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MAN RAY de William Wegman
Antes mesmo de conhecê-la, ele
pressentia algo estranho, como se chegasse a um divisor de
águas. Um vazio e uma angústia, o assaltavam como se
o tempo escoasse rapidamente. Talvez até por isso, amou-a
como se não houvesse amanhã. Ela, lamentavelmente,
como se apenas fosse um dia nublado de ontem e nele desapareceu.
Desde então, foi incapaz de refazer-se nos braços da
vida. Em seu novo e amplo apartamento, num antigo prédio do
centro da cidade, foi criando sua zona de conforto, seus
oásis. Nada como deixar fluir seus pensamentos como um
barco, entre rios de palavras e livros. Saía pouco.
Escrevia. Lia muito: poemas, estórias plenas de feitos,
filosofias e sínteses magníficas, mas nenhum afeto as
curvava sinuosas em mistério. Em seus sonhos, pouco a pouco,
apagavam-se também as requintadas vias para fêmeas
raras, nem mesmo doces meninas ou bad girls e assim ergueu um mundo
supostamente indolor. Sem se dar conta, acabou cultuando o espectro
da sedução. Matou todos os sortilégios e
fascínios perigosos. Exterminou o enigma, o segredo do que
não pode ser dito. Protegido, na sua torre de
simulação, comandava suas redes sem contatos,
alimentando seus fantasmas sem afetos. Tornou-se um simulacro de si
mesmo. Sem emissor nem receptor, instaurou a
auto-sedução. Ele não sabia que um mundo,
até mesmo dentro dele - sem o perigo de sucumbir
à vertigem de uma sombra, não era mundo. Rompida a
harmonia feita de tensões, tornou-se uma lira sem arco,
onde o vento transpassava debilmente. Por fim, se perdeu em insanas
conjecturas, pensando-se além do bem e do mal. Mergulhado
nelas, já nem se importava com seu velho companheiro
Sherlock, um belo cão weimaraner. Na última semana
mal o alimentava. Sherlock, assustado, pressentia um perigo e
deitado num canto, enroscava-se em si mesmo, olhando-o de soslaio.
Em sua mímica ancestral, ele tentava dizer que ali,
já não era mais um lugar seguro, mas seu dono tinha
perdido tais referências. Os dotes de Sherlock adquiridos ao
longo de séculos eram infrutíferos. Numa tarde, vendo
que o dono esquecera a porta aberta, saiu por ela furtivamente.
Perambulou pelo longo corredor mal iluminado, olhou para as escadas
que davam para o térreo mas acabou voltando. Aninhou-se
na porta ao lado, ressonando na interminável espera dos
cães. Já tarde da noite, Sherlock ergueu a
cabeça, suas orelhas se eriçaram com o barulho de
passos. A vizinha chegava. Era uma jovem bailarina clássica
que há alguns meses dançava em casas
noturnas para sobreviver. Ao ver o cão tão
maltratado, sentiu pena e levou-o para dentro de casa. Deu-lhe
água e comida depois, abriu a porta para que ele voltasse
para o dono, mas Sherlock permanecia ali. Com um ar de
súplica, quase humano, ele olhava para ela e apontava
para a porta entreaberta. Ela se aproximou e devagar empurrou
a porta. Naquela sala esquecida, entre garrafas
de whiski vazias, cinzeiros abarrotados de cigarros, ele
dormia no sofá. No deserto de suas impalpáveis dores
e amores, tinha engolido todo o pó do desafeto. A jovem
sentou-se num canto do sofá, suspendeu cuidadosamente sua
cabeça e colocou-a em seu colo. O corpo dele estremeceu ao
tato. Sentiu um vento fresco que batia em seu rosto como uma brisa
de verão. Pensou estar sonhando, quando ouviu o pequeno
ruído contínuo do ventilador no teto,
trazendo-lhe de volta àquela atmosfera opressiva. Ao
abrir os olhos, se deparou com os dela, calmos como dois pequenos
lagos. Confuso, perguntou seu nome e pausadamente ela o pronunciou:
Ítaca. Exausto, acabou dormindo de novo. Acordou pela
manhã muito cedo, olhou em volta e viu Sherlock que
contente, abanava a cauda. Por algum motivo inexplicável ele
sentia-se muito bem, como se estivesse livre daquele enlutamento,
do sol negro da melancolia. De alguma forma inconsciente ele tinha
revertido aquele processo. Lembrou vagamente daquele sonho, do
encanto daqueles olhos, olhos pássaros que pareciam ter
diluído o peso daquele mundo cindido e triste. Pensou em
sensações que somente o mundo dos sonhos propiciam,
tão ilógico e avesso a razão ! e no
entanto, concluiu: "É o sonho da razão que
produz monstros". Ele, mais do que ninguém, agora sabia
disso. Lá fora, uma clara manhã prometia um dia
ensolarado e sair daquele apartamento era só o que ele
queria - Tomar o café da manhã na rua, dar uma grande
volta com Sherlock. Pobre cão ! - pensou pegando a coleira.
Sentia-se culpado por te-lo negligenciado tanto. Ao procurar a
chave da porta, sob uma estante viu um livro aberto numa
página. Era um poema. Com pressa, passou os olhos
aleatoriamente, mas acabou se debruçando nas duas
últimas estrofes : OBS. OUTRA FOTO DO BELO CÃO "MAN RAY" ENCONTRA-SE DISPONÍVEL NO SEGUINTE ENDEREÇO: |
| Ana Valéria Sessa |
| Publicado no Recanto das
Letras em 25/02/2007 Código do texto: T393202 |
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