DANAE
de Gustav Klimt
MAR PROFUNDO
Só mesmo um mergulho livre poderia me devolver a
excelência do fôlego, a urgência de abrandar
tormentas e de emergir com alma. Então tomei coragem e, sem
nenhum lastro, fui descendo, devagar. Eu já conhecia muitas
daquelas belezas e, para não me distrair, concentrei-me em
buscar uma única estrela. À medida que descia, eu
contemplava flores marinhas luminescentes, conchas que se abriam em
ferimentos perolados. Um paraíso de cores e de vidas.
Cardumes de diversas espécies aproximavam-se do meu corpo e
se afastavam delicadamente. Quanto mais eu imergia, mais a
pressão aumentava. Mesmo sem contato com a vida, eu vivia.
Como boa profundista, eu tinha aprendido a enganar o corpo, com
certa técnica da apnéia. Enquanto há ar
nos pulmões, respira-se. O tempo era curto, eu sabia, mas
continuei descendo... sem medo. Era imprescindível encontrar
a estrela. Agora a luminosidade baixava e correntes marinhas muito
frias pareciam congelar meus ossos. Vi algas vermelhas
gigantes e seus bailados sombrios na penumbra de um mundo onde
tudo começou. Minha única fonte de ar
comprimido eram os meus pulmões, que sofriam, mas eu via
seres extraordinários que suportam pressões
altíssimas: peixes luminosos, esponjas,
lírios-do-mar em meio a cemitérios marinhos. Sozinha,
naquela imensidão, uma lancinante nostalgia de luz inundou
meu peito. Fechei os olhos e imaginei o sol engendrando-me... e
todos os naufrágios da alma ganharam sentido e esplendor _
Não! - eu pensei _ Eles não foram em
vão. Eu estava perto do mal tão temido pelos
mergulhadores, a famosa “
embriaguez
das profundidades". Meus reflexos diminuíam, e eu já
não sentia meus lábios, nem as extremidades dos
dedos. Minhas artérias pareciam explodir. Eu tinha sede de
ar, quando, de repente, eu a vi. Lá estava ela... Minha
estrela derradeira ; translúcida, ela parecia sonhar,
levitando e pousando graciosamente no solo ; então, eu
a segurei bem firme e subi o mais rápido que pude. Quando
cheguei à superfície, respirei fundo. Sob um
céu de chumbo, eu tinha acordado num cais noturno, onde
tudo era Adeus. Vi meus olhos dentro dos teus - feitos de abismos
que guardam uma inescrutável poesia. Mais uma morte e o
exílio no silêncio abissal. Outro
naufrágio e de novo eu nascia. O destino tinha,
carinhosamente, reescrito uma estória nas palmas das minhas
mãos vazias.
ANA VALÉRIA SESSA
São Paulo, é janeiro de 2008.
Nota : o texto acima foi publicado no RECANTO DAS LETRAS (http://recantodasletras.uol.com.br) em 09/01/2008 – Código do Texto : T809851.
Seg 04 Fev 2008 05:29