WALTER BENJAMIN
A reflexão
filosófico-benjaminiana aponta de forma crítica para
a tendência do marxismo - a concepção marxista
materialista da história busca controlar as leis do processo
do desenvolvimento histórico; controlar a ordem dos eventos
– em privilegiar o binômio racionalidade-futuro.
Noutras palavras, o pensamento marxiano, dando vazão a que
conceitos importantes adquirissem sentidos vagos ou
ambíguos, cedeu, desse modo, a interpretações
e a apropriações posteriores de caráter
simplistas, inadequadas, cujo resultado promoveu sobremaneira a
integração do materialismo histórico ao
historicismo (grosso modo: a história universal nos leva
conhecer todos os pontos do “continuum”
histórico) e ao positivismo (grosso modo: trata-se da
aplicação do modelo mecanicista da física e da
linguagem matemática na interpretação da
realidade humana). Com efeito, Walter Benjamin é contra o
“casamento” da história com a técnica,
defendido pelas indevidas apropriações do pensamento
marxista, cujo resultado se expressa no conhecido “marxismo
vulgar”. Contra tal estado de coisas, Benjamin insurge-se,
afirmando:
“A teoria e, mais ainda, a prática da
social-democracia foram determinadas por um conceito
dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a
realidade. Segundo os social-democratas, o progresso era, em
primeiro lugar, um progresso da humanidade em si, e não de
suas capacidades e conhecimentos (...).” (1)
É preciso frisarmos que Walter Benjamin
não nega a capacidade da progressividade humana, mas nega a
idéia de progresso inscrita em teorias da história
com bases na escatologia. E Benjamin prossegue, acentuando
que:
“O historicismo culmina legitimamente na história
universal (...) A história universal não tem qualquer
armação teórica. Seu procedimento é
aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o
tempo homogêneo e vazio (...).” (2)
Basicamente, cabe a esta crítica benjaminiana
resgatar a liberdade transcendental e a individualidade como
valores fundamentais do ser humano; ou mais particularmente,
resgatar a subjetividade humana no sentido dela se autopropor como
sujeito, pois a idéia do processo histórico como
progresso linear, mais do que a realização da
razão (projeto do pensamento iluminista), apresentou-se,
também, na constatação dos representantes da
Escola de Frankfurt (em especial, Theodor Adorno e Max Horkheimer),
como algo destruidor da própria razão. É o que
se confirma nas belas e trágicas páginas da
“Dialética do Esclarecimento”.
Como podemos constatar nas teses “Sobre o
conceito de história” (1940), para Benjamin, a
historicidade, de acordo como os homens a fazem, é sempre
marcada por rupturas, e não por um movimento contínuo
e linear. A história realiza-se em movimentos que, a
princípio, poderiam ser diferentes, ou seja, a
concepção benjaminiana de tempo perdido não se
encontra no passado, mas no “futuro”, isto é,
nos sonhos, nos desejos, nas aspirações do
não-realizado, daquilo que não chegou a se
concretizar, mas que ainda se encontra voltado para o porvir - qual
uma utopia retrospectiva.
Já foi dito que sem ser poeta, Walter Benjamin
pensava o mundo poeticamente (Arendt, 1987). Assim, na teoria
benjaminiana da modernidade, o herói moderno é
representado pela figura do flâneur – do poeta, isto
é, do “gauche”, do deslocado nas grandes
metrópoles:
“Todos os que até hoje venceram participam do cortejo
triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos
que estão prostrados no chão. Os despojos são
carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o
que chamamos bens culturais (...).” (3)
Desse modo, consoante Benjamin, o poeta é
aquele que “dá as costas ao cortejo
infernal...”; é aquele que não se entrega ao
sistema; é aquele que declara guerra com a prática da
flânerie. Assim, investigando o lirismo inscrito nos versos
de Charles Baudelaire, Benjamin recupera e registra, em seus
escritos, a alegoria da caducidade moderna. É com Flores do
Mal, com flores doentias: temas, posturas, comportamentos etc.,
enfim, com o lixo humano, que Benjamin se inicia em seus escritos
literários. Nestes, os heróis são aqueles que
estão à margem da sociedade (o marxismo buscou
controlar as leis do desenvolvimento da história, procurando
controlar a ordem dos eventos históricos, como já
afirmamos. Ao contrário, na concepção
benjaminiana de história há um efeito libertador,
quando Benjamin fala em margens!), como por exemplo, os trapeiros,
os velhos, os marginalizados, os michês, os invertidos, os
inadaptados, as prostitutas, as crianças, os tímidos,
os desajeitados, os deslocados, os anjos...
