Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/11/19 16:40 / 329 Artigos publicados
 

CIVILIZAÇÃO E FORMAÇÃO: A experiência da palavra e as fronteiras da alfabetização  (Projetos) escrito em sábado 11 agosto 2007 15:40

alfabetizacao, cultura, escrita, informacao, linguagem, novas tecnologias, oralidade, tecnologia

 

 

 

 

PROJETO DO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO LATO SENSU 2002


 

TEMA- CIVILIZAÇÃO E FORMAÇÃO: A EXPERIÊNCIA DA PALAVRA E AS FRONTEIRAS DA ALFABETIZAÇÃO


APRESENTAÇÃO

     O curso intentará promover uma reflexão sobre a carreira aventurosa da palavra — instauradora da linguagem — organizada a partir da inventividade humana, que responde, dependendo do registro histórico, pelo alcance das condições materiais de existência das civilizações mediante as quais os indivíduos formados culturalmente recepcionam a educação pela palavra oral, manuscrita, impressa ou digital.
     Procurando capitalizar os inventos que reconfiguram e enriquecem a elaboração da palavra escrita através dos tempos, o curso buscará uma compreensão mais precisa das mudanças provocadas pelos inventos produtores e impulsionadores de desdobramentos sucessivos na recriação da escrita como tecnologia da informação e da comunicação.
     Os processos de fixação da escrita se transformam no tempo. Segundo a premissa de Eric Havelock em “A Revolução da Escrita na Grécia e suas Conseqüências Culturais”, a invenção do alfabeto, comparada com todos os tentames anteriores à escrita, é caracterizada como uma ruptura, como uma mudança qualitativa na direção da facilitação e da socialização na cultura letrada. A questão, para Havelock, é que todo avanço tecnológico determina uma mudança no campo das mentalidades. Nesse sentido, com o advento da escrita alfabética, a forma passa a influenciar o conteúdo; tema atualíssimo quando se discute, por exemplo, as conseqüências da Internet ou da profusão de imagens e de palavras digitalizadas.
     Com a invenção da escrita, logo se descobriu que ela permitiria ampliar as possibilidades de registro, a estocagem de informações e a transmissão da cultura. Como Walter Ong observou tão bem em “Oralidade e Cultura Escrita”, a cultura escrita é imprescindível ao desenvolvimento não apenas da ciência, mas também da história, da filosofia, ao entendimento analítico da literatura e de qualquer arte e, na verdade, à explicação da própria linguagem (incluindo a fala). O movimento cultural renascentista europeu, por exemplo, baseado numa ampla difusão do conhecimento humanista, captura, na essência, as palavras de Ong. Não tardou, entretanto, a tomada de consciência do valor da escrita, conjugando saber e poder. Desde a invenção da escrita pelos egípcios, era possível produzir material de leitura, porém, quando Gutemberg inventou a imprensa, embora já existisse uma “indústria de informação” na Europa, a nova tecnologia de ponta tornou o século XVI não apenas a era da palavra escrita, como também o século dos livros, que passaram a ser produzidos a um baixo preço. Nesse caso, mais pessoas se alfabetizavam, aprendiam a ler. Por outro lado, a população européia apoderou-se da invenção para divulgar em panfletos ironias aos poderosos. Assim, a censura veio precocemente, coibindo a manifestação impressa dos interesses populares. Mas nem só de elogios vive a imprensa, pois, contrapondo os fatos no tempo histórico, o fenômeno da evolução da imprensa rumo à comunicação de massa, que já se observa em finais do século XIX, recebeu críticas veementes dos pensadores agrupados em torno da Escola de Frankfurt, os quais constataram na formação cultural do século XX — secundada pela dominação técnica progressiva — o colapso da perda da tradição efetivado pela pauperização dos bens culturais propagada pela cultura da semiformação socializada (“Teoria da Semicultura”, Theodor Adorno).
     Falar do desenvolvimento da cultura letrada é quase o equivalente a falar do papel da cultura na existência humana. O tratamento desse tema aproxima-se das fronteiras existentes entre as sociedades sustentadas pelo discurso oral – sociedade cuja herança cultural é resgatada pelos usos da memória - e pelo discurso escrito; ou ainda: aponta para os contrastes e relações entre oralidade e cultura escrita. Nesse sentido, o presente curso, enfocando a invenção da escrita como um dos elementos caracterizadores da emergência de uma civilização, recolocará em discussão o contexto em que se situa a cultura (ou: a “grande biblioteca” que nos precede), procurando privilegiar o espaço do leitor ao longo da história cultural, tendo por horizonte a sua emancipação por meio da vocação alfabetizadora da palavra escrita depositada nos livros. Desde uma cultura desprovida de conhecimentos da escrita ou impressão até o difícil processo de ler a palavra manuscrita mediante o desenrolar de rolos de papiro ou pergaminho, passando pelo fácil manuseio de um texto manuscrito graças ao sistema códex inventado pelos cristãos no século IV, coube à combinação papel-imprensa, promotora da cultura livresca, revolucionar a geração e a difusão da cultura e, por extensão, marcar, com progressivos aprimoramentos técnicos nos atos de leitura, a aventura de ser leitor na história da leitura do mundo ocidental (Roger Chartier), conferindo, desse modo, novas possibilidades de representação, interação e ação com base na palavra escrita livresca. Afinal, em que condições poderiam ter acontecido o movimento de idéias, conhecido como Enciclopedismo, ou a Revolução Francesa no século XVIII, senão num sistema livresco de referência nos quais autores, editores e tipógrafos balizaram, redefinindo, dessa maneira, a fronteira entre a invenção e a escrita e, por conseqüência, os novos modos de trabalhar.
     Nesse sentido, a história da humanidade e suas máquinas têm sido construídas juntas. Com efeito, parafraseando o papa da aldeia global Marsahll McLuhan, quando a tecnologia estende ou prolonga um de nossos sentidos, a cultura sofre uma transposição tão rápida quanto a rapidez for o processo de interiorização da nova tecnologia, o que resulta na ampliação da percepção humana. Assim, com tais avanços tecnológicos, pode-se plasmar o conhecimento humano sobre inovadores suportes técnicos e, a partir daí, liberá-lo para a sua reprodução indefinida em prol do processo civilizatório. De outra parte, a palavra impressa transformou profundamente o modo de transmissão dos textos, contribuindo para garantir a fidelidade e a qualidade na reprodução dos mesmos; contribuiu, também, para o desenvolvimento da lógica, da interpretação de texto e da racionalidade, visto que um certo tipo de pensamento racional ou crítico só pode se desenvolver ao se relacionar com uma ampla difusão da escrita.
     Hoje, o desenvolvimento da Internet e a digitalização da informação promovem uma revolução em matéria de comunicação. O quadro cultural contemporâneo, dentro da equação de representações transmitidas ora pelo papel ora pelo conjunto das palavras e pelas imagens digitalizadas (imagens de síntese), que gravita nas telas dos computadores, fazendo emergir inéditas geografias semânticas — como exemplo: o hipertexto —, se defronta com problemas de toda ordem no que se refere às mutações de identidades promovidas pela passagem do atual ao virtual ou aos processos de digitalização (Pierre Lévy). Contudo, os problemas com que se defronta a nova cartografia da cultura contemporânea não implicam na eliminação da cultura afetada pela oralidade, pelo uso da escrita, do papel ou da avalanche de informações virtualizadas procedente da cultura do ciberespaço, eliminação que, ademais, seria completamente inviável em ambos os casos; aliás, há estudiosos, na linha do pensamento de Roger Chartier, que apontam para a convivência pacífica entre o manuscrito, o impresso e o eletrônico na aurora do século XXI. Finalmente, se a invenção de novas velocidades é o primeiro grau de virtualização, ou melhor, um dos principais vetores da criação da realidade contemporânea, consoante Pierre Lévy, então os problemas da cultura contemporânea certamente têm de ser enfrentados através desses mesmos meios de comunicação.


