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Foto do poeta Arthur
RIMBAUD
Carta ao vidente Rimbaud
Na minha homenagem ao ícone que gerou a expressão
"Maldito" e a todos os outros gênios "Les maudits"
que o procederam, deixo um pouquinho de sua mágica e
vertiginosa poesia, seguida de uma pequena biografia, no
mínimo, intrigante! No final - a minha
humilde cartinha.
~~~~ Arthur Rimbaud
(1854-1891)
~~~~
Uma Temporada no Inferno e
Iluminações
Tradução de Lêdo Ivo
FRASES
Quando se reduzir a um só bosque negro para nossos quatro
olhos atônitos - a uma praia para duas crianças
fiéis - a uma mansão musical para nossa clara
simpatia - vou te encontrar. Haja aqui embaixo só um velho
solitário, calmo e bonito, em meio a um "luxo
incrível"- vou estar a teus pés. Assim que eu realize
todas as tuas fantasias - sendo eu aquela que sabe torturar-te -
vou te estrangular.
***
Quando a gente é forte,- quem se afasta? muito fresco - quem
cai no ridículo? Quando a gente é mau, que fariam de
nós? Se arrume, dance, ria - Nunca pude mesmo jogar o Amor
pela janela.
***
E se anseio mares de Europa, é a
poça
Escura e fria onde ao crepúsculo perfumado
Uma criança se abaixa triste e solta
Qual borboleta de maio um barco delicado.
.....Estrofe
de "Bateau Ivre"
***
REPOUSANDO NO VALE
POEMA II
(...e com que
beleza sinestésica e imagética, ele traça
um quadro colorido, delicado e vivo, para dele fazer sair o horror
da guerra. Soneto inspirado na guerra de 1870)
É um pedaço de erva onde canta um ribeiro
Que rasga tresloucado o parco prateado
Verde; onde o sol, do despenhadeiro
Brilha: é um pequeno vale espelhado.
Um soldado jovem, boca incerta, cabeça descoberta,
Nuca banhada pelo fresco agrião azul,
Dorme; ele se estica sobre a relva, sob a mata aberta,
Pálido em seu leito verde onde chove luz.
Pés sobre os gladíolos, dorme. Sorriso disforme
De criança doente, ele dorme:
A Natureza calorosamente o envolve: ele tem frio.
Suas narinas não estremecem com os cheiros;
Dorme sob o sol, com a mão sobre o peito.
Tranqüilo. Tem, no lado direito, dois vermelhos
orifícios.
***
(...as artes visuais disseminadas em quase todos os
poemas em prosa, tentando arrancar a pintura de seu hábito
antigo de copiar)
"Eu amava as pinturas idiotas em cima das portas, cenários,
lonas de saltimbancos, insígnias, iluminuras populares,
literatura fora de moda, latim de igreja, livros eróticos
com ortografia errada, romances de nossas avós, contos de
fadas, livrinhos infantis, óperas velhas, refrões
imbecis, ritmos ingênuos"
"Eu ilustrei a comédia humana"
***
Ela foi
encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.
***
Eu não falarei,
Eu não pensarei mais
mas um amor imenso
entrará na minha alma.
trecho de "Sensações" , 1870
A vida de Rimbaud marcou todas as
biografias pela sua curiosa incoerência. Um adolescente que
compõe dos quinze aos dezenove anos, poemas fulgurantes,
vertiginosos de imagens e questionamentos. Com uma total ruptura de
idéias, concepções religiosas e
tradição literária de linguagem,
ele mergulha no poço escuro do inconsciente, sem nenhum
Freud para socorre-lo e emerge lançando cores e sabores
como um desbravador selvagem da ficção. Num futuro
muito próximo, ele mesmo iria se tornar o próprio
selvagem abandonando a civilização ocidental para
sempre. Rimbaud se entediou com todos os tapetes vermelhos que lhe
jogaram, gênios na época, como Verlaine, que quase
enlouqueceu com o pequeno e belo maldito. Verlaine comeu o
brioche que o diabo amassou...e com prazer! Abandonando a
esposa, acabou na sarjeta. Um dos casais literários
mais famosos pelos tantos barracos armados com direito a
polícia e escândalo. Pois é, Rimbaud deu uma
bela banana para tudo isso. Abandonou a Cidade-Luz, na
época, a capital literária do mundo, com seus
cafés, baladas dignas da atual Canden Town, em
Londres, e um clima cultural que atraía exilados de todas as
nacionalidades, idiomas e tendências políticas e
sexuais. O jovem que não assimilava, mas tragava vorazmente
tudo a sua volta numa velocidade estonteante, sentia-se só
no seu mundo de futuras descobertas e outras que até hoje
ainda estão por vir. Lançou-se em caminhadas, numa
energia assustadora, não só mental, mas física
percorrendo a pé a Inglaterra, a Áustria, Alemanha e
Suécia. Aprendeu várias línguas, fazendo os
mais diversos trabalhos para sobreviver, viajando enfim para a
longínqua África, na época
chamada Abissínia. Ali percorreu regiões
inóspitas e primitivas, antes nunca pisadas pelo homem
branco. Negociou com os donos do pedaço,
sultões fascinados com armas de fogo, vendeu peles e marfim
para os povos nômades. Fundou seu louco exílio Em
Arar, cidade estranha e misteriosa, dominada pelo código
severo do Islã, onde o termômetro marca 30 graus
centígrados no "inverno". Ele amaldiçoava os
cães selvagens que urinavam nas peles e ainda assim,
lá de seu reino meio *"Apocalipse Now", encomendou uma
máquina fotográfica, a
grande invenção, na época. O
fascínio pela imagem e pelo novo, no fundo, ainda
estava presente em meio aos papéis sujos onde fazia
cálculos e contava as onças de ouro. Em seu ciclo
infernal, em condições atrozes, passando toda
espécie de privação e dor, ele se perdeu em
sua teia de aranha e dela só saíria para morrer em
Marseille aos trinta e sete anos.
