EPISÓDIO 4 (CALYPSO)
Uma vez concluída o que se convencionou nomear
de “Telemaquíada Joyeana”, o intróito que
apresenta a entrada do personagem Leopold Bloom é bem
diferente daquele verificado no início do romance. O
presente intróito guarda distância da esfera
transcendente observada na “Telemaquíada”, pois,
ao contrário, penetra, violentamente, na esfera imanente,
carnal. Nesse sentido, o personagem Leopold Bloom [o Odisseu
moderno] surge como um complemento à excessiva
espiritualidade já demonstrada pelo jovem artista Stephen
Dedalus. “Leopold Bloom comia com gosto os
órgãos internos de quadrúpedes e aves.”
(“Mr Leopold Bloom ate with relish the inner organs of
beats and fowls”).
Leopold Bloom - um agente de publicidade - encontra-se
no cenário do seu lar, prestativo aos caprichos da esposa
Molly Bloom [a Penélope moderna]- uma cantora lírica.
Acompanhado por sua gatinha de estimação, Bloom
prepara o desjejum para a mulher. Em seguida, deixa o lar para
fazer algumas compras. Cruzando com inúmeros transeuntes
pelas ruas de Dublin, Bloom reencontra velhos conhecidos: o
assunto, entre eles, gira em torno da morte do amigo Dignam.
Bloom compra, então, miúdos, junto a um porqueiro.
Prosseguindo em sua caminhada, Leopold Bloom depara-se com um
catálogo cujos caracteres propagandísticos anunciam o
seguinte título: “Agendath Netaim”. O
catálogo traz uma série de propagandas sobre terras
distantes do Oriente - consideradas autênticos
paraísos perdidos. Tais propagandas colocam-nas à
venda:
“Retornava pela Rua Dorset, lendo atento. Agendath Netaim;
companhia de plantadores. Para comprar extensos tractos arenosos do
governo turco e plantá-los de eucaliptos. Excelentes para
sombra, combustível e construção. Bosques de
laranjais e imensas planícies de melonais ao norte de Jafa.
Pagam-se oito marcos e planta-se-lhe uma dunam de eterra com
oliveiras, laranjeiras, amendoeiras e limoeiros. (...) Seu nome
fica registrado por toda a vida como proprietário nos livros
da companhia (...) Assim na terra como no céu.”
(p.49)
(“He walked back along Dorset street, reading gravely.
Agendath Netaim: planter’s company. To purchase waste sandy
tracts from Turkish government and plant with eucalyptus trees.
Excellent for shade, fuel and construction. Orangegroves and
immense melonfields north of Jaffa. You pay eighty marks and they
plant a dunam of land for you with olives, oranges, almonds or
citrons(...) Your name entered for life as owner in the book of the
union(...) On earth as it is in heaven.”
) (pp.49-50)
Agendath Netaim: “_Que é que
é?”, interroga Bloom.
Subitamente uma nuvem escura cobre o céu da
cidade de Dublin. Bloom retorna, então, ao lar. Lá
chegando, Leopold encontra as correspondências do correio na
soleira da porta. A infiel Molly Bloom continua na cama; Leopold
leva, para Molly, a correspondência do dia e, logo em
seguida, põe-se a devorar rins contidos no desjejum da
mulher.
Repentinamente, Molly pergunta a Leopold sobre o
significado de uma palavra que ela encontrara num livro:
“metempsicose”. Bloom responde, dando-lhe o significado
da palavra, isto é, para os antigos gregos tratava-se da
transmigração da alma após a morte.
Dentre as cartas recebidas pelo casal naquela
manhã, havia uma endereçada a Leopold Bloom: era de
sua filha Milly, agradecendo-o pelo presente de aniversário
que Leopold havia lhe concedido, isto é, uma viagem.