OBJETIVO GERAL

     Fornecer subsídios teóricos a professores do ensino fundamental, médio e superior, além de profissionais da educação em geral, para uma abordagem da relação entre linguagem e educação. Formar pesquisadores.


OBJETIVOS ESPECÍFICOS

O curso visa:

. Refletir sobre o processo de alfabetização no Brasil — país que apresenta um dos maiores índices de analfabetismo no mundo atual —, procurando entender as razões da ausência de políticas governamentais que assegurem a emancipação cultural do cidadão por meio da alfabetização, da leitura e da escrita.

. Promover a interdisciplinaridade, procurando quebrar as fronteiras entre as disciplinas, tendo em vista a dificuldade de leitura da complexidade do mundo atual numa única forma de linguagem.

. Pensar o contemporâneo mediante estudos e reflexões sobre a linguagem, tanto da oralidade quanto dos paradigmas de formação oral ao letrado, acentuando as reflexões em torno da escrita como meio de transmissão cultural.

. Problematizar o fenômeno educacional pautado na revolução da palavra digitalizada, procurando estabelecer pontos por meio dos quais devemos organizar a formulação de políticas educacionais contra o analfabetismo digital.

. Ilustrar, de acordo com o tempo histórico a ser analisado e estudado, as relevantes invenções tecnológicas ligadas à questão da experiência humana com a palavra.

. Enfatizar que a invenção da escrita pode ser a culminância de inumeráveis atos de leitura e, a partir daí, inferir novas possibilidades de rememoração e representação do passado.

. Colocar em discussão o espaço do leitor na história cultural do ocidente, tomando-o como ponto de partida para se resgatar elementos marcantes da história da leitura.

. Explicitar a dependência entre a qualidade de ensino, que requer a formação de uma base sólida, e a pesquisa.

. Apresentar a escrita como possibilidade de rememorar aquilo que se disse, procurando, a partir daí, estimular a formação de bibliotecas convencionais e virtuais voltadas todos os níveis de ensino.

