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NOSSOS ROMANOS: por uma Pedagogia articulada às Humanidades - I  (Projetos) escrito em terça 26 junho 2007 14:28

SÍSIFO

de Franz Von Stuck

PROJETO EDUCACIONAL*

    

TÍTULO

NOSSOS ROMANOS

    Dedicado à memória do professor, colega e amigo Antônio Lúcio Campos Almeida.    

“Canto os combates e o herói que, por primeiro, fugindo do destino, veio das plagas de Tróia para a Itália e para as praias de Lavínio. Longo tempo foi o joguete, sobre a terra e sobre o mar, do poder dos deuses superiores, por causa da ira da cruel Juno; durante muito tempo, também, sofreu os males da guerra, antes de fundar uma cidade e de transportar seus deuses para o Lácio: daí surgiu a raça latina e os pais albanos e as muralhas da soberba Roma (...) Tanto era pesada a tarefa de fundar a nação romana!”

(Virgílio. Eneida, Livro I, Proêmio)  “E nesse carro

Qual de Jano era o rosto que guiava.

Eu só ouvia a música de asas (...)

Mal conduzido, o carro todavia

Veloz passava em majestoso efeitoDe quando algum conquistador avançaNa Roma imperial e um mar de genteSai do teatro, do fórum, do senadoSe-                           - a livres inocentes (...) Estavam lá, de Atenas, da Judéia (...)Se a sede do saber não se destila,Segue-o tu noite adentro (...)... e eu pude lhe perguntar:‘Conta-me antes quem és.’ — Fica sabendoQue amei, temi, odiei, sofri, morri (...)Disto que outrora foi Rousseau—” (Shelley. O Triunfo da Vida)  

“... a antiga Roma era para Robespierre um passado carregado de tempo-agora;  passado que ele fazia saltar do contínuo da história. A Revolução Francesa compreendia-se como uma Roma retornada. A moda tem faro para o atual, onde quer que este se mova na espessura  do outrora. Ela é um salto do tigre no passado.”    

(Walter Benjamin. Teses sobre o Conceito de História. Tese XIV)   “E agora vem a última idade no canto de Cumas;a grande sucessão das épocas renasce de novo.Agora volta a Virgem, volta o reino de Saturno;uma nova raça desce do alto dos céusÓ casta Lucina, deusa dos partos, sorri para o infante que acaba de nascer...”     (Virgílio, Écogla IV/ 37 a.C)       A “Eneida”, epopéia da fundação da civilização romana, inscreve-se no percurso da “Ilíada” e da “Odisséia”, epopéias fundadoras da civilização grega, ambas do aedo Homero. Nas páginas da “Eneida”, do poeta romano Virgílio, o herói troiano Enéias, em cruel exílio na corte do reino de Cartago, narra aos ouvintes os episódios da destruição da cidade antiga de Tróia — que caiu por terra diante da supremacia dos gregos — e os propósitos da epopéia peregrina que empreendera até o Lácio, para fundar o que ainda não existia: o futuro, a cidade de Roma. E para o ponto final do doloroso percurso o herói transporta os Penates (deuses domésticos troianos)... Representação de uma dualidade. Representação simbólica: os deuses. Representação alegórica: a herança cultural, a tradição.      

     “... chorando abandono as margens da minha pátria, o porto e os campos onde foi Tróia, lanço-me, exilado, sobre o mar, com meus companheiros, meus filhos e os deuses Penates.”