Às vezes, quase o vejo como um pré-max minimalista
querendo abarcar todos os sons, mas guardando a delicadeza do
essencial. Como um pioneiro de Andy Warhol, em plena
época de uma pintura clássica e rígida em
conceitos, ele adorava tudo o que era imagem, das mais vulgares as
mais sublimes e queria que elas se desprendessem das letras para
tocar o leitor com mãos alucinadas de ternura. Nenhum poeta
exerceu tanto sortilégio. Nenhuma biografia foi tão
intrigante.
Comentário de
Henry Miller:
"Creio que há muitos Rimbaud neste mundo, e que seu
número crescerá sempre. Creio que, no futuro, o tipo
Rimbaud substituirá o tipo Hamlet e o tipo Fausto.
Rimbaud é uma curiosa mistura de audácia e timidez.
Ele tem a coragem de se aventurar lá onde nenhum branco
jamais pôs os pés, mas ele não é capaz
de enfrentar a vida com pouco dinheiro. Não tem medo dos
canibais, e sim dos brancos, de seus semelhantes. Nele havia luz,
uma maravilhosa luz, mas ela não devia se espalhar antes que
ele morresse."
O outro
Rimbaud, o andarilho ( Uma de sua cartas à
família)
Cairo, 23 de agosto 1887.
Meus caros amigos
...eu vim para cá porque o calor era insuportável
esse ano no mar Vermelho. Todo o tempo fazia de 50 a 60
graus. Me sinto enfraquecido, depois de sete anos de
muito cansaço. Vocês mal podem imaginar (...) eu
não tenho empregados, no momento e tenho medo de perder o
pouco que eu tenho. Imagine vocês que carrego todo o tempo na
minha cintura, seis mil e poucos francos de ouro; isso pesa mais de
oito kilos, o que as vezes me provoca muita dor (...) portando
não posso voltar para a Europa por muitas razões:
primeiro porque eu morreria no frio, depois já estou
habituado a vida errante e gratuita; enfim não tenho uma
posição (...) eu tenho que voltar para a costa do
Sudão e Arábia, talvez eu vá para Zanzibar
onde eu possa fazer longas viagens na África, talvez China,
Japão...quem sabe onde ?
Enfim mandem notícias. Eu vos desejo paz e felicidade.
***
Minha carta ao
vidente
primavera -
2006
Mon petit
chéri,
As coisas
melhoraram por aqui. Ah ! como adorarias ver teu mundo
vertiginoso de imagens agora liberto em coloridos versos,
cinema, fotografia, holografias, imagens digitais. Meninos e
meninas brincando livres na relva das tuas lindas iluminuras
! Irias mandar muitos emails perturbando os
maniqueístas...já posso te ver... digitando e rindo
! Pois é, eles ainda existem ! mas também
tem uma turma da pesada que cada vez cresce mais, lutando por um
pluralismo de culturas, tentando sumir com esses malditos
dadinhos que jogam com a velha díade do bem e do mal. Irias
adorar o relativismo de Einstein, a física quântica, o
jazz, o soul, as maravilhas que andam fazendo com a
música clássica. Menino, você ia se
divertir a valer !
**Gros bisous,
Valéria
PS: Segue um poeminha de
pé-quebrado vestindo as tuas roupas.
"...das delicadezas que só a bruma
acaricou em devaneios azuis.
Em nome da tua dama violeta
sensual e aveludada
que se deita nua embaixo da lua
na relva fresca e cintilante,
te digo :
Meu ouro continuará luzindo.
Ainda que numa Abissínia distante
tua doce música no ouvido
não será mais um ruído.
Sempre e de novo será liberta
na cor das vogais, na alquimia dos verbos.
Se escondeste tua poesia em peles de animais mortos
com medo dos salteadores
Se viraraste selvagem para conhecer, de fato, a viagem
e acabaste naufrágo do esplendor,
aqui fica um porto onírico,
uma linda aurora grávida de amanhãs
No teu leito, deixo alguns louros frescos e um cheiro de
rosas."
------------------------------////
* Apocalipse
Now - filme de Francis Ford Coppola
**gros bisous - grande beijo.
- O título é uma alusão a "Carta do
Vidente" a cérebre carta escrita por Rimbaud aos 16
anos à Paul Demény. Com uma simples missiva, ele
lança um novo código que influenciaria toda a
literatura no futuro.
Mesdames et Messieurs, respectez les Droits d'Auteur
!
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