Cena do filme FANNY E
ALEXANDER
de Ingmar Bergman
Blog voltado à disseminação da
produção intelectual do PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS,
além da Poética de FERNANDO MEDEIROS. Incluem-se,
também, a...
LIVRO: "A ÉTICA
PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO", DE MAX WEBER
*
A princípio, Max Weber questiona as
razões pelas quais os meios de administração
do capital encontram-se no comando quase exclusivo de
indivíduos adeptos do protestantismo. Para tanto, isto
é, interrogando tal fato observável em sua
época, Weber apoia-se em dados históricos, visando,
com isso, a obtenção de respostas. Construindo um
painel histórico-comparativo entre as especificidades do
protestantismo, bem como do catolicismo, Weber extrai,
então, o campo argumentativo que visa comprovar a burocracia
religiosa como uma das principais determinantes na
formação e na estruturação
históricas do sistema capitalista.
O primeiro fenômeno analisado pelo
sociólogo alemão está relacionado ao
princípio de que os protestantes, com o objetivo em atingir
elevadas posições no interior da
estratificação social capitalista, necessitaram de
certa posse prévia de capital estreitamente vinculada ao
desenvolvimento de uma rigorosa formação educacional.
Assim, alegando que o fator econômico estimula a autoridade
no plano individual, foi possível ao Calvinismo, por
ocasião do seu surgimento, transpor ao nível da
ideologia de massas as novas leis econômicas e as novas
relações sociais que provinham do poder da ascendente
classe burguesa. Em linhas gerais, a burguesia cria o
próprio "fiscal ideológico", para, com isso,
garantir, mediante a educação, a mão de obra
qualificada e a manutenção do capital acumulado.
Ademais, elevadas parcelas do referido capital são
empregadas numa dispendiosa educação, voltada,
exclusivamente, para a manutenção da posse do
capital. À luz desses dados, Weber aponta para uma outra
questão: por que a revolução religiosa
ocorreu, afinal, em países compostos por grandes cidades e
dotados de vastíssimos recursos naturais, além de
apresentarem maior grau de desenvolvimento econômico na
ocasião? Como já foi mencionado acima, tal fato
está relacionado à posse prévia do capital
herdada pelos protestantes. Outro fator está diretamente
ligado ao direcionamento do ensino superior. Se, por um lado, o
ensino católico visa exclusivamente uma
formação humanística, desmotivando, desse
modo, os estudantes rumo aos empreendimentos capitalistas, por
outro lado, o ensino protestante fomenta, em seu currículo
educacional, preparar indivíduos aptos a preencher os
quadros especializados das empresas capitalistas, nas quais eles
conseguem obter sucesso profissional, pois atendem aos requisitos
da nova ordem econômica estabelecida, os quais requerem,
sobremaneira, mão de obra qualificada.
Quanto à proeminente tendência do
racionalismo econômico imanente ao Protestantismo - algo
ausente no catolicismo -, Weber nos chama a atenção
para estes respectivos posicionamentos opostos. Na verdade, eles
devem ser procurados no caráter intrínseco de cada
religião: em primeiro lugar, o caráter
ascético do Catolicismo, a indiferença ao mundo num
acentuado contraponto ao caráter obreiro do Protestantismo.