Então, de imediato, Leopold Bloom associa a distância
temporária da filha à distância definitiva do
filho morto - chamado Rudy. Leopold Bloom deixa-se abater por um
estado temporário de melancolia. Entretanto, logo a seguir,
Bloom localiza, no banheiro, um jornal, pondo-se a lê-lo
já acomodado no assento do vaso sanitário:
“Calmamente ele lia, dominando-se, a primeira coluna e,
cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio, uma
última resistência cedendo, permitiu que os seus
intestinos se aliviassem de todo enquanto lia, lendo ainda
pacientemente , toda ida aquela ligeira prisão de ventre de
ontem... Lia adiante sentado calmo sobre o próprio odor
montante...” (p.55)
(“Quietly he read, restraining himself, the first column and,
yielding but resisting, began the second. Midway, his last
resistance yielding, he allowed his bowels to ease themselves
quietly as he read, readind still patiently that slight
constipation of yesterday quite gone ...He read on, seated calm
above his own rising smell...”) (p.56)
Finalmente, Leopold “rasgou rápido o
conto premiado e com isso se limpou” (“ he tore away
half the prize story sharply and wiped himself with
it.”).
Os sinos da igreja bimbalam... Leopold Bloom
prepara-se para acompanhar o enterro de um amigo: Dignam.
EPISÓDIO 5 (LOTUS EATERS)
O dia está quente. A cidade de
Dublin e os cidadãos encontram-se mergulhados em estado de
letargia. Leopold Bloom, tendo a impressão de estar
caminhando numa espécie de paraíso perdido, dirigi-se
rumo ao enterro do amigo Dignam. “O senhor Bloom parou na
esquina, seus olhos errando por sobre anúncios
multicores” (“Mr Bloom stood at the corner, his eyes
wandering over the multicoloured hoardings.”). Bloom,
flanando, interroga-se, repentinamente, sobre a razão da
morte da personagem Ofélia no “Hamlet” de
Shakespeare. Novamente aparece a figura do pai - mais uma vez o
tema recorrente -, remetendo Bloom a se recordar dos
episódios que culminaram no suicídio do
próprio pai.
Bloom insiste em manter na memória a imagem do
pai. Assim, temas bíblicos interferem em seu fluxo de
consciência:
“_ A voz de Natan! A voz do seu filho! Ouça a voz de
Natan que deixou seu pai morrer de mágoa e miséria
nos meus braços, que abandonou a casa do seu pai e abandonou
o Deus de seu pai.
Cada palavra é tão profunda, Leopold.
Pobre papai! Pobre homem! Estou contente de não ter entrado
no quarto para ver seu rosto. Aquele dia! Meu Deus! Meu Deus! Uf!
É, talvez tenha sido melhor para ele.” (p.60)
(“Nathan’s voice! His son’s voice! I hear the
voice of Nathan who left his father to die of grief misery in my
arms, who left the house of his father and left the God of his
father.
Every word is so deep, Leopold.
Poor papa! Poor man! I’m glad I didn’t go into the room
to look at his face. That day! O, dear! O, dear! Ffoo! Well,
perhaps it was best for him.”) (p.62)
A eclosão dos ruídos provindos dos
movimentos da população dublinense pelas ruas da
cidade - no romance joyceano - tende a se tornar cada vez mais
intensa. Eis, então, Leopold Bloom contemplando o dia-a-dia
das massas e dizendo para si mesmo: “_ Curiosa a vida dos
cocheiros à deriva, por todos os tempos, todos os lugares,
à hora por combinação, sem vontade
própria” (“_Curious the life of drifting
cabbies. All weathers, all places, time or setdown, no will of
their own.”).
As vozes de Dublin multiplicam-se junto ao fluxo da
consciência de Bloom - agora associado a temas
religiosos:
“Mesmo aviso à porta. Sermão do
reverendíssimo John Conmee S.J. sobre São Pedro
Claver e a missão africana. Salve os milhões da
China. Pergunto-me como se explicam aos chinos pagãos.
Preferem uma onca de ópio. Crua heresia para eles. Preces
pela conversão de Gladstone fizeram também quando ele
já estava quase inconsciente. Os protestantes a mesma coisa.
(...) Ideia inteligente São Patrício o trevo.
Comestipauzinhos?” (p.63)
(“Same notice on the door. Sermon by the very reverend John
Conmee S. J. on saint Peter Claver S. J. and the African Mission.
Prayers for the conversion of Gladstonethey had too when he
was almost unconscious. The protestants are the same. (...)
