Saint Patrick's Church
em Dublin
EPISÓDIO 14 – OXEN
OF THE SUN
“DESHIL Holles Eamus, Deshil Holles Eamus, Deshil Holles
Eamus.
Envia-nos, ó brilhante, ó iluminado, Hornhorn,
vivificamento e uterifruto. Envia-nos, ó brilhante,
ó iluminado, Hornhorn, vivificamento e uterifruto.
Envia-nos, ó brilhante, ó iluminado, Hornhorn,
vivificamento e uterifruto...” (p.284)
(“Deshil Holles Eamus. Deshil Holles Eamus. Deshil Holles
Eamus.
Send us bright one, light one, Horhorn, quickening and wombfruit.
Send us bright one, light one, Horhorn, quickening amd wombfruit.
Send us bright one, light one, Horhorn, quickening and
wombfruit...”) (p.314)
Este episódio é inaugurado com a estranha
invocação acima, a qual aparentemente deita
raízes em elementos quiçá mitológicos.
Em seguida, explode uma longa sucessão de temas, mais
precisamente sobre a procriação, banhada por
múltiplos elementos teológicos.
O episódio também é portador de
um extenso conjunto de paródias e de sátiras:
“O Papa Pedro não é mais que um mijão.
Um homem é um homem é um homem senão
não.” (“_ Pope Peter’s but a pissabed. A
man’s a man for a’that.”).
Os fatos, do referido capítulo, têm lugar
no hospital onde a sra. Mina Purefoy sofre as dores do parto.
Elementos das mitologias celta, romana, hebraica, grega, da
filosofia ocidental etc., todos se mesclam junto a passagens que
trazem a lume dados sobre o controle de natalidade na Irlanda.
“Mais ainda, não tivera o vasculhão da
ajeitadeira sido seu anjo tutelar tudo teria sido para ela
tão duro quando o fora para Agar, a
egípcia!...” (“Nay,
had the hussy’s scouringbrush not been her tutelary
angel, it had gone with her as hard as with Hagar, the
Egyptian!”); “O outro problema suscitado pelo mesmo
inquiridor é apenasmente menos vital: a mortalidade
infantil.” (“The other problem raised by the same
inquirer is scarcely less vital: infant
mortality.”)
Em meio a ladainhas latinas, de cunho
profano-religioso, o parto da sra. Purefoy torna-se cada vez mais
sofrível e difícil. Por fim, o nascimento do vigoroso
varãozinho da sra. Purefoy é anunciado pelo deus
Thor. Assim, após um estrondoso trovão, nasce o nono
pimpolho da sra. Purefoy.
O episódio encerra-se mediante uma
convocação: “_ Todos rumo à farra, ombro
à frente, escoando rua abaixo.” (“All off for a
buster, armstrong, hollering down street.”); seguido de temas
recorrentes: “diacho, que droga disso daquilo é o gajo
do impermeável?” (“Golly, whatten tunket’s
yon guy in the mackintosh?”), além de uma
notória constatação: “Tudo
tá fora dos eixos” (“Live axle drives are
souped”).
EPISÓDIO 15 - CIRCE
“Outras formas pairavam ali. Sua
alma acercava-se da região habitada pela vasta legião
dos mortos. Pressentia, mas não podia apreender suas
existências vacilantes e incertas. Ele próprio
dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real,
sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado,
desagregava-se.” (Dublinenses, pp.194,195)
Recorremos aos momentos finais do conto
“Os Mortos”, de James Joyce, pois, nesta passagem,
à maneira de um historiador, a escritura do romancista
parece trabalhar com a memória de todos, ou seja, com a
memória dos vivos e dos mortos. É, portanto, com essa
trajetória de interpenetração de camadas entre
os vivos e os mortos (a exemplo daquilo que ocorre no conto que
integra “Os Dublinenses”), além de sucessivas
metamorfoses, que este episódio ganha força,
progressivamente. Os acontecimentos têm como cenário a
zona de meretrício da cidade de Dublin, mais
especificamente, o bordel da Rua Mabbot, cuja proprietária
é Bella Cohen. Leopold Bloom sente-se no dever de acompanhar
o seu filho espiritual - Stephen Dedalus - até o
prostíbulo. O episódio é constituído
por um amplo conjunto de múltiplos diálogos e serve
de ponto de partida para inúmeras metamorfoses. No
prostíbulo, Stephen sofre ameaças físicas por
parte dos freqüentadores, porém, Bloom, a exemplo de um
pai, procura defendê-lo. Um volumoso conjunto de imagens
alucinantes – por esta razão, constitui o
capítulo mais longo do romance – ora transforma
Leopold Bloom em prefeito da cidade de Dublin. Contudo, a
impressão que se tem é que Bloom, aqui, é
tornado o herói fundador de uma nova
civilização. Num dado momento, Bloom cala o
Impermeato: “_ Fuzilem-no! Cachorro de cristão! Chega
de Impermeato! (Um canhonaço. O homem de impermeável
desaparece (...)”; ( _ “Shoot him! Dog of a christian!