Uma vez equacionada tal questão, obtemos o seguinte
provérbio: "Coma ou durma bem", no qual o primeiro verbo
é a justa medida para os protestantes; o segundo, para os
católicos. Contudo, esta visão unilateral pode nos
levar a extremas contradições. O termo do
provérbio reservado aos protestantes traduz-se em "alegria
de viver". Todavia, o passado evidencia o contrário, visto
que entre os holandeses, os puritanos ingleses e os
norte-americanos, além dos franceses, havia uma forte
convicção religiosa na maneira de viver que
determinava o alheamento do mundo. Por outro lado, as camadas
sociais inferiores francesas, adeptas do Catolicismo, demonstravam
intensos interesses nos prazeres da vida, característica
tipicamente da mentalidade materialista. Weber estende-se noutros
exemplos semelhantes. No entanto, o mais importante, se se quiser
trabalhar com tudo o que foi apresentado até o presente
momento, é tomarmos um certo distanciamento desses
fenômenos contraditórios inscritos em cada
religião, por ora questionada, e nos determos em
observações sobre o seguinte par de opostos, isto
é: ascetismo/anti-ascetismo, acrescentando a ele a
reação contra a autoridade católica,
representada em grande número pelos adeptos do Pietismo,
além da ruptura que o Calvinismo promoverá ao
estimular, entre os seus adeptos, a prática do
comércio; requisito, aliás, poderoso, no que se
refere ao desenvolvimento do capitalismo. Em suma, Weber enfatiza
que, historicamente, ocorre a conjugação de duas
máximas: a propagação de uma intensa
religiosidade aliada ao espírito mercantil da
ocasião, cujos vínculos, isto é, entre
"espírito de trabalho" e o "progresso", e o produto
daí resultante jamais pode ser confundido com a "alegria de
viver" dos protestantes, porque estão intimamente
relacionados às características puramente
religiosas.
Ponderando com mais intensidade sobre a
configuração do quadro conceitual até o
momento explorado e buscando as peculiaridades que norteiam a
diversidade dos ramos religiosos oriundos do Cristianismo, Max
Weber, por meio de uma série de citações
atinentes às regulamentações econômicas
que rege a vida social dos norte-americanos, proclamadas por
Benjamin Franklin, e satirizadas como a "fé" do yankee - em
virtude do conteúdo presente em cada mandamento
econômico que, em seu conjunto, atribui à moeda um
exagerado endeusamento -, Weber, no tópico "O
‘Espírito' do Capitalismo" (cf. p.28), enfatiza que se
um dos mandamentos econômicos ("tempo é dinheiro",
"crédito é dinheiro" etc) não for observado
pelo fiel, o crente é acusado de infrator, além de
não-cumpridor de seus deveres cívicos. Livre da
influência direta da religião, esta
característica particular do capitalismo ocidental configura
toda uma significação cultural, e dela emana uma
ética de caráter peculiar. Nesse caso, o capitalismo
ocidental possui um "ethos particular", pois é dotado de uma
concepção utilitarista, mediante as qualidades que
mais se destacam, como por exemplo: a honestidade financeira; a
pontualidade nos pagamentos; a laboriosidade desenvolvida nas
atividades profissionais dentre outras congêneres, as quais
se tornam virtudes úteis ao cidadão comum, como por
exemplo, somar ou ganhar dinheiro transforma-se, nesse caso, em
finalidade última na vida dos indivíduos, na medida
em que esta prática atinge níveis
consideráveis dentro do campo do irracionalismo e do
transcendentalismo religioso protestante. De outra parte, como base
fundamental deste processo, destaca-se o dever profissional
caracterizado como a "ética social" da cultura capitalista.
Nesse sentido, tanto o fabricante que se opor às normas
estabelecidas quanto os trabalhadores, ambos estarão
sujeitos à exclusão do sistema econômico. Dessa
forma, é viável ao capitalismo escolher aqueles que
comporão o quadro burocrático-administrativo, porque
eles deverão estar voltados à
sustentação do referido sistema econômico. Por
outro lado, toante Weber, é preciso refletir sobre uma
questão, ou seja, como esta "filosofia de vida", que
não teve origem dentro do limites de "seleção
social", pode se firmar como norma de vida mediante a qual o poder
capitalista consegue arrebanhar e convencer uma totalidade de
indivíduos - sem qualquer reação
preconceituosa - inserida no interior de um contexto
histórico?
Nesse caso, é preciso situar as
diferenças existentes entre os espíritos capitalista
e o pré-capitalista; e Weber aponta para pontos decisivos
nos quais estas diferenças se manifestam.
