PORTRAIT OF GALILEO GALILEI
by Justus Sustermans
“_ Continua,
Oh moço! no futuro glorioso,
O movimento d’esta estrêa tua!
De alcançares o Olympo esse é
modo.”
(Vergílio. Eneida. Livro Nono)
É na Itália, na cidade de
Pisa, onde ardia a chama da Renascença, inspirando os homens
a serem mais completos, que nasce Galileu Galilei, em 18 de
fevereiro de 1564 (dia da morte do pintor Michelangelo, e mesmo ano
em que nasceu Shakespeare).
Galileu gostava de desenhar e de pintar e lamentara,
por diversas vezes, não ter se tornado um artista. Estudou
medicina, contudo, logo abandonou o curso para se dedicar,
exclusivamente, aos estudos da matemática.
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(1)
[“(Quarto de estudo de Galileu em Pádua;
o aspecto é pobre.
É de manhã. O menino Andrea, filho da governanta,
traz um copo de
leite e um pão.)
GALILEU (lavando o tórax, fungando alegre)
_ Ponha o leite na mesa, mas não feche os livros.
ANDREA
_ Seu Galileu, minha mãe disse que, se nós não
pagarmos o leiteiro, ele vai dar um círculo em volta de
nossa casa e não vai mais deixar o leite.
GALILEU
_ Está errado, Andrea; ele ‘descreve um
círculo’. (...)
(Andrea pesca atrás dos mapas, de onde tira um grande modelo
do sistema ptolomaico, feito de madeira.)
ANDREA
_ O que é isso?
GALILEU
_ É um astrolábio (...)
ANDREA (move as esferas)
_ É bonito. Mas nós estamos fechados lá no
meio.
GALILEU (se enxugando)
_ ... Há dois mil anos a humanidade acreditou que o Sol e as
estrelas do céu giram em torno dela. O papa, os cardeais, os
príncipes, os sábios, capitães, comerciantes,
peixeiras e crianças de escola, todos achando que
estão imóveis nessa bola de cristal. Mas agora
nós vamos sair para fora, Andrea, para uma grande viagem
(...) Tudo de move, meu amigo (...) E a Terra rola alegremente em
volta do Sol, e as mercadoras de peixe, os comerciantes, os
príncipes e os cardeais, e mesmo o papa, rolam com ela.
(...) Como diz o poeta: ‘Ó manhã de
inícios!...’
ANDREA
_ ‘Ó manhã dos inícios!...
Ó sopro do vento
Que vem de terras novas!’
O senhor devia beber o seu leite, porque daqui a pouco chega
gente.”]
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Galileu ocupou a cátedra de matemática
na Universidade de sua cidade, em 1589. A partir de 1591, Galileu
passa a lecionar na Universidade de Pádua. Em 1609, o
matemático, ainda professor na Universidade de Pádua,
recebe a notícia de que na Holanda fôra inventada a
luneta.
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[“(...) (Entra Ludovico Marsili, moço rico {novo aluno
de Galileu})
(...) GALILEU (examinando a sua carta de
recomendação)
_ O senhor esteve na Holanda? (...)
LUDOVICO
_ O senhor vai precisar de paciência. Principalmente porque
nas ciências tudo é diferente do que manda o bom
senso. O senhor veja, por exemplo, aquele tubo estranho que
estão vendendo em Amsterdam (...) Um canudo de couro verde e
duas lentes – uma assim (representa uma lente côncava)
e uma assim (representa uma lente convexa). Ouvi dizer que uma
aumenta e a outra diminui. (...) Isso é que é a
ciência. (...)
GALILEU
_ E o tubo tinha duas lentes? (Galileu faz um esboço no
papel.) Era assim? (Ludovico faz um gesto que sim.) De quando
é essa invenção?
LUDOVICO
_ Quando viajei da Holanda acho que não tinha mais que uns
dias ao menos de venda. (...).”]