. Discutir o grau de velocidade da informatização da sociedade contemporânea e a alfabetização informática.

. Estimular o uso do computador como ferramenta enriquecedora do ato da leitura e da produção de textos.

     Isso significa que a abordagem de experiências formativas, interrelacionada com questões da ordem da oralidade, da cultura escrita e das novas tecnologias, alcançará diversas áreas do conhecimento pautadas nos seguintes temas definidores das linhas de pesquisas a serem propostas pelo curso:

. Formação, Civilização e Diversidade Cultural
. Formação e Oralidade
. Formação e Memória
. Formação e Escrita
. Formação, Cultura Letrada e Leitura.
. Formação, Empreendimentos Intelectuais e Registros Enciclopédicos.
. Formação e Linguagem
. Formação e Filosofia da Educação
. Formação e Processo de Alfabetização
. Formação, Instrução e Ensino.
. Formação e Invenção da Imprensa
. Formação e Políticas Educacionais
. Formação, Ideologias e Meios de Comunicação de Massa
. Formação na Sociedade da Informação
. Formação, Linguística e Filosofia da Linguagem.


JUSTIFICATIVA

     A modernidade tal como se apresenta tem sido marcada por uma imensa e variada mutação de formas de comunicação. É neste abrangente espaço que se fundem todas as instâncias do mundo social e também desponta a multiplicidade de experiências e de perspectivas do real a que os indivíduos acedem.
     De outra parte, se é impossível reconstruir toda uma odisséia humana a partir da invenção da escrita, na atual relação de condicionamentos circulares entre a palavra oral, a palavra impressa, a palavra digitalizada e a conduta humana, há crescentes motivos para se presumir que as exigências individuais e coletivas de vida forçarão mudanças de comportamento que, por sua vez, reorientará o mundo contemporâneo fundado tanto na tradição da escrita impressa no papel quanto na recente inovação da escrita digitalizada projetada nas telas dos computadores. Levando em conta o conjunto de experiências e transformações culturais que se assiste, e procurando tensionar um debate vivo de discussões intensas em torno de uma economia global cada vez mais tecnológica, na qual a Internet e outras tecnologias de comunicação disseminam avalanches de informações a todo planeta, é que se retoma, num espaço transdisciplinar de estudos e reflexões, a questão da formação educacional em tempos de comunicação midiática e da realidade fundada nos avanços da tecnologia. Nesse sentido, a análise reflexiva do curso enfatizará a própria realidade da nossa experiência cultural, dirigindo interrogações precisas ao mundo contemporâneo, como por exemplo: qual o intervalo de tempo que pode ser estabelecido como definidor do contemporâneo? Que novas formas de construção de saberes se anunciam com base na cibercultura? O que é ser leitor e escritor em tempos de novas tecnologias? A sociedade brasileira está preparada para receber e participar das novas tecnologias? A escola como grande mediadora dos conhecimentos poderá contribuir de que forma no desenvolvimento das tecnologias intelectuais? Qual a conveniência da escrita em tempos de novas tecnologias? Se o grande problema econômico do nosso tempo reside em transformar o conhecimento em conhecimento codificado, convertendo-o em mensagem que possa ser manipulada como informação, como definir, então, a operação que consiste em plasmar o conhecimento sobre um suporte técnico? Considerando que leitura e escrita são processos complementares, e se a leitura não é uma atitude passiva, pois não se reduz a uma simples decodificação de sinais gráficos, como então estimular uma atividade de reconstrução de sentidos por meio da leitura? Se escrever é um ato de partilha da palavra, afinal, para quem e para quê escrevemos na escola? Como promover a inclusão digital e equiparação de oportunidades para a população brasileira? Como discutir e negociar o grau de velocidade da informatização da sociedade, a reciclagem do trabalhador profissional da educação e a alfabetização em informática, tarefas chaves que se desenham no futuro do nosso país? Com base em tais perguntas, o presente curso pretende fornecer — como já mencionado em “objetivos específicos” — subsídios teóricos para o tratamento de tais questões.
     Por fim, o curso pretende auxiliar o aluno na confecção final de um projeto de pesquisa. Para tanto, os alunos receberão orientação, visando a elaboração de projeto de pesquisa, durante os meses de Julho, Outubro, Novembro e Dezembro de 2002, na disciplina “Orientação de Projeto de Pesquisa”, que será distribuída entre todos os docentes em conformidade com as áreas de pesquisas eleitas previamente pelos alunos-orientandos.
     

*Projeto elaborado pelo Prof. Dr. Sílvio Medeiros -
Coordenador do Curso

Campinas, é dezembro de 2001.

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Todos os comentários desse artigo:
CIVILIZAÇÃO E FORMAÇÃO: A experiência da palavra e as fronteiras da alfabetização

  • mailtoRosilene

    Seg 16 Jun 2008 00:42

    educação é tudo, a solução para o nosso país.

  • mailtoRosilene

    Seg 16 Jun 2008 00:39

    educação é tudo, a solução para o nosso país.