainda mais longe, pois a
imaginação de Poussin apresenta, às vezes,
essa ingenuidade, sem dúvida sublimada por seu gênio,
cujo sabor abastardado Rimbaud buscava no final do
século passado na pintura primitiva. Assim, em Vênus
montrant ses armes à Enée [Vênus mostrando suas
armas a Enéias], do museu de Rouen, essa deusa, que flutua
ao alcance da mão nos ares, parece ter sido concebida e
executada à parte e, em seguida, transposta para a tela tal
e qual em toda simplicidade. Ou ainda Apollon amoureux de
Daphné [Apolo enamorado de Dafne], que está no
Louvre, a dríade confortavelmente instalada (causa espanto)
nos galhos de um carvalho minúsculo como se fosse um
canapé. E também Orion aveugle [Orion cego], a
postura burguesa de Diana recostada em sua nuvem, como se estivesse
numa sala, apoiada num mantel de chaminé. (...)
(Nas afirmações
atribuídas a Poussin, percebe-se um paralelo entre a
linguagem articulada e a pintura, esboço da teoria
lingüística da dupla articulação:
“Falando da pintura, diz [...] que as 24 letras do alfabeto
servem para formar nossas palavras e exprimir nossos pensamentos,
assim como os lineamentos do corpo humano para exprimir as diversas
paixões da alma, para fazer aparecer no exterior o que se
tem no espírito”.)
(Claude LÉVI-STRAUSS. Olhar,
Escutar, Ver. Tradução Beatriz Perrone-Moisés.
São Paulo: Cia. das Letras, 1997)
Leitura recomendada
Pelo
Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Campinas, é outono de 2007.