So much for M’Intosh!”).
Temas recorrentes preenchem todo o episódio,
com grande intensidade: o sabonete; a batata; a jovem Gerty
MacDowel; jornalismo; o cornudo de Dublin (Bloom); meias
transparentes, ligas e lindas anáguas; o parto; Agendath
Netaim; ninfas; as nove musas; dias alciónicos; Stephen e a
mãe moribunda; o Impermeato; o rapazinho cego:
“(Apertando a mão com um rapazinho cego) Meu mais que
Irmão!” ( “(Shaking hands with a blind
stripling). My more than Brother!”).
Um longo catálogo de gerações
apresenta a ascendência de Leopold Bloom:
“Moisés gerou Noé e Noé gerou Eunuco
(...) Virag gerou Bloom ...”; (“Moses begat Noah and
Noah begat Eunuch (...) Viragt begat Bloom...”).
Traçando e trançando vínculos
progressivos entre elementos do mundo moderno e elementos inscritos
nas tradições culturais em geral, este
episódio apresenta novos e inúmeros sentidos tanto
para o antigo quanto para o novo:
“Bloom explana aos mais perto seu projecto de
regeneração social. Todos concordam com ele. O
zelador do Museu da Rua Kildare aparece puxando um camião em
que tremelicam estátuas de várias deusas nuas,
Vénus Calipígia, Vénus Pandemos, Vénus
Metempsicose, e figuras de gesso, também nuas, representando
as nove musas, Comércio, Música Operática,
Amor, Publicidade, Manufactura, Liberdade de Palavra, Voto Plural,
Gastronomia, Higiene Privada, Recreações de Concerto
à Beira-Mar, Obstétrica Indolor e Astronomia para o
Público.” (p.351)
(“Bloom explains to those near him his shemes for social
regeneration. All agree with him. The keeper of the Kildare street
museum appears, dragging a lorry on wich are the shaking statues of
several naked goddesses, Venus Callipyge, Venus Pandemos, Venus
Metempsychosis, and plaster figures, also naked, representing the
new nine muses, Commerce, Operatic Music, Amor, Publicity,
Manufacture, Liberty of Speech, Plural Voting, Gastronomy, Private
Hygiene, Seaside Concert Entertainments, Painless Obstetrics and
astronomy for the People.”) (p.400)
Mulheres procuram humilhar homens, referindo-se aos
últimos como se fossem porcos. Além disso, Leopold
Bloom é, por fim, considerado o cornudo notório de
Dublin:
“A HONORÁVEL SENHORA MERVYN TALBOYS: (Desabotoando as
luvas violentamente) Não o farei. Porco de cão que
sempre o foi desde cachorrinho! Ousar dirigir-se a mim! Vou
flagelá-lo pelas ruas públicas até que fique
negro de roxo. Vou enterrar minhas esporas nele rosetas adentro.
É um cornudo notório. (Zurze sua chibata de
caça selvagemente no ar). Tirem-lhe as calças sem
perda de tempo. Venha para cá,
cavalheiro!Rápido!Pronto?” (P.339)
(“THE HONOURABLE MRS MERVYN TALBOYS: (unbuttoning
her gauntlet violently) I’ll do no such thing. Pigdog
and always was ever since he was pupped! To dare address me!
I’ll flog him black and blue in the public streets.
I’ll dig my spurs in him up to the rowel. He is a wellknown
cuckold. (she swishes her humtingcrop savagely in the air) Take
down his trousers without loss of time. Come here, sir! Quick!
Ready!”) (p.382)
A honra de Leopold Bloom declina, progressivamente,
dentre os personagens ali presentes. A isso, somam-se sucessivas
metamorfoses, em escala gigantesca! E tudo acontece num só
espaço. Bloom sente o desejo de ser mãe: o corpo de
Bloom é o de uma mulher. Bloom-Messias: Bloom veste a
túnica Inconsútil.
