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CONSIDERAÇÕES ATINENTES AO TEXTO "O CANTO DAS SEREIAS SEGUNDO A 'DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO"  (Dos Leitores) escrito em terça 27 março 2007 13:17

 

O Silêncio das Sereias

    

 

 

     Segue abaixo considerações da leitora ANA VALÉRIA SESSA em torno do ensaio de autoria do PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS, cujo título é O CANTO DAS SEREIAS SEGUNDO A 'DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO'" - ensaio disponibilizado neste BLOG na data de 22/03/2007:

 

Meu amoroso filósofo,

quem sou eu para debater esse assunto, afinal estudei um “tiquinho”...(rsrs) de filosofia, apenas e sempre voltada para a compreensão e aprofundamento da arte. Passei longe daquele “livrão” do Marx....Acho que estava em alguma praia nadando, nua..rsrs/      Quando estudei literatura procurei fazer diferentes leituras, bebendo em várias fontes, algumas bem atípicas, o que deixava os professores loooucos ! Mas sempre fugi da política e de Kant, mas esse texto é muito bom. Compreender o Iluminismo sob diferentes aspectos e a urgência em criar novas luzes ! ... Anyway, é engraçado, porque sempre olhei o mito, não como antônimo do entendimento, mas como algo impregnado de alma e de significados universais. Não sou filósofa portanto não sei verbalizar essas coisas “comme il faut”, mas acho que o homem moderno, no entusiasmo da razão, acabou por menosprezar outras maneiras de apreender o mundo, outros mecanismos psíquicos...como diz seu texto: "na tentativa de minorar o sofrimento humano acabou por perder o potencial libertário"...acho que já vim ao mundo pensando assim...é nisso que quero chegar e, para mim, foi um grande alívio descobrir o Campbel, pois ele estabelece uma ponte maravilhosa entre a razão e o mito, entre o homem moderno e seus conflitos universais, uma nova forma de pensar o mito como um manancial incrível - o grande sonho coletivo da humanidade está todo lá. Como pode a razão, sob esse ponto de vista iluminista apreender tamanho manancial? Acho que o resultado só poderia ser um aprisionamento na racionalidade; então, essa conclusão é mesmo boa - " criticar a razão atrofiada em que se converteu a razão iluminista é o melhor serviço que o Iluminismo pode prestar ao Iluminismo.” Penso que o homem moderno aplicou uma concepção científica à humanidade como se o homem estivesse num laboratório. Livrou-se de um monte de crendices, ótimo ! do tempo primitivo e circular, mas aplicou a ciência em tudo, formatando e até atrofiando nossa capacidade de novas descobertas - o tempo, por exemplo, passou a ser medido pelo espaço, completamente estúpido - o passado está atrás, o futuro está na frente, tudo linear e progressivo como eles imaginavam a ciência. Otávio paz já dizia: "o homem ocidental tem pavor de infinitude"...sempre pendi mais para esses pensares.../rsrs/ seja na filosofia, psicanálise, literatura... etc.  Imagine você que parei aqui e comecei a ler sem parar, porque fui atraída pelo nome: "sereias". E´o poder do mito ! rsrs../ Meu amoroso filósofo ! Queria ver como a filosofia pensa esse mito. O texto é bem elucidativo e muito bom, tanto que acabei lendo outro que busquei na Internet - sempre “na minha praia”, mais Junguiana, mas veja como é interessante:beijos e beijos dessa sereia quentíssima ! que não é fria da cintura para baixo...rsrsrsr..... mais uma leitura desse mito que é uma ânima negativa, nada bacana por isso, particularmente, os homens  são cabreiros com sereias........................... "O canto é um dos elementos simbólicos mais expressivos associados às sereias. O canto puro representa uma força de atração direta que atinge algo que está para além das construções defensivas do ego, indo diretamente mobilizar, constelar poderosos aspectos inconsciente da personalidade. Já Apolo havia caído fascinado pelos sons que o jovem Hermes tirava de sua lira. Os mantras sagrados funcionam da mesma maneira, tanto para harmonizar quanto para destruir. Mais recentemente, no famoso conto de Andersen, A Pequena Sereia, vemos que ela troca sua voz encantadora por um par de pernas humanas. Nos dias de hoje as sirenes (sereias) de ambulâncias e bombeiros nos paralisam por breves instantes numa angústia de aflição e morte. Temos também a expressão "cair no canto da sereia" com o sentido de logro, engano. Em todas essas expressões os sons, a música e a voz são os instrumentos utilizados para atrair, seduzir e convencer, ultrapassando todos os contra-argumentos retóricos, morais e psicológicos. É importante notar que essa força de sedução talvez se deva menos a debilidades do ego e mais ao fato de que algo profundo é tocado ou despertado ao som dessas sirenes.Isso é sedução. Essa atração encantadora e irresistível é parte essencial desse símbolo mas, como veremos mais adiante, talvez a razão profunda de tão brutal fascínio não possa ser compreendida