Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/11/19 16:40 / 329 Artigos publicados
 

"_ NITSCHEWO"  (Contos e Cronicas) escrito em sexta 23 março 2007 05:20

  

  

... atravesso um modesto cemitério;
do alto, ao longe, avisto um pequeno vilarejo: uma capela, um casarão e uma carreira de casinhas, todas iguais!
   Consulto minhas anotações.
   Endereço confirmado!
   Lentamente caminho e me aproximo do lugar, da casinha, no papel, indicada, em rabiscos.
   À frente um jardinzinho, um primor, plantado na pequena morada, jardim ornado com mimosas flores silvestres...
   Bato palmas! 
   _ Ó de casa! - anuncio, feito um arauto.
   Um vulto surge à porta. Ele se aproxima, e os traços, a cada passo, vão configurando o rosto da vovó Aksênia. A felicidade ancora em meu coração, quanta emoção! Finalmente eu a encontrei!
   Logo me reconhecendo, vovó Aksênia, com certa dificuldade, acelera a leveza dos passos; ela vem ao meu encontro, com olhos suplicantes de saudade.
   Atiro-me em seus braços, beijo-a, ambos choramos de alegria, por tanto tempo, tão longe, tão distantes...
   Vovó Aksênia, um tanto assustada, pergunta-me:
   _ Criança, como você aqui chegou, quem afinal lhe acompanha?
   _ Ah, vovó! Uma moça, uma dama, de longos cabelos ruivos e olhos violeta. No momento, ela passeia entre as árvores e os arbustos daquele bosquinho, ali, logo acima... Veja, verde, verdinho, próximo ao cemitério.
   Vovó Aksênia, aos prantos, me abraça. Então, a ela pergunto:
   _ Vovozinha, vamos voltar para casa! A mamãe e meus titios precisam tanto de você! Quem a trouxe até este lugar?!
   _ Ah, meu netinho, agora não posso, não teria tempo de lhe falar, a vovó precisa permanecer por mais algum tempo por aqui. Veja ali, o jardim que semeei! Enquanto recobro a saúde...
   Contemplo o mimoso jardim da vovó Aksênia: gerânios em flor, rosas multicores; num cantinho: violetas, de múltiplas cores, tudo a formar um mosaico amoroso.
   _ Vovó, eu quero uma mudinha desta rosinha, da vermelhinha...
   Com frágil agilidade, vovó Aksênia corta um ramo da roseira e o deposita em minhas mãos. Então me solicita:
   _ Plante este raminho em seu jardim, e toda vez que contemplar a mudinha em flor, promete que reza por mim?! – solicitou-me carinhosamente a vovó, com um soluço, como alguém que se diz tão-além.
   Carinhosamente, vovó Aksênia retira os espinhos do raminho, enrolando a mudinha num lindo papel lilás, clarinho e, com um sorriso tristonho, apontou-me, lá para o alto da pequena montanhazinha...
   _ Veja meu netinho, aquela bela moça lhe acena, é hora da partida...
   Vovó Aksênia sussurra, com a voz embargada, e uma furtiva lágrima rola em sua face. Com meus dedos, eu a toco, e a enxugo, quando alcança seus lábios.
   _ Não, vovó, me deixa ficar aqui, quero conhecer a sua casinha!
   _ Não, meu netinho, é hora de partir. Você mostrou-se valente vindo até aqui, me visitar. Agora vá, veja! A bela moça começa a ficar um tanto impaciente...
   _ Quero um abraço e um beijo, vovozinha querida!
   Então, num reticente impulso, vovó Aksênia me guarda com carinho em seus braços. E ela se põe a me contemplar. Talvez procurando identificar traços d’algum filho, do amado vovô?! Os carinhosos olhos de vovó recomendam, então, que eu envie, feito arauto, abraços, carinhos e beijos à minha mamãe e a meus titiozinhos.
   _ Vovó, assim de perto, a senhora é tão bonita! Mais bela ainda do que as fotos apresentam. Prometo montanhas, maior do que aquela, de abraços e beijos para a mamãe, para meus titios e para meu querido vovô Manoel.
   E insisto:
    _ Vovó, me deixa ficar, eu poderia partir amanhã, junto à aurora.
   _ Não, meu netinho, acompanhe a bela moça, ela é filha do crepúsculo. Veja que belo poente! Agora retorno a tecer algumas roupinhas para as criancinhas deste lugar. À sua mamãe ensinei todas as lições da boa e da bela costura. Num futuro, vejo algo melhor para todos nós, em algum tempo, num belo lugar. Vai, então, meu netinho, já é hora, “nitschewo”...
   _ Adeus, vovó Aksênia!
   _ Adeus, meu netinho!
   Sigo montanhazinha acima... “Nitschewo”; palavra e som riscam minha memória. 
   Ao poente, como a vovó indicara, me aproximo da bela moça; dos seus dedos escapam os últimos raios de luzes. Ornada de purpúreo véu, uma brilhante tiara de ouro lhe ampara os longos cabelos... levemente alaranjados. Radiante cabeleira ruiva ao vento; olhos azuis violeta. Uma deusa?! A mão é macia, delicada feito veludo...
   Então, em suave tom, me solicita a fechar os olhos. Eu os fecho... Tenho a sensação de uma viagem, no tempo.
   Ó tempo, tempo, tempo!
   Rumo a jornadas, em algum lugar, em algum tempo futuro...

...........................................................
Notas do autor:
1) Vovó Aksênia Schawirin nasceu em 1909, em Moscou, Rússia. Devido às convulsões sociais da ocasião, a família Schawirin migra rumo à cidade de Tblissi, na Geórgia, sul da Rússia, ao norte do Irã. Vovó Aksênia, aos 6 anos, dialogou com o líder revolucionário Lênin, amigo da família Schawirin. Uma mensagem percorre toda a Geórgia: “Há um país distante, chamado Brasil, um autêntico paraíso”!Junto à família, vovó emigrou rumo ao Brasil, em 1916, devido às devastações promovidas pelas guerras em território russo. Vovó Aksênia amou e foi bem-amada. Morreu aos 32 anos, nos braços de uma amiga negra chamada D. Conceição, numa colônia de leprosos, em Pirapitingüi/SP, no ano de 1940. Deixou cinco filhinhos e o amado vovô Manoel de Almeida Marques [1906-1968].

2) Na madrugada de hoje, sonhei com a minha mamãe Vera de Almeida Medeiros [1929-2003] junto à minha mamãe-vovó Aksênia Schawirin. Quantas saudades!



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas... janeiro agoniza neste 2007.

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 19/02/2007
Código do texto: T386889

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Todos os comentários desse artigo:
"_ NITSCHEWO"

  • mailto evans

    Qua 28 Nov 2007 19:42

    Também gostei muito desse conto.
    Ilustrar algo assim, deve ser muito gostoso.
    Abraços.

  • mailto Elisangela

    Seg 14 Mai 2007 15:17

    Adorei este conto!!!
    Beijos Elis!

  • mailtoMadalena Barranco

    Dom 25 Mar 2007 20:29

    Terno e nostálgico em cada parágrafo. O sol e suas miragens são uma passagem para os sonhos... Adoro esse conto!!!! Ah, e a rosa sobre a neve está indescritivelmente bela! Beijos