Home Data de criação : 07/03/17 Última atualização : 08/11/19 16:40 / 329 Artigos publicados
 

HYÁKINTHOS  (Poética de Sílvio Medeiros) escrito em quarta 19 novembro 2008 16:40

 

AMOR A PORTUGAL -  Dulce Pontes

HYÁKINTHOS


                                                       Ao ilustre poeta lusitano,
                                                                    João M. Jacinto.
                                http://joaojacintopoemas.blogspot.com


Mirem o poeta Iwan
à beira do Tejo,
seus olhos melancólicos se alevantam,
e as Tágides esculpidas em lápides
de mármore branco
atiram-lhe a última flor.
Mirem as mãos do poeta,
nelas Hyákinthos traz liliáceas flores de jacinto,
e ele tece um guirlanda
para coroar os azuis do oceano.
A flauta de Pã não mais se ouve,
e o versejador Lusitano converte em dor
o canto à gente assinalada
da última Terra-flor.
E do peito dolorido do ilustre Lusitano
brota o belo canto...
E as Nereidas, há tanto tempo adormecidas, despertam, se enternecem,
encurvam as gigantescas ondas, e assim
abrem caminho na atlântica costa à costa...
E surge um imenso mirante tão longe tão perto,
e muito à distância avista-se o rútilo horizonte,
e Iwan contempla o sol do Novo Mundo,
do Portugal Tropical...
Ele mira, então, a Terra à vista,
os Portos de madeira vermelho-violáceos.
E Hyákhintos ouve a voz do cantor:
Iwan, mira-me,
eu sou homem-flor,
ainda que... a Musa antiga já não canta,
eu sou a última flor que se alevanta,
eu sou a árvore-brasil,
de vermelho encarnado,
a árvore de Cristo,
eu, brasileiro,
em cujos vasos de lenhosos galhos
circulam o sangue vinho tinto
de Baco e do seu fiel Luso...
Aqui dormem os seus deuses
em matas encantadas.
Iwan, eu sou o Outro,
terna partilha de você,
a nova gente,
a Nova Lusitânia que se alevanta,
a última flor,
a língua materna...

... e do Reino que se desfez,
o Fado do meu vovô português:
Vovô, vovô, que foto é esta?
Ah, ela é antiga, é de 1906,
veja ali, ainda jovem, ao fundo... sou eu,
este é o porão de um navio, de imigrantes Lusitanos.
Vovô, e quanto a estas pessoas, todas elas sentadinhas,
em silêncio, e lêem vovô! afinal lêem o quê?!
Elas lêem a Saudade,
todos lêem o Amor a Portugal.



Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Campinas, é primavera de 2008.

 

SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 19/11/2008
Código do texto: T1292049

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INTERVALES  (Poética de Sílvio Medeiros) escrito em quinta 13 novembro 2008 23:18

INTERVALES


                                                   
                                                    Ao amante das ‘rimas da vida e da morte’,
                                                                   Ronaldo José Ferreira Lima.



... entre o céu e a terra,
o mistério.
entre Deus e o diabo,
o homem.
entre a vida e a morte,
a travessia.
entre a loucura e a sanidade,
o abismo.
entre o ódio e o amor,
a vertigem.
entre a dor e a cura,
o aprendizado.
entre a Musa e o canto,
o poeta.
entre o dente e a língua,
a palavra.
entre a imaginação e a mão,
a escrita.
entre a opressão e a redenção,
o verso...

... entre o homem e o poeta
não há entre-mentes:
ao homem menor, a cova profunda.
ao poeta maior, a tumba florida.





Prof. Dr. Sílvio Medeiros
Campinas, é primavera de 2008.
SÍLVIO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 13/11/2008
Código do texto: T1282023

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ABALROAR  (Dos Leitores) escrito em sábado 08 novembro 2008 19:41

JUDITH

Gustav Klimt

ABALROAR


Entremeando o sentimento
numa profusão lógica de cabimento.
Oscilar e compungir
enegrece o sofrimento.
Sonhar é tão áspero,
viver é tão compassível.
Ao léu eu vejo o amor
extenso e acessível a todos,
menos para mim.
Já não me importo,
ouço os berros da solidão,
agora, para mim, mais compreensível.
Refrear a castidade
trar-me-á felicidade,
abdicar ao amor
trar-me-á claridade,
ir ao encontro desse sentimento
deixa-me na berlinda.
Que patético...
Fico vulnerável outra vez,
um medo cartesiano sobressai-se,
ao léu eu vejo o meu coração
sozinho e ressoante.
Entregar-me é o remédio mais lenitivo,
amar seria extremamente passivo,
ir ao seu encontro trar-me-á felicidade,
ir ao seu encontro trar-me-á claridade.


ELAINE BORGHI
Avaré/Jaú/Campinas, é primavera de 2008.


ELAINE BORGHI
Publicado no Recanto das Letras em 08/11/2008
Código do texto: T1272946

 

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ESCALADA  (Poesias de Fernando Medeiros) escrito em sábado 08 novembro 2008 14:18

Favela e Músicos

CANDIDO PORTINARI

ESCALADA


Deveras por conseguinte
saber dos honorários obrigatórios.
A nuvem da liberdade
nem passou por aqui.
Estive no horário
do acontecido.
Deveras por conseguinte
parar no motivo insosso do dia anil.
Deveras por conseguinte
parar no medo,
no próximo segredo.
Deveras por conseguinte
não saber de mais nada,
só o frio da escalada...
Deveras por conseguinte
rever espaços dourados,
o frio dos tornados.
Deveras por conseguinte
estar na noite enternecida
do nada...


FERNANDO MEDEIROS
Campinas, é primavera de 2008.
FERNANDO MEDEIROS
Publicado no Recanto das Letras em 08/11/2008
Código do texto: T1272504

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A SAUDADE  (Re-Citações) escrito em terça 04 novembro 2008 17:04

MARIA CALLAS - O Mio Babbino Caro

A SAUDADE

 

Sedento bebo teu perfume e seguro teu rosto

com ambas as mãos, como quem segura

na alma um milagre.

Queima-nos a proximidade, olhos nos olhos, como estamos.

 

E contudo sussuras: “Tenho tanta saudade de ti!”

Falas tão misteriosa e desejosa, como se eu estivesse

exilado em outro mundo.

 

Mulher,

que mares levas no peito, e quem és?

Canta ainda uma vez mais tua saudade,

por que te ouça

e os instantes me pareçam botões prenhes

de que florescessem de fato... eternidades.

 

(1919)

 

 

(BLAGA, Lucian. A grande travessia. Tradução Caetano Waldrigues Galindo. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2005)

 

 ...

 

 

Vídeo e texto recomendados

pelo

Prof. Dr. Sílvio Medeiros.

 

 

Campinas, é primavera de 2008.

 

 

 

 

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