Clever idea Saint Patrick the shamrock.
Chopsticks?”) (p.65)
Em seguida, Bloom comparece a uma missa:
“Viu o padre curvar-se e beijar o altar e então
revirar-se e abençoar todo o mundo (...) O senhor Bloom
observou ao redor e então se levantou (...) O padre desceu
do altar, segurando bem na frente a coisa , e ele e o coroinha
responderam um ao outro em latim. Então o padre se ajoelhou
e começou a ler um cartão:
_ Ó Deus, nosso refúgio e nossa
força...” (p.65)
(“He saw the priest bend down and kiss the altar and then
face about and bless the people. (...) Mr Bloom glanced about
him and then stood up (...) The priest came down from the
altar, holding the thing out from him, and he and the
massboy answered each other in Latin. Then the priest knelt
down and began to read off a card:
_ O God, our refuge and our
strength...”) (p.67)
Após o encerramento da missa, Bloom
põe-se a caminho de uma farmácia. Lá, entre
drogas e aromas, Bloom adquire um sabonete de cera
limão-doce. A seguir, dependura o jornal no sovaco e
dirige-se a uma casa de banho. “Goza de um banho agora (...)
Este é o meu corpo. Antevia seu pálido corpo
reclinado ali em cheio, nu, num ventre de quentura, ungido de
odorante sabonete fundente, lavado suavemente
...” (“Enjoy a bath now ... This is my body.
He foresaw his pale body reclined in it at full, naked, in a womb
of warmth, oiled by scented melting soap, softly
laved.”).
Leopold Bloom é, portanto, adepto do rito de
Onan.
EPISÓDIO 6 (HADES)
Este episódio principia com um encontro entre
Simon Dedalus (o pai de Stephen Dedalus) e Leopold Bloom, no
interior de uma carruagem, que segue em direção ao
cemitério da cidade. Eis, novamente, o tema recorrente do
pai e do filho: o sr.Dedalus, em seus diálogos junto a
Leopold Bloom [que não conhece, pessoalmente, Stephen
Dedalus], faz menção às recentes e más
companhias do filho Stephen Dedalus, notadamente a do jovem
médico Buck Mulligan. “_ Ele anda com gente que
é uma escória - rosnou o senhor Dedalus - Esse
Mulligan é de cabo a rabo um imundo de danado de
refião inveterado.” (“_ He ‘s in with a
lowdown crowd, Mr Dedalus snarled. That Mulligan is a contaminatd
bloody doubledyed ruffian by all accounts.”).
A carruagem avança rumo ao cemitério de
Dublin; no pensamento de Bloom paira uma outra lembrança do
filho morto, Rudy: “Se o pequenino Rudy tivesse vivido.
Vê-lo crescer. Ouvir sua voz em casa. Andando ao lado de
Molly vestido à Eton. Meu filho. Eu nos seus olhos. Raro
sentimento sentia. Oriundo de mim.” (“If little
Rudy had lived. See him grow up. Hear his voice in the house.
Walking beside Molly in a Eton suit. My son. Me in his eyes.
Strange feeling it would be. From me.”).
A carruagem percorre as ruas de Dublin. Dentre os
elementos que fazem parte do fluxo da consciência de Bloom,
retornam temas recorrentes, o do sabonete, por exemplo: “Ah,
esse sabonete no meu bolso” (“Ah, that soap: in my hip
pocket”); e os das meias: “... gostaria que a senhora
Fleming tivesse cerzido melhor as meias” (“But I wish
Mrs Fleming had darned these socks better”) [neste nosso
resumo não apresentamos, anteriormente, tal detalhe, dentre
mil outros, obviamente].
Carruagem e paisagens urbanas. Temas fúnebres
procedentes, sobretudo, do campo da mitologia e os temas associados
ao “Hamlet” de Shakespeare misturam-se numa estranha
fusão na mente de Bloom. Os leitmotivs insistentes - nesta
passagem do romance - estão relacionados à Moira, a
Caronte, a uma Harpia desqueixada, ao coveiro de Hamlet, dentre
outros que tais. Além disso, a atmosfera misteriosa
propõe enigmas para o leitor do romance, alcançando
outros espaços em momentos posteriores do desenvolvimento do
romance: trata-se da figura enigmática do
“Impermeato”, que ronda os túmulos do
cemitério e passa a acompanhar o enterro de Dignam.