O espírito pré-capitalista pode ser
ilustrado pelos holandeses que, dado à voracidade em ganhar
altas somas de dinheiro, e não fazendo uso dos mecanismos
racionais verificados atualmente nas grandes empresas capitalistas,
enriqueceram-se; são tais fatos que explicam, segundo Weber,
a breve hegemonia econômica holandesa num determinado
período da história ocidental, mais especificamente
quando da ocupação pelos europeus do continente
americano. Em linhas gerais, o espírito do capitalismo exige
não somente o acúmulo monetário, mas
indivíduos inclinados a negócios, disciplinados,
igualmente no que se refere à utilização
racional do capital, bem como "trabalhadores conscientizados" a
produzir cada vez mais, objetivando "melhorar de vida", em
detrimento à concepção de vida que se traduz
em trabalhar para ganhar o suficiente para viver. Assim, o
espírito capitalista e a determinação
econômica inspiram uma luta constante sobre qualquer
tradicionalismo econômico. Porém, partindo-se do
princípio de que a classe dominante, isto é, a
burguesia, é quem determina as medidas de
aplicação salarial aos trabalhadores, são os
últimos que exercerão, portanto, o papel de
subserviência a tal conjunto de medidas capitalistas. No caso
do surgimento de uma reação contrária, por
parte dos trabalhadores, frente a tais arbitrariedades emanadas do
poder burguês, o espírito do capitalismo convence as
consciências de que o trabalho deve ser concebido como um fim
absoluto, ou melhor, como uma "vocação",
distanciando, desse modo, as preocupações dos
trabalhadores com respeito às questões salariais. O
referido mecanismo, nesse caso, deita raízes no processo
educacional do protestantismo, que se torna um poderoso aliado do
capitalismo, na medida em que a referida educação
caracteriza-se por se mesclar com os conceitos fundamentais do
protestantismo. Resumidamente, podemos nomear este mecanismo como
uma tríade composta pelos seguintes termos:
educação-econômico-religiosa, propiciando,
desse modo, a formação de um quadro de
funcionários com alto grau de concentração
mental, fato que, conseqüentemente, determinará uma
maior produtividade no mundo do trabalho. Eis, então, a
gênese do espírito capitalista.
Outras importantes particularidades são
mencionadas por Max Weber. Dentre elas, a dos grandes
empreendedores que, aplicando métodos específicos e
eficazes de racionalização, aproximam-se dos
consumidores por intermédio de certos princípios,
como por exemplo, "baixos preços", estimulando, desse modo,
nos consumidores, o hábito do consumo e da
aquisição material. Em contrapartida, cria-se o
terreno propício para a luta contra os concorrentes, no qual
as políticas econômicas de "baixos preços" e de
"grandes giros" prevalecem e serão decisivas no que se
relaciona à destruição do concorrente
comercial mais fraco. Por meio de tais procedimentos, as fortunas
adquiridas são reinvestidas em negócios, jamais
favoráveis aos concorrentes, visando, sobretudo, a
obtenção de lucros mediante a aplicação
de juros sobre os empréstimos.
Neste ponto, Weber assinala que não foi o
investimento maciço de capital injetado nas
indústrias que propiciou tal estado de coisas, mas o
surgimento do espírito do capitalismo moderno. Consoante
argumento acima exposto, Weber afirma que onde se encontra este
"espírito" surge o próprio capital, sem a necessidade
de uma acumulação primitiva. Isto mais se evidencia
ao situarmos o conjunto das particularidades e das qualidades
éticas pessoais do empreendedor capitalista que se resume no
seguinte: num primeiro momento, ele catalisa a
atenção de fregueses e de trabalhadores. Geralmente,
trata-se de um homem que lutou na "dura escola da vida", portanto,
um indivíduo tipicamente regido pela mentalidade burguesa.
