Roteiro de Leopold Bloom, o navegante da modernidade
metropolitana, pelas ruas de Dublin.
EPISÓDIO
8 (LESTRYGONIANS)
Leopold Bloom deixa a
redação do jornal e parte rumo ao centro da cidade de
Dublin. É hora do almoço. O intróito do
presente episódio é um prenúncio das imagens
canibalescas que povoarão todo este capítulo do
romance:
“ROCHEDO com abacaxi, limão cristalizado, amanteigado
escocês. Uma garota açucarbesuntada padejando
conchadas de creme para um irmão leigo.”
(“Pineapple rock, lemon platt, butter scotch. A sugarsticky
girl shovelling scoopfuls of creams for a christian
brother.”)
Em seguida:
“Batatas e margarina, margarina e batatas ... Mas aí
Shakespeare não tem rimas: verso branco. O escorrer da
língua é que conta.” (“Potatoes and
marge, marge and potatoes ... But then Shakespeare has no rhymes:
blank verse. The flow of the language it is.”)
Shakespeare + batatas + Robson Crusoe + margarina +
... Bloom então exclama:
“_ Não há limites para o gosto... Um apetite de
albatroz... Me dá uma tristeza comer torresmo...”
(“No accounting for tastes... Appetite like an albatross...
My heart’s broke eating dripping...”)
Hora do almoço, portanto. Aos olhos de Bloom, a
famélica Dublin promove um festival gastronômico
sacrifical. Toda cidade parece banquetear-se num feroz festival
gastronômico de caráter canibalesco:
“Esta é realmente a péssima hora do dia.
Vitalidade. baça, lúgubre: odeio esta hora. Sinto
como se tivesse engolido e vomitado. (...) Ver os animais
comer.
Homens, homens, homens ... Cheiros de homens. O nojo lhe subia.
(...)
Aquele sujeito empurrando dentro uma garfada de repolho como se sua
vida dependesse disso. Bom golpe. Arrepia-me só de
ver.”(...) Fora. Odeio gente porca comendo.”
(pp.126-130)
(“This is the very worst hour of the day. Vitality. Dull,
gloomy: hate this hour. Feel as if I had been eaten and spewed.
(...) See the animals feed.
Men, men, men... Smells of men. Spaton sawdust, suweetish warmish
cigarettesmoke, reek of plug, spilt beer, men’s beery piss,
the stale of ferment.
That fellow ramming a kifeful of cabbage down as if his life
dependend on it. Good stroke. Give me the fidgets to look. (...)
Out.I hate dirty eaters.”) (pp.135-139)
Alucinações antropofágicas
inundam a mente de Bloom, misturando-se a uma sucessão de
pavorosas imagens de recém-nascidos banhados em sangue.
Além disso, o corpo recém sepultado do amigo Dignam
adquire novas formas mediante as visões de Bloom. “A
carne em conserva de Dignam. Os canibais o fariam com limão
e arroz. Missionário branco muito salgado. Como porco em
salmora...” (“Dignam’s potted meat. Cannibals
would with lemon and rice. White missionary too salty. Like pickled
pork...”).
As imagens de uma pessoa conhecida - preste a dar
à luz - invadem a mente de Bloom. Trata-se de Mina Purefoy.
Mina Purefoy com a barriga inchada, num leito, ganindo, para ter um
filho arrancado de dentro dela.
Leopoldo Bloom - sentindo-se cada vez mais enojado com
a variedade de comida oferecida por toda a área central da
cidade de Dublin - decide comer, apenas, um sanduíche
(pão com mostarda). Além disso, bebe, somente, vinho.
Em seguida, Bloom auxilia um cego a atravessar a rua e, depois,
parte rumo à Maternidade, a fim de render uma visita
à parturiente, isto é, a sra. Mina
Purefoy.
Contudo, antes da Maternidade, Bloom segue em
direção à Biblioteca Pública, local
onde Stephen Dedalus, naquele exato momento, expõe as
próprias considerações sobre a obra de
Shakespeare, com base em Platão e Aristóteles.
Passa das 2h da tarde. O episódio encerra-se
com temas recorrentes.
“... Agendath Netaim... Calças. Carteira. Batata...
Sua mão procurando pelo onde foi que eu pus achou no bolso
de trás um sabonete a loção tinha de ir buscar
com tépido papel aderido. Ah , aí o sabonete! Sim.
Portão.
Salvação.”(p.140)
(“ ... Agendath Netaim ... Trousers. Potato. Purse... His
hand looking for the where did I put found i his pocker soap lotion
have to call tepid paper stuck. Ah soap there I yes. Gate.
Safe!”) (p.150)
EPISÓDIO 9 (SCYLLA AND CHARYBDIS)
Goethe, Milton, Blake, Mallarmé,
Homero, Aristóteles... um autêntico panteão de
renomados poetas, literatos, filósofos ou uma desatinada
profusão de nomes e temas consagrados da literatura da
cultura ocidental eclode, de forma simultânea, no pensamento
de cada indivíduo que se encontra, naquele momento, na
Biblioteca Pública de Dublin.