Além disso, juntam-se outros enigmas, como por exemplo,
Bloom lê as notas de falecimento e pergunta a si mesmo:
“... Peake, que Peake é esse?” (“...
Peake, what Peake is that?)
“_ E diga-me - dizia Hynes -, conhece aquele sujeito de, o
sujeito que estava por lá de
Mirou à volta. (...)
_ Impermeável - disse Hynes, rabiscando - , não sei
quem é. É esse seu nome?
Ele afastou-se, procurando-o.” (p.87)
(“_ And tell us, Hynes said, do you know that fellow in the ,
fellw was over there in...
He looked around.(...)
_ M’Intosh, Hynes said scribbling. I don’t know who he
is. Is that his name?
He moved away, lookin about him.”) (p.92)
Novamente, o retorno do tema recorrente do pai e do
filho perturba a mente de Leopold. E Bloom se põe a
rememorar, lamentando o suicídio do pai:
“Pobre papai também. O amor que mata. E mesmo raspando
a terra à noite com uma lanterna como no caso que li (...)
Vou aparecer-te depois da morte. Verás meu espírito
depois da morte. Meu espírito te perseguirá depois da
morte. Há um outro mundo depois da morte chamado
Inferno.” ( p.89)
(“Poor papa too. The love that kills. And even scraping up
the earth at night with a lantern like that case I read... You will
see my ghost after death. My ghost will haunt you after
death. There is another world after death named
hell.”) (p.94)
EPISÓDIO 7 (AEOLUS)
Após o enterro do
amigo Dignam, Bloom dirige-se à redação do
“Freeman’s Journal ” - um “local barulhento
e ventoso”.
Neste episódio ocorre um choque explosivo
entre temas que giram em torno da literatura clássica e da
literatura popular. Elementos da literatura clássica
são postos em contraste junto às manchetes que povoam
as páginas do jornal, cuja data é 16 de junho de
1904. O resultado é uma profusão de temas que
entrelaçam acontecimentos - verídicos ou não -
de várias épocas, notadamente aqueles relacionados
aos mundos moderno e antigo. A técnica aforística da
escrita constrói todo o episódio.
Uma autêntica miscelânia, sobretudo, entre
dados da literatura e da imprensa compõe um texto altamente
intrigante. Além disso, temas recorrentes (nomes de
personagens históricos, literatos, poetas, romancistas,
fatos da história, dentre outros díspares elementos)
misturam-se numa espantosa profusão ou numa orgia de
títulos, sub-títulos, textos etc: necrológio
de Dignam; charadas ortográficas (Bloom retira o sabonete do
bolso); anúncio do Xaves; Império Romano; Gregos;
Senhor Jesus; o latim; Egipto Antigo; Moisés; Judeus;
Santo Agostinho; Tempestuosa Tróia; Górgias;
Vergílio; Horácio; Deus Todo-Poderoso...
Dentre os aforismos, que compõem o referido
episódio, o tema recorrente do sabonete ganha espaço,
a ponto de aparecer, em determinado momento,
isoladamente:
“SÓ UMA VEZ MAIS AQUELE
SABONETE
(...) Limão-cidra? Ah, o sabonete que pus aí.
É perdê-lo nesse bolso. Guardando o lenço,
retirou o sabonete e aconchegou-o fora, abotoado no bolso traseiro
das calças.” (p.95)
(“ONLY ONCE MORE THAT SOAP
(...) Citronlemon? Ah, the soap I put there. Lose it out
of that pocket. Putting back his handkerchief he took out the soap
it away, buttoned, into the hip pocket of his
trousers.”) (p.101
BIBLIOGRAFIA
JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed. Tradução
de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora
Civilização Brasileira, 1993.
_____. Ulysses. New York: First Vintage Books Edition, 1986.
PROF DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é verão de 2005
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
30/12/2005
Código do texto: T92337
Código do texto: T92337
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