EIA, UM POETA INVADE O TEXTO!
“Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais
confirmadas
nem desfeitas.
Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.”
(O HISTORIADOR, Carlos Drummond de Andrade)
UM BRINDE ÀS MUSAS!
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Digressão: _ Parafraseando Hannah Arendt, os poetas
são para se falar ou para se citar?
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Na verdade, sob a ótica da filosofia da
história benjaminiana, não se trata de tornar o mundo
um grande museu, mas de recuperar o que foi perdido, sobretudo por
meio da rememoração poética. Habilmente (e
ardilosamente) preso às matrizes
filosófico-religiosas de uma perspectiva messiânica e
secundado pela imaginação poética, Benjamin
inverte a direção da historiografia cientificista
moderna, pois, enquanto a última pensa na
salvação das gerações futuras, Benjamin
volta seu olhar retrospectivo para as gerações
passadas, com a finalidade de atender os apelos, os ecos das vozes
daqueles que foram vencidos pela história, pela
barbárie, na qual se impõe a cultura ou a
tradição triunfante, que resulta na historiografia
dos vencedores.
Com efeito, é mediante tal crítica
contundente - sobretudo nas também chamadas
“Teses” sobre a história – ao historicismo
oficial, assim como à concepção de
idéia de progresso, que Benjamin procura reconfigurar a
autêntica atividade do historiador materialista: o
responsável pela restituição da
história dos vencidos, assentada na ruptura, e não na
continuidade, que resulta na falsa idéia de progresso
contínuo e linear do processo histórico.
Assim, compreendendo o passado como fundamental no
trabalho de recuperação das experiências
silenciadas, perdidas, estabelece-se a trajetória
teórico-benjaminiana em direção às
origens, mediante um estudo crítico-literário
conduzido no interior de uma pesquisa
crítico-historiográfica. Para tanto, o espólio
benjaminiano tece um diálogo permanente com uma vasta gama
de escritores modernistas, especialmente com os não
legitimados e com os poetas malditos da modernidade, isto é,
um diálogo junto aos vencidos tanto no campo estético
quanto no artístico.
Por fim, para Benjamin, a difícil
questão a refletir sobre a memória não reside
naquilo que é possível rememorar (o conteúdo
da memória é a lembrança, mas a memória
é quem capta a lembrança), mas em saber como lidar
com o silêncio, com o esquecimento...
“Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas
muito mais que lindas
essas ficarão.”
(MEMÓRIA, Carlos Drummond de Andrade)
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NOTAS
1 e 2. Walter Benjamin, “Sobre o conceito de
história” (teses 13 e 17, respectivamente) in
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política:
ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras
Escolhidas, volume I. pp.229-231. São Paulo. Brasiliense,
1985.
3. Idem, (tese 7) in op.cit., p 225.
BIBLIOGRAFIA
ADORNO, T., HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento:
fragmentos filosóficos. 2 ed. Tradução Guido
Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova Reunião. 4 v. Rio de
Janeiro: J.Olympio, 1983.
ARENDT, Hannah. Homens em tempos sombrios. Tradução
Denise Bottmann. São Paulo: Cia das Letras, 1987.
BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do
capitalismo. Tradução José Carlos Martins
Barbosa, Hemerson Alves Baptista. Obras Escolhidas III. São
Paulo: Brasiliense, 1989.
_______________. Magia e técnica, arte e política:
ensaios sobre literatura e história da cultura.
Tradução Sergio Paulo Rouanet. Obras Escolhidas I.
São Paulo: Brasiliense, 1985.
MEDEIROS, Sílvio. Moral e Política em Hannah Arendt e
Walter Benjamin: uma abordagem crítica da Sociedade
Tecnológica e conseqüências – a crise
ética e a descrença generalizada nos valores
tradicionais. Tese de dissertação de Mestrado em
Filosofia. Bancos de Teses da Universidade Estadual de Campinas
– Unicamp/ FE – Faculdade de Educação ) e
da Pontifícia Universidade Católica de
Campinas/PUC-Campinas, 1994.
PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é novembro de 2006
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
09/11/2006
Código do texto: T286167
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MEMÓRIA EM WALTER BENJAMIN2006Recanto das
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