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Iniciado em investigações no campo da
física, disciplina na qual já aplicava
cálculos matemáticos, Galileu procura, então,
informações mais precisas com respeito àquele
instrumento, isto é, a luneta. Uma vez obtidas as novidades
da invenção, Galileu passa, então, a
aperfeiçoá-la, dotando-a de maior alcance, visando
adequá-la ao “apetite” de suas
observações astronômicas.
Uma vez ampliado o alcance de visão da luneta,
Galileu começa a observar o céu todas as noites, com
o auxílio do telescópio. Este instrumento, por ele
confeccionado, revelou-lhe, num breve período, todos os
segredos que se mantiveram ocultos durante milênios ao olhar
humano, ou seja, a Via Láctea; a superfície
montanhosa da Lua; os satélites que giram ao redor de
Júpiter; os anéis de Saturno, as fases de
Vênus; as manchas solares, dentre outros. A
disseminação destas descobertas, lançada ao
mundo por meio da obra intitulada “Sidererus Nuncius”
(1610), abalou todo o mundo culto da época, sobretudo as
autoridades eclesiásticas, visto que tais descobertas foram
tomadas pelo clero como indícios de
conformação ao heliocentrismo.
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[“ (...) GALILEU
_ Excelência, Veneráveis Conselheiros. Como professor
de matemática na vossa Universidade de Pádua, e como
diretor de vosso Grande Arsenal, aqui em Veneza, considero que a
nobre tarefa docente, que me foi confiada, não é a
minha única missão. Procuro também
proporcionar vantagens excepcionais à República
Veneziana, através de invenções com
aplicação prática. Com alegria profunda e com
toda humildade devida, estou em condições de
apresentar e entregar-vos hoje um instrumento inteiramente novo, o
meu tubo ótico, o telescópio, construído (...)
segundo os princípios máximos da ciência e do
cristianismo, fruto de dezessete anos de paciente pesquisa de vosso
dedicado servidor. (...)
_ É o que lhe digo (afirma, em voz baixa, a Sagredo). A
astronomia parou há mil anos porque não havia
telescópio. (...)
III
10 de janeiro de 1610. Servindo-se do telescópio, Galileu
descobre fenômenos celestes que confirmam o sistema
copernicano. Advertido por seu amigo {Sagredo} das possíveis
conseqüências de sua pesquisa, Galileu afirma a sua
fé na razão humana. (...)
Quarto de estudos de Galileu, em Pádua.
Noite. Galileu e Sagredo, metidos em grossos capotes, olham pelo
telescópio. (...)
GALILEU
_ É, o que você está vendo, homem nenhum viu,
além de mim. Você é o segundo.
SAGREDO
_ Mas a Lua não pode ser uma terra, com montanhas e vales,
assim como a Terra não pode ser uma estrela. (...)
GALILEU
_ Essa luz o que é?
SAGREDO
_ ?
GALILEU
_ É da Terra. (...)
SAGREDO
_ Portanto não há diferença entre Lua e
Terra?
GALILEU
_ Pelo visto, não.
SAGREDO
_ Não faz dez anos que, em Roma, um homem subia à
fogueira. Chamava-se Giordano Bruno e afirmava exatamente
isso.
GALILEU
_ Claro. E agora estamos vendo. Não pare de olhar, Sagredo.
O que você vê é que não há
diferença entre Céu e Terra. Hoje, dez de janeiro de
1610, a humanidade registra em seu diário: aboliu-se o
céu.” (...) Não há suporte no
céu, não há ponto fixo no universo!
É outro sol! (...) Eu acredito no homem, e isto quer dizer
que acredito na sua razão (...) Sim senhor, eu acredito na
força suave da razão (...) Pensar é um dos
maiores prazeres da raça humana (...) Na corte de
Florença há sábios de grande
reputação (...) Eu, eu quero apenas que eles
acreditem nos próprios olhos (...) Eu vou pegá-los
pela cabeça e vou forçá-los a olhar por esse
telescópio.