     Há, ao longe, uma terra consagrada a Marte (...). Antiga rivalidade unia seus Penates aos de Tróia, enquanto durou nossa fortuna. Para lá me dirijo, e lanço, na curva da praia, os primeiros muros de uma cidade...” (Eneida , Livro II)

   [  — Que queres então?   Ficar aqui, contigo!   Tu queres ficar comigo?   Sempre.   A quem procuras?   A ti.   Não, meu pequeno guia, guiaste-me, mas não me procuraste.   Teu caminho é o meu.   De onde és? Tu vieste comigo?! Ah! Epiro, na Grécia... Mas falas a língua de Mântua.Novamente sorria o garoto:   É tua língua.   A língua de minha mãe.   Na tua boca, a língua tornou-se canto.    Seja isso como for, vieste ter comigo, porque sou poeta, não é?   És Virgílio.   Sei que sou... ]    (1)  As ruínas de Roma no auge do capitalismo      O moderno colhe o antigo nos versos do fundador da Modernidade: “Amo a recordação daqueles dias nus/ Em que Febo inundava as estátuas de luz”. Com o coração a nu, o jovem Charles Baudelaire aos desabafos: “Meu cérebro é um palimpsesto e o vosso também, leitor.”     Em “flânerie”, em meio às multidões das ruas de Paris, outras experiências dolorosas do poeta Baudelaire, tanto em prosa como em verso: “Tenho recordações como quem tem mil anos”. Antes do começo da guerra de Tróia, a cidade de Andrômaca foi saqueada por Aquiles. Andrômaca, esposa do herói troiano Heitor, na incursão dos gregos, perdeu o pai e sete irmãos. As correspondências baudelairianas colhem flores do mal, imagens da cidade de Paris, o cenário da tragédia moderna é a metrópole: o tempo do poeta não é somente o tempo do relógio, mas do consumo, da lógica do mercado, da moda, do sempre-igual, nada parece ter história, passado ou consistência. Tudo parece estar na eminência do desvanecimento, da perda, da ruptura e da morte; a visão alegórica do poeta antevê a sua queda inevitável e, em estado agônico, o poeta pressente o seu desaparecimento em meio ao esplendor das luzes dos “paraísos artificiais”.... Andrômaca em chamas, Paris em escombros: “Andrômaca, só penso em ti!/O curso de água,/Espelho pobre e triste onde já resplandeceu,/De teu rosto de viúva a majestosa mágoa...” Apagando os rastros do patrimônio cultural da humanidade, o movimento vertiginoso das ruas de Paris, em fins do século XIX, induz o lirismo baudelairiano a fazer uso da alegoria como mediadora entre a poesia de Virgílio e a vida do poeta preso às contingências da cidade moderna. Tomando o Livro III da “Eneida” como modelo, o lamento do poeta da Modernidade prospera em tom melancólico: “Ó Andrômaca, conservas porventura os laços conjugais de Heitor ou os de Pirro?”. Andrômaca, viúva de Heitor, profetizara ao herói Enéias a sede do futuro império da nova Tróia, às margens de um rio italiano. Numa alusão literária, nos versos de “O Cisne”, Baudelaire, mediante um gesto alegórico, inverte o sentido do poema virgiliano e, pelas ruas de Paris, aponta para espaços de desesperança, mergulhados na coisificação progressiva, e que ascendem rumo à destruição sistemática da tradição: “Andrômaca, só penso em ti!” Baudelaire era obrigado a reivindicar a dignidade do poeta numa sociedade que já não tinha nenhuma espécie de dignidade a conceder, observa Walter Benjamin, leitor e tradutor (para o idioma alemão) do lirismo baudelairiano.  [  — Tu és Virgílio.   É o que eu era outrora. Talvez o possa ser novamente.   Ainda não e todavia já – vinha dos lábios do garoto a corroboração – Vim ter contigo.   Vem cá! Senta-te a meu lado! – Assim fez com que o menino se aproximasse... ]       
Dante e o poeta romano
