Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/11/19 16:40 / 329 Artigos publicados
 

OLHANDO POUSSIN  (Grandes Pinturas) escrito em quarta 11 abril 2007 21:43

                               

                          Vênus mostrando suas armas a Enéias

                                          de Nicolas Poussin

 

 

 

 

     Olhando Poussin, tem-se constantemente a impressão de que ele reinventa a pintura ou, pelo menos, que, para aquém do século XVI que o viu nascer, ele estende a mão para os mestres do Quattrocento, em primeiro lugar Mantegna (quando no liceu, na sixième - época em que meu pai me levava freqüentemente ao Louvre -, tive como tema de redação a descrição de meu quadro preferido, escolhi o Parnasse).
     E ainda mais longe, pois a imaginação de Poussin apresenta, às vezes, essa ingenuidade, sem dúvida sublimada por seu gênio, cujo sabor abastardado Rimbaud buscava  no final do século passado na pintura primitiva. Assim, em Vênus montrant ses armes à Enée [Vênus mostrando suas armas a Enéias], do museu de Rouen, essa deusa, que flutua ao alcance da mão nos ares, parece ter sido concebida e executada à parte e, em seguida, transposta para a tela tal e qual em toda simplicidade. Ou ainda Apollon amoureux de Daphné [Apolo enamorado de Dafne], que está no Louvre, a dríade confortavelmente instalada (causa espanto) nos galhos de um carvalho minúsculo como se fosse um canapé. E também  Orion aveugle [Orion cego], a postura burguesa de Diana recostada em sua nuvem, como se estivesse numa sala, apoiada num mantel de chaminé. (...)
     (Nas afirmações atribuídas a Poussin, percebe-se um paralelo entre a linguagem articulada e a pintura, esboço da teoria lingüística da dupla articulação: “Falando da pintura, diz [...] que as 24 letras do alfabeto servem para formar nossas palavras e exprimir nossos pensamentos, assim como os lineamentos do corpo humano para exprimir as diversas paixões da alma, para fazer aparecer no exterior o que se tem no espírito”.)
(
Claude LÉVI-STRAUSS. Olhar, Escutar, Ver. Tradução Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cia. das Letras, 1997)

 

Leitura recomendada
Pelo
Prof. Dr. Sílvio Medeiros

Campinas, é outono de 2007.

 

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