(...) SAGREDO
_ Galileu, vejo você num caminho terrível. É
uma noite desgraçada a noite em que o homem vê a
verdade. É de cegueira o momento em que ele acredita na
razão da espécie humana. (...) 10 de janeiro de 1610
_ aboliu-se o céu? Você não entende? Sair da
República, com a verdade no bolso, para entrar na ratoeira
dos padres e dos príncipes, de telescópio na
mão?”]
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Em 1616, ocasião em que Galileu encontrava-se
na cidade de Florença, servindo à corte dos
Médicis - na qualidade de matemático e
filósofo -, Galilei foi aconselhado a manter silêncio
quanto às próprias idéias.
Mais tarde, em 1623, ocorre a elevação
do pontificado de Urbano VIII – notabilizado pela cultura
geral que possuía, além de nutrir curiosidade acerca
de novas doutrinas, sobretudo de Galilei. Acreditou, então,
Galileu, que chegara a hora da plena afirmação das
suas idéias, das suas descobertas, enfim, do seu
pensamento.
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[“(...) IV
Galileu trocou a República de Veneza pela corte florentina,
cujos sábios não dão crédito às
suas descobertas, feitas pelo telescópio.
O que é velho diz: fui, sou, serei assim.
O que é novo diz: caia fora o que é ruim. (...)
GALILEU
_ Como Vossa Alteza certamente sabe, já faz algum tempo que
nós, astrônomos, encontramos grandes dificuldades em
nossos cálculos. Nós nos baseamos num sistema muito
antigo, que está de acordo com a filosofia, mas infelizmente
não parece estar de acordo com os fatos. Segundo esse velho
sistema, o ptolomaico, supõe-se que o movimento das estrelas
seja muito complicado. O planeta Vênus, por exemplo, descreve
um movimento, do tipo seguinte (Galileu desenha num quadro o
trajeto epicíclico, de acordo com a suposição
ptolomaica.) (...) há movimentos no céu para os quais
o sistema ptolomaico não tem explicação
alguma. (...) Se os senhores estiverem de acordo, poderíamos
começar examinando os satélites de Júpiter, as
estrelas Medicéias. (...)
O MATEMÁTICO
_ Não seria o caso de dizer que é duvidoso um
telescópio no qual se vê o que não pode
existir? (...)
O FILÓSOFO
_ Razões, Senhor Galileu, razões!
GALILEU
_ As razões? Mas se os olhos e as minhas
anotações mostram o fenômeno? Meu senhor, a
disputa está perdendo o sentido. (...)
FEDERSONI
_ Nesse caso, é preciso escrever manuais novos.
O FILÓSOFO
_ Alteza, o meu ilustre colega e eu nos apoiamos em nada menos que
na autoridade do divino Aristóteles, nele mesmo. (...)
GALILEU (quase submisso)
_ Meus senhores, a fé na autoridade de Aristóteles
é uma coisa, e os fatos, que são tangíveis,
são outra. (...) Meus senhores, eu lhes peço com toda
a humildade que acreditem nos seus olhos (2). / (...) GALILEU
(correndo atrás deles) Mas bastava que os senhores olhassem
pelo instrumento!
O MESTRE-SALA
Sua Alteza não deixará de submeter estas
afirmações à consideração de
nosso maior astrônomo vivo, o Padre Cristóvão
Clávio, astrônomo-chefe do Colégio Papal, em
Roma (...)"]
.......................................
Galileu Galilei publica “O Ensaiador”
(1623), obra na qual ridiculariza as teorias de Aristóteles,
e o “Diálogo Sobre os Dois Maiores Sistemas Mundos do
Mundo” (1632), estudo no qual contrapõe as teorias de
Copérnico às de Ptolomeu.
Condenado em 1633, pela Santa
Inquisição, Galileu é obrigado a abjurar de
suas teses, sob a pena de ser queimado como herege.
.......................................
[“ VI
1616. O Colégio Romano, Instituto de Pesquisa do Vaticano,
confirma as descobertas de Galileu.
Viu-se o que é raro de ver:
Um professor que quer aprender.
Clávio, servo de Deus, deu
Razão a Galileu. (...)