      Dante e Virgílio, duas mãos poéticas coladas, unidas: centro espiritual da história ocidental. “A Divina Comédia”: feliz síntese do paganismo e do cristianismo, lugar onde se enlaçam as mãos do antigo e do moderno, onde o moderno colhe o antigo. À sombra do poeta Virgílio, a quem pede socorro, o caminhante medieval Alighieri dá os primeiros passos através dos séculos rumo à Antigüidade. Nos primeiros versos de “A Divina Comédia”, lemos: “Então, és tu Virgílio, aquela fonte/que expande de eloqüência um largo rio?/— perguntei-lhe, baixando humilde a fronte/Dos outros poetas honra e desafio,/valham-me o longo esforço e o fundo amor/que ao teu poema votei anos a fio./(...)/Na verdade, és meu mestre e meu autor;/ao teu exemplo devo, deslumbrado,/o belo estilo que é meu só valor...”     Para legitimar a sua missão com os poetas, era preciso que Dante fosse acolhido em seu círculo. O encontro do florentino Dante com o romano Virgílio, com a herança cultural do mundo antigo, com o esplendor profano da Roma antiga celebra e funda a épica latina no mundo da poesia cristã.     A figura de Dante, consagrado “pai da pátria”, sublinhou o combate em favor de uma Itália unificada. Na Itália liberal, dos últimos quarenta anos do século XIX, o mito dantesco tomou a forma concreta de um culto nacional. Os florentinos consagraram, em maio de 1865, três dias de solenes comemorações ao nascimento de Dante. “A Divina Comédia” alterou o trajeto da história da cultura italiana, o campo de batalha dos conflitos ideológicos relativos aos contatos entre poesia e teologia (domínio reservado aos clérigos) e ao problema da língua (o vulgar contra o latim e, mais tarde, o debate sobre a natureza do vulgar). Dante está no coração dessas contradições. Dante nos dá a conhecer a poética dividida entre as Antigüidades clássica e cristã.      [ — Ó deuses! A própria “Eneida” terá de permanecer inconclusa, incontinuável, fragmentária, como toda essa vida! Queimar a “Eneida”!   Meu pai!   Não me chame de pai.    Tu és Roma.   Eis o que sonha qualquer menino. Pode ser que eu tenha um dia nutrido esse sonho... Mas, eu apenas utilizei os nomes, os nomes romanos. Queres o poema? Vou te passá-lo... Lê! ]   O redespertar da Antigüidade Humanismo — é termo derivado de “humanitas” que, no tempo de Cícero (106-43 a.C), designava a educação do homem enquanto considerado em sua condição propriamente humana, correspondendo ao sentido da palavra grega “Paidéia”: a educação por meio de disciplinas relativas a atividades exclusivas ao homem; “a educação do homem de acordo com a verdadeira forma humana, com o seu autêntico ser” (Werner Jaeger). A autonomia do ser humano é buscada pelos humanistas da Renascença por meio de uma volta à Antigüidade greco-romana — cujo “renascimento”, de maneira unilateral, conferiu o nome à época —, ou a seus modelos e a suas diretrizes pedagógicas. As chamadas “humanidades” — poética, retórica, história, ética e política — passam a constituir, sob a inspiração do mundo antigo greco-romano, a base de uma educação destinada a preparar o ser humano para o exercício da liberdade. Umanitá (humanidades ou litterae humaniores) — não “mais humano”, porém, letras mais humanas. Na Renascença, o estudo apropriado das “humanidades” concentrara-se no homem, em toda a força potencial e beleza de seu corpo, em todas as suas alegrias, dores, sensações e sentimentos, em toda a frágil majestade de sua razão sob o impulso das artes grega e romana, ambas revelando-se, por aquela ocasião, abundantemente e com perfeição.  Roma instaurata— Quem foram aqueles que atuaram como mediadores entre a sua época, a Renascença, e a venerada Antigüidade, alçando esta última à condição de elemento central da cultura da primeira? Trata-se de uma legião multiforme, exibindo ora uma ora outra face. Uma nova cultura contrapõe-se àquela da Idade Média, sempre eclesiástica e cultivada por eclesiásticos; uma nova cultura se apega a algo que se encontra para além da Idade Média. Seus representantes demonstram o que sabiam dos antigos, sentindo como pensavam e sentiam os antigos. “A tradição à qual se dedicam converte-se, em milhares de pontos, em pura reprodução” (Jacob Burckhardt), porém autônoma, criativa e aparentemente italiana em sua essência.  