Num determinado momento, ele se afasta da religião, pois os
negócios e o trabalho, ambos contínuos, absorvem todo
o tempo livre do referido empreendedor. Tudo isto acompanhado de um
forte desejo de considerações alheias, tendo em vista
o intuito de adquirir a atenção de poderes
ilimitados. Por tais fatores, o modo de vida do empreendedor
capitalista adquire novos hábitos, cujos gastos
desnecessários são eliminados, nada extraindo da
própria fortuna e sempre "alegando" encontrar-se o
patrimônio financeiro destinado para o futuro dos filhos ou
dos netos. Esta posição oferece-lhe a
sensação irracional de estar cumprindo com a sua
tarefa. O sentimento religioso do empreendedor capitalista é
descartado, bem como o protecionismo do Estado sobre os seus
próprios negócios. Desse modo, as antigas bases do
capitalismo, sustentadas pelo Estado e pela Igreja, com o
aparecimento do "espírito" do capitalismo, têm as suas
determinações negadas. Trata-se do rompimento
definitivo com o que Weber denomina de tradicionalismo
econômico.
Contudo, questiona Weber, como uma atividade que,
na melhor das hipóteses, sobretudo eticamente tolerada, pode
se transformar em vocação? Somente por meio das
máximas de Benjamin Franklin?! Não necessariamente,
pois isto se explica pelo fato do mundo do trabalho capitalista
adquirir uma organização de caráter
extremamente racional, dando origem ao racionalismo
econômico, o qual preconiza a fabricação de
bens materiais para a humanidade - discurso característico
dos representantes do capitalismo - os quais transformaram este
modo de trabalho na única finalidade da vida profissional.
Somado ao idealismo, norteador das mentalidades dos homens de
negócios, que declaram ter "dado" emprego a inúmeras
pessoas, encontra-se o nacionalismo exacerbado, preconizador de que
os homens empreendedores são responsáveis pelo
florescimento econômico de sua terra natal, temos, desse
modo, o surgimento de uma filosofia racional em seu mais alto grau
de desenvolvimento, na qual o papel do protestantismo é
apenas um espaço que poderíamos denominar de
"estágio" historicamente anterior ao desenvolvimento do
racionalismo totalitário - por Weber identificado como o
espírito do capitalismo.
De outra parte, Max Weber explora os fundamentos
religiosos do ascetismo laico, oriundos da Igreja Reformada,
apresentando os principais representantes históricos do
protestantismo ascético de forma esquemática,
intencionando, com isso, evidenciar a inter-relação
existente entre os diversos movimentos, além de tematizar o
surgimento da luta dos referidos movimentos contra a
manutenção da unidade da Igreja, isto é,
contra a afirmação da doutrina da
predestinação e das sanções
psicológicas da nova prática religiosa, coagindo e
orientando o indivíduo a agir conforme interesses religiosos
práticos.
Calvinismo
O principal fundamento do Calvinismo encontra-se na
doutrina da predestinação. Este dogma causou o cisma
da Igreja Inglesa, representando um perigo político aos
detentores de poderes laicos. Isto se explica na medida em que os
seus adeptos, uma vez orientados pelos credos que nasciam dos
Sínodos (donde nasce o corpo de "leis" que rege a doutrina
da predestinação), faziam da elevação
de sua autoridade (os predestinados) o elemento mais importante da
luta religiosa.
Uma das primeiras causas ligadas ao advento da
doutrina da predestinação encontra-se no Luteranismo,
mediante o protesto de Lutero ao pregar o sentido religioso da
graça decretado pelos desígnios secretos de Deus. Em
razão da vigorosa prática político-religiosa
na qual Lutero se empreendeu durante a Reforma, tal fato o fez se
afastar da idéia centralizada em Deus, substituindo-a por
uma maior aproximação dos homens. Nesse sentido, o
Calvinismo surge como um dogma que luta contra tal
imposição, forçosamente decretada por Lutero,
visto que Calvino determinará que os interesses estão
apenas direcionados a Deus, não aos homens. Com efeito, a
doutrina calvinista afirma que somente alguns homens são bem
aventurados (doutrina da predestinação), e que nosso
destino individual é algo tenebroso e misterioso. Desse
modo, Deus não estaria submetido a nenhuma lei e, ao mesmo
tempo, a morte é decretada aos homens que não
respeitam as leis divinas. Este Deus calvinista configura-se como
um Ser transcendental, além do alcance do conhecimento
humano. O fato deste Deus conceder graça exclusiva
tão-somente a alguns indivíduos, coloca-os em
situação de extrema solidão, não
permitindo aos designados qualquer sacramento ou sacerdote que
possa auxiliá-los. Esta é uma característica
típica do puritanismo genuíno que no Luteranismo
não foi desenvolvido até o final. Daí tem
origem a notável diferença entre o Catolicismo e o
Calvinismo, na medida em que o último elimina e rejeita a
"magia do mundo" representada por meio de símbolos, como por
exemplo: cerimônias religiosas, músicas, sacerdotes
etc. Desenvolvendo um individualismo de inclinação
pessimista, o Calvinismo destrói qualquer tipo de
manifestação subjetiva do ser por parte dos
fiéis, pregando a descrença total nos homens ou
até mesmo no mais íntimo amigo. Por outro lado,
ocorre a irrupção de um acontecimento de grande
importância para o desenvolvimento ético do
Calvinismo, isto é, desaparece o ato da confissão.