com base em interpretações rasas em torno do tema da sexualidade. Então, entre outras coisas a sereia representa a sedução arquetípica, a sedução da psique unilateral promovendo uma inevitável enantiodromia, "o princípio que governa todos os ciclos da vida natural, desde o menor até o maior" (Jung, C.G., CW 6, parag.708). Seduzir vem do latim se-ducere e significa, dentro de seu campo semântico, conduzir à parte, guiar a outro lado, mudar de rota, deslocar, divagar, digredir, obrigar a mudança.Mas que mudança? Mudança no sentido psíquico, para que se dê ouvidos à alma, à anima, para que dialoguemos com nossas potências inconscientes e para que possamos de fato dar asas a nossa imaginação simbólica, criativa, se levamos a fundo o sentido de individuação proposto por Jung. O canto (sedução) da sereia pode ser arrebatador e mortal, para o ego. Não é de outra coisa que está falando Hillman ao dizer que o lugar da alma é o “mundus imaginalis”, o mundo imaginal, o mundo dos sonhos para o qual o ego é irremediavelmente seduzido todas as noites. Isso não é a morte, mas o reino de Hades. Para Hillaman a metáfora da morte nos permite entender o reino dos mortos como o mundo das almas, ou seja, como o lugar da anima, da psique viva. "Das sedutoras do mar dizia-se que adestravam o homem para a morte, o que poderia ser correto, mas no sentido proposto por Baudriallard:Qualquer força masculina é força de produção[...] A única, e irresistível força da feminilidade é aquela, inversa, a da sedução [...] A sedução é mais forte do que a sexualidade, com a qual não há que confundi-la nunca [...] Para nós, só está morto aquele que não quer seduzir em absoluto, nem ser seduzido". (Lao, M., 1995, 45)Essa é a sedução essencial, expressão profunda do arquétipo da anima, arquétipo de ligação, seja ele  representado como sereia pássaro, sereia peixe, amante, santa, prostituta, Iara, Boto ou Iemanjá.   A sedução / canto é a expressão primordial da anima.No mundo capitalista contemporâneo o canto da sereia exerce igualmente o seu poder de sedução, funcionando na polaridade oposta. O capitalismo nos promete a felicidade total pelo consumo de bens e as novas tecnologias nos fazem sonhar com um mundo de progressos sem limites, infinitos. Entretanto, na nova mítica já não morremos mais, apenas ficamos obsoletos. Uma propaganda de cartão de crédito mostra que apenas algumas poucas coisas na vida o dinheiro não é capaz de comprar (e são cada vez menos). Para todas as outras basta um cartão de crédito. E já não falta quem defenda que com a decodificação do DNA (e com um bom cartão de crédito) em breve será possível comprar vida, anos de vida, ou até mesmo sobreviver por meio de um clone. Essa é a verdadeira sedução perversa, que foge da morte, nega a morte e qualquer possibilidade de iniciação simbólica, forjando analfabetos psíquicos. Não iniciados são não-nascidos, e estes se prestam a permanecer numa incubadora, alimentando a poderosa Matrix que são nossos complexos autônomos, para quem se lembra do filme de Larry and Andy Wachowski.As sereias cantam para que mantenhamos o diálogo criativo com o inconsciente, com a imaginação, entre a vida e a morte, entre a sereia e o pescador, que afinal somos todos nós. Não adianta apenas ficar amarrado ao mastro, como Ulisses, e depois deixar morrer a tentação. É preciso mais. É preciso que em nossas vidas haja mais espaço para processamento, tempo de elaboração, um tempo circular,  tempo para circum-ambular pela experiência, no cumprimento de ritos que venham a atualizar os mitos dentro de nós. Precisamos urgentemente reconstruir o diálogo com a Imaginação e valorizar as expressões do nosso imaginário mitológico, folclórico, coletivo e pessoal. Ao longo da história observamos que o desprestígio da Imaginação e do mundo imaginário se dá ao mesmo tempo em que a mulher e o mundo feminino também vão sendo desvalorizados, já a partir do século V a.C., na pólis grega. Segundo Zoja, "a  hýbris” , pela qual o grego prevê a punição e plasma a figura de nêmesis, é o pecado de uma sociedade cujos excessos trazem a marca do homem; e o primeiro desses pecados foi exatamente a submissão da mulher". (Zoja, L., 2000, 50)Essa também era a mentalidade portuguesa que aportou por aqui em 1500 e que não entendeu que para os nossos indígenas o mundo feminino era supremo. "O índio dizia que tudo neste mundo tinha uma Mãe. Devia haver uma Ci para todas as espécies animais, vegetais e minerais. O Sol era a Mãe dos Viventes e não o Pai. A Mãe bastava. Explicava". (Cascudo,L.C., 1948,128) Muitos, ainda hoje, tratam a Imaginação com uma mentalidade bárbara, tal como as nossas mulheres índias violentadas ou as sereias que tiveram suas penas arrancadas. Mas a Psicologia Analítica já pode mostrar algo diferente.Como última imagem quero restituir aqui a imagem da sereia alada que em algum lugar, e sempre, ainda canta para dar asas à nossa Imaginação e à construção da Alma.