Verrochio (olho verdadeiro) — ourives, escultor, fabricante de sinos, pintor, geômetra e músico, possuía uma oficina na Florença do mundo renascentista. A próspera oficina de Verrochio reunia em si todas as artes ou, às vezes, em um só homem. Numa mesma “bottega” o artista renascentista arquitetava uma igreja ou palácio, outro esculpia ou fundia no bronze uma estátua, outro fazia um esboço de um quadro ou pintava-o, outro lapidava pedras preciosas. Nesta época, havia homens como Verrochio, Leonardo da Vinci e Miguel Angelo, com capacidades para fazer quaisquer destas tarefas.    Flores do Lácio — O período renascentista constitui-se numa das mais fascinantes aventuras intelectuais da humanidade. Consagração da razão abstrata, que passa a reger os sistemas de controle de tempo, do espaço, do trabalho e do domínio da natureza, como salienta Nicolau Sevcenko (1985). Por muitos, o Renascimento é considerado a revolução cultural que fundou nosso mundo moderno: viagens marítimas, desbravar novos mundos, choque de valores, experiência soberana da criação, formação das línguas modernas... Rotterdam — Num dos pedaços de terras mais baixos dos países baixos, Rotterdam, nascia Erasmo em 1466. Durante os setenta anos que durou a vida de Erasmo, o surgimento do continente americano e o estabelecimento de uma ligação estável com o Oriente constituem os aspectos decisivos de um mundo em expansão. Ao lado do espírito de aventura da época, existia o da revolta, o da Reforma e o da Contra-Reforma. Eram tempos de mudanças, e neles o humanismo se firmava. As ocasiões especiais de transformações vêm cercadas de radicalismos, porém, é próprio do humanismo o ser anti-radical, na medida em que o humor e a ironia integram, também, o que chamamos o modo de ser humanista. De outra parte, humor e ironia são atitudes não admitidas pelo radicalismo, seja este de Lutero, de Loyola, dos inquisidores ou de qualquer grupo extremista contemporâneo. Nesse sentido, o fanático será sempre um sério, pois, no momento em que se ri, conquista a tolerância. Em meio a uma Europa convulsionada, reformadora de todas as estruturas, a tolerância consistiu numa atitude cultivada pelo espírito humanista como suporte para a aceitação das novidades que emergiram naquele trecho da história da humanidade. E foi sob a tutela de uma razão tolerante que nasceu a obra-prima do humanismo renascentista: “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Rotterdam. Na referida obra, o filósofo renascentista Erasmo imaginara o mundo como o lugar da loucura universal. Assim, desse prisma, só a loucura mandava, só ela exibia importância. Reconhecendo sua própria importância, a loucura revelava tanta consciência de sua força que tecia o seu próprio elogio. Do brilho da inteligência e do estilo erasmiano, a loucura convertida em personagem profere o seguinte: “sem mim [a Loucura], o mundo não pode existir um instante sequer, pois tudo o que está no mundo não é feito por loucos e para loucos?” Vê-se, portanto, que a argumentação da loucura é irônica, humorística, mas também séria, já que seu humor aumenta com a seriedade. A conclusão das palavras de Erasmo é a de que nenhuma convivência, nenhuma sociedade, nada, enfim, pode ser agradável e duradouro sem loucura, e que ninguém toleraria ninguém caso não se untasse as coisas e os atos “com um pouco de mel da loucura” (“Elogio da Loucura”). Desse modo, concentrar-se no indivíduo, com suas paixões, com suas emoções, com suas loucuras, bem como em seus hábitos e raciocínios, era proporcionar à filosofia, daquela ocasião, um concretismo que não teria sido possível numa época em que todas as coisas eram vistas em termos de sua relação com Deus ou sob a ótica de uma razão teológica. A razão estaria, portanto, no equilíbrio da razão e das múltiplas paixões humanas, ao passo que a loucura consistiria no reinado exclusivo de uma ou outra.  “As humanidades são ao mesmo tempo ordem e transgressão. São habitadas por um ideal normativo implícito, por um sonho de harmonia, de equilíbrio e perfeição; mas como essa ordem está permanentemente em contradição com todas as ordens existentes, elas são permanentemente transgressoras. A busca da ordem passa pela transgressão, o que significa que elas só podem realizar-se plenamente na democracia, a mais frágil das construções humanas e a mais valiosa. Como ensinamento, mas também como jogo, como trabalho do pensamento e trabalho do imaginário, como anmnesis, consciência crítica e antecipação utópica, elas são indispensáveis numa sociedade livre, e precisam dela para viver.” (Sérgio Paulo Rouanet. As Razões do Iluminismo)     Razões Iluministas — “grosso modo”, ao correr das páginas de “As Razões do Iluminismo”, no curioso ensaio intitulado “Erasmo, pensador iluminista”, o autor, Sérgio Paulo Rouanet (no sentido em que leu Erasmo de Rotterdam) coloca em discussão o choque entre uma razão sábia e uma razão louca que habitam a própria razão. Noutras palavras, os estudos de Rouanet reivindicam um novo racionalismo composto de uma razão capaz de crítica e de auto-crítica (razão sábia); razão crítica, na medida em que a própria razão reconhece os limites existentes dentro do espaço irracional em que se move; capaz de auto-crítica, na medida em que reconhece a sua vulnerabilidade ao irracional, tornando-se, portanto, apta a libertar-se do irracional. Ao contrário, a razão louca desconhece o irracional, pois é arrogante, prepotente. Nesse sentido, a razão que rejeita o que nela é irracional acaba sucumbindo ao irracional, condenando-se à perpetuação da falsa consciência.     Capaz de conhecimento e de autonomia, a razão sábia é sempre crítica. Como órgão do conhecimento, ela sabe colocar fora de circuito as interferências afetivas que o poder mobiliza para se tornar invisível, conseguindo, com isso, devassá-lo em suas estruturas reais. Ela está preparada, também, para desmascarar todas as formas de desrazão que se apresentam com fachada de razão. Com efeito, apoiado nas leituras erasmianas, Rouanet propõe que não abandonemos a razão, que nos libera do medo, da superstição, do jugo da tradição e da autoridade, mas que aprendamos a conhecê-la em sua face sombria. O Novo Iluminismo preconizado por Rouanet implica na existência de uma razão crítica que sabe criticar-se a si mesma no lugar de recolher-se em sua face obscura, que é a própria essência do irracionalismo. Enquanto herdeira do Iluminismo emancipatório, a tarefa da razão sábia é afastar as paixões, assegurando a objetividade do saber, e liberar as paixões, sempre que essa liberação contribua para aumentar a autonomia da humanidade. Ainda nas trilhas em que Rouanet leu o “Elogio da Loucura”, a razão sábia também preconiza uma “loucura”, pois ela é favorável a todas as paixões que tornem a vida mais humana. Portanto, a razão que Rouanet elogia nas páginas de “As Razões do Iluminismo” é, ao mesmo tempo, uma razão científica, prática e artística. Recusando a razão fragmentada, Rouanet está preocupado numa razão processo, ou ainda: numa razão crítica, porque voltada ao trabalho de desmontar racionalizações inspiradas pelo racionalismo cientificista do qual se origina o positivismo, a tecnocracia e o conservadorismo.    [ — Aniquilar a linguagem, aniquilar os nomes, para que haja novamente a graça – murmuravam os lábios de Virgílio. — Assim o queria a mãe... A graça livre do destino, sem linguagem...   — Os deuses te deram de presente os nomes, e tu os devolves a eles... Lê o poema, lê os nomes, lê...]       Tudo a seu redor atraía o espírito e os olhares,  grave de passado o lugar pejado de ações antigas.  E assim escutava Enéias os mitos que em silêncio se lhe descortinavam...  — Faunos e ninfas – contava este – habitavam outrora as terras...  Os tempos, porém, não se mantiveram calmos; em seu curso  trouxeram  degeneração; desenfrearam baixos prazeres, cobiça, avareza e guerras...  Carmenta, para que até aos nossos dias os romanos se lembrassem da  ninfa-mãe...  Argileto,  Capitólio,  Janículo,  Satúrnia,  Foro romano...  Subia então a noite, e com suas asas escuras,  envolvia a terra.