Nesse caso, somente Deus é o confidente. As
conseqüências lógicas deste fato estão no
isolamento espiritual do puritano, porque ele se preocupa somente
com a própria salvação. Tais elementos criam
no indivíduo um medo extremado. Para a
superação deste medo, o Calvinismo, pregando que o
mundo existe apenas para a glorificação de Deus,
recomenda a prática da ordem social do mundo consoante os
desígnios divinos - eis, aqui, o apaziguador do conflito. A
prática da ordem social resume-se em revestir as tarefas
diárias de um caráter objetivo e impessoal. Surge,
dessa forma, para os calvinistas, a organização
racional do meio ambiente, além da completa
eliminação do problema teocrático. A doutrina
da predestinação em muito contribuiu para o
êxito deste projeto. Na certeza da graça, concedida
aos predestinados, estes se atiram numa intensa atividade
profissional, adquirindo autoconfiança quanto à
certeza da graça concedida, impedindo, dessa forma, qualquer
tipo de sentimento que venha causar ansiedade religiosa. Os
fiéis adquirem, enfim, a fé.
Para os calvinistas, a fé deve, por meio das
obras humanas, apresentar resultados objetivos. Consoante Weber, na
prática, isto significa que Deus ajuda quem se ajuda.
Porém, para o Calvinismo as boas obras devem ser integradas,
racionalizadas, jamais resumindo-se a atos isolados, a exemplo do
que ocorrera no Catolicismo. Portanto, para os puritanos
calvinistas, a racionalização do mundo e a
eliminação da "mágica" são os
únicos instrumentos suficientes para a
salvação da alma. Esta santificação
pelas obras, coordenada por um sistema unificado, aproxima-se do
"Cogito, Ergo Sum", de Descartes; aliás, máxima
adotada pelos puritanos, donde origina-se toda uma
reinterpretação ético-religiosa das
Escrituras. Nesse caso, o ascetismo cristão adquire tanto um
caráter racional quanto um método específico.
Sob o impulso dos credos inclinados a liberar os homens dos
impulsos irracionais provenientes do mundo e da natureza,
anulando-os quanto ao gozo espontâneo e habilitando-os a uma
vida alerta, é o resultado de tal comportamento que assegura
ao Calvinismo o título de Igreja Militante. Porém, o
ascetismo é transformado em atividade terrena. Assim, dado
à formação de uma aristocracia espiritual
integrada no mundo, pregando hostilidades aos
não-pertencentes ao mesmo grupo, tal ambiente gera um clima
de insatisfações, de conflitos. Desse modo, por parte
dos excluídos, originam-se seitas religiosas provindas do
próprio Calvinismo. As referidas seitas irão
apoiar-se na doutrina da prova para se auto-conduzirem como
movimentos distintos do Calvinismo. Mas, pelo fato de originarem-se
de uma só corrente, isto é, do protestantismo
ascético, seguem uma única lógica: "a busca
pela ordenação racional sistemática da vida
moral global", toante argumento de Weber.
