Capítulo XVII – “Os vermes”
(transcrição segue abaixo):
“ ‘Ele fere e cura!’ Quando, mais tarde, vim a
saber que a lança de Aquiles (1) também curou uma
ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma
dissertação a este propósito. Cheguei a pegar
em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a
compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a
origem comum do oráculo(2) pagão e do pensamento
israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me
dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
_ Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós
não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem
escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos:
nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se
houvessem passado a palavra, repetiam a mesma cantinela. Talvez
esse discreto silêncio sobre os textos roídos, fosse
ainda um modo de roer o roído.”
..................................................................
Reflexões em torno do capítulo e/ou trechos
acima:
1. Do Título: “Os vermes”
. O narrador estabelece uma conexão com a conhecida
dedicatória pertencente ao romance “Memórias
Póstumas de Brás Cubas”:
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu
cadáver, dedico com saudosa lembrança estas
memórias póstumas.”
Em Crítica Literária nomeamos tal procedimento de
“Intertextualidade” (definição, grosso
modo: texto sobre texto); ou, mais precisamente: intratextual ou
entretextos ou intertexto, haja vista a conexão estabelecida
entre dois romances distintos, isto é, “Dom
Casmurro” e “Memórias
Póstumas...”.
2. “Catei os próprios vermes dos livros, para que me
dissessem o que havia nos textos roídos por
eles...”:
. Quem ou o que morre? Os livros ou os homens?
Neste trecho, o narrador enfatiza a figura da morte a atravessar a
sobrevivência dos livros.
3. “ (...)um longo verme gordo...”:
. O narrador se refere à displicência dos leitores no
ato da leitura, isto é, às vezes somos “vermes
gordos” em relação aos livros que lemos, ou
seja, “roemos” por “roer”; ou ainda, o
narrador provoca o leitor no sentido de tecer uma crítica
quanto ao costumeiro ato da leitura pela leitura e/ou à
leitura por obrigação. Por exemplo: elenco anual de
textos literários que os vestibulandos são obrigados
a ler.
4. “Ele fere e cura!”
. Consoante anotações das aulas ministradas pelo
Prof. Dr. Joaquim Brasil Fontes – UNICAMP/FE -, entre 1997 e
1998, por ocasião da minha participação, em
torno de tais ensinamentos, na qualidade de Professor Assistente (4
turmas de graduação/ Disciplina: “Leitura e
Produção de Texto”):
a. “Os vermes” é um capítulo tumular. O
narrador coloca a si mesmo entre parênteses, tal qual a
Fenomenologia, ou seja, ele procura reencontrar a verdade nos dados
da experiência; trata-se do retorno “às coisas
mesmas”.
De outra parte, a narrativa é delirante, visto que viola o
sagrado, remexe em tumbas, enfatiza o trabalho dos vermes. Na
verdade, trata-se de formas dirigidas e construídas por um
discurso delirante.
b. O narrador “quebra” com a concepção
marxista de interpretação textual, ou seja,
“Leia o texto e entenda o contexto.” –
fórmula consagrada em estudos literários marxistas.
Tal concepção acredita que o texto tem uma verdade
pronta! Na verdade, consoante FONTES, nenhum texto tem um
núcleo de verdade pronto, pois o texto é um conjunto
que se move no tempo com o autor e com o leitor. Nesse caso, o
sentido do texto é uma permanente rede que se faz e se
desfaz.
c. O grande traído é o leitor que confia no
narrador:
. Dialogar com o mundo subterrâneo, violar o sagrado, remexer
tumbas e deixar à mostra o sórdido trabalho dos
vermes são formas dirigidas a impregnar a visão do
leitor; colocá-lo às caras com o mundo submerso no
qual apenas o discurso delirante pode esboçar tal imagem.
Machado de Assis criou um narrador que dirige um discurso
delirante, portanto, indigno de confiança; diferente do
narrador clássico, para quem o Bem é Bem e o Mal
é Mal – visto que o último tem confiança
nos valores tradicionais!
Sobre os valores modernos: causam estremecimentos... posso,
então, neles confiar?
. Em “Os vermes”: o silêncio tumular. No
nível da enunciação, trata-se de um
índice da putrefação do “corpo
textual”, da própria escritura que se fere a ponto de
silenciar o sentido (Cf. Roland Barthes: trata-se do texto do gozo,
isto é, texto que põe o leitor em estado de perda;
é o rodopio, a vertigem); trata-se, enfim, do texto que
causa desconforto, pois faz vacilar os alicerces históricos,
culturais e psicológicos do leitor. A coexistência dos
gestos, dos valores e das lembranças põe em crise uma
relação com a linguagem:
“AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU
CADÁVER DEDICO COM SAUDOSA LEMBRANÇA ESTAS
MEMÓRIAS PÓSTUMAS.”
Desse modo, consoante JOAQUIM BRASIL FONTES, em ambas as obras,
isto é, “Dom Casmurro” e “Memórias
Póstumas de Brás Cubas”, reside um exasperado
ceticismo agônico.
Assim, a presença dos vermes nas obras de Machado de Assis,
que recobram forças no ato de destruir, denuncia uma
estrutura análoga à autofagia, à
auto-consumação; enfim, a uma
intersemiotização entre duas pulsões:
pulsão de vida e pulsão de morte.
NOTAS
1. Aquiles: Personagem heróica d’ Ilíada de
Homero – poema épico da Antiga Grécia onde se
narra a Guerra de Tróia. (N.E.) in ASSIS, Machado. Dom
Casmurro. Editora Ática: São Paulo, 1995. Editor:
Fernando Paixão.
2. Oráculo: Respostas que, segundo as crenças dos
pagãos, os deuses davam àqueles que os interrogavam.
No templo de Apolo, em Delfos, o oráculo falava pela boca de
uma sacerdotisa chamada Pítia, Pitonisa ou Sibila (...). in
idem acima.
PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, primavera de 2006.
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
01/11/2006
Código do texto: T279080
Código do texto: T279080
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Qua 13 Ago 2008 22:27