  Subia a noite... a noite sobe... (A voz que lia tornava-se cada vez mais   

  baixinha)  a noite sobe... ]  No céu enciclopédico      Termina, no século XVIII, o cativeiro da razão observado ao longo dos tempos históricos. Mais do que fixar um conteúdo de verdades definitivas, o papel da Filosofia Ilustrada foi o de denunciar as arbitrariedades das ilusões mistificadoras, produzidas tanto pela tradição filosófica quanto pela tradição religiosa. Esse movimento de idéias, que se cristalizou no século XVIII, tendo como precursores os chamados filósofos enciclopedistas (Voltaire, Montesquieu, D’Alembert, Diderot, Rousseau e outros), valendo-se da oportunidade de uma Europa governada por monarcas esclarecidos, fez uma viagem continental repleta de aventuras, semeando ao longo do caminho a “Ítaca moderna”: os progressos da ciência, do direito, da tolerância, enfim, da inovação, lançando nas trevas as heranças do fanatismo e da superstição. É a “viagem” da razão... para não sucumbir ao canto das sereias, que vem do passado, buscou provar sua autonomia, não olhando para trás.  Ruptura com a tradição: Século das Luzes! do “progresso” intelectual! A razão, enfim, tem por si mesma condições de auto-esclarecimento, de alcançar uma nova inteligibilidade. Isto significa, então, que a Razão é o centro de expansão do referido século. A isto, soma-se uma forte propensão teórica de fazer com que as idéias ganhem concretude na existência dos homens. “A conciliação do ‘positivo’ e do ‘racional’ não é uma exigência puramente teórica; essa síntese é um fim acessível, um ideal realizável” – ressalta Cassirer (1992), cotejando os escritos iluministas. Isso não só pressupõe a condição de todo pensamento científico, bem como a tendência universalizadora do discurso racional, sobretudo no que se refere ao surgimento de um novo conceito de homem e de nação. Dessa forma, o orgulho intelectual instaura o “tribunal da razão” e solicita a participação da sociedade nesse espaço público regulado pela palavra livremente comunicada regrada pelo discurso racional.     Por outro lado, a idéia de uma “Enciclopédia” sempre foi procurar transmitir, com precisão, o saber universal. Entretanto, a “Encyclopédie” iluminista de Diderot e D’Alembert foi criada para transformar a maneira comum de pensar. Em verdade, seus criadores buscaram provocar uma mutação no “modo de pensar”, ou seja, propuseram-se a sensibilizar os leitores não só no sentido de compartilharem as idéias novas, mas também assumirem, com autonomia, a missão de dirigir os seus próprios destinos. Em 1750, Diderot lança o seu “Prospectus”, procurando evidenciar o projeto ambicioso da obra em “traçar um quadro geral dos esforços da mente humana, em todos os gêneros, em todos os tempos” (Diderot e D’Alembert, 1989).     Assim, o projeto da memória artificial de A a Z, a “Enciclopédia” de Diderot, como dicionário “raciocinado” das ciências, das artes e dos ofícios, tornou-se o “best seller” do século XVIII (Darnton, 1996). Em meio à babel de informações e multiplicidade de colaboradores, a “Enciclopédia” – além de definir uma época – tornou-se verbete, procurando estender os seus domínios à posteridade: “Que ela [a posteridade] diga, ao abrir nosso dicionário: Tal era então o estado das ciências e das belas-artes; que acrescente suas descobertas àquelas que teremos registrado e que a história do espírito humano e de suas produções vá, ao longo dos tempos, até os séculos mais longínquos. Que a ‘Enciclopédia’ se torne um santuário em que os conhecimentos dos homens estejam ao abrigo dos tempos e das revoluções. Não estaremos por demais lisonjeados por termos colocado seus alicerces! Que vantagem teria sido para os nossos antepassados e para nós se os trabalhos dos povos antigos, dos Egípcios, dos Caldeus, dos Gregos, dos Romanos etc., tivessem sido transmitidos numa obra Enciclopédica, que tivesse exposto ao mesmo tempo os verdadeiros princípios de suas línguas! Façamos, pois, para os séculos futuros, o que lamentamos que os séculos passados não tenham feito para o nosso.” (Diderot e D’Alembert. Enciclopédia)       Na conclusão do volumoso “The business of Enlightment” (1979), seu autor, Robert Darnton – historiador americano – procura ressaltar que somente um século filosófico foi capaz de tentar elaborar uma “Enciclopédia”; foi a mais famosa de todas as experiências na popularização do conhecimento, sublinha Darnton (1996).      Enciclopédia: “tem raízes no grego ‘enkyklopaideia’, termo provavelmente posto em circulação pelos Humanistas, na Época Moderna” (José A. Reis de Andrade. Introdução: Enciclopédia, [s.d]); ela foi a obra máxima, o “best seller” da “Aufklãrung”, da “Illustration” ou do Iluminismo. Na verdade, a “Enciclopédia” converteu-se na corporificação do Iluminismo. Passando de especulação abstrata para um vasto público leitor, a “Enciclopédia”, enquanto “best seller”, demonstra a capacidade de atração que o ideário iluminista exerceu entre as várias camadas sociais francesas, inclusive entre as massas que fizeram a Revolução de 1789.     Dessa forma, independente da localização geográfica, a voz da liberdade — ou do conjunto de autores enciclopedistas que a cultura francesa da época produzira — atravessou continentes.         