“CORNUSSOPRA: (De éfode e casquete-de-caça,
anuncia) E ele deverá levar os pecados do povo para Azazel,
o espírito que está no ermo, e para Lilith, a
noctifúria. E eles o lapidarão e o
conspurcarão, de feito, todos os de Agendath Netaim e de
Mizriam, a terra de Ham.” (p355)
(“HORNBLOWER: (in ephod and huntingcap, announces) And
he shall carry the sins of the people to Azazel, the spirit
which is in the wilderness, and to Lilith, the nighthag. And they
shall stone him and desfile him, yea, all from Agendath Netaim and
from Mizraim, the land of Ham.”) (p.405)
Surgem menções à Lilith, a
primeira mulher de Adão, que o abandonou no Paraíso
– figura de mulher inscrita nos evangelhos e na mitologia
como a destruidora de bebês recém-nascidos.
“O GRAMOFONE:
Jerusalém!
Abre tuas portas e canta
Hosana...”
( “THE GRAMOPHONE :
Jerusalem!
Open your gates and sing
Hosanna...”)
Os motivos bíblicos se multiplicam:
“ELIAS: Nada de parlapatices, se me fazem o favor, nesta
tenda (...) Juntem-se logo e aqui! Reservas para a
junção com a eternidade, viagem directa.
Só uma palavra mais. És um deus ou sois uns
malditos ateus? Se o segundo advento chegar a Coney Island
estaremos juntos? Florry Cristo, Stephen Cristo, Zoe Cristo, Bloom
Cristo, Kitty Cristo, Lynch risto, depende de vocês sentir
essa força cósmica. Temos tremedeira de medo dos
cosmos? Não, fiquem do lado dos
anjos.” (p.361)
(“ELIJAH: No yapping, if you please, in this booth. (...)
Join on right here. Book throught to eternity junction, the nonstop
run. Just one word more. Are you a god or a doggone clod? If the
second advent came to Coney Island are we ready? Florry
Christ, Stephen Christ, Zoe Christ, Bloom Christ, Kitty Christ,
Lynch Christ, it’s up to you to sense that cosmic force. Hve
you cold feet about the cosmos? No. Be on the side of the
angels.” ) (p.414)
Neste episódio, o passado, o mítico, o
religioso aparentam não ser inacessíveis. Parece
tratar-se de um tipo de apreensão do tempo passado; de um
sentimento da sua distância em relação ao
presente - não no seu aspecto inaugural, porque este
está irremediavelmente perdido.
E prosseguem novas metamorfoses: Bella Cohen
é metamorfoseada em Bello. As metamorfoses alternam-se e
sucedem-se... A mistura do bíblico, do cabalístico,
do mitológico e de outros elementos transcendentes
apresenta, neste episódio, uma escritura poética
incomparavelmente bela! Potências poéticas seculares
misturam-se de um modo metafórico para ressignificar uma
vida arruinada e martirizada; para Leopold Bloom, a ausência
e a imagem do filho morto - no encerramento do
episódio:
“... Contra o muro escuro uma figura aparece lentamente, um
menino louro de onze anos, um trocado, raptado, vestido à
Eton com sapatos de cristal e pequeno elmo de bronze, sustendo um
livro na mão. Lê da direita para a esquerda
inaudivelmente, sorridentemente, beijando a página.)
BLOOM: (Maravilhado, chama inaudivelmente) Rudy!
RUDY: (Mira sem ver nos olhos de Bloom e segue a ler, beijar,
sorrir. Tem uma delicada cara malva. No traje traz os botões
de diamantes e rubis. Na mão esquerda livre sustém
uma fina bengala de marfim com um laço violeta. Um anhozinho
branco espia do bolso do seu colete.” (p.419)
(“ (...Against the dark wall a figure appears slowly, a fairy
boy of eleven, a changeling, kidnapped, dressed in an Eton suit
with glass shoes and a little bronze helmet , holding a book in his
hand. He reads from right to left inaudibly, smiling, kissing the
page.)
BLOOM : (wondertruck, calls inaudibly) Rudy!
RUDY : ( gazes, unseeing, into Bloom’s eyes and goes on
reading, kissing, smiling. He has a delicate mauve face. On his
suit he has diamond and ruby buttons. In his free left hand he
holds a slim ivory cane with a violet bowknot. A white lambkin
peeps out of his waistcoat pocket.”) (p.497)
BIBLIOGRAFIA
JOYCE, James. “Dublinenses”. 4 ed.
Tradução Hamilton Trevisan. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1992.
_____. “Ulisses”. 8 ed. Tradução de
Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora
Civilização Brasileira, 1993.
_____. “Ulysses”. New York : Vintage Books,
1986.
PROF. DR. SÍLVIO
MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006.
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
10/01/2006
Código do texto: T96637
Código do texto: T96637
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