O “Hamlet” de Shakespeare e a tese de
Stephen Bloom de que o neto de Hamlet é o avó de
Shakespeare: este é o tema central debatido no local. No
entanto, dois representantes da filosofia ocidental marcam
presença nos diálogos do grupo, com bastante
freqüência. Trata-se de dois importantes
filósofos da Antigüidade clássico-grega, isto
é, Platão e Aristóteles. Num determinado
momento, Stephen Dedalus põe a si mesmo a seguinte
questão: “_ Qual dos dois _ perguntava Stephen _
me baniria de sua república?” ( “Which of the
two, Stephen asked, would have banished me from his
commonwealth?”).
Com veemência, outras vozes manifestavam-se:
“Nossa épica nacional ainda está por ser
escrita, diz o Dr. Sigerson (...) James Stephens está
fazendo alguns esboços inteligentes.”(“Our
national epic has yet to be writen, Dr Sigerson says. (...) James
Stephen is doing some clever sketches.”).
Entretanto, num dado momento, os temas
literários tendem a misturar-se com temas religiosos,
até que o grupo de estudantes avista um novo
personagem-visitante a circular pela Biblioteca:
“_ Um judeu! _ exclamou Buck Mulligan. (...)
_ Qual é o nome? Ikey Moses? Bloom. (...)
_ Jeová, colector de prepúcios, não
é.”
(“_ The sheeny! buck Mulligan cried. (...)
_ What’s his name? Ikey Moses? Bloom. (...)
_ Jehovah, collector of prepuces, is no more.” )
A presença de Leopold Bloom, na Biblioteca, foi
bastante observada pelo grupo, exceto por Stephen Dedalus que,
naquele momento, dissertava sobre Górgias e fatos sobre a
guerra de Tróia.
As discussões sobre Shakespeare e obra
desdobram-se, culminando com a exclamação
indômita de John Eglinton: “Depois de Deus, Shakespeare
foi quem mais criou.” (“After God Shakespeare has
created most”).
Por fim, o presente episódio encerra-se com os
seguintes versos:
“Louvemos nós os deuses
E subam às suas narinas os fumos espiralados
De altares nossos abençoados.”
(“Laud we the gods
And let our crooked smokes clim to their nostrils
From our bless’d altars”)
EPISÓDIO 10 (WANDERING ROCKS)
O presente episódio tem início
procurando acentuar as perambulações do reverendo
Conmee - conjuntamente ao fluxo de consciência do reverendo -
pelas ruas de Dublin. Progressivamente outros personagens
começam a surgir em cena, inclusive um bando de turistas
italianos que também deambulavam pelos recantos da cidade.
As múltiplas vozes de Dublin começam, então, a
se confundir.
Na Biblioteca, um livro sobre a mesa. A
bibliotecária Miss Dunne, tamborilando no teclado, imprime:
“Dezasseis de Junho de mil novecentos e quatro.”
(“16 June 1904”).
Leopold Bloom está em busca de um livro
solicitado por sua infiel mulher Molly Bloom. Alguns transeuntes,
avistando Bloom, assim comentam:
“_ Leopoldo ou o Bloom está no palheiro _ disse
Lenehan.
_ É louco varrido por liquidações _ disse
M’Coy. _ Eu estava com ele certo dia e ele comprou um livro
de um velho da rua Liffey por dois xelins.”
(“ _Leopoldo or the Bloom is on the Rye, Lenehan said.
_ He’s dead nuts on sales, M’Coy said. I was with him
one day and the bought book from an old one in Liffey street for
two bob.”)
Outros transeuntes ainda comentam:
“_ Ele é um sujeito de cultura geral muito boa, o
Bloom _ disse ele com seriedade. _ Não é um sujeito
qualquer, você sabe... Há um quê de
artista nesse velho Bloom.”
(“_ He’s a cultured allroundman, Bloom is, he said
seriously. He’s not one of your common or garden... you
know... There’s a touch of the artist about old
Bloom.”)
Por fim, Bloom adquire um livro:
“O senhor Bloom atentava.
Dominando sua respiração perturbada, ele disse:
_ Levo este.
O lojista levantou os olhos nublados de velhas remelas.
_ Doçuras do Pecado _ disse ele, tamborilando-lhe em cima. _
Isto é bom.”(p.179)
(“Mr Bloom beheld it.
Mastering his troubled breath, he said:
_ I’ll take this one.
The shopman lifted eyes bleared with old rheum.
_ ‘Sweets of Sin’, he said, tapping on it. That’s
a good one.”) (p.194)
O livro, como o título sugere, continha teor
pornográfico. Enquanto Bloom permanecia na Livraria
“tosses catarrentas abalavam a atmosfera da loja de livros,
bombeando para fora a cortina encardida” (“Phlegmy
coughs shook the air of the bookshop, bulging out the dingy
curtains”).
Stephen Dedalus, neste momento, também
perambulava pelas ruas de Dublin, manipulando e adquirindo antigos
livros.
De outra parte, reverendos e outros tipos sociais
da cidade colidiam-se pelas ruas centrais de Dublin, numa alucinada
sucessão de encontros puramente
mecânicos.
BIBLIOGRAFIA
JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed.
Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro:
Editora Civilização Brasileira, 1993.
_____. “Ulysses”. New York : Vintage Books, 1986.
PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
05/01/2006
Código do texto: T94648
Código do texto: T94648
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(continuação da tentativa de resumo: episódios
8, 9 e 10 - Parte II)2006Recanto das LetrasSÍLVIO
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