     Todavia, o reverso dessas expectativas foi que a história, rumo à modernidade, tomou rotas inesperadas numa odisséia infernal. Rompimento com o fio da tradição, “o tesouro da tradição foi perdido” (René Char. Apud Hannah Arendt, in “A Condição Humana”), o fio de Ariadne que nos liga a uma tradição foi cortado: Auschwitz, destruição dos ecossistemas, ameaças de destruição nuclear: Hiroshima. Desagregação da sociedade, apoteose do consumo de massa, escatologias revolucionárias, irrupção dos regimes políticos totalitários, desestabilização acelerada das personalidades: culto ao individualismo; empurrando a humanidade para situações imprevistas, desconhecidas, revelando o homem, no seu “vir-a-ser”, como sujeito capaz de tomar múltiplas figurações, monstruosas figurações, que nos remetem a repensar o próprio conceito de homem ou o próprio conceito de experiência humana.

     Há vários sentidos da palavra experiência. Por meio de uma “escavação” etimológica de termos que se referem à experiência, e cotejando alguns termos extraídos do espólio benjaminiano, as línguas grega e alemã, convertidas no idioma português, bem evidenciam isso:

 Páthos: acontecimento, experiência, sofrimento, emoção, atributo. 1. a história da palavra ‘pathos’ está obscurecida por uma multiplicidade de conotações. A sua acepção mais geral significa ‘algo que acontece’, quer em referência ao próprio evento (assim Heródoto V, 4; Sófocles, OT.,732) quer à pessoa afetada (assim Platão, ‘Fédon’ 96a: ‘as minhas experiências’), o último tipo de uso consideravelmente alargado em sentidos éticos, como, por exemplo, no ‘sofrimento instrutivo’ dos trágicos (ver Ésquilo, Aga. 177) (2).Erfahrung: troca de conhecimentos adquiridos pela prática; troca de experiências feitas; troca de ensinamentos como a experiência ensina.Erlebnis: experiência, acontecimento, ocorrência, aventura, emoção ou mera vivência.          A esse respeito, parece-nos esclarecedor que Walter Benjamin inaugure o texto “Experiência e Pobreza” (1933) a indagar, de forma perturbadora, o seguinte: 

“Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?”