O PEQUENO MONGE
_ Senhor Galileu, o Padre Clávio, quando saía, disse:
‘Agora é a vez dos teólogos, eles que
dêem um jeito de recompor o céu!’ O Senhor
venceu. (Sai)
GALILEU (procura detê-lo)
_ Ela é que venceu! Não fui eu, foi a razão
que venceu! (...)
VII
Mas a Inquisição põe a doutrina de
Copérnico no Índex (5 de março de 1616).
Roma, a cardinalícia,
Da delícia e do bom vinho, festeja o sábio
Galileu.
Faz-lhe um convite,
Dá-lhe um palpite...zinho. (...)
IX
Após oito anos de silêncio, encorajado pela
ascensão de um novo papa, que aprecia a ciência e os
cientistas, Galileu retoma suas pesquisas no campo proibido. As
manchas solares.
A verdade escondida
Os dedos em figa
Primeiro colou, mas depois falou.
Verdade, prossiga.
Casa de Galileu, em Florença.
Os alunos de Galileu – Federzoni, o Pequeno Monge e Andrea
Sarti, que agora é um moço – estão
reunidos para uma aula experimental. Galileu, de pé,
lê um livro. Virgínia {filha de Galileu} e Sarti
estão costurando o enxoval. (...)
MUCIO
_ A senhora faz o favor e diz ao Senhor Galileu que precisa me
receber? Ele me condena sem me ouvir. (...)
GALILEU
_ O que o senhor quer explicar? O senhor está de acordo com
o Decreto da Santa Congregação de 1616. (...) Pois eu
lhe digo: quem não sabe a verdade é estúpido,
e só. Mas quem sabe e diz que é mentira, é
criminoso! O senhor saia de minha casa! (...)”]
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A sagacidade galileana na pesquisa associada à
agilidade do pensamento e à precisão cada vez maior
do método é acompanhada por uma notabilíssima
habilidade técnico-prática. Junto às verdades
que se iam revelando, e com base nos novos dados experimentais,
Galileu é empurrado a uma nova visão do método
científico e, conseqüentemente, à
ação.
.......................................
[“GALILEU
_ Muita vez, a causa principal da pobreza, em ciência,
é a riqueza presumida. A finalidade da ciência
não é abrir a porta do saber infinito. Mas colocar um
limite à infinitude de erro. Tomem as suas notas. (...) Eu
poderia escrever na língua do povo, para muitos, em vez de
escrever em latim, para poucos. Para as novas idéias
nós precisamos de gente que trabalhe com as mãos.
Quem, senão eles, quer saber a causa das coisas? Os que
só vêem o pão na mesa não querem saber
como ele foi assado; essa canalha gosta mais de agradecer a Deus
que ao padeiro. (...) Com alguma esperança de provar a
rotação do Sol. O meu propósito não
é de provar que era eu quem tinha razão, mas de
verificar se tinha. Eu digo: deixai toda esperança, ó
vós que quereis observar. (...)”]
........................................
Assim, nas mãos de Galileu, o telescópio
deixou de ser uma simples curiosidade tecnológica,
tornando-se um instrumento utilizado para novas descobertas
científicas. Abolindo a distinção entre o
Céu e a Terra, Galilei transforma ambos em um único
campo no qual ocorrem os fenômenos físicos. Pelo rigor
metódico, as pesquisas galileanas mais importantes
são aquelas que se relacionam à queda dos graves e ao
movimento dos projéteis. Galileu não se pergunta
porque é que os corpos caem, mas como é que caem,
resolvendo, desse modo, a questão nos seus elementos
determinantes essenciais, isto é, o espaço, o tempo e
a velocidade, além de procurar estabelecer a lei de suas
relações. Assim, Galilei, tomando a natureza
não no sentido aristotélico, isto é, composta
de qualidades distintas e adstritas a hierarquias, mas como local
na qual se produz o movimento, e onde os corpos se movem, com
efeito, a natureza representada por Galileu é um conjunto de
movimentos mecânicos incessantes, é
moto-contínuo de coisas em relação a outras.