Pietismo
O Pietismo é um movimento religioso que se
destaca pela busca da conexão entre a
predestinação e a doutrina da prova: nisto reside o
interesse fundamental do Pietismo. No interior do Pietismo
reformado (holandês e do Baixo Reno) encontramos a
ênfase na práxis pietista e na ortodoxia doutrinal,
ambas em segundo plano. Na verdade, com o Pietismo, ocorre o
reforço da prática religiosa em detrimento da teoria,
ou seja, da teologia. Porém, na "eleição" dos
predestinados, o conhecimento teológico e a práxis
pietistas devem estar conjugados no decorrer da "escolha". Mas o
que mais diferencia o Pietismo do Calvinismo encontra-se no
ascetismo acentuado dos pietistas, no intuito de "gozar a vida"
junto a Deus na conduta diária. Daí originam-se
verdadeiras cenas de histerismo, dado o lado emocional dos
fiéis exacerbado pelo pietismo. Trata-se da religiosidade
prática empenhada no gozo da salvação,
distanciando-se da preocupação ascética;
é uma busca em tornar visível a Igreja dos escolhidos
na Terra. Em resumo, é tanto uma
intensificação quanto uma explicitação
da doutrina da prova. Porém, o maior trunfo do Pietismo
consiste no auxílio que presta quanto à
penetração da conduta metódica e
supervisionada nas seitas não-calvinistas. Outro dado
importante inscrito no Pietismo está relacionado ao tipo da
graça divina manifestada: ela é oferecida uma
única vez aos homens. Trata-se da doutrina do Terminismo.
Além disso, o Pietismo possui um desprezo total pela
especulação filosófica, pois, como já
fôra acima assinalado, a preferência da doutrina recai
no conhecimento empírico. Daí origina-se a Irmandade,
que se configura como uma grande empresa de negócios.
Contudo, caso comparado com o Calvinismo, a
intensificação racional da vida pelos pietistas foi
menos acentuada, sobretudo em relação à
preocupação constante com o estado de graça
que, a todo momento, deve ser colocado sob a análise da
doutrina da prova.
Metodismo
Como o próprio nome sugere, no Metodismo a
preocupação doutrinal concentra-se no caráter
sistemático e metódico da conduta do sentido na
obtenção da graça divina. Existe uma forte
ênfase no que se refere ao aspecto emocional, cuja absoluta
certeza do perdão tem "hora marcada" para acontecer. A
serena convicção do Calvinismo quanto à
autoconfiança na predestinação toma novo rumo
no Metodismo, haja vista a predestinação
empírica tornar-se evidente tão-somente por
intermédio do juízo de terceiros. No Metodismo,
as obras são os meios pelos quais podemos avaliar o estado
de graça de alguém, contanto que sejam realizadas
exclusivamente para a glória de Deus. Por fim, uma vez
despertada a emoção, esta deve ser direcionada rumo a
uma luta racional, objetivando, com isso, a
perfeição.
As Seitas Batistas
O princípio fundamental deste grupo religioso
repousa no campo ético, o qual difere, em princípio,
da doutrina calvinista. Como o próprio nome revela: seitas,
porque possuem a propriedade de redimir as pessoas. O dom da
salvação, nesse caso, ocorre mediante a
revelação individual, ou seja, "pela
ação do espírito Divino do indivíduo, e
apenas deste modo", consoante Weber. Nesse sentido, os batistas
estão incumbidos de dar continuidade às
revelações de Deus que, a princípio, foram
dirigidas aos apóstolos. Partindo do princípio de que
somente a luz interior de contínua revelação
habilita alguém a entender a Bíblia, os batistas
desvalorizam todos os sacramentos, pois Deus, na
concepção da doutrina batista, nos fala por
intermédio da consciência. Desse modo, ocorre o
fenômeno da rejeição da
predestinação, substituída pela idéia
de "Espera" ("meeting", dos quakers). Da atitude individual, que
resulta de todas estas convicções, os elementos que
constituem as Seitas Batistas qualificam-se pela
ponderação nos negócios, cercada de atitudes
tipicamente individuais.