          Em seguida, operando um autêntico redimensionamento dentro dos cânones da racionalidade filosófica moderna e nos estudos culturais, Benjamin responde com uma lúcida advertência: “... está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história (...) Na época, já se podia notar como os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mas pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos. (...) Uma nova forma de miséria surgiu com esse monstruoso desenvolvimento da técnica, sobrepondo-se ao homem (...) Sim, é preferível confessar que essa pobreza de experiência não é mais privada, mas de toda humanidade. Surge assim uma nova barbárie. Barbárie? Sim. Respondemos afirmativamente para introduzir um conceito novo e positivo de barbárie. Pois o que resulta para o bárbaro dessa pobreza de experiência? Ela o impele a partir para a frente, a começar de novo, a contentar-se com pouco, a construir pouco (...) ‘Ficamos pobres. Abandonamos uma depois da outra todas as peças do patrimônio cultural’ (...) A tenacidade é hoje privilégio de um pequeno grupo de poderosos, que sabe Deus não são mais humanos que os outros; na maioria bárbaros, mas não no bom sentido.” (Os grifos ‘’ são nossos). [ _ Nomes? Versos? Fora aquilo um poema, fora a “Eneida”? Enquanto sumia, resplandecia uma vez mais no nome — Enéias? como se nele estivesse contido o pressentimento do grande e bondoso mandado, perdido para sempre, mas nada disso podia encontrar-se: todo vivido, todo o criado, todo o vasto curso da vida passada... tudo isso tornava-se vago, ficava apagado... e quanto mais sua memória andava em busca da “Eneida”, tanto mais depressa, sem deixar vestígios, esta se dissolvia, canto por canto, na sonora teia do fulgor...   Estou sozinho – disse Virgílio.   Ainda não e todavia já – chegou a resposta do seu próprio peito, numa voz de sonho, tão branda que dificilmente podia ser a do garoto... ]   
A ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO (3)
  

“A lei de emancipação de 28 de setembro de 1871 determina entre outras coisas aos senhores de escravos que mandem ensinar a ler e a escrever a todas essas crianças. Em todo o Império, porém, não existem talvez nem dez casas onde essa imposição seja atendida. Nas fazendas sua execução é quase impossível. No interior, não há os mestres-escolas rurais como na nossa terra, e assim o fazendeiro ver-se-ia obrigado a selar vinte a cinqüenta animais para levar os pretinhos à vila mais próxima, geralmente muito distante; ou então teriam de manter um professor especial para essa meninada?... Essas questões apresentam diversas soluções, mas o fato é que ninguém aqui faz coisa alguma, de maneira que as crianças nascem livres, mas crescem sem instrução e no futuro estarão no mesmo nível dos selvagens sem gozar nem mesmo das vantagens dos escravos, que aprendem este ou aquele trabalho material. Se já são livres, por que fazer despesas com eles, desperdiçar dinheiro com quem não dará lucro? (...) Não estarão percebendo que, agindo assim, estão preparando a pior geração que se possa imaginar para conviver mais tarde com seus próprios filhos? (Ina von Binzer. Os Meus Romanos... (4))

        Certamente, em toda a nossa história, nunca houve período mais rico de participação da cidadania em relação aos debates sobre os problemas nacionais quanto ao pré-1964. Em época alguma a emergência popular foi mais abrangente quanto ao referido período. Naquela ocasião, em consonância com Roberto Schwarz, “o país estava irreconhecivelmente inteligente”. Na educação ampliava-se a campanha contra o analfabetismo, que atingia 50% da população brasileira. Convocado pelo governo da ocasião, o professor Pau

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