Nesse sentido, para Galileu, tudo se move: EPPUR SI MUOVE.
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[“Praça do mercado.
Entra um casal de saltimbancos famintos, trazendo uma menina de
cinco anos e um recém-nascido. A multidão, em parte
mascarada, está à espera da procissão
carnavalesca. Os dois carregam trouxas, um tambor e outros
utensílios.
O JOGRAL (batendo no tambor)
_ Prezados habitantes, senhoras e senhores, antes da
procissão carnavalesca das corporações, vamos
apresentar a mais recente canção florentina, cantada
em todo norte da Itália, e que para aqui importamos com
grande despesa. Ela se intitula: ‘A Temibirrível
Doutrina e Opinião do Senhor Físico da Corte, Galileu
Galilei’, ou ‘Um Gostinho do Futuro.’
(Canta)
(...) E assim, na lei do preceito divino vão girando
Em torno dos de cima os inferiores
Em torno dos da frente os posteriores
Assim na Terra como no Céu.
E em torno do papa circulam os cardeais,
E em torno dos bispos circulam os secretários,
E em torno dos secretários circulam os
funcionários,
E em torno dos funcionários circulam os
artesãos,
E em torno dos artesãos circulam os servos,
E em torno dos servos circulam os cães, os frangos e os
mendigos.
Esta, minha gente, é a grande ordem, ‘ordo
ordinum’, como dizem os senhores teólogos,
‘regula aeternis’, a regra das regras, mas o que
é, meu bom povo, que veio depois?
(Canta.)
De um salto ergue-se o douto Galilei,
Botou fora a Bíblia, sacou do telescópio.
Lançou um olhar ao Universo
E disse ao Sol: parado, Sol! Parado!
De agora em diante a ‘creatio Dei’
Vai virar, virará pro outro lado.
De agora em diante a moça fina, hei!
Variará! Vai servir o seu criado.
Mas, aí, que acinte inaudito! Minha gente, não
é biscoito! (...)
Não, não, não! A Bíblia, minha gente,
não é brinquedo
Se o cabo não é grosso, moço, não
prende o pescoço, e adeus civilização!
(...)
Não, não, não, não, não,
não! Pare, Galileu, que eu paro!
Sem coleira e focinheira, o cachorro faz besteira, dá
só confusão! (...)
Prezados habitantes, vejam a fenomenal descoberta de Galileu
Galilei: a Terra girando em volta do Sol! (...)
Galileu Galilei, o mata-bíblias!
(Grandes risadas da massa.) (...)
XI
1633: A Inquisição convoca a Roma o grande cientista
de reputação mundial.
A planície é quente, a cumeada é fria.
A rua é cheia, a corte é vazia. (...)
GALILEU
_ De panfletos eu não estou sabendo. A Bíblia e
Homero são as minhas leituras prediletas. (...)
UM ALTO FUNCIONÁRIO
_ Senhor Galileu, estou encarregado de informá-lo de que a
corte florentina não tem mais condições de
opor resistência ao desejo da Sagrada
Inquisição de inquirir o senhor em Roma. O carro da
Sagrada Inquisição está à sua espera,
Senhor Galileu.
XII
O Papa
Aposento do Vaticano
O Papa Urbano VIII – antes Cardeal Barberini – recebe o
Cardeal Inquisidor (...)
O PAPA
_ Eu não vou deixar que rasguem a matemática.
Não!
O INQUISIDOR
_ Essa gente afirma que é da matemática que se trata
e não do espírito de rebeldia e da dúvida. Mas
não é de matemática que se trata. É uma
inquietação horrenda que se estende pelo mundo.
É a inquietação de seu próprio
cérebro que eles transpuseram para a terra imóvel.
Eles gritam: são os números que nos convencem! (...)
Esses homens duvidam de tudo, e não mais na fé, que
iremos fundar a sociedade humana? (...) Desde moço esse
Galileu já escrevia sobre máquinas. Eles querem fazer
milagres com as máquinas. E que milagres? De Deus, em todo
caso, eles já não precisam. (...) As cidades
marítimas de norte pedem os mapas celestes de Galileu com
urgência, por causa dos navios. Vai ser preciso ceder,
são interesses materiais.