Do embate necessário dos crentes batistas serem
obrigados a viverem no mundo, relacionando-se socialmente com os
não-crentes, surge a vocação estritamente de
caráter econômico. Tendo em vista a
oposição quanto a qualquer tipo de vida
aristocrática, os batistas são orientados a assumir
vocações apolíticas, atitude que resulta em
máximas tais quais: "filosofia de vida"; "a honestidade
é a melhor política", dentre outras.
Por fim, Calvino considerou o cristão livre de
todas as proibições inexistentes nas Escrituras, o
que torna lícitas as práticas do capitalismo, em
especial o empréstimo a juros - até então
condenado pela Igreja Romana. Portanto, caso comparado a Lutero,
Calvino foi mais liberal quanto à questão da usura.
Enquanto Lutero hostilizava as práticas capitalistas,
considerando-as "obra do demônio", ao contrário,
Calvino afirmava que "Deus dispôs todas as coisas de modo a
determinarem a sua própria vontade." Ou ainda: "Deus chama
cada um para uma vocação particular cujo objetivo
é a glorificação dele mesmo. O comerciante que
busca o lucro, pelas qualidades que o sucesso econômico
exige: o trabalho, a sobriedade, a ordem, responde também o
chamado de Deus, santificando de seu lado o mundo pelo
esforço e sua ação é santa."
.................................
O Calvinismo constitui-se na religião do
sistema capitalista. Muitos afirmam que a doutrina de Calvino sobre
a usura foi um dos fermentos que fizeram desenvolver no mundo
ocidental a mentalidade capitalista. Max Weber, na consagrada obra
"A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", em
muito contribuiu para a difusão dos referidos
argumentos.
BIBLIOGRAFIA
WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do
Capitalismo. 4 ed. São Paulo: Livraria Pioneira Editora,
1985.
PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2006.
* NOTA
Recomendação ao futuro leitor: consultar o livro in
"Notas do Autor", visto que, para a construção do
presente texto, Max Weber fez uso de uma vasta bibliografia, dando
origem a uma profusão de citações ou notas que
ocupa grande parte do livro, isto é, da página 133
até a página 225, merecendo, do meu ponto de vista,
um outro estudo.
SÍLVIO MEDEIROS Publicado
no Recanto das Letras em 19/10/2006
Código do texto: T268618
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Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site
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Todos os comentários desse artigo: A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO, de MAX WEBER
joaquim
Seg 17 Nov 2008 15:23
Antes de julgarmos o Cristianismo devemos partir do pressusposto de que o homem em sua total ignorância na epoca do Catolicismo vigente foi o principal responsavel por essa distorção da realidade na vida material e historica da Europa; independente de ser Catolicismo ou Protetantismo o homem deveria saber é se relacionar com Deus invés de criar religioes para servir seu proprio eu.
O Mau do Cristianismo é que se carregou muito tempo a ideologia paradigmática visão fechada de mundo. O Mundo Capitalista tem sua base talvez no protestantismo como afirma Weber. Talvez tenha sido as religiões protestantes as que deram uma ideologia diferente da Ideologia de Pobreza, no entanto, os Católicos Romanos alimentaram a ideia de pobreza no sentido de miserável, faminto e esse foi um câncer plantado na América latina. Vemos que nos países onde não predomina o Cristianismo Católico a qualidade de vida das pessoas é bem melhor. o País é mais desenvolvido economicamente, socialmente e politicamente. Não defendo o capitalismo excludente, dominador e explorador que temos no mundo e em especial na América Latina. Podemos perceber essas diferenças claramente em nosso país se comparado ao desenvolvimento dos países Islâmicos por exemplo. Prefiro um País onde possamos viver dignamente e não em um país onde uma pequena porcentagem da população vivem bem em prol da desgraça de milhares.
julio
Seg 01 Set 2008 06:30
Ola, preciso do resumo de weber, para uma apresentação em power point... Teria como me mandar esse resumo para elaborar o trabalho?
Mande para meu email : juliodoutor@hotmail.com
Seg 17 Nov 2008 15:23