 

Sinopse O autor discute as lendas sobre as sereias e suas manifestações no imaginário popular, em especial na América Latina. O mito da sereia e o tema da sedução são entendidos como expressão arquetípica da anima. A sereia representa a sedução arquetípica, a sedução da personalidade unilateral,  possibilitando profundos movimentos na psique e favorecendo o diálogo criativo com o inconsciente.

 

Abstract The author  presents the legends of the sirens and it's manifestations specially in Latin America. The myth of the siren and the theme of seduction are taken here as an archetypal expression of the anima. The siren represents the archetypal seduction, seduction of the one sided mind, which might promote deep psychic movements, leading to a creative dialogue with the unconscious.

 

BIBLIOGRAFIA
 

HILLMAN, J. (1979) The Dream and the Underworld, Harper&Row, NYHOMERO, Odisséia, Col. Universidade, Edições de Ouro IWASHITA, E. (1991) Maria e Iemanjá, análise de um sincretismo, Ed. PaulinasLAO, M., (1995) Las sirenas, Ediciones EraSAMPAIO, T., (1928) O Tupi na Geografia Nacional, BahiaVERGER, P. (1981) Orixás, Deuses iorubás na África e no Novo Mundo, São PauloZOJA, L. (2000)  História da Arrogância, Axis Mundi Marcos Fleury de Oliveira é Psicólogo, Analista em Formação pela SBPA-SP   

SÃO PAULO/CAMPINAS, É OUTONO DE 2007

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CONSIDERAÇÕES ATINENTES AO TEXTO "O CANTO DAS SEREIAS SEGUNDO A 'DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO"

  • mailto anonimo

    Qui 27 Mar 2008 13:29

    gostei muito