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CONSIDERAÇÕES ATINENTES AO TEXTO "O CANTO DAS SEREIAS SEGUNDO A 'DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO" (  (Dos Leitores) escrito em terça 27 março 2007 13:39

 

 

 

 

Outras considerações da leitora ANA VALÉRIA SESSA atinentes ao texto O CANTO DAS SEREIAS SEGUNDO A DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO, de autoria do PROF.DR.SÍLVIO MEDEIROS:

 

 

... no final o que eu digo acaba caindo na arte, na vida; a nossa civilização no momento, psicologicamente, deve haver muito mais para se estudar. É a maneira do homem moderno pensar o mundo - a velha fórmula dialética: tese, antítese e síntese. O homem moderno tem que descartar uma coisa para abarcar outra, literalmente jogar fora; não é como os primitivos que tudo assimilavam. Assim, nesse “caminho” de dominar a natureza e fazer dela uma fonte inesgotável de benefícios para o homem, acabaram por ignorá-la, a ponto de pensarem que seria possível até mesmo viver sem ela. Já não existe nem mesmo um pensamento. É um raciocínio surdo, mudo, uma mentalidade que se instaurou; tem uma dinâmica própria e parece funcionar até mesmo independente do homem. Me lembro, uma vez, no cursinho, olha isso - um professor de História dava uma chavinha básica para explicar a queda do império romano. Era uma sociedade rural, dependiam dos escravos para produzir, para ter escravos, para produzir, precisavam das guerras, não havia mais guerras, não tinham mais para onde avançar. Ao longo dos tempos eles foram negociando com os bárbaros que, pouco a pouco, foram assimilando a cultura deles. Quando o Império caiu, nem houve resistência contra os bárbaros, eles naturalmente se apoderaram; então, um aluno perguntou: mas se eles dependiam dos escravos porque não os tratavam um pouco melhor ? ( vale lembrar que os escravos para os romanos estavam um grau acima do arado, porque falavam, eles morriam aos montes) Então o professor disse: mentalidade, apenas uma questão de mentalidade, e você não a muda de uma hora para outra, e é assim que as civilizações desaparecem para dar lugar a outras. Pois é, essa é a nossa civilização - o homem moderno não consegue conceber outra forma de "progresso". Na arte isso se reflete e se interliga com a psicanálise, com a psique humana, que acho foi a maior descoberta do homem ! Bem na arte, o homem está cortando cada vez mais o imaginário, "o diálogo com as sereias, com o inconsciente que nada mais é do que o desconhecido. O inconsciente tem uma dinâmica toda própria. Funciona como um regulador para nos manter sãos. Cortar o imaginário ou o diálogo com o inconsciente é parar de descobrir novas luzes, outros horizontes. Acho que a máquina nunca vai se apoderar totalmente do nosso inconsciente, quer dizer, não sei tão bem, pois não sou psicanalista,  mas pelo que eu pude ler e aprender como paciente (foram 10 anos de análise!) é que o inconsciente reage de alguma maneira, assim como a natureza. Talvez tenhamos cataclismos, vendavais, tsunames mentais...rsrsr/ olha a poesia aí ! mas é sério, o inconsciente tem sua própria dinâmica, ignora sinalizações racionais, principalmente quando elas estão em desacordo e em franco desequilíbrio com esse princípio: " princípio que governa todos os ciclos da vida natural, desde o menor até o maior", estes que estão nos mitos e que Jung fala tanto. Quando verbalizamos algo, esses conteúdos inconscientes, dos quais estou falando, já passaram por um tremendo filtro, por isso optei pela análise junguiana, que trabalha com os sonhos, material bruto mesmo, tremendo manancial. “Grosso modo”, Jung viu nele um tesouro, enquanto o velho e patriarcal “froidão”...rsrs/ achava que ali era um depósito de lixo. O rompimento dos dois, a divergência foi um grande bem para a humanidade, pois  enquanto a teoria de Freud busca as causas, a de Jung busca a direção, a finalidade.  