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MAR PROFUNDO  (Poesias de Ana Valeria Sessa) escrito em quarta 30 janeiro 2008 17:11

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DANAE 

de Gustav Klimt 

 

 

MAR PROFUNDO       

                                             
     Só mesmo um mergulho livre poderia me devolver a excelência do fôlego, a urgência de abrandar tormentas e de emergir com alma. Então tomei coragem e, sem nenhum lastro, fui descendo, devagar. Eu já conhecia muitas daquelas belezas e, para não me distrair, concentrei-me em buscar uma única estrela. À medida que descia, eu contemplava flores marinhas luminescentes, conchas que se abriam em ferimentos perolados. Um paraíso de cores e de vidas. Cardumes de diversas espécies aproximavam-se do meu corpo e se afastavam delicadamente. Quanto mais eu imergia, mais a pressão aumentava. Mesmo sem contato com a vida, eu vivia. Como boa profundista, eu tinha aprendido a enganar o corpo, com certa técnica da apnéia.  Enquanto há ar nos pulmões, respira-se. O tempo era curto, eu sabia, mas continuei descendo... sem medo. Era imprescindível encontrar a estrela. Agora a luminosidade baixava e correntes marinhas muito frias pareciam congelar meus ossos.  Vi algas vermelhas gigantes e seus bailados sombrios na penumbra de um mundo onde tudo começou.  Minha única fonte de ar comprimido eram os meus pulmões, que sofriam, mas eu via seres extraordinários que  suportam pressões altíssimas:  peixes luminosos, esponjas, lírios-do-mar em meio a cemitérios marinhos. Sozinha, naquela imensidão, uma lancinante nostalgia de luz inundou meu peito. Fechei os olhos e imaginei o sol engendrando-me... e todos os naufrágios da alma ganharam sentido e esplendor _ Não! - eu pensei _ Eles não foram em vão. Eu estava perto do mal tão temido pelos mergulhadores, a famosa embriaguez das profundidades". Meus reflexos diminuíam, e eu já não sentia meus lábios, nem as extremidades dos dedos. Minhas artérias pareciam explodir. Eu tinha sede de ar, quando, de repente, eu a vi. Lá estava ela... Minha estrela derradeira ; translúcida, ela parecia sonhar, levitando e pousando graciosamente no solo ; então, eu a segurei bem firme e subi o mais rápido que pude. Quando cheguei à superfície, respirei fundo. Sob um céu de chumbo, eu tinha acordado num cais noturno, onde tudo era Adeus. Vi meus olhos dentro dos teus - feitos de abismos que guardam uma inescrutável poesia. Mais uma morte e o exílio no silêncio abissal. Outro naufrágio e de novo eu nascia. O destino tinha, carinhosamente, reescrito uma estória nas palmas das minhas mãos vazias.       

 

 

ANA VALÉRIA SESSA

São Paulo, é janeiro de 2008.     

Nota : o texto acima foi publicado no RECANTO DAS LETRAS   (http://recantodasletras.uol.com.br) em 09/01/2008 – Código do Texto : T809851.

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Todos os comentários desse artigo:
MAR PROFUNDO

  • mailto Madalena Barranco

    Seg 04 Fev 2008 05:29

    Ufa, prendi o fôlego para ler até o resgate da estrela do mar! Sílvio, esse texto da Ana Valéria é belíssimo e faz o leitor mergulhar em busca de sua luz. Parabéns!! Beijos aos dois.