O PAPA
(...) _ Vão dizer que a Santa Igreja é uma fossa de
preconceitos apodrecidos. Não ponham a mão nele!
(...) O extremo dos extremos é que lhe mostrem os
instrumentos {de tortura}.
O INQUISIDOR
_ Será suficiente, Sua Santidade. O Senhor Galileu entende
de instrumentos.
XIII
Galileu Galilei, diante da Inquisição, em 22 de junho
de 1633, renega a sua doutrina do movimento da Terra.
Foi um dia de junho de importância capital:
Razão e Povo se cruzaram, e por pouco não
casaram.
Mas ninguém notou, pois nada mudou, e a tarde passou.
(...)
A VOZ DO ARAUTO
‘_ Eu, Galileu Galilei, professor de matemática e
física na Universidade de Florença, abjuro o que
ensinei: que o Sol seja o centro do mundo, imóvel em seu
lugar, e que a Terra não seja centro nem imóvel. De
coração sincero e fé não fingida, eu
abjuro, detesto e maldigo todos estes enganos e estas heresias,
assim como quaisquer outros enganos e pensamentos contrários
à Santa Igreja.’ (...)
ANDREA
_ Infeliz a terra que não têm heróis!
(Galileu entrou, inteiramente mudado pelo processo, quase
irreconhecível. Ouviu a frase de Andrea. Pára
à porta, por alguns instantes, à espera de uma
saudação. Como esta não vem, pois os
discípulos recuam diante dele, ele vem para a frente,
devagar e inseguro, por causa dos seus olhos enfraquecidos:
encontra uma banqueta e senta.) (...)
GALILEU
_ Não. Infeliz a terra que precisa de heróis.
(...) XIV
1633-1642. Galileu Galilei vive numa casa de campo nas proximidades
de Florença, prisioneiro da Inquisição
até sua morte. Os ‘Discorsi’
Mil seiscentos e trinta e três a
Mil seiscentos e quarenta e dois:
Galileu Galilei é prisioneiro da Igreja
Até a sua morte. (...)
GALILEU
_ É verdade? (Pausa) Descartes, nenhuma novidade? Paris?
(...) Não estou disposto, leia um pouco de Horácio.
(...)
XV
1637. O livro de Galileu, os ‘Discorsi’, atravessa a
fronteira italiana (...)”]
......................................
Por fim, o pensamento de Galileu, que corresponde
à liberdade da razão diante do pensamento
dogmático – dos limites e das
contaminações que o último lhe impõe -,
alcança, em suas obras, uma nítida
formulação metódica, realizando-se,
concretamente, na construção de uma ciência que
permanecerá como fundamento e paradigma de todo o saber
científico.
NOTAS
1. Os diálogos que entrecortam o presente ensaio foram
extraídos da obra: BRECHT, Bertolt. A Vida de Galileu.
2. Teoria, do grego: theoros = ver.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
BRECHT, Bertolt. Vida de Galileu. Tradução Roberto
Schwarz. São Paulo: Abril Cultural, 1977.
(Coleção “Teatro Vivo”).
DURANT, Will e Ariel. Começa a Idade da Razão. v.7.
Tradução Mamede de S. Freitas. Rio de Janeiro: Record
[s.d.] (Coleção “A
História da Civilização).
GALILEI, Galileu. Vida e Obra e O Ensaiador. Tradução
Helda Barraco, Carlos Lopes de Mattos et al. São Paulo: Nova
Cultural, 1987.
VERGILIO. A ENEIDA DE VERGILIO: lida hoje. Tradução
Coelho de Carvalho. Lisboa: Livraria Ferreira, 1908.
PROF. DR. SÍLVIO
MEDEIROS
Campinas, é verão de 2006.
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em
07/03/2006
Código do texto: T120006
Código do texto: T120006
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Sex 17 Out 2008 00:52