Enquanto para Freud a libido é somente sexual, para Jung a libido é toda a energia psíquica. Assim, para finalizar, quero dizer que nos meus contos isso aparece muito - o personagem em "Ítaca" é salvo dos monstros da razão pelo "canto das sereias", o inconsciente regulador, num momento chave em sincronicidade com algo externo, a bailarina que é real.  Sabe, sou uma esponja, deixo meu inconsciente agir, vou só anotando pistas, sonhos, sem tentar analisar, raciocinar; isso eu aprendi, é mais um observar, quase intuitivo, se não você espanta a sereia...rsrs/. O conto "Fábula de um insone" é a mesma coisa, quando tiver tempo, dê uma olhada. Eu o escrevi em época de eleições, quando todo mundo se digladiava no velho cirquinho político, com aquela lona pobrinha e rasgada; não tenho saco para a política, sobretudo no Brasil....os mitos são mesmo incríveis ! Vou ler, quando tiver tempo, os tais franceses que você me indicou. O único problema dos franceses é que muitas vezes eles ficam presos na teia das palavras....cachorro correndo atrás do rabo...rsrs/ é aquela estória conhecida de "Guerra nas Estrelas". Porque você acha que o esperto do George Lucas, ficou semanas na fazenda dele com o Campbel, tratando Campbel a pão de ló, hiper fã ! O judeu estava certo, e pensando nos milhões ...! rsrsrs/ Ele sabia que a chave estava nos mitos. Com o surgimento do cinema, os mitos novamente ganharam seu espaço, agora não boca-a-boca, como acontecia antigamente, mas mediante meios audiovisuais, e difundidos ao redor do mundo...e deu no que deu, estouro de bilheteria. E´o homem de forma inconsciente (o inconsciente coletivo) tentando se auto- regularizar. Todas as etapas que aparecem no "Herói das Mil Faces" de Campbel estão lá, de forma mais acessível e simplificada ao público adolescente que delirava. Vou buscar lá, essas etapas básicas, só para você ver...espera aí....Pronto, veja : Partida, separação/ Mundo cotidiano/ Chamado à aventura/ Recusa ao chamado/ Ajuda sobrenatural /Travessia do primeiro limiar /Barriga da baleia /Descida, iniciação, penetração/ Estrada de Provas/ Encontro com a Deusa/ A mulher como tentação/ Sintonia com o Pai/ Apótese/ Grande conquista/ Retorno/ Recusa do retorno/ Vôo mágico/ Resgate de dentro /Travessia do limiar/ Retorno/Senhor de dois minutos /Liberdade de viver.Gosto de juntar meu aprendizado literário com a linha de análise que fiz tantos anos e que me foi tão benéfica....by the way.. amado Sílvio, Os mitos alimentam nossa alma, são o elemento que nos dá força para continuar, é uma esperança, uma forma de lidar com os nossos medos. Eu tive essa experiência e atravesso momentos difíceis; hoje, bem mais fortificada, ainda que sem saber direito todas as soluções, graças a essa experiência. Mergulhei nos sonhos durante 10 anos, muitas vezes, às cegas ia anotando, às vezes, de madrugada, e pensava: mas que merda é isso ! parecia sem pé nem cabeça ! rsrsr/ mas intuía que estava no caminho certo, e fui. Foram incríveis as interpretações que meu analista muitas vezes me ofereceu, os insights que acabei tendo. Mas é isso... se você quiser arrumar direitinho tudo isso e publicar, acho ótimo ! Gostaria de colocar lá no meu Cantinho também e, olha, se você mergulhasse nesses mitos, mais percebendo-os, sentindo-os do que raciocinando sobre eles... tenho certeza que eles são um regularizador incrível, melhor que qualquer química. Foi um “trabalho de Hércules” me livrar desse raciocínio binário, que tenta dissecar tudo, um pouquinho que fosse, para avançar com o trabalho de análise. E´um raciocínio incutido esse nosso, que nos veda a possibilidade de enxergar outras maneiras de apreender o mundo. Sei não, mas acho que esses lacanianos, são outra vítima do bicho racionalizante.../rsrsrsFalei demais né ?! desculpe, é que tenho plena convicção disso, experiência vivida, mesmo!  muitos e muitos beijos para você, 

 

Valéria  

 

SÃO PAULO/CAMPINAS, é outono de 2007.   

 

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